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Full text of "Historia do fado"

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HISTORIA  DO  FADO 


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Pinto  de  Carvalho  (Tinop) 


•  i 


HISTORIA  DO  FADO 


(COM   i3   ILLUSTRACÕES) 


LISBOA 
Empresa  da  Historia  de  Portugal 

Sêdtdmd*  tdifra 
LIVRARIA  MODERNA     I       TYPOGRAPH1A 
*•  AngntU  çs  I  4&t  &•  JvfMS,  47 
1905 


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PRÉSfttVATIO» 
COPYA0OEO 


•    •      •  •    •    •• 

r  •  •  •  •    •  •  • 


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As  cauções  nacíonaes.— As  canções  revolucionarias  francesas. 
—  As  canções  regionaes  hesnanholas.  —  Ab  canções  e  as 
dansas  portuguezas  no  século  xvm —  As  modinhas.  —  A 
guitarra  e  o  piano. —  Uma  rainha  guitarrista.  —  Correcção 
histórico  litteraria  —  Um  guitarrista  dos  salões  e  um  pia- 
nista das  ruas.  —Pedro  Anselmo  Marchai.— Os  mestres  de 
dansa  lisboetas. —  Feitiços  da  guitarra. 


È  pelas  canções  populares  que  um  paiz  traduz  mais 
lidimamente  o  seu  caracter  nacional  e  os  seus  costu- 
mes. A  musica,  a  necessidade  do  cantar,  de  dizer  alto 
a  sua  alegria  aos  homens  e  ás  coisas,  é  uma  questão 
de  latitude,  uma  questão  de  sol.  Quanto  mais  para  o 
sul,  mais  se  ouve  cantar. 

As  canções  da  França— onde  a  canção  é  a  philoso- 
phia  dos  sentimentos  correntes  —  exprimem  a  alegria 
jovial  da  raça  gauleza ;  as  dos  higtanders  são  enne- 
voadas  de  tristura ;  as  lyrolezas  parecem  compostas 
com  as  notas  desferidas  pelos  pinheiros  alvares  alpinos, 
os  sopros  flebeis  do  Adige  e  os  guinchos  sibilantes  das 
tibias  pastoris;  as  allemãssão  espessas  como  a  neblina 
condensada  em  pui verisação  húmida  sobre  a  veia  argi- 
losa doRheno ;  as  italianas  evocam  a  limpidez  dormente 

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2  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

dos  lagos  em  que  os  barquinhos  se  movem  como  in- 
sectos sobre#um  «spelho,  as  collinas  ondulantes  como 
'•hAdnces Wujéoáes.ros  céus  azul turqueza,  as  jóias  de 
rendas  gue  saVas*egrejas  itálicas  e  os  palácios  da  Ve- 

%:nfz^Àtu\:déi  sâb^X^scintillantes  lagunas. 

'•*  -#*As*  meldpêa*s'dá  'brumosa  e  pluviosa  Scandinavia 
gemem  e  sonham  mais  do  que  cantam;  as  árias  ingle 
zas  -a  Rule  Bntannia,  por  exemplo— são  rebarbativas 
como  um  monitor  couraçado  e  pesadas  como  uma  car- 
raspana de  cerveja  ;  as  americanas  -  como  a  Yankee- 
doo  ih  e  a  Huil- Colômbia— retratam  a  alma  inquieta  de 
um  povo  sem  pátria,  de  uma  nacionalidade  que  é,  sim- 
plesmente, uma  razão  sorial :  os  estribilhos  das  Antilhas 
traduzem  uniformemente  a  alegria  de  viver,  lembram  as 
hobaneias  da  Cármen— %  radiosa  flor  do  Guadalquivir 
a  gentil  princeza  das  cadencias—,  cujo  rythmo  languido 
evoca,  por  seu  turno,  o  das  bellas  indolentes  d'aquelle 
archipelago  adormecido  no  esplendor  do  clima. 

A  canção  revolucionaria  encontrou  sempre  na  França 
o  seu  terreno  propicio,  e  foi,  muitas  vezes,  a,  única 
opposição  aos  governos  d'esse  paiz,  do  qual  se  di?se 
que  era  uma  monarchia  absoluta  temperada  por  can- 
ções. Desde  as  canções  fronieuses  contra  Mazarin,  que 
o  levavam  a  dizer:  «Cmtem,  que  o  pagarão!»  até  Ange 
Pitou,  o  satirista  do  Directório,  o  brilhante  Tyrteu 
do  realismo,  tlesde  Aubert  e  Cadot,  os  cantantes  de- 
molidores do  Primeiro  Império,  até  Pierre  Dupont,  o 
viril  cançonelista  de  I8i8,  desde  a  revoltosa  canço- 
neteira  Thereza  até  ao  auctor  da  canção  de  Boulanger, 
que  esplendida  lista  de  canções  revolucionarias!. . . 

As  canções  e  as  dansas  da  Hespanha  —a  mitinheira 
gallega,  o  zorlzico  vasconço,  a  jota  aragoneza,  a  pele- 
nera  andaluza,  a  seguidilha  manchega,  asardana  catalã 
e  a  charrada  salamanquina  — exemplificam,  á  justa,  a 
theoria  de  Mantegazza,  que,  discreteando  a  respeito  da 
mimica  como  expressão  dos  affectos  e  movimentos  phy- 


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Historia  do  Fado  3 

sicos,  diz  que  a  alegria  é  centrífuga,  emquanto  que  a 
dor  é  centrípeta.  E  a  jota  é,  de  todas  as  dansas  caste- 
lhanas, a  mais  alegre,  por  isso  mesmo  que  é  a  mais  cen- 
trífuga. Não  tem  essas  eurytbmiaschoreographicas,  esses 
requebros  ondulantes  como  os  de  quem  se  convulsiona 
n'uma  crise  bysterica,  esses  saracotes  de  garupa  que 
evocam  movimentos  de  sanrios,  esses  meneios  serpen- 
tinos que,  se  fosse  necessário  represental-os  mediante 
curvas,  teriam  a  sua  figuração  geométrica  n'uma  hélice. 
A  jota,  sem  tanta  graciosidade,  é  mais  expansiva, 
imprime  ao  corpo  um  movimento  de  translação,  que 
pôde  fignrar-se  n'uma  curva  mais  simples  e  mais  franca 
—o  semi-circulo.  E'  parte  integrante  de  todas  as  sere- 
nadas dos  Àlmavivas  ás  Rosinas  de  vasquinha  e  leque 
dpudête,  é  final  obrigatório  de  toda  a  zarzuela,  quando 
é  o  musico  e  não  o  scenographo  que  se  encarrega  da 
apolheose.  E,  depois,  que  bello  não  é  ver  uma  hespanholi- 
ta  bailando— com  elegantes  pernas  que  traçam  poemas 
fugitivos  e  um  breba  atrevido  ao  canto  da  bocca  de 
cereja  — ,  emquanto  as  castanholas  nacionaes  vibram 
nas  extreurdades  dos  seus  braços  en  corbeille  como 
borboletas  negras  ao  redor  de  dois  ramos  de  camélias, 
e  o  tocador—  cujos  lábios  escarlates  são  avivados  pela 
ponta  do  cigarro  em  braza  —  zangarrca  na  viola,  can- 
tando, ao  mesmo  passo,  n'essa  voz  fremente  e  velada 
que  convém  á  expressão  musical  da  sua  arte,  muito 
ponlilbosa  em  gymnasticas  de  glolte,  em  vocalisações 
sobre  as  gammas  chromalicas  e  diatónicas : 

Las  cuerdas  de  mi  vihuela 
Yo  te  diré  cuantas  son  : 
Prima,  segunda,  tercera, 
Cuarta,  quinta  y  el  borden. 

Em  Portugal;  as  condições  climatéricas,  as  influencias 
mesologicas,  levam-nos  á  expansão  sensualiza,  volup- 
tuaria.  D'ahi  vem  o  caracter,  por  assim  dizer,  aphro- 


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4  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

disiaco  das  nossas  canções  e  das  nossas  dansas  popu- 
lares. Mas,  na  dansa  de  sala  imitávamos  o  estrangei- 
ro. Ainda  depois  do  terramoto  de  1755,  as  casquilhas 
espevitadas,  que  trajavam  as  francezias  de  Madame 
Chnrles,  e  os  casquilhos  alfenicados,  que  seandainavam 
á  franceza  e  us  )vam  espadins  do  Estevão  do  Valverde— 
conforme  impunha  o  código  das  elegâncias— dansavam 
o  Passapié  das  pastorinhas  e  dos  Céladons  à  laWatteau 
do  Trianon.  Mas,  ao  findar  o  século  xvm,  já  o  Passapié 
era  ridicularisado,  como  se  prova  pela  seguinte  quin- 
tilha de  Tolentino : 


Não  são  os  gostos  eternos, 
Teve  o  Passapié  amigos, 
Ainda  não  ha  quinze  invernos; 
Foi  a  gloria  dos  antigos, % 
Hoje  é  mofa  dos  modernos. 


O  mesmo  aconteceu  com  o  minuete.  Se  a  dansa  é 
a  harmonia  das  linhas  em  movimento  como  a  estatuária 
é  a  harmonia  das  linhas  em  repouso,  dansa  alguma 
pode  reproduzir  melhor  essa  harmonia  do  que  o  mi- 
nuete. Quantas  coisas  longiquas  n'essa  velha  musica  deli- 
quescente:  ruídos  abafados  de  sedas,  cabelleiras  que 
se  sacodem  sobre  sophàs  de  ramagens,  talões  ver- 
melhos batendo  no  pavimento  do  Trianon,  hálitos  vo- 
lúveis de  leques,  contumelias  rythmadas  como  sonetos, 
diureses  de  versos  em  ponto  de  rebuçado,  glorias  in- 
flammadas  dos  fogos  artificiaes  de  Versailles,  liberti- 
nagens singulares  de  frigoríficos  Lauzuns,  espumas 
desmaiadas  ao  calor  de  lábios  febris,  perfumes  esvaídos 
ao  sopro  dos  suspiros,  cinzas  arrefecidas  sob  um  sor- 
riso, folhas  mortas  sob  um  beijo ! . . . 

As  dansas  populares  do  século  xvm  resentiam-se 
do  seu  caracter  extremamente  sensual  e  desenvolto, 
desfalleciam  em  languores  extenuativos,  debatiam-se 


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Hiètoria  do  Fado  5 

em  morbidozas  hystericas,  derramavam  no  sangue  o 
mais  devorador  dos  philtros.  Taes  eram :  a  fofa,  o 
oitavad»,  o  fandango,  as  cfoganças  ás  três  pancadas, 
o  cumbé,  o  batuque,  a  arrepia,  a  comporia  e  o  lundum, 
que  se  dansavam  acompanhadas  da  guitarra  ou  do  ban- 
dolim. 

As  chpganças  foram  prohibidas,  conforme  se  depre- 
hende  dos  seguintes  versos,  correntes  no  tempo  de 
el-rei  D.  José: 

Já  se  não  cantam  cheganças, 
Que  não  quer  o  nosso  rei, 
Porque  lhe  diz  Frei  Gaspar 
Que  é  coisa  contra  a  lei. 

Estribilho  : 

Meninas  bonitas, 
Moças  com  fitas, 
Casquilhos  e  abbades, 
Chorae,  chorae,  chorae, 
Acabou-se,  já  lá  vae!  * 

O  lundum  ou  lundu  era  uma  dansa  obscena  dos 
pretos  congolezes,  importada  no  Brasil  e  em  Portugal, 
dansa  em  que  os  dansarinos  se  boleavam  n'um  reque- 
brar de  quadris  de  uma  nervosidade  sensual,  em  movi- 
mentos cynicos  de  rins,  em  brejeiros  arabescos  cor- 
póreos. 

Ultimamente,  o  lundum  reviveu  na  dansa  do  ven- 
tre das  cascadeuses  parisienses,  que  —  similhantes  a 
'  ídolos  radiantes  sob  a  chamma  dos  cc liares  de  strass 
e  o  oiro  falso  dos  cabellos  oxygenados  —  a  executam 
11'um  phrei^esi  de  mímica,  com  contorsões  abdominaes, 
com  certa  gymnastica  lasciva. 

0  lundum  rescendia  um  aroma  de  voluptuosidade 

1  Bibliotheca  Nacional  de  Lisboa.  Manuscriptos  Pombalinos , 
codic*  n.° 131,  fl  95 


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6  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

mais  vivaz  que  a  nepènthes  fabulosa.  0  lundum  cho- 
rado atliugia  o  cumulo  da  indecencia,  o  sublime  do 
canalhismo,  o  que  jamais  impediu  que  o  bailassem  nas 
salas  de  primor.  Tolentiao,  satirista  impenitente,  mo- 
tejava assim  uma  bailante  de  lundum  : 


'      Se  Jtf  areia  se  bamboleia, 
N'este  innocente  exercício, 
Se  os  quadris  saracoteia. 
Quem  sabe  se  traz  cilicio 
E  por  virtude  os  meneia. 

Entre  os  lunduns  citaremos  os  seguintes,  que  exis- 
tem manuscriptos  na  Bibliotheca  Nacional  de  Lisboa  : 
o  do  dia  de  entrudo,  o  do  Monroy  e  o  lundun  para 
piano. 

•  As  modinhas  campavam  nas  salas  lisboetas  no  cre- 
púsculo do  século  xvm  e  ao  pintar  da  aurora  do  sé- 
culo xix.  Umas  —  as  que  tanto  seduziram  o  inglez 
Beckford  —eram  de  procedência  brasileira,  e,  na  sua 
execução,  brilharam  os  mulatos  Joaquim  Manuel  e  Do- 
mingos Caldas  Barbosa,  o  Lereno,  antagonista  de  Bo- 
cage; outras  eram  comesinhas  parodias  das  árias  de 
Passiello,  Mozart,  Beethoven  e  Cimaroso,  affectada- 
mente  pejadas  de  vocalisaçoes  difficeis. 

Algumas  modinhas  produziram  furor.  Tolentino  cila 
a  de  saudades  morrerei;  na  Bibliotheca  Nacional  de  Lis- 
boa existem  algumas  modinhas  mânuscriptas  como  são 
A  lua  saudade  (de  1759)  e  outras.  E  a  Gazeta  annun- 
ciava  algumas  modinhasmmío  apreciáveis:  a  do  Zabumba 
Ga  Se  te  commovem  meus  ais,  de  António  LeaJ  Moreira,  a 
Almira,  de  José  Palomino,  As  azeitonas  novas,  com  va- 
riações, de  Pedro  Anselmo  Marchai,  a  Italiana,  de  An- 
tónio Puzzi,  a  Perdoar  com  condições  e  a  Doce  União  de 
amor,  de  Marcos  António,  a  Duvidiu  a  minha  Ulina, 
de  José  de  Mesquita,  a  Quanto  Enalia  me  è  perjura^ 


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Historia  do  Fado  7 

de  José  Maurício,  mestre  de  capella  em  Coimbra,  a 
Adorada  Maroia,  de  António  Galassi,  as  modinhas  com 
acompanhamento  de  guitarra  de  António  da  Silva  Leite, 
de  António  José  do  Rego,  de  António  José  da  Silva, 
de  José  Caetano  Cabral  de  Mendonça,  de  Francisco  Xa- 
vier Baptista  e  de  João  de  Sousa  Carvalho,  mestre 
de  Suas  Mageslades  e  Altezas  '.  O  Jornal  das  Modi- 
nhas 2  sahia  quinzenalmente  com  modas  novas,  e,  a 
troco  de  seis  pintos  annuaes,  alimentava  o  gosto  dos 
assignantes  pela  musica  displicente. 

As  modinhas  falavam  bem  á  alma  myope  e  á  sen- 
sibilidade finamente  dolorosa  das  mulheres,  que,  ao 
esculal-as,  se  sentiam  arrebatadas  para  regiões  tão  lon- 
gínquas quanto  elhereas. . .  O  assumpto  predominante 
na?  modinhas  era  o  amor,  porque,  n'essa  decrepidez  do 
século  xvim,  amava-se  com  todas  as  faculdades  de  emo- 
ção e  dos  sentidos.  E  a  verdade  é  que  parece  haver  na 
vida  dos  séculos,  da  mesma  maneira  que  na  dos  ho- 
mens, edades  climatéricas,  em  que  a  necessidade  de 
amar  rebenta  com  maior  violência.  E  os  amures  da  se- 
nectude  são,  para  uns  como  para  outros,  os  mais  ty- 
rannicos. 

Antes  da  inlroducção  do  piano  no  nosso  paiz,  a  gui- 
tarra era  o  instrumento  querido  das  salas;  e  mesmo 
depois  continuou  a  desenrolar  os  seus  rythmos  lango- 
rosos, par  a  par  do  piano,  que  traquinava  os  scherzos, 
chorava  os  andantes  e  fazia  brotar  flores  da  sentimen- 
talidade das  romanzas.  As  damas  estudavam  iVa  com 
tao.o  amor  como  aprendiam  a  tocar  o  cravo,  instru- 
mento que  foi  a  gloria  do  grande  Sebastião  Bach,  que, 


1  Gazeta  de  Lisboa  de  1792  a  17^4. 

2  Jornal  de  modinhas  com  acompanhamento  de  cravo  poios  me- 
lhores authores,  dedicado  a  Sua  Alteza  Real  Princeza  do  fírazil 
por  P.  A.  Marchai  Milcent.  Lieboa. 


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8  Emprezd  dá  Historia  de  Portugal 

arrancando  notas  ao  teclado,  fazia  esquecer  a  ceia  em 
casa  do  duque  de  Weimar. 

Assim  como  a  guitarra  foi  o  instrumento  favorito, 
tanto  das  senhoras  do  creme  et  gratin  como  dos  me- 
nestréis vagabundos,  no  reinado  de  Luiz  XV,  assim 
também  se  ouviam  gemer  as  cordas  metallicas  das  gui- 
tarras desde  os  salões  doirados  do  Marquez  de  Marial- 
va até  ás  alfurjas  sombrias  do  Bairro-Alto  e  de  Alfa- 
ma no  ultimo  quartel  do  século  xvm.  Neste  século,  pu- 
blicaram-se  MethoJos  ou  Artes  para  tocar  guitarra  e 
viola,  como  foram:  a  Arte  de  viola,  de  Manuel  da  Pai- 
xão Ribeiro,  impressa  em  Coimbra  em  1789,  a  Arte 
de  tocar  viola  e  outros  instrumentos  e  o  Compendio  de 
musica  thporica  e  pratica  do  padre  Domiugos  de  S. 
José  *.  Em  1786,  veiuá  luz  um  outro  methodo  intitulado: 
Estudo  de  guitarra  em  que  se  expõe  o  meio  fácil  para 
aprender  a  tocar  este  instrumento,  por  António  da  Sil- 
va Leite,  mestre  de  capella,  natural  da  cidade  do  Por- 
to. No  prologo  diz  que  se  propõe  escrever  sobre  o  sua- 
ve e  harmonioso  iustrumento  da  guitarra,  tão  applau- 
dido  n'este  tempo  por  todos  os  que  sabiam  deleitar  se 
com  a  doçura  da  harmonia. 

Accrescenta  que  as  melhores  guitarras  inglezas  eram 
as  de  Mr.  Simpson,  mas  que  as  do  portuense  Luiz 
Cardoso  Soares  Sevilhano  quasi  rivalisavam  com  aquel- 
las.  Inseria  depois  algumas  dansas  e  peças  musicaes  da 
época :  os  minuetes  de  Boccherini,  da  inviada,  da  sau- 
dade, o  inglez,  o  segundo  minuete  inglez,  o  da  corte 
e  do  príncipe,  a  marcha  ingleza  e  a  do  primeiro  regi- 
mento do  Porto,  a  fanfarra,  o  allegro,  a  gavota,  a  re- 
tirada militar,  a  contradansa  dos  saltões,  a  pastorella, 
o  andantino  de  Malbruch,  os  cotilhões  e  as  tocatas  de 
Francisco  Gerardo. 


1  Joaquim  de  Vasconcellos.  Os  músicos  portuguezes,  vol.  II, 
pag.  148.  .>•..-. 


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Historia  do  Fado  9 

No  armazém  de  musica  de  Marchai  e  Milcent,  no 
largo  de  Jesus,  vendiam  se  sonatas  para  bandolim;  na 
loja  do  Reycend,  ao  Calbariz,  vendiam  se  sonatas  para 
guitarra  com  acompanhamento  de  trompas  e  violino, 
offerecidas  a  D.  Carlota  Joaquina,  princeza  do  Brasil; 
e  na  loja  de  João  Baptista  Waltmann,  a  S.  Paulo,  ven- 
diam-se  collecções  de  musica  nova  para  guitarra.1. 

Houve  mais  dois  instrumentos  de  corda  que  tiveram 
acceitação  nas  salas:  a  harpa  e  a  viola  franceza. 

A  harpa  conquistou  um  alto  logar  nos  salões  da  Res- 
tauração, mas  pouquíssimo  figurou  nos  portuguezes. 
Não  assim  a  viola,  que  servia  para  acompanhar  a  gui- 
tarra, e  que  se  dedilhou  muito  nas  nossas  salas  até  1830. 

A  guitarra  tem  um  alto  papel  na  vida  do  homem  do 
sul  e  no  romance, 

Caverel  refere  que  os  portuguezes  deixaram  dez  mil 
guitarras  em  Alcácer  Kibir,  o  que,  naturalmente,  é  bla- 
gue; e  tanto  no  romance  brasileiro  de  José  de  Alen- 
car como  na  opera  Guarany  d'élle  extrahida,  figura 
Cecília,  filha  de  D.  António  de  Mariz,  cantando  uma 
xacara,  acompanhada  por  aqnelle  instrumento. 

M»ria  Luiza,  mulher  de  Cai  los  IV  de  Hespanha,  to- 
cava guitarra  na  perfeição,  e  tivera  por  mestre  a  Frei 
Miguel  Garcia,  appellidado  o  Padre  Basílio,  organista 
de  um  convento  cisterciense  madrileno.  Coata  Camillo 
Castello-Branco,  que  esta  rainha  adultera,  ainda  sim- 
ples princeza  de  Parma,  se  apaixonara  de  Manuel 
Godoy  por  causa  da  maestria  com  que  elle  tocava  gui- 
tarra e  cantava.  Carlos  I!f  mandou-o  sahir  de  Madrid, 
logo  que  dea  tento  dos  effeitos  cupidineos  dos  bordões 
e  da  prima  na  pessoa  da  nora3.  Mas,  com  a  morte  do  so- 


1  Gazeta  de  Lisboa  de  1792,  1793  e  18C0. 

2  Camillo  Castello-Branco.  Feitiços  da  guitarra  m  Bum.  3 
das  Noites  de  insorrmia. 


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10  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

berano,  o  guitarrista  voltou  á  capital  hespanhola,  onde 
foi  reintegrado  no  sen  posto  de  alcovista  amável  da 
rainha,  agraciado  com  o  Ululo  de  Príncipe  da  Paz  e 
alcatruzado  a  primeiro  ministro,  cargo  de  que  só  ha- 
via de  ser  deposto  pela  revolução  de  Aranjuez  em 
1808.  preparada  pelo  príncipe  das  Astúrias,  que  assu- 
miu a  regência  sob  o  nome  de  Fernando  VII. 

Antes  da  deposição  de  Godoy ',  ferviam  os  pasquins, 
esses  predecessores  do  jornalismo  politico,  e  a  genta- 
lha de  Madrid,  enthnsiasta  do  príncipe  das  Astúrias, 
bailava  então  a  cachuchi  e  cantava  : 

Viva  Fernandito,  carita  de  rosa, 
Y  muera  su  madre  por  escandalosa. 


1  Em  Portugal,  como  em  Hespanha,  os  pasquins  faziam  as 
vezes  do  jornalismo  politico  moderno 

Citaremos  dois  d'aquella  época,  que  nunca  foram  publica- 
dos. Um  foi  achado  na  Porta  Férrea,  em  Coimbra,  na  manhã  de 
30  de  julho  de  171» 7,  de  onde  foi  arrancado  pelo  meirinho  e  en- 
tregue ao  Prelado.  Dizia  assim : 

Gritos  da  mocidade  offendida  e  revoltosa 

Rasgue-se  em  dois  estúpido  Gonzaga, 
Velhaco,  vil  Seabra,  aos  pés  calquemos ; 
De  vós,  monstros,  tremam,  trema  o  Trono, 
Que,  hum  dia,  Trono,  tudo  arrazaremos. 

O  outro  foi  encontrado  em  18  de  Outubro  de  1804  na  esqui  - 
na  das  casas  do  Rubim,  ao  Chiado,  de  onde  foi  tirado  pelo  com- 
mandante  da  5.*    ompanhia  da  Policia. 

Era  concebido  n'estes  termos : 

Se  querem  vêr  o  povo  contente  e  com  dinheiro 
Ponham  Mello  no  Senado  e  no  Terreiro ; 
O  incansável  Rodrigo  torne  outra  vez  ao  Erário, 
E  da  Marinha  saia  o  partido  contrario. 

(Torre  do  Tombo.  Policia.  Collecçâo  vinda  do  Ministério  do 
Reino.  Maços  454  e  455). 


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Historia  do  Fado  11 

No  entretanto,  tinha  voga  a  Marcha  do  Príncipe  da 
Paz,  obrigada  a  piano- for le  e  a  guitarra,  original  de 
Joaquim  Assiain  '. 

Cumpre-nos,  todavia,  estampar  aqui  uma  nótula  á 
margem  da  asseveração  camilliana. 

Um  erudito  escriptor  hespanhol,  D.  Ildefonso  Berme- 
jo,  affirma  ser  lenda  tudo  o  que  os  estrangeiros  dizem 
a  respeito  de  Godoy  ter  conseguido,  mercê  da  guitar- 
ra, apaixonar  a  rainha  Maria  Luiza,  quando  elle  nunca 
cantou  nem  tocou  aquelle  instrumento,  porque  pão  ti- 
nha ouvido,  e  quando  deveu  a  sua  preponderância  po- 
litica apenas  aos  seus  dotes  naturaes  e  ao  seu  desem- 
baraço 2. 

E  o  prefaciador  da  mesma  obra,  Júlio  Burell,  corro- 
bora o  asserto  do  auctor,  dizendo :— «Sobre  o  Prínci- 
pe da  Paz  pesou,  e  Deus  sabe  por  quanto  tempo  pesará 
ainda,  a  lenda  que  forjaram  os  ódios  e  desprezos  po- 
pulares, lenda  que  nada  destros. . .  D.  Manuel  Godoy, 
homem  distincto,  fidalgo  extremenho,  bastante  illustra- 


0  seguinte  pasquim,  de  época  anterior  á  citada,  visa  os  go 
vernantes  do  tempo : 

Pinto  é  gato, 
Marquez  mentecapto, 
Seabra  estudante, 
Martinho  é  cbibante  ; 
Sobre  este  andor 
Vae  o  Príncipe  N.  Senhor, 
Frei  Mathias  vae  atraz, 
Leva  o  sceptro  do  Rapaz, 
D.  Filippe  espera  o  repique. 

(Bibl.  Nac.  de  Lisboa.  Manuscriptos.  N.°  7:008). 

1  Bibl.  Nac.  de  Lisboa.  Bellas- Artes.  Manuscriptos.  F.  12-3 
*  D.   Ildefonso  António  Bermejo.  Historia  anecdotica  y  st' 

treta  de  la  corte  de  Carlos  IV.  Tomo  I,  p*g.  45. 


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12  Ernpreza  da  Historia  âo  Portugal 

do  para  a  sua  época,  continuará  sendo  el  choriçera  que 
enamora  com  as  castanholas  e  a  guitarra,  por  uma 
aberração  repugnante,  o  coração  de  uma  rainha  lasci- 
va. Nâol  O  seu  tempo  não  foi  superior  a  Godoy» '. 

Em  1791,  veiu  a  Lisboa  um  violista  celebre,  Angelo 
Talassi,  que  deu  sessões  n'uma  casa  da  travessa  das 
Chagas  2.  E,  no  primeiro  quartel  do  século  xix,  houve 
um  guitarrista  mui  querido  da  sociedade  lisboeta  — 
Francisco  Vidal  Negreiros,  o  Vidigal.  Este  instrumen- 
tista era  bem  acolhido  pela  melhor  roda,  a  cujas  salas 
ia  tocar  os  lunduns  ou  as  suas  modinhas  —  entre  ellas 
a  Cruel  Saudade  -na  guitarra  ou  na  viola.  A  Cruel 
Saudade,  assim  como  o  minuete  afawiangado  e  a  po- 
pular cantiga  Periquito  bailar  não  sei,  eram  bimbalha- 
das  nos  sinos  das  egrejas. 

Um  viajante  inglez  informa  que,  houve  tempo,  em 
que  o  Vidigal  poderia  ter  arranjado  um  pecúlio  consi- 
derável, tão  grande  era  o  seu  talento  e  tão  procurado 
era  pela  sociedade  de  fina  raça;  mas  que  a  sua  insen- 
satez e  a  sua  má  educação  lhe  .fecharam  as  portas  das 
casas  que  frequentava,  e  o  obrigaram  a  viver,  por  fim, 
do  producto  de  alguns  concertos  que  dava  3. 

Nos  começos  do  século  xix,  quando  a  guitarra  esta- 
va em  plena  voga,  surgiu  lhe  um  rival  na  musica  sa- 
lonniére  —  o  piano. 

Em  Paris,  nos  primeiros  alvores  doeste  século,  havia 


1  Prefacio  da  obra  citada,  pag.  17. 

2  Gaze' a  de  Lisboa  de  19  de  Fevereiro  de  1791. 

Angelo  Talassi  improvisava  versos  sobre  árias  ou  modinhas 
e  cantava  ao  desafio  com  a  celebre  improvisadora  Corilla  na  Ar- 
cádia Romana. 

5  JSketches  of  Portvguese  life.  Manners,  costume  and  chame- 
ter.  By  A.  P.   D.  G.  London.,1826. 


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Historia  do  Fado  13 

músicos  ambulantes  que  tocavam  espineta  e  piano  nas 
ruas. 

Conta  se  que,  em  certa  noite  de  verão,  quando  os 
músicos  errantes  vagueavam  pelos  Campos-Elysios, 
um  virtuose  do  antigo  regimen  e  venerável  resto  da 
musica  colorista  de  Rameau  viera  collocar  a  desafina- 
da espineta  á  beira  do  passeio,  executando  a  Camar- 
go e  a  Chaconne  de  Berton.  N'esle  momento  porém, 
passavam  três  artistas  celebres:  Mr.  e  Madame  Rllé- 
viou  e  Mr.  Pradher.  A  nobre  figura  do  cravista  vete- 
rano inspirou-lbes  interesse,  porque  elle  confessou 
ser  um  velho  organista  empobrecido  pela  Revolução. 
N'um  prompto,  Elléviou  cantou  uma  ária  popularíssi- 
ma de  Méhul,  emquanto  Pradher  o  acompanhava  á  es- 
pineta e  Madame  Elléviou  pedia  esmola  para  o  musi- 
co invalido.  0  êxito  monetário  foi  de  tal  ordem,  que 
produziu  grande  ruido  em  Paris,  e  fez  com  que,  oito 
dias  depois,  subisse  á  scena  no  theatro  da  rua  de  Char- 
tre  um  vaudeville  intitulado  O  concerto  nos  Campos- 
Elysios,  que  alcançou  tanto  suecesso  como  a  improvi- 
sação dos  virtuoses. 

Um  pianista  que  conquistou  notoriedade  em  Lisboa, 
nos  fins  do  século  xvm,  foi  o  francez  Pedro  Ansel- 
mo Marchai.  De  sociedade  com  Francisco  Domingos 
Milcent,  estabeleceu  uma  fabrica  de  impressão  de  mu- 
sica na  travessa  das  Parreiras,  ao  largo  de  Jesus,  de 
onde  se  mudou  para'  o  Chiado  em  1793.  Teve  as  hon- 
ras de  musico  da  Real  Camará  e  de  professor  de  Suas 
Altezas.  O  seu  armazém  vendia  todas  as  qualidades 
de  musica  para  canto  e  dansa.  Todavia,  o  pianista  Mar- 
chai não  escapou  ás  picuinhas  dos  satiricos.  Em  Ju- 
nho de  1801,  um  anonymofez-lhe  estes  versos: 

Tocando  no  seu  piano,  _     » 

Como  toca  o  Marchai, 


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14  Enspreza  da  Historia  de  Portugal 

Se  toctr  sempre  piano, 
Que  será  de  Portugal! 

Depois  do  adagio 
Segue-se  a  fuga, 
A  testa  enruga  • 
O  mestre  Leal. 

Ás  «ar  dinhas  portuguezas 
Nunca  me  soaram  mal; 
SSe  agora  desafinam 
É  na  musica  do  Marchai. 

Depois  do  adagio,  etc. 

Este  Marchai  enxertado 
Tem  na  cabeça  o  seu  mal; 
Venha  um  mestre  d'offício, 
Que  seja  o  mestre  Leal. 

Depois  do  adagio,  etc. 1 

0  pianista  Marchai,  apezar  de  muito  acarinhado,  re- 
tirou-se  em  179!)  para  Hespanha,  de  onde  ainda  es- 
creveu uma  carta  ao  marquez  de  Pombal,  datada  de 
Aranjuez,  em  que  lhe  recommendava  a  joven  rabequis- 
ta  Gerbini,  que  também  cantava  « e  possuía  a  arte  de 
se  acompanhar  ao  cravo  como  um  mestre  consumma- 
do«.» 


1  Bibl.  Nac  de  Lisboa.  Manusoriptos  da  sençâo  XIII,  N.# 
516.  Neste  manuscripto  ha  uma  satyra  dirigida,  segundo  suppo- 
mos,  ao  duque  de  Lafões,  o  general  octogenário  que  comman- 
dou  o  exercito  portuguez  na  campanha  de  1801: 

Cezar  veiu,  viu  e  venceu. 
Duque  veiu,  não  viu  e  fugiu. 

*  Bibl.  Nac.  de  Litboa.  Manuscriptos  Pombalinos.  Códices 
N.°  614,  fls.ft425. 


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Historia  do  Fado  15 

Um  instrumento  de  cordas,  que,  concomitantemente 
com  a  guitarra,  logrou  certa  voga  nos  meiados  do  sé- 
culo xix,  foi  o  cavaquinho.  Dois  mestres  de  dansa 
muito  conhecidos,  o  Meyrelles  e  o.  preto  Herculano 
Mercês,  faziam  se  sempre  acompanhar  do  cavaquinho, 
quando  iam  dar  lições  a  casa  dos  discípulos.  Outros 
professores  de. dança  de  1848  a  1852,  o  francez  Mon- 
net,  o  hespanhol  Caneda  e  o  Azimont  -  que  foi  profes- 
sor da  rainha  D.  Maria  II—  faziam  se  acompanhar  por 
um  rabequista  chamado  Braz;  mas  o  italiano  Henrique 
Zenoglio  — mestre  de  dansa  do  Gollegio  Militar  -r-  to- 
cava elle  mesmo  a  rabeca  de  acompanhamento. 

O  Justino  Soares  começou  a  leccionar  acompanhan- 
do-se  de  flauta.  Todos  elles  obedeciam  a  uma  velha 
praxe,  porque  já  em  1808  existia  um  piofessor  em 
Madrid,  chamado  o  Palas  de  orillo,  que  ia  leccionar 
dansa  a  casa  (los  discípulos,  levando  a  sua  rabeca  de- 
baixo da  capa. 

E  como  estamos  com  as  mãos  na  massa,  referire- 
mos, succintamente,  quaes  foram  os  principaes  profes- 
sores de  dansa  lisbonenses,  anteriores  aos  que  vimos 
de  citar.  O  siciliano  Francisco  Fago-  irmão  de  Vicen- 
te Fago,  rival  de  Junot  nos  amores  com  a  bailarina 
Júlia  Petit,  de  S.  Carlos,  e  mestre  de  dansa  dos 
reis  da  Sicília  —  ensinava  a  bailar  na  rua  Nova  dos 
Marlyres,  n.°  40,  2.°  andar,  em  1810;  eMadama  Orti 
na  rua  do  Thesouro- Velho,  n.°  27,  em  1812.  José  Ze- 
noglio dava  lições  em  1816  « segundo  os  princípios 
modernos  adoptados  na  escola  franceza»,  e  em  1817 
abria  aula,  em  que  ensinava  contradansas  francezas 
« e  mais  dansas  das  assembleias  »  na  rua  Nova  do  Al- 
mada. Em  1816  havia  mais  Mrs.  Falcóz  e  Girard,  pri- 
meiros bailarinos  de  S.  Carlos,  que  estabeleceram  es- 
cola de  dansa  na  rua  da  Emenda;  e,  em  1817,  Mr. 
Falcóz,  então  primeiro  bailarino  do  lheatro  do  Salitre, 


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16  Ewpreza  da  Historia  de  Portugal 

dava  lições  em  sua  casa  no  Arco  do  Bandeira.  Mr. 
Lacombe  também  leccionava  dansa  e  baile  hespanhol 
«para  se  dansar  em  casas  particulares». 

Em  1823  apparece  a  hespanhola  Antónia  Rodrigues 
ensinando  ás  senhoras  o  bolero,  o  fandango,  o  solo 
inglez,  a  cacbucha  e  o  minuete  afandangado. 

Em  1824,  Luiz  Astolfl,  ex-primeiro  bailarino  de  S< 
Carlos,  offerecia  «  os  seus  limitados  talentos  de  pro- 
fessor de  dansa»  na  rua  de  S.  Francisco  da  Cidade,  e 
Gaspar  Fineli  dava  academia  de  dansa  no  Poço  do  Bor- 
ratem,  11,  1.°.  E  em  1840  veiu  o  hespanhol  D.  José 
Carrero,  que  leccionava  quadrilhas,  valsas,  solo  inglez 
solo  cossaco,  gavota,  minuete  escocez,  bolero,  fandan- 
go hespanhol,  manchega  e  jota  aragoneza. 

Méry  aflirmou  que  a  guitarra  morrera  com  a  galan- 
teria e  o  amor,  o  que  é  inexacto.  O  amor  não  morreu 
com  o  positivismo  triumphante.  embora  continue  a 
ser  uma  coisa  tão  subtil,  que  escapa  a  toda  a  doutrina , 
a  todo  o  raciocínio,  a  todo  o  conceito  antecipado,  a 
toda  a  deducção  lógica.  E  o  gosto  pela  guitarra  sub- 
siste  como  no  bon  vieux  temps  das  modinhas,  dos  ma- 
drigaes,  das  xacaras  e  dos  solaus,  porque  é  o  instru- 
mento do  amor  4. 

A  musica  desfiada  na  guitarra  é  mais  commovenle 
do  que  os  bellos  dramas  desfolhados  nos  pianos  ingra- 
tos e  nos  realejos  sentimentaes.  Os  accordes  da  gui- 
tarra penetram  com  uma  doçura  victoriosa  na  víscera 
que  move  o  sangue,  são  nos*a!gicos  como  as  inflexões 

1  Esta  mesma  idéa  foi  expressa  pelo  sr.  Fernandes  Costa  na 
seguinte  quadra: 

Guitarra  que  não  aqueces, 
Embora  cantes  com  brio! 
Quando  não  fala  de  amor, 
Toda  a  guitarra  tem  frio!  . 


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Historia  do  Fado  17 

das  vozes  queridas,  que  morreram,  mas  que  o  phono- 
grapho  reproduz,  despertam  em  nós  o  mais  triste, 
mais  pungente  e  mais  suave  de  todos  os  pensamentos 
—o  do  passado.  Eis  o  motivo  determinante  de  R»>us- 
sado  folhelinisar  assim  em  1868:  —«Os  ciúmes  tem- 
pestuosos, que  se  multiplicam  no  Bairro-Alto  nâo  iriam, 
as  mais  das  vezes,  até  ao  epilogo  da  policia  correccio- 
nal ou  da  costa  de  Africa,  se  a  m^lancholia  da  gui- 
tarra nacional  não  entrasse  pelo  peito  do  amante,  fa- 
lando lhe  da  ingratidão  de  uma  mulher  e  das  felicida- 
des de  um  rival  ditoso.» 

E  eis  também  a  razão,  por  que  um  poeta  illustre  do 
nosso  tempOj  o  sr.  Fernandes  Costa,  aiuda  pôde  di- 
zer: 

Em  ouvindo  uma  guitarra, 
Paro,  tirando  o  chapéo; 
Nâo  me  importa  de  morrer, 
Se  houver  guitarras  no  céo. 


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11 


Caracter  das  canções  populares  po/tuguezas.—  O  fado. — Themas 
do  fado. — O  fado  sob  o  ponto  de  vista  musical  e  sob  o  ponto 
de  vista  litterario. — Origem  do  fado. — Os  marítimos  e  as 
suas  cantigas.— A  pparecimento  do  fado. — Papel  da  guitarra 
nos  bródios  lisboetas. — As  hortas  e  as  esperas  de  toiros. — 
As  cantadoras  àefado  nas  esperas  de  toiros. 


Às  canções  populares  luzitanas  apresentam  um  ca- 
racter lamentoso  e  amoroso,  o  que  já  fòi  notado  por 
Link,  um  allemão  illustre  que  viajou  entre  nós  nos  fins 
do  século  xviii.  A  este  respeito,  escreveu  elle:  —  «0 
habitante  dos  campos  da  Alleraanha  excede  muito  (no 
respeitante  ao  canto)  o  de  Inglaterra,  muito  mais  ainda 
o  de  França,  e  infinitamente  o  de  Hespanha  e  o  de 
Portugal.  0  canto  monótono,  gritador  e  arrastado  dos 
homens  começa  já  na  Gasconha;  é  desagradável  na 
Hespanha  e  em  Portugal. 

fAccrescentae  a  isto  uma  guitarra  tão  má,  que  ape- 
nas se  ouve  o  ruido  da  madeira,  e  podeis  formar  uma 
idéa  das  serenadas  que  os  namorados  dão,  á  noite,  ás 
soas  bellas.. .  As  canções  do  povo  portuguez  são  la- 
mentosas ;  falam  quasi  sempre  da  dôr  do  amor,  são  ra- 


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20  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

rameote  lascivas  e  pouco  saty  ricas  *.•  N'esfe  tempo,  po- 
rém, ainda  o  fado  era  desconhecido  em  terra. 

Só  quarenta  e  tantos  annos  depois,  havia  de  occupar 
o  logar  primacial  entre  as  canções  populares  de  Lisboa. 

O  fado,  a  navalha  e  a  guitarra  constituem  uma  trin- 
dade adorada  pelo  lisboeta  —  adoração  ethnicamente 
explicável3.  O  fado—  j atum  —canta  as  contingências 
da  sorte  voltaria,  a  negregada  sina  dos  infelizes,  as 
ironias  do  destino,  as  dores  lancinantes  do  amor,  as 
crises  dolorosts  da  ausência  ou  do  affaslaraento,  os  so- 
luços profundos  da  desesperança,  a  tristeza  dolente  da 
saudade,  os  caprichos  do  CQração,  os  momentos  ineffa- 
veis  em  que  as  almas  dos  amantes  descem  sobre  seus 
lábios,  e,  antes  de  remontarem  ao  céo,  deteem  o  vôo 
n'um  beijo  dulcíssimo.  Nenhuma  das  canções  popula- 
res portuguezas  retrata,  melhor  do  que  o  fado,  o  tem- 
peramento aventureiro  e  sonhador  da  nossa  raça  essen- 
cialmente meridional  e  latina ;  nenhuma  reproduz  tão 
bem  como  elle— com  o  seu  vago  charmeur  e  poético— 
os  accentos  doloridos  da  paixão,  do  ciúme  e  do  pezar  sau- 
doso 8.  A  melancholia  é  o  fundo  do  fado  como  a  som- 
bra é  o  fundo  do  firmamento  estreitado. 

E  a  musica  (Testa  canção  parece  estampar  a  fatali- 


1  M.  Link.  Voyage  en  Portugal  de  1797  à  1709,  pag.  44  c45. 

2  »0  único  portuguez  pa  a  quem  a  faca  é  arma  predilecta  é 
o  extremenho,  e  principalmente  o  lisboeta.  E' uma  influencia  do 
meio  em  que  vive  e  da  educação  que  recebe».  (As  Farpas  de 
Abril  de  1872,  pag.  69). 

3  «A  parte  viva  e  inimitável  da  nossa  musica  éo  sentimento 
que  caracterisa  o  povo  portuguez  e  que  predomina  no  nosso  fa  - 
do,  animando  a  monotonia  do  rytbmo  e  dando  lhe  esse  cunho 
dolente  e  apaixonado,  que  tanto  impressiona  os  estrangeiros, 
que,  por  acaso,  o  ouvem».  (Apostilla  ao  programma  da  «soir  ée» 
musical  realisada  em  casa  da  condessa  de  Proença -a-  Velha  em  24 
de  Janeiro  de  190$.) 


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Historia  do  Fado  21 

dade  antiga,  essa  mesma  fatalidade  a  que  Bocage  alia- 
dia  o'uma  quadra : 


Que  eu  fosse  emfim  desgraçado. 
Escreveu  do  Fado  a  mào ; 
Lei  do  Fado  não  se  muda, 
Triste  do  meu  coração ! 


0  fado  tem,  por  conseguinte,  a  sua  philosophia.  E  aos 
que  lh'a  negam,  póde-se-lhes  responder,  parodiando  o 
que  um  enthusiasta  de  Rossini  dizia  do  auclor  do  Gui- 
lherme Tell,  da  Cemreniola  e  do  Barbeiro  de  Sevilha : 
«Pobre  fado!  Mo  vêem  a  tua  profundeza,  porque  tu  a 
cobres  de  rosas  » 

Sob  o  ponto  de  vista  musical,  o  modelo  primitivo  do 
fado  é,  segundo  diz  o  sr.  Ernesto  Vieira  á,  um  perío- 
do de  oito  compassos  de  2/4,  dividido  em  dois  mem- 
bros eguaes  e  symetricos  de  dois  desenhos  cada  um; 
preferencia  do  modo  menor,  embora  muitas  vezes  pas- 
se para  o  maior  com  a  mesma  melodia  ou  com  outra; 
acompanhamento  de  arpejo  em  semi  colcheias,  feito 
unicamente  com  os  accordes  da  tónica  e  da  dominante, 
alternados  de  dois  em  dois  compassos.  O  fado  è  cara- 
cteri>ado  ainda  pelo  acompanhamento  da  guitarra  por- 
tugueza,  que,  para  esse  flm,  tem  uma  afinação  espe- 
cial. Quando  os  guitarristas  locam  o  fado,  sem  ser  para 
acompanhar  os  cantos,  phantasiam  muitas  variações 
sobre  a  mesma  melodia,  e  quando  tocam  simplesmente 
o  acompanhamento  chamam- lhe  fado  coríido.  Fado  ri- 
goroso é  o  que  não  admitte  variações, 

A  gemedora  musica  do/ado  lembra,  vagamente,  cer- 
tos andante  da  musica  tchèque. 
«O  motivo  principal  do  allegrttio  da  7.»  symphonia 

1  Ernesto  Vieira.  Diccionario  musical,  vol.  I,  pag.  184. 


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22  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

de  Beethoven,  confiado  primeiro  aos  altos  e  violoncel- 
los  e  aos  violinos  depois,  di  uma  idéa  approximativa 
do  fado,  não  só  na  divisão  rytbmica,  mas  ainda  na 
forma  da  melodia»,  diz  um  critico1. 

Sob  o  ponto  de  vista  litterario,  «o  fado— diz  o  sr. 
Theophilo  Braga  -como  a  xacara  moderna,  era  que  a 
acção  se  não  tira  da  vida  heróica,  é  urna  narração  de- 
talhada e  plangente  dos  successos  vulgares,  que  entre- 
tecem o  existir  das  classes  mais  baixas  da  sociedade. . . 
Tem  o  fado  a  continuidade  do  descante,  seguindo 
fielmente  uma  longa  narrativa  eníremeiada  de  concei- 
tos grosseiros  e  preceitos  de  moralidade  com  uma  for- 
ma dolorosa,  observação  profunda  na  descripção  dos 
feitos,  graça  despretencios»,  com  uma  monotonia  de 
metro  e  de  canto  que  infunde  pezar,  principalmente 
na^mudez  ou  no  ruido  da  noite,  quando  os  sons  sahem 
confusos  do  fundo  das  espeluncas  ou  misturados  com 
os  risos  dos  lupanares. 

O  rythmo  do  canto  é  notado  com  o  bater  do  pé  e 
com  desenvoltos  requebros ;  a  dansa  e  a  poesia  auxi- 
liam-se  no  que  se  chama  baler  o  fado*.»  O  mesmo 
escriptor  assegura  que  o  fado  é  —na  lettra  —  a  ulti- 
ma transformação  0os  romances,  das  ara  vias  ou  nar- 
rativas heróicas  da  Edade-Media,  adaptadas  aos  no- 
vos costumes  sociaes;  e  é  — na  musica —um  deri- 
vado das  melopêas  árabes.  E  accrescenta  que  o  faliste 
ou  fadista,  era  o  vagabundo  nocturno,  que  andava  mo- 
dulando aquellas  cantigas 3. 

A  sr.a  D.  Carolina  Michaellis  de  Vasconcellos,  lou- 


i    M.  A.  Lambertini.  Chansons  et  Instruments,  pag.  2o,  nota. 

2  Theophilo  Braga.  Historia  da  poesia  popular  por  tu gueza, 
pag.  87. 

3  Theophilo  Braga.  Historia  da  poesia  popular  portugueza  e 
O  povo  portuguez  nos  seus  costumes,  crenças  e  tradições. 


S 


Historia  do  Fado  23 

vando-se  nos  trabalhos  do  sr.  Theophilo  Braga,  diz  — 
na  sua  obra  sobre  a  liUeratura  portugueza  —  que  o 
fado  antigo  era  uma  verdadeira  poesia  de  dor,  uma 
lamentação,  em  que  uma  freira,  um  .frade,  um  mari- 
nheiro, um  soldado,  um  lavrador,  se  queixava  das  ini- 
quidades da  sua  classe,  da  sua  sorte ;  e  que,  pela  for- 
ma estrophica,  se  liga  a  uma  espécie  ecclesiastica  (lat. 
sequencia),  como  se  pôde  exemplificar  com  o  fado  do 
marujo  e  a  xacara  açoriana  da  vida  da  freira. 

Ajunta  que  hoje  se*  dá  o  nome  de  fado  oú  fadinho* 
poesias  vulgares  de  egual  conteúdo,  mas  em  quadras 
como  o  fado  da  Severa,  decimas  e  quintilhas,  que  são 
cantadas  à  banza  pelos  fadistas  (bohêmiens)  de  Lisboa. 

A  nouso  ver,  o  fado  não  promana  das  lenga-Iengas 
arábicas,  e  isto  pelos  motivos  que  passamos  a  expor : 
primeiro,  porque,  n'esse  caso,  o  fado,  pela  sua  diutur- 
na existência,  ter  se  hia  espalhado  por  todo  o  paiz,  ao 
passo  que  só  modernissimamente  chegou  ao  Porto  e 
se  canta  nas  duas  Beiras  ;#  segundo,  porque  devia  exis- 
tir no  Algarve—  que  foi  b  ultimo  reducto  dos  Árabes 
em  Portugal  — ,  o  que  não  acontece ;  terceiro,  porque 
o  fado  devia  existir  egualmente  no  sul  da  Hespanha  — 
visto  que  ahi  persistiram  os  Árabes  até  fins  do  século 
xv  — ,  o  que  tapabem  não  acontece  ;  quarto,  porque 
se  deviam  encontrar  citações  a  respeito  do  fado  nos 
documentos  impressos  ou  manuscriptos  até  ao  começo 
do  século  xix,  e  não  nos  consta  que  alguém  as  topas- 
se até  hoje. 

Citam-se  os  tonos  do  século  xvn,  citam  se  as  modi- 
nhas e  as  cantigas  do  século  xvm  e  princípios  do  sé- 
culo xrx,  Nicolau  Tolentino  satyrisa  *  umas  e  outras 


1  Aproveitamos  o  ensejo  para  dizer  que  conhecemos  uma 
poesia  inédita  de  Tolentino,  escripta  pelo  próprio  punho  do  sa- 
tvrista : 


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24  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

mas  ninguém  no?  dá  noticia  da  existência  do  fado. 

Para  nós>  o  fado  tem  uma  origem  marítima,  origem 
que  se  lhe  vislumbra  no  seu  ryihmo  onduloso  como  os 
movimentos  cadenciados  da  vaga,  balanceante  como  o 
jogar  de  bombordo  a  estibordo  nos  navios  sobre  a  toa- 
lha liquida  florida  de  phosphorescencias  fugitivas  ou 
como  o  vae-vem  das  ondas  batendo  no  coslado,  offe- 
guento  como  o  arfar  do  Grande  Azul  desfazendo  a  sua 
túnica  franjada  de  rendas  espumosas,  triste  como  as 
lamentações  fluclivogas  do  Atlântico  que  se  convulsa 
glauco  com  babas  de  prata,  saudoso  como  a  indefiní- 
vel nostalgia  da  pátria  ausente. 

Das  suas  notas  mestas  e  lentas,  de  uma  gravidade  de 
legenda,  de  uma  suavidade  tépida,  parece  emanar  uma 
estranha  emoção,  impregnada,  a  um  tempo,  de  melan- 
cholia  e  de  amor,  de  bum  to  soffrimento  e  de  moribundo 
sorriso.  O  fado  nasceu  a  bordo,  aos  rythmos  infinitos 


Depois  que  plano  caminho 
Já  meu  pé  trilhando  vae, 
Pobre  alfayate  visinho, 
De  um  capote  cUj  meu  pae 
Me  engenhou  um  capotinho. 

Trabalhando  a  obra  maldiz 
A  empreza  que  lhe  incumbiram, 
Fez  nigrom  anciãs  com  giz  ; 
Sete  vezes  lhe  cahiràin 
Os  óculos  do  nariz. 

Sua  obra  se  consagre 
No  Portal  das  Barraquinhas, 
Com  grossas  lettras  de  almagre; 
Tapou  geiras,  passou  linhas, 
Fez  um  capote  e  um  milagre. 

Bibl.  Nac.  d*  Lisboa.  Manuscriptos.  Fundo  antigo. 


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Historia  do  Fado  25 

do  mar,  nas  convulsões  cPessa  alma  do  mundo,  na 
embriaguez  murmurante  d'essa  eternidade  da  agua. 

Oliveira  Martins  não  vae  muito  longe  do  que  dizemos, 
quando  escreve : 

«As  toadas  plangentes,  que,  ao  som  da  guitarra,  se 
ouvem  por  toda  a  costa  do  occidente,  essas  cantigas 
monótonas  como  o  ruido  do  mar,  tristes  como  a  vida 
dos  nautas,  desferidas  á  noite  sobre  o  Mondego,  sobre 
o  Tejo  e  sobre  o  Sado,  traduzirão  lembranças  incons- 
cientes de  alguma  antiga  raça,  que,  demorando  se  na 
nossa  costa,  pozesse  em  nós  as  vagas  esperanças  de 
um  futuro  mundo  a  descobrir,  de  perdidas  terras  a 
conquistar?»   4 

Luiz  Augusto  Palmeirim  singra  na  mesma  esteira, 
quando  escreve: 

«Num  paiz  de  seguidas  tradições  marítimas  como  o 
nosso,  a  poesia  popular  não  podia  deixar  de  se  inspirar 
das  scenas  tocantes  de  que  o  mar  é,  não  poucas  vezes, 
testemunha.  O  fadista,  trovador  ambulante  da  plebe, 
compraz-se  em  procurar  os  seus  símiles  na  agitação 
constante  das  vagas,  no  agreste  sibilar  dos  ventos,  na 
inconstância  do  elemento  que,  com  a  maior  fidelidade, 
lhe  retrata  a  instabilidade  dos  próprios  sentimentos  2.» 

O  homem  do  mar  é  eminentemente  imaginativo  e 
contemplativo.  A  sua  vida  precária,  toda  repassada  de 
ideologismo  e  de  saudade,  torna-o  idealista,  inocula- 
lhe  o  virus  rábico  da  poesia.  O  seu  espirito  perde  se 
nos  êxtases  do  Sonho  e  ra  embriaguez  do  Além.  Todo 
o  marinheiro  verseja ;  e  alguns  dos  nossos  poetas  ca- 
pitães embarcaram  ou  usaram  a  farda  de  botão  de  an- 
cora: Camões  e  Belchior,  Bressane  e  Garção,  Bocage 
e  D.  Gastão. 


1  Oliyeira  Martins.  Historia  de  Portugal^  vol.  I.  pag  36. 

2  L.  A.  Palmeirim.  Galeria  de  figuras  portuguezas,  pag.  114. 


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26  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

A  facilidade  de  improvisação  dos  marítimos  faz  com 
que  as  canções  abundem  a  bordo,  desde  a  cantiga  ao 
desafio : 

Larga  ancora,  arria  a  amarra, 
Volta,  abita,  socca  o  nó, 
Mette-lhe  o  leme  de  16, 
A  ficar  de  proa  á  barra, 
Portaló  com  portaló, 
Quando  não  o  ferro  garra, 

e  desde  a  característica  cantiga  das  fainas: 


Quando  elle  arranca  o  ferro 
Vira  então  de  leva  arriba, 

Ai  lé,  lé,  lé, 

Ribamar  e  S.  José, 


até  ao  doce  fado,  cujo  rythmo  lisongeia  os  vagos  ins- 
tinctos  elegíacos  do  embarcadiço,  cujos  sons  cálidos 
e  molles  osculam  como  um  grande  beijo  sonoro  e  cujos 
versos  amorosos  e  quentes  parecem  lançar  no  sangue 
os  venenos  que  dão  a  alegria  do  sonho  e  a  loucura  dos 
paraizos  artificiaes-o  ópio,  a  morphina,  o  haschich. 

E'  indubitável  que  o  fado  só  posteriormente  a  1840 
appareceu  nas  ruas  de  Lisboa.  Até  então,  o  único  fado 
que  existia,  o  fado  do  marinheiro,  cantava-seà  proa  das 
embarcações,  onde  andava  de  mistura  com  ascaDtigas 
de  levantar  ferro,  a  canção  do  degredado  e  outras  can- 
tilenas undivagas.  0  Fa<lo  do  marinheiro  i  foi  o  que 
serviu  de  modelo  aos  primeiros  fados  que  se  tocaram 
e  cantaram  em  terra. 

Não  temos,  porém,  elementos  seguros  para  deter- 
minar a  génese  evolutiva  d'essa  melodia  até  ao  mo- 
mento em  que,  transportada  do  mar  para  terra,  se 


1  Ha    um  fado  moderno,  O  marinheiro,   com   poesia  de  F. 
Gomes  de  Amorim,  editado  pela  casa  Neuparth  &  C.a 


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Historia  do  Fado  27 

populárisou,  primeiro,  e  se  aristocratisou,  depois,  su- 
bindo das  viellas  e  das  tabernas  ás  salas  alcatifadas. 

Os  lisboetas  de  Í792  —  principalmente  a  caixei- 
rada  de  mercadores  e  capellistas  —  acompanhados  de 
rascôas,  batiam  de  sege  para  os  festins  bem  pagodea- 
dos  na  casa  de' pasto  de  Bellas  e  para  as  bambochatas 
nos  retiros  de  Sete  Rios  e  das  Larangeiras,  onde  se 
batoteava  forte,  principalmente  com  os  «officiaes  de 
gaveta»  conforme  os  arrieiros  alcunhavam  os  caixeiros 
que  sizavam  os  patrões  f. 

Mas  a  guitarra  não  tinha  logar  n'essas  pandegas 
descabelladas.  ,Os  lisboetas  de  1807  continuaram  a 
tradição  das  patuscadas  em  Bellas ;  e  os  de  1820  li- 
mitavam as  suas  diversões  campestres  ás  batidas  de 
tipóia  para  esta  localidade  —que  frequentavam  em  com- 
panhia das  michelas  de  jozésinho  de  baetão  verde, 
vestido  de  chita  riscada  e  lenço  branco  na  cabeça  e 
ás  burricadas  na  Oulra-Banda  ou  para  Loures  e  Lu- 
miar, onde  iam  ver  a  quinta  do  marquez  de  Angeja, 
(hoje  propriedade  dos  duques  de  Palmella)  *.  A  gui- 
tarra, porém,  continuava  a  brilhar  pela  ausência.       * 

Nas  frescatas3  nas  hortas  dos  arredores  da  Lisboa 
de  1833,  guitarreavam-se  modinhas. 

Assim  acontecia  na  Gertrudes  da  Perna  de  Pau>  no 


1  Archivo  da  Torre  do  Tombo.  Policia.  Coll.  vinda  do  Mi- 
nistério do  Reino.  N.°  453.  Conta  de  50  de  Aposto  de  1792  ao 
Intendente  de  Policia  Diogo  ignacio  de  Pina  Manique. 

2  No  Vaudeville  de  Paris,  em  1832,  representou  se  uma 
peça  intitulada  O  guitarr ista, na  qual  figurava  uma  personagem 
que  se  suppunha  ser  D.  Miguel.  (T.  Braga.  Historia  do  ro- 
mantismo em  Portugal,  pag.  244). 

3  No  tempo  de  D.  Miguel  havia  reuniões,  a  que  se  chama- 
vam frescatas,  termo  favorito  de  um  também  engraçado,  franco 
e  generoso  conviva,  e  que  dapois  tomou  por  apellido  Frescata, 
João  Maria  Frescata,  cavalheiro  de  fino  trato,  que  bem  mere- 
cia ter  um  fim  mais  feliz  do  que  teve  (F.  J.  de  Almeida. 
Apontamentos  da  vida  de  um  homem  obscuro,  pag.  137). 


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28  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

Manuel  Jorge,  ás  portas  de  Socavem,  no  Zé  Gordo,  na 
calçada  de  S.  Sebastião  da  Pedreira,  no  Quintalinho.  á 
Cruz  do  Taboado  —  onde  se  vendiam  iscas  de  viteíla 
espetadas  em  palitos  —  e  no  Calazans,  á  Cruz  dos 
Qualro  Caminhos. 

Nas  suas  succedaneas  de  1846,  já  se  guitarreava  o 
fado,  como  succedia  na  Horta  das  Tripas,  no  Escovei- 
ro  (à  Cova  da  Piedade),  no  Ezequiel  <.o  Dafundo,  no 
Miséria  da  estrada  de  Palhavã,  na  Viteileira  da  travessa 
dos  Carros,  na  Rabicha,  no  Campo  Pequen ),  no  Arco 
do  Cego,  na  Madre  de  Deus  e  no  Beato  António.  E 
esta  tradição  do  fado  mantevese  nas  hortas  das  epo- 
chás  posteriores:  Jo*é  da  Bateira,  António  das  Noras,  em 
Arroyos,  Quintalinho  da  travessa  do  Pintor,  Theotonio 
da  calçada  de  Carriche  ou  Nova  Cintra  (onde  se  ia  em 
burricadas),  a  Joanna  do  Collele~encarnido,  no  lado 
oriental  do  Campo  Grande  (que  passou  depois  para  a 
azinhaga  da  Torre,  no  Lumiar)  *,  Cá  e  lá,  José  Galli- 
nheiro,  Joaquim  dos  Melões,  na  Outra-Banda,  Arieiro, 
José  dos  Pacatos,  retiro  do  Pardal,  nas  terras  da  Casa 
da  Pólvora,  Salgado  do  Arco  do  Cego,  Videira  do  Cam- 
po-Grande,  a  tendinha  do  Campo,  José  dos  Passari- 
nhos, em  Alcântara,  as  Varandas,  ao  Caminho  de  Fer- 
ro, José  dos  Caracoes,  no  Campo  Grande,  Luiz  Gas- 
par, na  estrada  das  Mouras,  Esparteiro  do  Alto  do  Pi- 
na, Pacatos  Velhos,  o  Rouxinol,  nos  Terramotos,  Quinta 
do  Ferro  de  engommar;  e,  mais  recentemente,  Pedro 
da  Porcalhota,  Cazimjro  do  Poço  dos  Mouros,  Bazali- 
sa,  Quinta  do  Papagaio,  Quinta  das  Águias,  as  leitei- 
ras, José  Azeiteiro,  o  Quebra-Bilhas,  no  Campo  Grande, 
e  José  Roque,  de  Palhavã. 

Outro  sitio  onde  se  fadejava  com  facúndia  era  no 
Campo  Pequeno,   nas  noitadas  das  esperas  dos  toiros. 

1  A  Joanna  do  Collete  encarnado  morreu  e  deixou  um  filho 
chamado  José. 


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Historia  lo  Fado  29 

Já  no  tempo  do  conde  de  Vimioso— ahi  por  1847  ou 
1848  —  a  Severa  lá  cantarolava  o  seu  reportório  deco- 
tado com  um  impudor  feliz  e  batia  o  fado  ao  som  da 
banza  do  Sjusa  do  Casacão,  desde  o  escurecer  até  que, 
ás  duas  horas  da  noite,  o  gado  pegava  de  sjhir  para  a 
praça  do  campo  de  SanfAnna  1.  Depois  vieram  os  tem- 
pos famosos  do  conde  da  Anadia,  em  que  se  ouviam 
os  descantes  do  José  Borrego  e  do  José  da  Burra  e  os 
tempos  não  menos  famosos  do  Marquez  de  Castello-Me- 
Ihor;  quando  alli,  á  luz  fria  e  espectral  do  luar,  se  es- 
cutavam os  cantos  lugpntes  e  as  guitarras  commovedo- 
ras  do  Hermenegildo  Ratado  e  do  Calcinhas. 

N'essas  esperas  dos  toiros  havia  sempre  a  desordem 
épica  da  tresmalhaçao,  provocada  pelas  rapazias  do 
marquez  de  CastelloMelhor,  do  Marquez  de  Bellas,  do 


1  N'e8se  tempo,  apreciavam  se  muito  as  batidas  de  sege. Dois 
batedores  de  nomeada  eram  o  Fomenica,  que  trazia  sempre  umas 
éguas  beirôas,  e  o  José  Maria  Cabelleireiro,  que  trazia  uma  pa- 
relha de  cavaíloe  malhados.  Certa  occasiâo,  um  grande  amador 
de  batidas  de  sege,  o  Luiz  Confeiteiro,  da  rua  do  Oiro,  apostou 
com  o  Frescata  que  iria  a  Cintra  em  determinado  espaço  de 
tempo.  O  Frescata  metteu-se  na  tipóia  do  José  Maria  Cabéllei- 
retro,  e  o  Luiz  na  caranguejola  do  Fomenica. 

Foram  e  vieram  nas  horas  de  estai  ir,  mas,  á  volta,  na  rua 
de  S.  José,  o  Fomenica  derrubou  uma  pobre  v  lha,  que  escapou 
entre  as  rodas  da  sege.  Pois  o  José  Maria  Cabelleireiro,  que  lhe 
vinha  no  encalço,  conduziu  a  sua  com  um  tão  excepcional  8a- 
voir-faire  da  arte  de  bolear,  que  a  mulher  tornou  a  quedar  se 
no  espaço  comprehendido  entre  as  duas  rodas,  e  apenas  soffreu 
o  pizar  dos  cavallos. 

A  esta  nleiade  de  batedores  parlapatões  suecedeu  outra,  a 
que  pertenceram  o  João  do  André,  o  Hoque  Mulato,  o  Joaquim 
Preto,  etc.;  a  esta  suecedeu  outra  de  que  fizeram  parte  o  Mora- 
da» e,  o  António  Moraes  Gradil,  que  morreu  em  1900  emEx- 
tretnoz;^  a  esta,  ainda  outra  de  fresca  data,  em  que  figuram  o 
BitacxdaSy  o  Júlio  Ferrador,  o  Arreda,  o  Faço  de  Arco8%  o  La- 
gartoyete. 


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30  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

conde  da  Vidigueira,  do  Dr.  Frederico  Arouca  e  de 
outros  amadores  do  divertimento. 

Soava,  então,  o  momento  psychologico  de  intervirem 
as  varas  dos  conductores,  alguns  dos  quaes  foram  no- 
táveis n'este  servido  arriscado:  o  Francisco  Leal  Bate- 
Folha  —  a  primeira  vara  de  campino  — ,  o  Seabra  e  o 
Domingos  Carvalho,  de  Alhandra.  Era  nos  tempos  fa- 
mosos das  toiradas  em  que  toireavam  o  Sedovem,  o 
Mesquita,  os  Robertos,  o  José  Peixinho,  os  Carmonas, 
o  Cadete,  o  Caixinhas,  o  Pontes  e  o  velho  Calabaça ; 
em  que  pegavam  d  unha  os  mais  valentes  moços  de 
forcado:  o  António  — creado  do  marqunz  de  Niza— ,o 
Miguel  Carola,  o  grande  rabejador  António  Caneca,  o 
primeiro  pegador  de  cernelha  António  Mm  ladrão,  o 
Russinho  —  pegador  de  mão  cheia—,  o  Machica  de  Sal- 
vaterra, o  Raphael  Torto,  o  Augusto  Engeitado,  o  Cy- 
rineu,  o  José  Chucha,  o  Ezequiel  de  Vallada,  o  José 
Mathias,  o  José  da  Annica,  o  Valentim,  os  Carraças, 
os  Constantinos  da  Gollegã  —  creados  do  visconde  de 
Asseca,— o  Bernardo  de  Santarém,  o  Júlio  da  Rafôa,  o 
José  das  Travessas  e  o  João  Põe  a  neta. 

Depois  da  tresmalhação  adorada,  e  já  dentro  da  pra- 
ça de  toiros,  um  grupo  de  rapazes  do  trinque  deixa- 
va-se  ficar  em  continuas  guitarradas  até  manhã,  nas 
quaes  se  faziam  ouvir  as  modulações  pueris  das  vozes 
das  mundanas  mais  salientes  por  suas  graças  vicio- 
riosas  na  cantoria  do  fado:  a  Rosa  dos  Camarões,  a 
Beatriz,  a  Maria  José  Loira,  a  Maria  Pia,  a  Borboleta^  a 
Anna  do  Porto  e  outras  que  morreram  de  amor  como 
aquella  siciliana,  cujos  desgostos  pagãos  soluçam  nas 
eglogas  de  Theocrito. 


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g— s-jp-^— -ar 


III 


O  fadista. —  Suas  manhas  —  Sua  arte.  —  Sen  fim.  —  O  fadista 
do  Porto  e  o  capoeira  do  Rio  de  Janeiro. —  Locaes  frequen- 
tados pelos  fadistas.  —  A  toilette  do  fadista  de  1848. —  Os 
inimigos  dos  fadistas.  —  A  toilette  do  fadista  de  1860. —  Ci- 
tam-se  alguns  fadistas  de  renome.  —  O  fadista  nâo  morreu. 


A  appa rição  do  fado  engendra  um  novo  factor  do 
viver  lisboeta  —o  fadista,  o  qual  vem  representar  o  papel 
que  actualmente  desempenha  ovoyou  parisiense e o roug h 
americano,  e  dar  ura  novo  cliché  cinematographico  da 
vida  de  Lisboa.  0  fadista  —  minado  de  taras,  avariado 
pelas  bebidas  fortes  e  pelas  moléstias  secretas,  com  o 
estômago  dyspeptico,  o  sangue  descraseado  e  os  ossos 
esponjados  pelo  mercúrio  —  é  um  producto  heteromor- 
pho  de  todos  os  vícios,  atlinge  a  perfeição  ideal  do 
ignóbil  Tem  sempre  um  raciocínio  imperioso,  um  ar- 
gumento pouco  friável,  uma  dialéctica  aggressiva  e  re- 
soluta, que  não  presta  flanco  ao  assalto  das  objecções 
—  a  navalha.  Como  os  maitres  en  fait  (Tarme$  do  se- 
cul  o  xvn  falavam  de  papo  em  esgrimiduras  de  espada, 
também  elle  fala  de  cadeira  no  tocante  á  esgrima  da 
navalha,  que  mavja  com  virtuosidade,  pinchando  bai- 


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32  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

lheiro,  pulando  com  gymnasticas  felinas  de  tigre,  fa- 
*endo  escovinhas,  riscando  a  preceito  l.  Os  seus  amo- 
res são  sempre  seleccionados  entre  as  rameiras  que 
vigem  e  viçam  na  atmosphera  microbiana  dos  bairros 
infectos,  entre  essas  mulheres  que,  na  virulenta  ex 
•pressão  de  Balzac,  vcnt  enjourntela  nait.  Lovelace  de  en- 
cruzilhada, D,  Juando  podredoirojdoloecarrascodaspro- 
flssionaesda  galanteria  pelintra,  o  fadista  perpetra  tão  ex- 
peditamente o  ruflanismo  ignominioso  como  pratica  o 
othellismo  trágico.  Ê  um  Vaimont  de  espelunca,  um 
Saint-  Preux  do  enxurro,  para  quem  a  mulher  é,  sim- 
plesmente, a  mercenária  das  trevas,  quasi  um  semo- 
vente. E  elie  não  a  comprehende.  nem  a  ama,  senão 
no  circulo  vicioso  dos  coqupttismos  perturbadores  e 
ligeiramente  exóticos  do  canalhismo. 

Ordinariamente,  o  fadista  sabe  cantar  —  com  uma 
entonação  febril  e  húmida  de  soluços,  olhos  quebrados 
e  a  inamovível  ponta  de  cigarro  soldada  ao  lábio  infe- 
rior —  os  fadinhos  docemente  articulados  sobre  um  ry- 
thmo  em  que  brincam  phantasias  de  espasmos,  as  por- 

1  Também  os  voyoua  parisienses  teem  uma  arte  de  defesa  — 
a  savate.  Foi  em  1  £30  que  os  casquettes  àtroisponts  inventaram 
esta  moda  de  combate  para  derrimir  seus  pleitos,  liquidar  suas 
contendas  O  primeiro  professor  d'este  jogo  foi  Michel  Pieseux, 
o  Sórdido*  que  o  ensinava  «'uma  casa  íôbrega  de  La  Court  Jle, 
muitas  vezes  descripta  pelos  escriptores  contemporâneos,  en-, 
tre  elles  Alexandre  Dumas  e  B  lzac.  Fisseux  cantou  no  nume- 
ro dos  seus  disci pulos  dois  luminares  dà  alta  elegância  :  o  du- 
que de  Qrleans  e  Lord  Seymour,  o  chefe  da  bacchanal  parisien- 
se. Na  savate  do  tempo,  a  guarda  era  sempre  muito  baixa,  as 
pernas  ficavam  afastadas  e  as  mãos  estendidas  para  a  frente. 
Um  golpe  capital,  It  coup  de  musette,  consistia  em  levantar  o 
nariz  do  adversário  com  a  palma  da  mão  aberta. 

O  jogo  do  box  the  art  of  self- defense,  como  lhe  chamam  os  in- 
glezes — ,  tem  uma  origem  mais  antiga.  Basta  dizer  que  o  pri- 
meiro código  regulador  d'este  sport  foi  estabelecido  por  Jack 
Broughton  no  século  xvin. 


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CONDE    DE  %YIMlIOSO 
(Notável  amador  de  fado) 


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Historia  do  Fado  35 

nographias  egualitarias  das  lascas  onde  o  álcool  flam- 
meja  e  a  embriaguez  estrebucha,  os  versos  de  uma 
morai  Uo  moderada  quanto  opportuuista,  as  obsceni 
dades  levadas  até  a  mcoogrueneia  fétida,  as  indecen- 
cias  envoltas  em  palavras  doces  como  suspiros  abafa- 
dos—todas as  chulices  do  reportório  scatologico.  A 
taberna,  o  café  de  lépes  e  o  baixo  alcouce,  são  a  arena 
dos  seus  combates  e  o  Capitólio  dos  seus  triumpbos. 
E  resvalar  d'este  Capitólio  á  Rocha  Tarpeia  do  cárcere 
ou  do  estarim,  por  ter  anavalhado  uma  fêmea  tréda, 
uma  amante  pérfida,  é  o  dernier  cri  da  bohemia  rufia- 
naz,  o  ultimo  espasmo  da  fadistice. 

Por  via  de  regra,  o  fadista  expira  na  gehena,  na  en- 
fermaria ou. . .  na  ponta  de  uma  faca. 

Eça  de  Queiroz,  criticando  o  fado,  os  bairros  pifios 
de  Lisboa  e  ofadistismo,  escreveu:—  «Athenas  produ- 
ziu a  esculptura,  Roma  fez  o  direito,  Paris  inventou  a 
revolução,  a  Allemanha  achou  o  mysticismo.  Lisboa 
que  creou?  O  Fado. . . .  Fattim  era  um  Deus  noOlym- 
po;  n 'estes  bairros  é  uma  comedia.  Tem  uma  orches- 
tra  de  guitarras  e  uma  illuminação  de  cigarros.  Está 
mobilada  com  uma  enxerga.  A  scena  final  é  no  hospi- 
tal e  na  enxovia.  O  pannode  fundo  é  uma  mortalha  *.» 

•Nem  sò  o  rebotalho  do  populacho  soffre  a  acção 
morbifica  do  bacillo  fadista);  nem  só  a  gentalha  da  ra- 
lé se  fadistocratisa.  A  fadistagem  também  se  recruta 
na  burguezia,  e  até  na  aristocracia,  como  se  viu  com 
o  D.  Miguel  e  o  D.  Rodrigo  Soutto  de  El-Rei  2. 

O  figurino  fadislal  lisbonense  teve  imitadores  no 


1  Lisboa,  folhetim  de  Eça  de  Queiroz  na  Gazeia  de  Portu- 
gal de  13  de  Outubro  de  1867. 

2  Eram  dois  fadistões,  que  perpetraram  um  a^asfeinio  no 
Alto  do  Pina. 


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36  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

Porto.  Camillo  Castello-Branco,  referindo-se  ao  fado 
e  aos  locaes  em  que  elle  se  tocava  n'aquella  cidade, 
escreveu :—«...  o  botequim  do  Pepino  em  Cima  do 
Muro,  onde  o  fado  balido  deitava  á  madrugada,  com 
entre  actos  de  facadas  e  muito  banzé  '.»  E,  alludindo 
aos  fadistas  portuenses  de  1850,  disse : 

—  o  Ainda  os  não  havia  fora  das  tabernas  da  Porta 
de  Carros  e  das  alfurjas  da  Porta  Nobre,  ramificaçõas 
do  Pepino  de  Cima  do  Muro.  O  faia  começava  então  a 
surdir  na  capital  das  cavallariças  dos  fidalgos  pela 
cohesão  do  filho  segundo  com  o  lacaio.  No  Porto  era 
desconhecido  ainda  o  fidalgo  toureiro,  espancador  e 
bêbedo  2.» 

Os  fadistas  do  Rio  de  Janeiro  são  os  capoeiras. 
Tem  havido  alguns  notabilissimos  pelas  proezas.  O 
Manduca  da  Praia—  um  homem  pardo  temi vel — , 
que  tinha  loja  de  peixe  no  mercado,  pendenciou 
com  o  impávido  SanfAnna  e  Yasconcellos  n'um  bote- 
quim fluminense,  mas  o  nosso  compatriota  reguingou- 
lhe  com  valentia.  SanfAnna  e  Vasconcellos  e  o  Man- 
duca da  Praia  sahiram,  uma  vez,  de  braço  dado  de 
um  theatro,  a  cuja  porta  eram  esperados  por  uma  a!- 
c.téa  de  capoeiras,  com  o  fim  de  os  aggredirem.  Mas 
os  maraus  não  se  atreveram  a  tocar-lhes  e  limitaram- 
se  a  abrir  alas  á  sua  passagem.  Foi  elle  que  veiu  pro- 
positadamente a  Lisboa  para  tosar  SanfAnna  e  Vas- 
concellos, que  o  desfeiteara  no  Rio. 

Mas  virou-se  o  feitiço  contra  o  feiticeiro,  porque 
SanfAnna  redarguiulhe,  jogando-lhe  um  8Ôcco,  que  o 
fez  baquear  redondo  no  chão  do  Marrare  do  Chiado. 
Um  frequentador  do  café,  o  Altavilla,  melteu-se  de  per- 
meio e  separou  os  contendores. 

1  Camillo  Castello  Branco,  Euzebio  Macário,  pag.  47. 

2  Idem,  pag.  135. 


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Historia  do  Fado  37 

No  Rio  de  Janeiro  havia  também  o  Bocca  queimada, 
um  negro  que  trajava  sobrecasaca  preta  e  chapéo  alto,  e 
exercitava  o  duplo  emprego  de  chefe  de  malta  ou  qua- 
drilha de  capoeiras  e  de  capanga  de  eleições  ou  galopim 
eleitoral,  fen  passe  et  des  meilleurs. . . 

Entre  o  antigo  faia  lisbonense  e  o  actual,  existem 
apenas  as  differenciações  de  toilelte  e  de  poiso.  Ontr'ora, 
infestava  a  Madragôa,  o  Bairro  Alto,  Alfama,  a  Bica  de 
Duarte  Bello  e  os  estamineis  borgnes  da  Ribeira  Nova ; 
hoje  infesta  Campo  de  Ourique,  Terramotos,  os  bote- 
quins da  rua  dos  Canos,  os  cafés  decadentes  da 'deca- 
dente Mouraria— -limbos  de  uma  alegria  morta  —  e  os 
botequins  do  Miguel  Chegadinho,  o  Brilhante  e  o  da 
Isabel,  em  Alcântara,  onde  vae  ganhar  alentos  com  o 
puxavante  dos  licores  inflammatorios,como  a  cambrai- 
nha,  o  cacharolêle,  a  amêndoa,  as  indianas  e  as  mula- 
linhas,  lídimos  succedaneos  das  chinitas,  da  cachaça, 
da  ardoza  ou  ardozia,  das  francisquinhas  e  dos  caba- 
zes. 

Psychologicamente,  o  fadista  continua  a  ser  a  crys- 
talisaçãodos  peccados  capitães— exceptuando  a  avareza 
— ,  é  um  hexaedro  abjecto.  A  sua  vida  continua  a  ser 
um  constante  melodrama  com  coups  cte  théatre  impre- 
vistos. Bohemio  errante  nos  confins  de  uma  sociedade 
regular,  as  suas  taras  atávicas  conservam-se  irreducti- 
veis  á  prophylaxia  da  policia  judiciaria  e  á  acção  coer- 
civa dos  tribunaes. 

O  fadista  de  1848,  o  leão  de  bordel  safado,  o  en- 
gonce de  calleja  suspeita,  o  reles  whoremaster  lupana- 
rio,  como  que  possuía  o  sentimento  ingenito  da  linha 
fadistense,  a  idéainnala  da  elegância  bohemia,  todas  as 
supremacias  da  distincção  vagamundeaníe.  Usava  bonét 
de  oleado  com  tampo  largo  e  palia  de  polimento,  ou  bo- 
nét direito,  do  feitio  dos  dos  guardas  municipaes,  com 


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38  Empreza  da  Hitforia  de  Portugal 

fita  preta  formando  laço  ao  lado  e  palia  de  polimento ; 
jaqueta  de  ganga  ou  jaqueta  com  alamares,  e,em  1850, 
umas  jaquetas  sobre  o  comprido,  com  uns  enfeites  de 
botões  nas  mangas,  a  que  chamavam  jalecas  d  tolka\  l 
calças  de  ganga  azul  ou  de  ganga  amarella  com  bocca 
de  sino  ou  largas  por  egual,  tendo  botões  de  madre- 
pérola nos  alçapões  ou  nas  portinholas,  e>  algumas»  na 
costura  exterior  da  bocca  de  sino ;  a  indispensável  cinta 
e  um  lenço  á  marinheira  ou  um  lenço  de  bandeiras 
estampadas  —  que  os  marujos  traziam  de  Ioglaterra  — 
ao  pçscoço  e  outro  lenço  de  bandeiras  na  algibeira,  da 
qual  pendiam  as  pontas ;  sapatos  de  cordovão,  de  en- 
trada abaixo,  com  laço  de  fita  preta -como  usavam  os 


1  A  Polka  foi  dansada  pela  primeira  vez  em  Lisboa,  n'am 
almoço  dansan te  que  o  duque  de  Palmella  offereceu  a  Fuad- 
Effendi,minÍ8tro  da  Turquia,  e  ao  seu  secretario  Kamil  Bey,  em 
24  de  Novembro  de  1844,  no  palácio  do  Paço  do  Lumiar.  A  festa 
principiou  ás  duas  horas  da  tarde  de  24  e  acabou  ás  duas  horas 
da  manhã  de  25.  Em  publico,  foi  dansada,  pela  primeira  vez,  na 
noite  de  18  de  Maio  de  1845,  em  S.  Carlos,  pelos  bailarinos  Au- 
gusta Mabille  e  Charles  Mabille.  Este  ultimo  fundou,  com  seu 
irmão,  o  famigerado  Baile  Mobílie,  em  Paris,  na  Allée  des  Vcu- 
ves,  87,  de  onde  dirigiu  um  aviso  aos  seus  pretensos  credores 
lisbonenses,  inserto  no  Jornal  de  Utilidade  Publica  de  3  de  Se- 
tembro de  1845. 

A  Polka  deu  o  nome  a  muitos  objectos.  Os  janotas  de  1845, 
usavam  chapéos  á  Polka.  Foram  moda  as  bengailinhas  á  Polka, 
que  consistiam  n'um  junco  d%  índia  com  um  grande  nó  redondo 
formando  castão  e  que  custavam  um  vintém.  Os  soldados  de 
infanteria  tinham  enorme  predilecção  pelas  taes  chibatinhas. 
E  noGymuasio  representou- se,  em  1851,  a  Polka  mazurka  pelo 
Taborda. 

No  Brazil  fizeram-se  quadras  populares  á  Polka  : 

Quem  quizer  que  danse  a  «porca» 
Com  seus  quartos  arrufados; 
Os  amantes  gostam  d'isto, 
Ficam  todos  derrotados. 


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Historia  do  Fado  39 

marinheiros  de  guerra— ou  sapatos  de  polimento,  que 
era  a  moda  das  modas  para  os  que  tinham  mais  maço 
ou  mais  massa,  como  diriam  hoje,  e  rachuoho  (annel) 
de  latão  ou  de  oiro  no  indicador  ou.no  annular.  Le 
chie  iype!.   . 

O  seu  penteado  -  que  não  era  certamente  devido  á 
arte  capillar  do  Baron,  do  Godefroy  ou  do  Filisbert — 
consistia  em  trazer  o  cabello  cortado  de  meia  cabeça 
para  traz,  mas  comprido  para  diante,  de  maneira  que 
formasse  melenas  ou  bellexas  empastadas  sobre  a  testa. 
Desnecessário  será  dizer,  que  os  toutiços  assim  prepa- 
rados nâo  faziam  lembrar  as  cabeças  doutrinarias  de 
Guizot  e  de  Royer-Collard,  nem  as  cabeças  catitas  de 
António  da  Cunha  ou  do  Villar  Perdizes. . . 

O  fadista  usava,  frequentemente,  tatuagens  ou  dese- 
nhos impressos  na  epiderme,  que  elle  ou  algnm  artista 
anlhropographo  traçava  nas  mãos,  entre  o  indicador  e 
o  pollegar,  nos  braços  e  no  peito,  illumínuras  a  car- 
mim que  representavam  ancoras,  navios,  guitarras,  flo- 
res, animaes,  inscripções  diversas,  corações  traspassa- 
dos, corações  unidos,  a  cruz,  as  Cinco  Chagas,  o  signo 
saimão,  e  outros  emblemas  amorosos,  religiosos,  me- 
taphoricos  e  phantasistas.  * 

1  A  operação  da  tatuagem  pratica -se  por  meio  'de  três  agu- 
lhas fixas  a  um  cabo  de  madeira  ou  simplesmente  unidi.s  por 
um  fio,  f  previamente  embebi  ias  n'um  liquido  corante,  que  pôde 
ser  tinta  da  China,  tinta  de  escrever,  carvão  triturado,  pólvora 
moída  ou  azul  das  engoii. madeiras.  Applicam-se  por  meio  de  pi- 
cadas dirigidas  obliqua  ou  perpendicularmente,  e,  para  estas  se- 
rem inapagaveis,  devem  attingir  os  ganglios  lymphaticos.  Entre 
nós,  os  tatuadores  existem,  em  geral,  nas  cadeias,  nos  quartéis 
e  nas  populações  maritimas.  Nem  só  as  clasues  baixas  se  tatuam. 
No  numero  dos  tatuados  contam  se  alguns  membros  da  família 
imperial  russa,  a  priuceza  Valdemar  da  Dinamarca,  o  príncipe 
Henrique  da  Prússia,  Lord  Chesterfield,  Lady  Randolpn  Chur- 
ch  11,  etc.  Em  Londres,  ha  virtuoses  da  tatuagem  japonezes  e 
dois  operadores  afamados  no  género:  Âlfred  South  e  Macdo- 
nald. 


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40  Empreza  tia  Historia  de  Portugal 

Muitos  (Telles  traziam  um  bengalão  de  canna  da  ín- 
dia on  um  cacete  bamboleando- se  entalado  entre  o  de- 
do médio  e  o  indicador  da  mão  direita,  emquanto  elles, 
todos  gingões,  pareciam  ir  dizendo  com  uns  certos  ares 
de  bravura  corominatoria,  com  uns  modos  assim  á 
laia  de  osga:  Tomem  viso!  Aqui  vae  um  homem  testo, 
um  gajo  com  ralé.  Se  cliso  d  palma  algum  moco,  endra* 
go  lhe  as  batas  ou  noco  lhe  a  noz  que  o  estafo.  K  como 
canta! *  Dentro  da  algibeira  ou  do  golpe,  dormia  lhes, 
ordinariamente,  a  navalha,  a  que  chamavam  sarda  ou 
pico,  como  depois  chamaram  naifa. 

E  como  a  antithese  não  é  um  simples  processo  lilte- 
rario,  mas  uma  realidade  constante  na  existência,  va- 
mos encontrar,  ao  mesmo  tempo,  os  fadistas  e  os  seus 
inimigos  natos  —  os  barras  de  mâo  —  cheia. 

Um  fadistophobo  intransigente  era  o  Raphael,  que 
andara  na  aprendizagem  de  typograpbo  junto  com  o 
actor  Taborda.  Certa  occasião,  entrou  no  botequim  do 
Pedro  (no  largo  das  Duas  Egrejas,  pegado  ao  Loreto), 
e,  tendo  encontrado  lá  dois  faias  a  tomar  café,  incre- 
pou  violentamente  o  creado  por  consentir  taes  clientes 
na  loja  e  ameaçou-o  de  que  lhe  pregaria  uma  sova  real, 
se  os  deixasse  novamente  cruzar  os  portaes.  Os  fadis- 
tas ouviram  o  raspanço,  passaram  palavra  uns  aos  ou- 
tros, e,  na  noite  seguinte,  vieram,  á  formiga,  e  junta- 
ram se  alli  mais  de  vinte  a  tomar  a  escura  bebida.  José 
Romão,  ensaiador  do  Gymnasio,  e  Manuel  Machado, 
emprezario  do  mesmo  lheatro,  prevendo  grossa  panca- 
daria, sahiram  á  procura  do  Raphael,  no  intento  de  o 
afastarem  do  botequim;  Bisparam  n'o  na  rua  do  Loreto 
e  pediram-lho  que  os  fosse  acompanhar  a  comer  uma 


1  Tomem  cuidado !  Aqui  vae  um  homem  valente,  um  homem 
de  coragem.  Se  apanho  a  qeito  algum  pedaço  de  amo,  deito  lhe 
as  mãos  ou  parto  lhe  a  cabeça,  que  dou  cabo  oVelle.  Podem  acre- 
ditai o! 


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Historia  do  Fado  41 

caldeirada  de  lulas,  obra  de  estalo.  0  Rapbael  aquies- 
ceu ao  pedido,  mas  impoz  a  condição  de  ir  vêr,  pri- 
meiro, quem  estava  no  botequim  do  Pedro. 

Efectivamente,  entrou  ahi,  e,  passados  momentos, 
ouvia-se  um  tumulto  formidável,  emquanto  se  viam  sa- 
hir  os  jaiantes  a  correr,  e  de  cabeça  esmechada,  ao 
mesmo  passo  que  ò  Rapbael,  lá  dentro,  fazia  entrar  a 
bengala  na  linha  dos  argumentos  sérios  e  punha  toda 
a  fadistagem  no  olho  da  rua. 

Em  1860,  já  a  farpella  do  fadista  experimentara  mo- 
dificações. O  ultimo  Petronio  do  fadistismo  trajava  ja- 
queta de  alamares,  calças  de  quadradinhos  brancos  e 
pretos  estranguladas  nos  joelho»  ou  calças  brancas  (no 
verSo),  camisa  branca  ou  de  chita,  gravata  carmesim 
de  passadeira  com  as  pontas  cabidas,  cinta  carmesim 
ou  preta,  ou  de  seda  carmesim  (para  os  fadistas  li  rós) 
e  sapatos  amarellos  ou  sapatos  de  laço.  Alguns  traziam 
a  jaqueta  ao  hombro  esquerdo,  a  fim  de  terem  livre  o 
braço  direito  e  poderem  defender  se  e  aparar  os  golpes 
com  ella.  O  bonét  de  oleado  quasi  cahira  em  desuso. 
A  moda  era  o  chapéo  redondo  ou  o  barrete.  Uns  esty- 
lavam  o  cabeilo  cortado  até  ao  meio  da  cabeça  e  cres- 
cido adiante  para  fazer  bellezas;  outros  estylavam-n'o 
apartado  á  banda,  rapado  no  pescoço  e  com  bellezas  na 
testa. 

N'esta  época,  houve  alguns  fadislões  de  renome.  Ci- 
taremos o  bonito  mulato  José  Luiz,  o  Pau  Real ',  o 


1  O  Pau  Real  era  filho  da  preta  Henriqueta,  vendedora  de 
mexelhSo  e  dama  da  corte  picaresca  da  rainha  do  Congo.  Fadis- 
tava  de  accordo  com  os  mais  i  igorosos  cânones  fadistas.  O  Jor- 
nal do  Commercio  de  23  de  Agosto  de  18»  2  noticiava:  «Hoje, 
ás  seis  horas  da  tarde,  o  fadista  por  alcunha  o  Pau  Real,  muito 
conhecido  por  diversas  tropelias  mais  ou  menos  grave?,  deu,  na 
travessa  dos  Fieis  de  Deus,  duas  facadas  em  uma  mulher  de  má 
vida,  chamada  Maria  Balbina.» 


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42  Emprcza  da  Historia  de  Portugal 

Chico  macaco  —  ca traeiro  valentíssimo— , o  Calcinhas 
do  Cães  do  Sodré,  o  Joaquim  Enguia,  o  temivel  Júlio 
Arbèllo,  do  Bairro-Alto,  os  três  Côcôs,  o  Caohucho— 
fabricante  de  palitos  para  phosphoros— ,  um  seu  irmão, 
Manoel  Katão-um  grande  puxador  de  pau, —o  cochei- 
ro António  Carapinha  e  o  cocheiro  Bitaculas,  um  ba- 
tedor e  um  valente,  pae  dos  actuaes  cocheiros  Bitacu- 
las. 

O  primeiro  entre  os  seus  pares  era  o  Pau  Real  — 
quasi  um  professor  de  fadistographia. 

Foi  morto  á  falsa  fé  pelo  Chico  Galleguinho  na  ta- 
berna da  Balbina— uma  quarentona  muito  frescal  — 
sita  na  rua  da  Atalaya,  á  esquina  da  travessa  dos  Fieis 
de  Deus,  onde  se  realisavam  grandes  descantes  de  fa- 
do. O  crime  proveio  de  um  desaguisado  que  ambos  ti- 
veram  na  casa  de  pasto  do  Mosqueira,  na  rua  das  Gá- 
veas, depois  de  uma  espera  de  toiros.  O  assassino  foi 
degredado,  mas  escapuliu  se  do  degredo  e  ainda  vol- 
tou a  Lisboa  n'um  navio  de  guerra  americano. 

Entre  os  mais  tezos  jogadores  de  pau  n'aquelle  tem- 
po, podemos  citar  o  José  da  Burra,  o  velho  cocheiro 
Malaquias  e  o  José  Carlos,  de  Évora. 

Repetimos  que,  entre  o  fadista  de  1818.  o  de  1860 
e  o  de  hoje.  ha  apenas  differenças  superficiaes,  porque 
a  sua  fadisliie  aguda,  o  seu  nervosismo  feroz,  toem 
resistido  obstinadamente  ás  investidas  tenazes  da  civi- 
,lisação.  E  se  o  faiante  de  1848  cantava  todo  ancho: 


O  fadista  que  é  fadista, 
A  geito  o  ferro  manobra, 
«Mettendo  mão  aos  arames*. 
Dá  facada  como  cobra, 


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Hiêtoria  do  Fado  43 

o  da  actualidade  ainda  dos  vem  dizer  com  .uma  inson- 
dável expressão  de  guapice: 

Tenho  sina  de  morrer  ♦ 

Na  ponta  d'uma  navalha, 
Toda  a  vida  ouvi  dizer : 
— Morra  o  homem  na  batalha ! 


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IV 


Severa  da  lenda  e  a  Severa  da  realidade.  —  À  Mouraria  no 
tempo  da  Severa.  —  A  horta  das  Atafonas,  i  quinta  do  Bran- 
dão e  a  rua  Nova  da  Palma.  —  A  Severa  na  Mouraria.  — 
Casas  onde  morou  a  Severa.  —  Pimponices  da  Severa.  —  As 
companheiras  da  Seveia  e  as  fadistonas  da  Mouraria  em 
1848.  Toilette  d'estas  mulheres.  —  Citam  se  os  principaes 
fadistas  da  Mouraria  do  tempo  da  Severa.— Fadistas  de  épo- 
cas posteriores.  —  A  Mouraria  e  os  sítios  mal- afamados  no 
século  XVIII.  —  A  Mouraria  até  1833.  —  Os  amores  da  Se- 
vera e  o  conde  de  Vimioso. — A  taberna  da  Rosaria  dos  Ócu- 
los. —  Eclipses  da  Severa.  —  Na  quinta  da  Foz  e  no  palácio 
do  Campo  Grande.  —  Morte  da  Severa.  —  A  Scarnichia. — 
Mundanas  lirós. — O  conde  de  Vimioso,  toureiro. — Um  caso 
bicudo. — O  conde  de  Vimioso,  caçador.  —  Propensões  atá- 
vicas do  conde  de  Vimioso.  —  Citam -se  o  conde  do  Prado  e 
um  sobrinho  do  conde  de  Lippe. 


Antes  de  nos  oceuparmos  dos  fados,  temos  de  pala- 
vrear um  poucochito  acerca  de  uma  mulher  popuíari- 
sada  pelo  canto  do  fado  e  inspiradora  de  um  dos  mais 
antigos  fados,  mas  cuja  biographia  tem  sido  muito  de- 
turpada. Referimo  nos  á  Severa.  Nós  mesmos  confiámos 
demasiadamente  na  ienda  chula,  que  se  adensou  em 
volta  do  nome  d'esta  tronga  de  viella,  lenda  elaborada 
pela  phantasia  popular  e  pela  cumplicidade  dos  liltera- 


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46  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

tos.  Aproveitamos  o  ensejo  para  fazer  amende  honora- 
ble.  Após  investigações  algo  trabalhosas  e  demorada*, 
conseguimos,  alfim»  tinir  s  Impo  a  vida  accidentada 
(Testa  meto-soprano  dos  conservatórios  do  vicio.  As 
Bubas  que  se  seguem  são,  conseguintemente,  destinadas 
a  correcções  e  retoques  biographicos. 

Maria  Severa — assim  se  chamava  ella  —  não  era  ci- 
gana como  propalou  a  lenda,  mas  nascera  na  Madragôa. 
Sua  mãe,  a  Barbuda,  tinha  uma  das  três  tabernas  que 
então  havia  n'aquella  rua, 4  e  alcunhavam  n'a  assim, 
porque  possuía  tanta  barba,  que  a  obrigava  a  cortal-a 
frequentemente  e  a  encobril-a  com  um  lenço.  Alh,  en 
plein  cabaret,  a  Severa  batia  o  fado  com  o  Manosinho, 
o  mais  antigo  fadista  do  sitio,  e  com  o  Mesquita,  um 
fadistão  que  andara  embarcado.  Uma  vez,  chegou  a 
bater  o  fado  com  o  Manoel  Botas,  depois  inteUigente 
das  toiradas,  mas  que,  n'aquelle  tempo,  era  um  rapa- 
zote,  quasi  um  fedelho. 

Durante  um  curtíssimo  parenthesis,  a  Severa  habitou 
n'uma  betésga  do  Bairro  Alto,  onde  Luiz  Augusto  Pal- 
meirim a  topou. 2  Pessoa  digna  de  credito  aflirma- 
nos  que  ella  morou  na  travessa  do  Poço  da  Cidade, 
n'uma  porta  de  rua.  Isto  passou-se  antes  da  Maria  da 
Fonte,  abi  por  1844  ou  1845.  A  Severa  e  a  sua  inse- 
parável mãe  mudaram  se  d'alli  para  a  rua  do  Capellão 
(vulgarmente  chamada  rua  Suja),  então  frequentadissi- 
ma  pela  marujada  ingleza  e  portugueza. 

Antes  de  proseguirmos,  diremos  qual  era  o  aspecto 
topographico  da  Mouraria  do  tempo  da  Severa,  algo 


1  A  rua  da  Madragôa  passou  a  denominar-se  rua  de  Vi- 
cente Borga,  em  1863. 

2  L.  A.  Palmeirim.  Os  excêntricos  do  meu  tempo. 


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Historia  do  Fado  47 

differente  do  dos  nossos  dias.  Poucas  lojas  existiam 
n'esta  rua,  porque  a  maior  parte  d'ellas  destinava-se 
a  casas  de  habitação.  Notavam-se  principalmente  a  loja 
do  Bernardino  confeiteiro,  fronteira  á  ermida  da  Saú- 
de, a  do  funileiro  Cidade,  ao  lado  da  botica  em  n os  35 
e  37  —  onde.  muitos  annos  depois,  esteve  empregado 
o  sr.  Marianno  de  Carvalho  — ,  a  loja  de  bolos  da  Pre- 
ta  Branca,  que  ainda  existe  em  n.°*  47  e  49,  a  loja  do 
barbeiro  Longuinho  na  escada  n.°  30 -onde  se  fazia» 
barba  encostando-se  a  cabeça  á  parede— e  ume» efflíro 
sapateiro.  Ao  cahir  da  noite,  muitas  peixeiras  se  da- 
vam rendez-vous  n'este  local,  entra  a*  ruas  da  Guia  e 
dos  Cavalleiros,  sentando-se  no»  degraus  das  portas  e 
fazendo  alli  praça  de  peixe,  que  vendiam  á  gente  po- 
bre e  aos  operários  que  recolhiam  a  suas  casas.  O  fundo 
da  Mouraria  era  tapado.  Havia  um  recanto,  um  forno 
e  um  pateo,  onde  se  guardavam  carroças,  e,  nas  tra< 
zeiras,  um  prédio  queimado,  que  a  Camará  Mun^ipal 
demoia  para  abrir  a  calçada  da  Mouraria.  Anterior- 
mente á  demolição,  realisava-se  um  arrayal  annual  (com 
suas  boliuheiras,  queijadeiras  e  boUchèiras)  no  espaço 
comprehendido  entre  o  prédio  e  a  rua  dos  Cavalleiros1. 
A'  esquerda,  ficava  a  Carreirinha  do  Soccorro,  u'esta 
um  chafariz  e  defronte  d'elle  a  casa  em  que  se  estabe- 
leceu, muitos  annos  depois,  a  popularíssima  tasca  do 
João  do  Grão,  na  qual  se  manipulava  o  appettitoso 
prato  de  desfeita*.  Estebaiuqueiro  fora  soldado  da  mu- 
nicipal, mas,  havendo  emprestado  o  fardamento  para 
uma  mulher  se  mascarar  no  entrudo,,  expulsaram-n  o 

1  Vendiam-se  então  muito  as  bolachinhas  de  erva  doce,  em 
grande  parte  fabricadas  na  Mouraria  e  visinhanças. 

2  Citaremos  mais  duns  tabernas,  em  que  se  cosinhava  o  suc- 
rulento  prato  de  desfeita:  a  do  José  do  Borralho,  ao  Campo  de 
SanfAnna,  na  esquina  da  rua  do  Moinho  de  Vento,  e  a  da  Ma- 
rianna  do  grão,  muito  antiga,  defronte  do  chafariz  da  Espe- 
rança. 


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48  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

da  guarda,  foi  eslabelecer-se  com  a  tabernoria  e  mor- 
reu em  1883  ou  1884,  deixando  fortuna. 

A  rua  Nova  da  Palma  terminava  na  rua  de  S.  Vi- 
cente, á  Guia,  onde  formava  um  largosinho.  Junto  a 
esta  ultima  rua  ficava  a  ermida  da  Guia,  com  a  frente 
virada  ao  Sul,  tendo  a  um  lado  uma  fabrica  de  vellas 
de  cebo  e  ao  outro  lado  uma  logita  de  chapéus.  De- 
fronte, fazendo  esquina  para  o  largo  do  Jogo  da  Pélla 
ou  de  S.  Vicente,  á  Guia,  e  para  o  largo  dos  Canos, 
era  a  taberna  do  Carreira,  e  defronte  da  rua  das  Ata- 
fonas estava  a  taberna  do  José  Avelino,  onde  ia  apa- 
nhar a  sua  raoafa  o  Angelo  Cardona,  dentista  e  bar- 
beiro sangrador  no  sitio  *.  Por  detraz  da  ermida  fica- 
va a  horta  das  Atafonas,  que  se  prolongava  até  á  egreja 
do  Soccorro.  A  horta  pertencia  a  um  velho  chamado  o 
Tio  Francisco  ou  o  Francisco  da  horta,  possuia  urp 
tanque  de  lavadeiras,  um  poço  com  sua  nora  e  jogos 
de  malha  e  de  bola.  Era  frequentadissima  pela  gente 
do  sitio.  Ahi  se  empinavam  os  copazios  do  tinto  e  se 
guitarreava  para  matar  tristezas,  e  ahi  se  fazia  annnal- 
mente  um  arrayal.  Pegado  á  ermida  da  Guia,  e  jà  na 
rua  de  S.  Vicente,  á  Gaia,  estava  uma  fontesinha  com 


1  Angelo  Cardona^  folhetins  de  Gomes  de  Amorim  no  Diá- 
rio de  Noticias  de  9,  10,  11  e  13  de  Setembro  de  1872. 

Gomes  de  Amorim  diz  que  a  taberna  do  José  Avelino  foi  a 
primeira  onde  se  vendeu  vinho  a  quatro  vinténs  a  canada  no 
tempo  da  Maria  da,  Fonte.  Sabemos  de  outra  onde  então  se  che- 
gou a  vender  vinho  a  60  réis  a  canada.  Foi  na  taberna  do  Fe- 
lippe  do  Outeiro  na  rua  dos  Cavalleiros,  106  e  108.  Este  homem 
era  almocreve  e  conseguira  prender  na  estrada  um  correio  que 
sahira  de  Lisboa  para  o  Porto  com  a  noticia  da  partida  do  du- 
que da  Terceira.  Em  paga  (Veste  serviço,  o  Costa  Cabral  deu- 
lhe  um  passe  para  entrar  diariamente  pelas  barreiras  de  Lisboa 
com  três  machos  carregados  de  odres  de  vinho,  isento  de  direi- 
tos. Mas  elle  illudia  o  fisco,  entrando  por  diversas  portas  da  ci- 
dade no  mesmo  dia. 


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D.  JOSÉ  DE   ALMADA  E  LENCASTRE 
(Distincto  amador  de  fado) 


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•  .    c  •         • 


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Historia  do  Fado  51 

seu  tanque  em  forma  de  concha.  Na  Carreirinha  do 
Soccorro— que  ligava  a  Mouraria  á  rua  de  S.  Lazaro 
—  havia  um  portão  de  ferro,  que  dava  accesso  á  quinta 
do  Brandão  (1.°  barão  da  Folgosa)  4,  a  qual  se  esten- 
dia atè  ao  Desterro,  sendo  a  parte  da  actual  rua  da 
Palma  occupada  por  um  pomar  de  laranjeiras.  Defronte 
da  egreja  do  Soccorro  encontrava-se  o  pateo  do  Porci- 
les,  tendo  uma  bomba  para  tirar  agua  ao  centro.  E  da 
travessa  do  Desterro  até  ao  largo  do  Tntendente  exis- 
tiam uns  quintalejos  ou  pateos  e  barracas,  pertencen- 
tes a  D.  M.  Guimarães  e  á  Casa  Pia  (senhora  do  do- 
mínio directo),  cuja  expropriação  serealisouem  18592. 
Parte  dos  terrenos  estavaarrendada  ao  Lamego  da  fa- 
brica de  louça.  Na  mesma  data  se  expropriaram  dois 
prédios  no  começo  da  rua  Nova  da  Palma— á  esquina 
da  rua  Nova  do  Amparo  e  defronte  de  S.  Domingos 
— ,adquirindo  a  rua  muito  maior  largura. 

Quando  se  abriu  a  rua  Nova  da  Palma,  a  imagem* 
da  Senhora  da  Guia,  que  estava  na  ermida  d'esta  in- 
vocação, mudou-se  para  a  ermida  da  Mouraria,  que, 
desde  então,  tomou  o  nome  de  ermida  da  Guia. 

Tal  era  a  disposição  lopographica  da  Mouraria  e  suas 
visinhanças  no  momento  em  que  a  dfecantada  Severa 
assentou  arrayaes  n'aquelle  bairro  portuguez  velho  e 
relho. 

A  Barbuda,  mãe  da  Severa,  era  mulher  de  faca  na 
liga,  cabellinho  na  venta  e  lingua  de  prata,  uma  fadis- 


1  O  1.°  barão  da  Folgosa,  Jeronymo  de  Almeida  Brandão  e 
Souea,  morava  do  pateo  do  Porciles,  fronteiro  á  egreja  do  Soc- 
corro. Fora  capellista  no  respectivo  arruamento.  Seu  pae  tam- 
bém fora  capellista,  e  morreu  victima  do  seu  amor  á  liberdade, 
na  cadeia  do  Limoeiro. 

2  A  primeira  proposta  camarária  para  a  abertura  da  rua  No- 
va da  Falma  fez  se  em  1852.  £  a  proposta  para  a  abertura  do 
lanço  do  Desterro  ao  Intendente  é  de  1854. 


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52  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

tona  que  podia  pedir  meças  ás  mais  decididas,  trigueira 
e  mal  encarada -um  estafermo.  As  barbaças  davam-lhe 
uns  ares  suspeitosos,  porque  lá  diz  o  velho  adagio : 
a  picaro  descalço,  a  homem  callado  e  a  mulher  barba- 
da, não  dês  pousada.  Mas  sua  filha— e  aqui  temos  de 
corrigir  novamente  a  lenda  — era  um  typo  agradável, 
insinuante, uma  rapariga  alta, bonita,  clara,  graciosa,bem 
feita  e  bem  posta,  com  olhos  peninsulares  que  eram 
dois  abysmos  negros  cheios  das  vertigens  do  infinito. 
Cantava  e  batia  o  fado  como  um  fadista.  Também  fu- 
mava, embora,  então,  as  mulheres  da  sua  laia  pouco 
fumassem  em  publico  e  á  porta,  onde  ainda  se  não 
usavam  as  meias  portinh-as  da  actualidade. 

A  Barbuda  tinha  por  amante  um  homem  que  per- 
tencia ao  batalhão  da  guarda-nacional  chamado  do  João- 
sinho.  A's  vezes,  vestia  o  fardamento  do  amante  e  vi- 
nha pass2iar  para  a  rua  Suja,  conforme  nos  contou  um 
contemporâneo,  que  ainda  vive  na  rua  do  João  do  Ou- 
teiro e  que  foi  visinho  da  Severa. 

Maria  Severa  habitou  duas  ca^as  n'aquelle  sitio:  a  loja 
da  rua  do  Gapellão  n.°  36,  moderno,  á  esquina  do  becco 
do  Forno,  e  um  primeiro  andar  da  rua  da  Amendoeira, 
n'um  prédio  que  pertencia  ao  conde  de  Vimioso,  e  de 
que  ella  nunca  pagou  renda.  Este  prédio  arruinou-se, 
cahiu  e  foi  substituído  por  outro,  cuja  poria  de  escada 
tem  o  n.°  6,  moderno,  e, sobre  ella,  ainda  se  conservam 
os  primilivos  azulejos.tendo  uma  imagem  com  a  legenda: 
Toda  sois  formosa,  Maria.  1777.  N'esta  ultima  casa, 
junto  com  a  Severa, habitou  a  tarasca  da  Barbuda,  que 
lá  continuou  a  residir,  quando  a  filha  se  mudou  para 
a  esquina  da  rua  do  Capellão  e  do  becco  do  Forno,  e 
que  também  nunca  pagou  renda  ao  senhorio.  No  mes- 
mo prédio  morava  a  Gaga,  amante  de  um  grande  ga- 
tuno, o  Grão  de  milho.  E,  pormenor  curioso,  a  Severa 
costumava  jogar  a  peira  com  um  rapazola  que  andava 
à  matroca,  o  Saquinho,  o  qual  apanhava  sempre  para 


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Historia  do  Fado  63 

o  seu  tabaco.  0  Saquinho  morreu  tysico  antes  de  fal- 
lecer  a  sua  parceira. l 

Mas  nem  só  na  jogo  da  pedra  se  notabilisou  esta 
valentona  de  alma  de  fogo  e  sangue  vulcânico.  Quando 
se  estabeleceram  as  visitas  da  policia  sanitária,  a  Se- 
vera tentou  oppor-se  á  innovaçâo,  e,  armando  se  de 
uma  acha  de  lenha,  amotinou  as  suas  companheiras  e 
espancou  os  encarregados  da  hygienica  tarefa,  obrigan- 
do o  medico,  um  marreco,  a  dar  ás  de  Villa-Diogo. 

Se  é  certo  que  Maria  Severa  se  evidenciava  pela 
fanfarronia  com  seu  travo  de  impudor,  é,  não  menos 
certo,  que  outras  collegas  suas  lhe  seguiram  o  exemplo 
e  deixaram  nome  nos  annaes  da  pimponice  da  Mou- 
raria. A  Maria  Romana,  a  Piedade,  a  Felicidade,  a  Joan- 
ninha  e  a  Umbelina  cega,  contemporâneas  da  Severa, 
foram  as  principaes  fadislonas  bairristas ;  mas  a  ter- 
ceira era  a  mais  bonita  de  todas,  uma  mocetona  de 
boa  pinta,  coisa  muito  papa-fina.  As  três  primeiras 
moravam  nas  lojas  á  entrada  da  rua  do  Capellão,  que 
se  conserva  tal  qual  estava  n'aquella  época.  A  pri- 
meira d'e)las  acabou  feita  contrabandista  no  sitio,  e  a 
segunda  amancebou-se  com  o  Ritto,  empregado  na  ad- 
ministração do  bairro,  que  legou  uns  poucos  de  prédios 
ao  filho.  A  Umbelina  cega,  a  mais  antiga,  uma  desor- 
deira maior  de  marca,  já  ai  li  estava  no  tempo  dos 
Francezes,  quando  a  rua  do  Capellão  e  as  betôsgas 
circumvisinhas  eram  outros  tantos  covis  de  ladroes, 
onde  entravam  os  moleiros  com  os  seus  burros,  des- 
apparecendo  uns  e  outros  sem  haver  mais  nova  nem 
mandado  (Telles. 


1  A  garotada,  mais  ou  menos  taluda,  da  fieguezia  do  Soc- 
corro  tinha  por  vezo  reunir-se  em  bandos  no  'argo  da  Guia  e 
no  alto  da  calçada  do  Jogo  da  Pélla,  ccmbatendo-sc  mutuamen 
te  á  pedrada. 


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54  Empreza  da  Hutoria  de  Portugal 

A  estas  Damas  das  Camélias  *  baixamente  cotadas 
na  Bolsa  dos  amores  fáceis  seguiam-se  outras  raccro- 
cheuses  notáveis  por  se  esmaltarem  de  todas  as  taras 
da  meretrização,  por  viverem  na  miséria  pouco  odorí- 
fera dos  amores  fadistas,  e  cujos  nomes  fulguram  na 
chronica  dissoluta  local.  Vinha  em  primeiro  logar  a 
Gertrudes  preta,  habitante  da  rua  do  Capelíão,  a  quem 
faltava  um  olho,  que  um  velho  lhe  tirou  com  uma  so- 
vella  por  ella  o  ter  insultado.  Esta  preta— uma  relíquia 
da  velha  Mouraria  —  passou  a  usar  uma  palia  sobre  o 
olho,  motivo  por  que  lhe  chamavam  a  preta  da  palia, 
e  morreu  de  edade  avançada.  Depois  d'ella,  vinham  a 
Maria  Justina,  a  Maria  Madeira,  a  Bayonna  e  a  Maria 
da  Silva,  que  degolou  outra  por  causa  de  upa  soldado 
da  guarda  municipal.  A  ferida  ainda  conseguiu  ir,  es- 
correndo sangue,  até  á  casa  do  regedor,  merceeiro 
na  esquina  do  largo  do  Terreirinho  e  da  rua  da 
Oliveira  (hoje  rua  do  Terreirinho).  A  aggressora  foi 
desterrada  para  Castro-Marim.  Eram  aquellas  as  estrei- 
tas de  primeira  grandeza,  que  gravitavam  em  torno 
d'esse  sol  da  bohemia  errabunda  -a  Severa.  A  Rosa 
Capacheira  (ou  Felishella)  e  sua  irmã,  a  Cochicha,  fo- 
ram posteriores  a  1850,  assim  como  posteriores  as 
três  manas  Can-cans,  ornamentos  pifios  do  Baile  Nacio- 


1  A  Dama  das  Camélias  não  é  uma  simples  ficção  litteriria 
Félicien  Mallefille,  que  foi  cônsul  de  França  em  Lisboa  de  1848 
a  lMy  e  amigo  intimo  de  Bernardino  Martins,  contava  que  co- 
nhecera pessoalmente  Maria  Dupicseis — a  romântica  Margarida 
Gautier  —  e  que  assistira  á  ceia,  em  que,  depois  de  um  baile  de 
mascaras,  Armand  Duval  fora  apiesentado  á  celebre  sovpeuse, 
mais  tarde  sublimada  pela  sua  resppitabilidade  tardia  de  aman- 
te legendaria.  E  ahi  iniciou  então  o  seu  roman  de  coeur  a  alta 
mundana,  soberbamente  rutilante  como  aquella  Aspasia,  que 
espalhava  o  oiro  do  seu  sorriso  sobre  a  pbilosophia  platónica. 

O  Lima  da  Cardiera,  que  foi  um  pandego  ultra-perdulano, 
também  conheceu  a  Dama  das  Camélias  em  Paris. 


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Historia  do  Fado  65 

nal,  á  Gaia ',  flores  que  desbotoavam  á  ourela  das  ester- 
queiras da  prostituição. 

E  porque  estas  lorettes  de  bas-étage  teem  seu  logar 
na  chronica  lisboeta  de  hontem,  parece-nos  não  ser  fo- 
ra de  propósito  descrever-lhes  a  toilette.  As  fadistola- 
tras  usavam  umas  saias  de  grande  roda,  sobre  o  curto, 
muito  engommadas  e  fazendo  extraordinário  rnge-ruge, 
saias  que  se  pegavam  a  um  roupão  (conforme  ellas  o 
denominavam)  abotoado  adiante  2.  Para  as  saias,  pre- 
feriam a  chita  côr  de  rosa.  Usavam  tamancos  do  Por- 
to, sapatos  de  entrada  abaixo  ou  sapatos  do  salto 
baixo  e  com  fitas  cruzadas  nas  pernas.  O  penteado  era 
em  bandós,  com  as  tranças  enroladas,  sobre  as  quaes 
espetavam  um  alto  pente  de  tartaruga  ordinária.  Às 
mais  puxadas  á  substancia,  as  mais  tafulas,  traziam 
capote  azul  e  lenço  de  cambraia.  Na  quaresma,  porém, 
todas  indislinctamente  usavam  capote.  Às  que  o  não 
tinham,  alugavam  n'o  por  um  caiado  ou  um  pinto  3. 


1  O  Baile  Nacional,  na  rua  de  S.*  Vicente  á  Guia,  n.°  9, 
inaugurou-se  no  domingo,  3  de  Novembro  de  1850  Os  bailes 
começavam  ás  9  e  terminavam  ás  2  horas  da  noite  O  dono  do 
botequim  era  o  Lobo  Caterraite,  que  tinha  uma  filha  lindissi- 
ma  e  uma  loja  de  penhores  e  cautellas  no  primeiro  quarteirão 
da  rua  do  Oiro,  loja  chamada  a  Califórnia 

O  Baile  Nacional  foi  o  primeiro  baile  lisboeta,  em  que  se 
dansou  o  ccni-can.  E  um  rapaz  francez,  chamado  Pinaud,  foi 
o  mais  notável  dos  seus  cancanistas. 

*  De  1837  a  lfc39,  as  senhoras  do  tom  usaram  uns  vestidos 
de  passeio  a  que  chamavam  roupões.  Tanto  estes  como  os  casei- 
ros (robes  de  chambre)  confeccionavam -Be  de  gorgorão  da  Chi- 
na, de  cassa  de  lã  com  desenhos  árabes,  de  cazemira  franceza 
lavrada  sobre  fundo  azul,  de  seda  estampada  da  índia,  de  Pa- 
pyrus-lilaz,  de  cassa  com  desenhos  chinezes  côr  de  café,  áegros 
de  Tours,  de  cachemiriana  estampada,  etc.A  condessa  de  Farro- 
bo  foi  a  primeira  dama,  que  usou  roupões  caseiros  de  setim 
preto. 

3  No  calão  antigo,  u*n  pinto  (4r0  re.)  chamava -se  um  caia- 
do, uma  moeda  de  doze  vinténs  uma  cravélla  de  doze,  uma  moe- 


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ô6  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

Indicaremos  agora  os  principaes  fadistas  da  rua  do 
Capellão  do  tempo  da  Severa,  isto  é,  os  que  repartiam 
a  vida  entre  o  fadário  das  baiucas,  a  intimidade  tépi- 
da das  mancebias  com  as  marafonas  e  a  residência  tem- 
porária na  cadeia  ou  no  chelindrò.  O  Epiphanio  Mulato 
era  um  rapaz  de  altura  regular  e  reforçado,  têzo  como 
poucos  -  um  verdasca.  Mas  estava  se  nas  tintas  que  as 
patrulhas  lhe  deitassem  as  unhas. ..  Isso  é  que  nen- 
tes!. . .  Pirava-se  o  um  abrir  e  fechar  de  olhos.  O  Epi- 
phanio Mulato  fabricava  marcas  para  calças,  isto  é,  ex- 
ercia o  officio  de  torneiro  de  botões.  Mais  tarde,  mu- 
dou se  para  Alfama,  e  ahi  morreu  feito  descarregador 
de  navios.  O  Justiniano,  torneiro  de  metal,  era  um 
homem  grosso,  muito  atrevido,  um  espirra-canivetes,  e 
andava  sempre  de  cacete  em  punho.  Caceteava  que  era 
uma  belleza  e  repontava  como  um  refilâo.  O  Manuel 
Saragoça,  que  esteve  em  Africa,  era  um  faquista  de 
primeira  plana.  Morreu  em  1847  ou  1848  com  qua- 
renta e  cinco  annos  de  edade.  O  José  Nabo,  serralhei- 
ro, era  um  latagão,  um  fadista  de  navalha  e  cacete, 
um  roncador  com  farofla.  O  Raphael  Serralhàro  e  o 
Joaquim  Nunes  eram  más  rezes,  dois  patiloes  de  se 
lhes  tirar  o  chapéo.  O  Grillo,  criado  do  fuuileiro  Cida- 
de, formava  hombro  a  hombro  dos  mais  possantes.  O 
Perico,  hespanhol  do  tempo  da  Severa,  foi  morto  ás 
Portas  de  Santo  Antão  n'um  domingo,  em  que.  montado 
n'um  burro,  voltava  da  feira  do  Campo- Grande1. 


da  de  seis  vinténs  uma  cravélla  de  seis,  uma  moeda  de  cinco 
tostões  uma  carinha  cu  uma  coroa,  um  pataco  um  maluco  ou  um 
malaco  ou  um  bronze,  um  vintém  uma  cheia,  dez  réis  lépes,  cin- 
co réis  guines. 

1  No  Bairro- Alto  notavam  se  o  fadista  Pau  de  Ferro,  citado 
por  Teixeira  de  Vasconcellos  nos  Papeis  Velhos^  e  o  João  Ar- 
raya,  serralheiro  e  filho  de  um  sapateiro  da  rua  do  Norte,  á  es- 
quina da  travessa  do  Poço.  Frequentava  uma  tabernoria,  onde 
se  reuniam  fadistas  e  bandurrilhas.  Um  tenente  da  municipal, 


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Historia  do  Fado  57 

No  fempo  da  Severa,  havia  emulação  entre  os  fadis- 
tas da  Mouraria  a  os  do  Bairro-Alto.  Varias  vezes, 
amaltados,  se  bateram  á  valentona,  com  unhas  e  den- 
tes, mas  os  primeiros  chimpavam  sempre  nos  segun- 
dos, applicavam-lhes  tundas  de  metter  os  tampos  dentro! 

Posteriormente  á  Severa,  appareceram  dois  fa- 
distas de  alto  lá  com  elles:  o  Duarte  Perico, 
mariola  muito  turbulento,  que  morreu  degredado  por 
ser  desertor  de  artilheria,  e  o  Tamanqueiro,  gatuno 
que  jogava  a  encarnadinha.  Um  valente  dos  quatro 
costados  era  o  Preto  da  Tia  Leocadia,  filho  da  preta 
Leocadia,  e  irmão  da  Gertrudes,  assadora  de  cistanhas 
á  porta  da  taberna  em  que  hoje  está  o  Anadia,  na  rua 
de  S.  Lazaro.  Por  cima  d'esta  taberna  morava,  n'esse 
tempo,  o  conde  de  Vimioso  em  concubinato  com  a  ci- 
gana Joanna,  irmã  do  cavalíeiro  Bettencourt.  O  Preto 
da  Tia  Leocadia  exercia  a  profissão  de  magarefe  e  com-' 
mandava  as  troupes  de  matulões  e  garotos  apedrejado- 
res,  que  se  reuniam  nas  terras  do  Monte.  E,  entre  1860 
e  1875,  evidenciaram-se  cinco  fadistas  na  Mouraria:  o 
João  das  gallinhas,  o  Piolho,  o  Manuel  Hespanho),  o  Jo- 
sé do  Fogo  e  o  Chico  de  S.  Christovão. 

Eram  aquelles  bandarras  picões  e  outros  quejandos, 
que  dominavam  discricionariamenle  nas  ruellas  som- 
brias do  bairro  e  que  dictavam  a  lei  n'essas  sentinas 
do  vicio,  onde,  ao  contiario  do  que  dizia  Moliére,  não 
podia  haver  de  V  amour  sans  scandale  el  du  plaisir 
sans  peur. 


que  andava  de  ronda,  entrou  alli  uma  noite  e  coireu  todos  a 
chicote.  O  Arraya^  que  pertencia  ao  numero,  foi  <  speral-o  para 
o  largo  de  $.  Roque  e,  arrancando  a  muleta  a  um  coxo,  que  ahi 
estacionava  habitualmente,  rachou  a  cabeça  ao  guita  desman- 
cha-prazeree. 


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58  Ewprezxi  da  Historia  de  Portugal 

A  Mouraria  já  era  um  ponto  marcado  nas  cartas  da 
geographia  amorosa  em  1755,  e  já  gozava  de  uma  re- 
putação horripilante  em  epochas  muito  anteriores  á  dá 
Severa> 

No  século  xvm,  indicavam-se  os  seguintes  locaes 
como  coiós  das  amoureuses  pelintras:  a  Bilesga,  Sete 
Cotovellos,  Romulares,  Boa  Vista,  rua  dos  Mastros,  Ma- 
dragôa,  beccos  de  Alfama,  rua  dos  Cavalleiros  o  Poço 
do  Borratem. 4  Depois,  afamaram-se  pelo  mesmo  moti- 
vo: O  Bairro- Alto,  a  Cotovia  e  as  Fontainhas2. 

No  tempo  dos  Francezes,  o  Intendente  de  Policia 
Lagarde  mandou  sahir  as  meretrizes  das  ruas  Suja,  da. 
Amendoeira,  da  Mouraria  e  do  Arco  do  Soccorro.  Em 
1811,  o  agente  de  policia  secreta  J  F.  F.  participava 
que  na  rua  da  Mouraria,  n.08  72  e  73,  havia  o  café  do 
António  Archeiro,  que  tinha  batota  no  primeiro  andar 
por  cima  da  loja,  onde  se  jogavam  jogos  de  parada  for- 
tes, e  qua  lá  iam  entre  outros,  um  malsim  chamado 
António  CMcolateiro,  o  cadete  Martins  que  fera  do  10, 


1  A  conta  que  o  Intendente  PinaManique  expediu  aos  Juizes 
dos  Bairros  em  27  de  Abril  de  1781,  ordenava  que  fossem  pre- 
sas as  meretrizes  que  passeassem  com  escândalo  publico,  epro- 
hibia  lhes  que  frequentassem  as  lojas  de  bebidas  e  as  tabernas. 

2  Em  1795,  houve  umas  mulheres  fáceis  da  calçada  do  Car- 
mo, as  Cadeireiras,  que  deram  que  falar  de  si.  (>  Pina  Manique 
mandou- as  prende/  por  Pedro  Duarte  da  Silva  e  recolher  na 
Casa  Pia,  no  castello  de  S.  Jorge.  (Bibl.  Nac  de  Lisboa  Fundo 
antigo).  Similhante  medida  coerciva,  levava  o  poeta  lascivo  An- 
tónio Lobo  de  Carvalho  (o  Lobo  da  Madragôa)  a  dizer  : 

Mas  n&o  suecede  já  como  algum  dia, 
Qu'o  Manique  a  mais  prave  a  mais  rascôa, 
Emquanto  se  não  casa  ou  s^  apregoa, 
Vae  batendo  com  todas  na  Obra- Pia. 

Bocage  refere-se  nas  Poesias  eróticas  e  burlescas  a  algumas 
bonejas  do  seu  tempo  :  a  Coveira,  a  Santareno;  algnacia  China 
e  a  Fclicia  de  Chaté. 


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Historia  do  Fado  69 

um  Cabral  procurador  «e  outros  que  falavam  contra  o 
governo  e  a  policia»  *. 

Em  consequência  de  uma  rusga  em  1823,  dizia  outro 
agente  da  secreta:— «Tem-se  ouvido  algumas  conversa- 
ções satisfatórias,  relativas  a  umas  prisões  que  se  fize- 
ram pelo_s  sítios  da  Mouraria,  rua  do  Capellão,  calçada 
de  SanfÃnna,  por  suspeitos,  ladrões» 2. 

Em  1820,  vivia  na  rua  das  Tendas  uma  tal  Anna 
Rilta,  desordeira  insupportavel;  e,  em  1826,  morava  na 
rua  da  Guia  uma  loureira  piranga,  a  Anna  dos  Santos, 
que  grangeou  celebridade  pela  sua  desenvoltura  nas 
baralhas.  Existia  o  botequim  do  Maneta,  no  largo  do 
Soccorro,  notado  valhacouto  de  baldeiros  perigosissi- 
'  mos 3. 

Em  1820,  apezar  de  já  existir  uma  guarda  de  Policia 
na  Mouraria,  repeliam-se  as  desordens  á  navalha  e  a 
cacete  —  tudo  por  amor  do  Amor— entre  marujos,  sol- 
dados e  paisanos.  N'uma  noite  de  Janeiro,  esfaquearam 
um  gallego  perto  do  oratório  ou  nicho  de  Santo  Antó- 
nio, defrontante  á  actual  ermida  da  Guia 4. 

As  tabernas  de  Maria  do  Nascimento  e  de  José  Mon- 
teiro, na  rua  da  Amendoeira,  a  da  Joanna  defronte  do 

1  Torre  do  Tombo.  Intendência  de  Policia.  Papeis  diversos. 
Maço  1. 

2  Idem,  Mafo  11. 

3  Torre  do  Tombo.  Intendência  de  Policia.  Avisos  e  Portarias, 
Maço  v8,  e  Corresp.  dos  ministros  dos  bairros,  Castello,  Maço  50 . 

4  Encontravam  se  mais  oratórios  por  aquclles  sities  e  visi- 
nhanças  Na  rua  do  João  do  Outeiro  havia  o  do  Senhor  Jesus 
do  Bomfim,  no  principio  da  Costa  do  Castello  o  de  N.  Senhora 
da  Piedade,  na  travessa  do  Forno,  aos  Anjos,  o  da  Senhora  do 
Resgate,  e  no  becco  dos  Captivos  armava, annualmente,  um  ora- 
tório a  Irmandade  da  Salvação  e  Piz.  (Intendência,  Livro  de 
lançar  os  requerimentos  das  partes.  L.  269-353).  Na  rua  dos  Ca- 
v aliei r os  havia  um  nicho  com  imagem,  demolido  em  1836,  e  no 
prédio  que  torneja  da  rua  do  Bemformoso  para  a  rua  da  Olivei- 
ra (hoje  do  TerreirinhoJ  estava  o  oratório  ou  Passo  do  Bemfor- 
moio.  ^  Visconde  de  Castilho.  Lisboa  Antiga,  vol.lll,  pag.54  ) 


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60  Empreza  da  Hhtoria  de  Portugal 

Coileginho,  a  do  Mendes  Coirtinlunno  largo  do  Terrei- 
rinho,  e  a  do  Migueis  no  largo  da  Mouraria,  eram  ou- 
tros tantos  centros  notórios  para  reunião  de  galdenas, 
de  sujeitos  sem  cilicio  nem  beneficio  e  de  patuscos  de 
profissão  vaga  ou  intermittente.  E  a  tasca  da  Rilla,  na 
rua  da  Amendoeira,  era  «coito  de  ladroes  e  malfeitores», 
assim  como  a  dona  «era  um  vivo  demónio»,  na  opinião 
da  policia. {  Uma  cantharidada  rua  do  Capellão,  a  Rosa 
Maria,  linha  um  amasio,  soldado  artilheiro,  que  se  es- 
condia n'uma  alcova  do  prostíbulo  sórdido  d'aquella  me- 
gera, para  atacar  e  roubar  os  pataus,  que  ousavam 
aventurar  se  alli.  De  resto,  este  processo  era  muito  se- 
guido pelos  que  viviam  á  custa  da  barba  longa,  pelos 
que  parasitavam  systematicamente— os  souteneurs.  Uma 
alcouceira  dá  rua  da  Guia,  a  impudente  Garapa,  zim- 
brava forle  nos  mais  valentes;  incjuiudo  o  seu  mance- 
bo, o  Cutrêlhas. 

Rivalisava  com  a  Joanna  Meia-Jòslóa  e  a  Bem  fica  da 
rua  da  Triste  Feia,  em  Alcântara,  local  onde  abunda- 
va a  frandulage2.  E,  nótula  frisante,  algumas  pôlhas 
da  Mouraria  manifestavam- se  constitucionaes.  Assim, 
duas  do  Paço  do  Bemformoso  foram  presas  por  esta- 
rem á  janella  a  trautear  o  hymno  constitucional.  3 

Transcorridos  dois  annos,  em  1832,  os  banzés  e  as 
discórdias  na  rua  da  Amendoeira  subiram  de  ponto. 
Nio  se  passava  um  só  dia,  que  não  se  servisse  aquelle 
prato  substancial  aos  amadores  do  género.  O  Corre- 
gedor do  bairro  do  Casteilo,  Mello  e  Vasconcellos, 
ofliciava  então  ao  Intendente  nos  termos  seguintes :  — 
« Esta  maldita  rua  da  Amendoeira  devia  ser  arrazada 
por  ser  o  theatro  de  quatro  ou  cinco  mortes  só  no 


1  Correspondências,  etc.  Maços  53  e  ôã. 

2  Correspondências,  etc.  Santa  Izabel,  Maço  y3. 

3  Idem,  Mouraria^  Maço  106. 


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Historia  do  Fado  61 

meu  tompo,  de  muitos  ferimentos  e  desordens  só  nos 
meus  dias,  por  mais  severas  providencias  que  eu  dê 
para  buscar  evitai  as  »  No  anno  immediaio,  o  Correge- 
dor mandou  rondar  melhor,  pelos  rondistas  ou  cabos 
de  vigia,  a  rua  da  Amendoeira,  mas  com  resultado 
quasi  nu  lio  4.  Todavia,  as  rondas  dos  chuços  devhm 
fazer-se  assiduamente,  porque  appareciam  arroladas 
umas  oitocentas  pessoas  destinadas  a  este  serviço  no 
bairro  da  Mouraria.  Os  diversos  commissarios  de  po- 
licia participavam  á  Intendência  os  reconhecimentos 
nocturnos  que  praticavam,  para.  o  que  faziam  pa- 
rar as  seges  e  os  transeuntes.  Certa  noite,  diziam  ha- 
ver reconhecido  o  conde  de  Mesquitella,  o  official  do 
gabinete  do  conde  de  Basto  e  o  juiz  de  Ajuda  e  Mina. 
N'outra  noite,  reconheceram  a  condessa  de  Basto,  que 
ia  na  sua  carruagem  a  quatro,  a  qual  ordenou  aos 
seus  creados  que  parassem,  e  aproveitara  o  ensejo 
para  louvar  muito  a  policia  do  bairro;  mas  que,  pouco 
depois,  um  cavalleiro  vestido  á  militar,  com  sobre- 
casaca, banda  e  chapéo  armado,  não  quizera  parar, 
nem  quando  se  lhe  intimou  da  parle  de  Sua  Magesta- 
de,  reconhecendo-se,  afinal,  que  era  o  major  Barrun- 
cho  da  terceira  brigada.  N'outra  noite  ainda,  fizeram 
parar  a  sege  do  ministro  da  Justiça,  que  reconhece- 
ram 2. 

Amores  passageiros,  caprichos  dos  sentidos,  syrnpa- 
thias  muitas  vezes  sujeitas  a  caução,  tudo  isso  derra- 
mava philtros  devoradores  nas  veias,  punha  os  cére- 
bros em  ebullição,  incendiava  a  carne  dos  rufiões  do 
tempo,  da  mesma  forma  que,  rodados  annos,  havia  de 

1  Corre8pondmcía8t  etc.  Maço  59. 
1  Correspondências  etc.  Mouraria.  Maço  110* 
Foram  as  nvdidus  policiaes  empregadas  pelo  regedor  Braga, 
que,  depois  de  1850.  principiaram  o  saneamento  moral  do  bair- 
ro da  Mouraria.  Entre  elias,  contou -se  o  estabelecimento  de  uma 
casa  da  guarda  de  cabos  de  policia  no  largo  do  Soccorro. 


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62  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

perturbar  os  sonhos  bacchicos  dos  fadistas,  sonhos  em 
que  a  imagem  da  Severa  passaria  como  o  phantasma 
do  Desejo,  irritante  e  fugaz.  E  a  narrativa  anecdotica, 
a  historia  em  migalhas,  os  detalhes  precisos  sobre  os 
bastidores  da  vida  da  Mouraria,  podiam  fornecer  mui- 
tos dramas  e  muitas  tragedias  á  litteratura  theatral, 
podiam  dar  muitos  capítulos  á  penna  voltivola  dos  ro- 
mancistas, podiam  subministrar  muitas  peripécias  ty- 
picas  aos  myopes  da  analyse.  * 

Mas  retomemos  á  Severa,  de  que  já  vamos  bastan- 
te affastados.  Antes  da  Severa  encetar  os  lendários 
amores  com  o  conde  de  Vimioso,  tivera  outros  com 
um  rapaz  do  sitio  da  Mouraria,  o  Chico  do  10,  assim 
alcunhado  por  ter  pertencido  ao  regimento  de  infante- 
ria  10.  A  Severa,  porém,  cambiou  os  amores  d'este 
barregueiro  pelos  de  outro.  Ut  unda  pérfida!  E  o  Chi- 
co do  10  sentiu  atear- se  a  chamma  do  ciúme  no  seu  pei- 
to escandecido  pela  paixão,  revoltou-se  contra  a  ban- 
carrota do  seu  ideal  e  a  decadência  do  seu  sonho,  e 
jurou  vendetta.  A  consequência  foi  ir,  certa  madrugada, 
esperar  o  rival  á  rua  do  Capellão  e  assassinai  o  ás  na- 
valhadas, correndo,  em  seguida,  a  lavar  o  instrumento  do 
crime  na  bica  do  chafariz  do  Soccorro.  E,  no  seu  espi- 
rito allucinado,  levantar  se  hia  a  figura  da  Severa, 
como  uma  estatua  dolorosa  em  face  do  pallido  trium- 
pho  da  aurora,  que  derramava  ternuras  envolventes!... 
O  Chico  do  10  foi  expiar  a  culpa  nas  costas  de  Africa, 
e  lá  morreu  ;  e  o  acto  criminoso  apagou-se  na  névoa 
do  Passado,  e,  bem  depressa,  se  reduziu  a  uma  lon- 
giqua  recordação  na  memoria  local. 

1  O  sr.  visconde  de  Castilho  escrevia  em  1884  acerca  da 
Mouraria:  a  Briga  e  canta;  risca,  atira  o  punhal  e  empunha  a 
bania  truanesca.  Brigões  e  cantadeiros  estão  alli  na  sua  casa.» 
{Lisboa  Antiga,  vol.  III,  pag.  51).  Isto  já  se  não  podia  escrever 
actualmente,  porque  a  Mouraria  é  hoje,  apenas,  uma  expressão 
geographica.  A  Mouraria  zaragateira  passou  á  historia. 


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Historia  do  Fado  63 

A  Severa  conheceu,  immediatamente  ao  crime,  o 
conde  de  Vimioso,  que  a  buscou,  attrahido-como  um 
iman— pela  fama  que  ella  disfructava  de  tratar  por  tu 
as  musas  fáceis,  de  ter  um  palavreado  de  muito  pico 
e  de  cantar,  inegualavelmente,  ao  som  namorado  da 
soluçante  guitarra.  Foi  o  amor  pelas  guitarradas  e  pelo 
doce  canto -em  que  se  bordam  os  themas  ascendentes 
do  Desejo—,  que  levou  o  conde  de  Vimioso  a  procurar 
a  Severa,  porque  elle  não  tocava,  não  cantava  e  nao 
tinha  o  minimo  gosto  para  a  musica.  *  A  Severa  can- 
tava e  batia  o  fado  na  taberna  da  Rosaria  dos  óculos, 
que  irava  no  topo  da  rua  do  Capellão,  na  chamada 
casa  de  pedra.  A  Rosaria  -uma  quarentona  frescalhota 
e  pandega— usava  óculos  e  tocava  banza  rasoavelmen- 
te.  No  largo  (a  que  popularmente  chamavam  o  alto  da 
Caganita),  defronte  do  becco  dos  Três  Engenhos,  ha- 
via outra  bodega  de  outra  Joanna,  amistada  com  o  fu- 
nileiro  Cidade. 

O  conde  de  Vimioso  vinha,  muitas  vezes,  buscar  a 
Severa  de  sege.  Frequentemente  o  acompanhava  o  Sou- 
za do  Casacão  —  então  sargento  de  sapadores-,  que 
tinha  uma  voz  maviosa,  improvisava  com  facilidade, 
tocava  eximiamente  guitarra  e  era  auctor  dos  versos 
que  aquella  concerteuse  fadista  cantava,  assim  como 
passa  por  pae,  não  sabemos  se  putativo,  do  jado  da 
Severa.  Elles  apeavam-se  á  entrada  da  rua  do  Capel- 
lão, e  iam  procurai  a  a  sua  casa  ou  á  taberna  da  Ro- 


1  O  marquez  de  Valença,  pae  do  conde  de  Vimioso,  era  um 
pianista  notabilissimo.  A  duqueza  de  Abrantes,  mulher  do  ge- 
neral Junot,  descreve  o  asBim  :  «O  marquez  de  Valença,  cujo 
nascimento  é  tâo  illustre  como  o  do  conde  de  Sabugal,  era  um 
homem  agradável  por  seu  espirito  e  seu  encanto,  e  muito  no- 
tável talento  de  pianista.  Eia  novo  também,  mas  muito  feio.» 
fSouvenirs  d'vne  ambassade  en  Espagne  et  en  Portugal,  vol  II,  pag. 
254). 


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64  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

saria  dos  ocxdos  Aqui,  na  atmosphera  pesada  de  calor, 
opaca  de  fumo,  vibiante  de  risos,  Maria  Severa  aparava 
nos  rijos  fados  batidos  ou  cantava  com  subtil  virtuo- 
sismo, com  voz  lenta  e  molle  como  uma  caricia  exte- 
nuada, com  o  perfeitíssimo  chie  grulha  da  fadistice, 
emquanto  o  fado  expirava  na  gloria  morrenle  dos  ac- 
cordes  arrastados,  os  effluvios  da  embriaguez  andavam 
no  ar,  os  corações  tremiam  n'um  sopro  de  alegria  e  os 
ouvintes  sentiam  como  que  um  inceudio  a  percorrel-os 
dos  calcanhares  á  nuca.  Aqui,  também  a  Severa  pa- 
gava habitualmente  o  vinho  —  bebida  que  apreciava 
sobremaneira -a  todos  que  quizessem  emborcar  o  seu 
copázio  vermelhante  com  o  sangue  real  da  vinha,  e 
convivia  com  os  fadistas  pela  promiscuidade  do  cigarro 
e  do  meio  quartilho. 

De  vez  em  quando,  a  Severa  levantava  vôo  e  desap- 
parecia  da  rua  do  Capellão.  E'  que  o  conde  de  Vimioso 
a  obrigara  a  retirar- se  temporariamente  da  circulação. 
E  eslas  fugas  estavam  para  as  maravilhosas  aventuras 
romanescas  das  Lélias  e  das  Indianas  como  as  rimas 
de  Scarron  estavam  para  as  rimas  de  Virgílio. . . 

Durante  um  dos  taes  eclipses,  o  conde  de  Vimioso 
levou-a  para  uma  casa  da  rua  da  Bemposta,  casa  que 
foi  demolida  a  fim  deseacerescentar  a  Escola  do  Exerci- 
to, e  que  pegava  com  a  que  hoje  tem  o  numero  21.  Mo- 
rava na  ultima  jantlla,  correspondente  á  actual,  do  lado 
do  Sul.  N'este  tempo,  a  Severa  apresentava-sede  capote 
azul  —  a  grande  moda  —  e  vistoso  lenço  de  seda  na 
cabeça.  No  sitio,  muitos  lhe  arrastaram  a  aza,  mas  em 
vão,  porque  se  manteve  fiel  ao  conde  de  Vimioso. 
Quando  estava  aborrecida  do  fidalgo,  tornava  para  a 
Mouraria. 

O  aristocrata  não  leve  um  simples  capricho  epidér- 
mico por  essa  franduna  salaz,  por  esse  ouropel  fanado 


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CONDE  DE  ANADIA 
(Grande  amador  de  fado) 


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Historia  do  Fado  67 

que  se  atirava  para  os  bastidores  depois  do  espectá- 
culo. Gostou  deveras  dos  seus  beijos,  que  se  desfiavam 
em  collar  e  que  eram  como  que  um  preludio  de  gui- 
tarra para  os  accordes  ferozes  dos  abraços.  Afinal  de 
contas,  o  amor  tem  selecções,  que  nem  o  próprio  Bour- 
get— o  primeiro  plumitivo  galante  que  poz  um  espar- 
tilho de  setim  no  psyehologismo— lograria  explicar.  . 
O  conde  de  Vimioso  levou  a  Severa  á  toirada,  que 
o  marquez  de  Niza  offereceu  na  sua  quinta  da  Foz,  em 
Salvaterra,  pelo  S.  João  de  1845.  Foram  lidadores 
u'essa  toirada :  o  conde  de  Vimioso,  D.  João  de  Mene- 
zes, o  Cazuza,  Luiz  Roquette  (depois  barão  de  Salva- 
terra), José  Horta,  morgado  Cabral,  Lui'25  Pereira  Fpr- 
jaz  (famoso  pegador  e  inventor  da  pega  de  cernellia)^ 
Francisco  Zagallo,  o  Salles  Patuscão  e  Marciano  de 
Azevedo  (depois  redactor  do  Asmodeu).  O  conde  de  Vi- 
mioso e  a  Severa  metteram-se  n'um  fosso  da  quinta  e 
abi  estiveram  toda  a  noite  cantando  o  fado,  o  que  obri- 
gou muitos  convidados  a  não  pregarem  olho  só  para 
os  ouvir.  N'esta  corrida  de  toiros,  o  conde  de  Vimioso 
empregou  a  velha  arma  do  rojão  e  quebrou  sete  ro- 
jões. Certo  titular  já  fallecido,  e  que  concorreu,  não 
pouco,  com  as  suas  invencionices  atabalhoadas  para 
adensar  a  lenda  que  envolve  a  Severa,  dizia  que  ella 
presenteara  então  o  conde  de  Vimioso  com. . .  uma  co- 
roa de  alhos.  Mas  esta  anecdota  é  apocrypha  como  apo- 
crypho  é  quasi  tudo  o  que  elle  contava  da  Snvera,  que 
apenas  conhecera  por  tradição. 

0  conde  de  Vimioso  chegou  a  metter  a  Severa  no 
palácio  do  Campo-Grande,  onde  cantou  o  fado,  *  acom- 

1  Entre  as  quadras  attribuidas  ao  estro  da  Severa,  havia  as 
seguintes: 

A  Chicória  do  Sarmento, 
Que  bate  o  fado  tão  bem, 
Quando  «toureia»  o  Sedvem, 
Chora  de  contentamento. 


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68  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

panhada  á  banza  pelo  Roberto  Gamello  e  perante  esco- 
lhida concorrência  de  ouvintes,  entre  os  quaes  se  en- 
contravam: Augusto  Talone,  Frederico  Ferreira,  Antó- 
nio de  Serpa  Pimentel,  João  Blanco,  Miguel  Queriol, 
D.  Antónia  Galveias,  Roberto  Payant,  o  Cazuza  e  o  Fi- 
dié l.  Roberto  Camello  era  um  procurador,  que  mora- 
va em  Palhavã  e  que  tocava  guitarra  excelentemente. 

Maria  Severa  morreu,  segundo  papagueia  a  lenda, 
de  uma  indigestão  de  borrachos  regados  de  boa  pinga. 
Mais  uma  Tez,  porém,  somos  forçados  a  rectificar  a 
lenda.  A  Severa  adoeceu  na  sua  casa  da  rua  do  Capei- 
Ião,  á  esquina  do  becco  do  Forno,  e  foi  conduzida  ao 
hospital,  onde  se  finou  na  enxerga  de  uma  enfermaria 
especialista. 

E  essa  comborça  miserável,  que,  como  os  deuses 
e  os  conquistadores,  teve  os  seus  holocaustos,  acabou 
no  hospital,  porque  o  hospital  é  a  face  sombria  cTesse 
outro  Jano,  que  se  chama  -  a  prostituição !  Ao  tempo, 
já  o  conde  de  Vimioso  pozera  termo  aos  seus  amores 
com  essa  mulher,  em  que  a  graça  fadista  se  alliava 
á  energia  farfante  como  a  sombra  se  mistura  á  luz 
n'uma  bella  paizagem.  E  averiguámos  que,  em  1850, 
já  Maria  Severa  mergulhara  nos  abysmos  fuliginosos 
da  morte,  depois  de  ter  conquistado  os  loiros  enlamea- 

0'  D.  José  cavalleiro, 
Toma  sentido  na  bolla  ! 
Pode  fazer -te  em  patola 
Qualquer  fino  boi  matreiro  ! 

P'ra  mim,  o  supiemo  gozo 
E'  bater  o  fado  liró, 
£  vêr  combater  c'um  boi  só 
O  conde  do  Vimioso. 

1  Becordaçõe*  da  mocidade.  Artigo  do  O  Popular  de  7  do 
Abril  de  1901. 


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Historia  do  Fado  69 

dos  das  bacchanaes  pandilhas  e  de  se  ter  nimbado  com 
a  aureola  da  legenda  bordeleira.  Se  a  doirada  lyra  de 
Lamarline  cantou  Graziella  -  uma  cigarreira  napolitana 
e  o  primeiro  dos  seus  amores  litterarios,  se  o  plectro 
de  Musset  glorificou  Marion— o  gracioso  Jyrio  estiolan- 
dose  ao  sopro  brutal  da  luxuria,  se  Baudelaire  poeti- 
sou  Jeanne  Duval  —  a  fementida  mulata,  sjd  a  imagina- 
ção de  Alexandre  Dumas.  Filho,  romantisòu  Margarida 
Gautier— a  resplandecente  prostituta,  se  a  imaginativa 
de  Zola  sublimou  em  Nana  o  vicio  triumpbante  de  Blan- 
che  d'Antigny— a  imperial  cortezã,  a  phantasia  popu- 
lar teceu  uma  lenda  posthuma  da  Severa— a  zoina  la- 
trinaria  da  Mouraria.  E  a  poesia  fadista  continua  a  vo- 
litar,  como  fogos  fátuos,  como  pliosphorescencias  no- 
cturnas, em  torno  dos  amores  da  Severa  e  do  Vimioso, 
enterrados  ba  tão  dilatado  trech ). . . 

Por  morte  da  Severa,  sua  mãe,  a  Barbuda- que  en- 
tão devia  ter  uns  56  ou  58  annos  -  abandonou  a  casa 
da  rua  da  Amendoeira;,  que  passou  a  ser  occupada  por 
uma  amiga  da  Severa,  a  Maria  Tanoeira,  e  foi  morar 
para  o  pateo  do  Carrasco,  ao  Limoeiro,  onde  esteve 
alguns  annos,  vivendo  de  fazer  recados  aos  presos,  até 
que,  um  bello  dia,  desappareceu.  Os  gaiatos  do  sitio 
apepinavam-n'a  como  a  um  typo  digno  de  surriada,  um 
petisco,  e  chamav?m«lhe  a  Barbuda. 

Uma  contemporânea  da  Severa,  celebre  no  marlyro- 
logio  do  Bairro-Alto,  foi  a  Scarnichia  (vulgarmente  Es* 
carniche).  D.  Carlota  Scarnichia  pertencia  a  uma  famí- 
lia illuslre  e  tivera  uma  educação  primorosa ;  mas  a 
virgo  intacta,  victima  das  imaginações  do  seu  coração, 
mundifieou-se  e  entregou  se  á  brutalidade  anonyma  dos 
transeuntes.  Assentou  praça  entre  as  mundanas  de  rez- 
do-chão,  entre  as  Vénus  ambulantes,  converteu-se  n'um 
objecto  que  se  alugava,  por  tuta  e  meia,  á  hora  e  á  cor- 


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70  Ettpreza  da  Historia  de  Portugal 

rida.  A  família,  sciente  da  desgraça,  chegou  a  bolar  um 
annuncio  no  O  Grátis,  em  que  dizia:  —  «Tendo  appa- 
recido  em  Lisboa  uon  rapariga  com  o  appellido  de 
Searniehia,  declara-se  quo  não  pertence  a  similhanle 
família,  nem  mesmo  o  dito  appellido  é  o  seu» 4.  A 
Searniehia  tocava  piano  e  guitarra,  e  cantava  esplen- 
didamente o  fado.  Acabou  pobríssima  no  Cunhal  das 
Bollas,  á  porta  de  rua,  ella  que 

Nascera  n'um  berço  (Toiro 
E  não  teve  uma  mortalha, 

consoante  cantarola,  a  seu  respeito,  uma  personagem  de 
um  romance  de  Gamillo  Castello  Branco.  * 

Anteriormente  á  época  da  Searniehia  e  da  Severa, 
entre  1830  e  1840,  brilharam  de  tous  leurs  feux  duas 
estreitas  da  bohernia  doirada :  a  Antónia  e  a  Anna  Emí- 
lia Gaioso,  filhas,  não  de  um  brigadeiro  como  affirma- 
vam  alguns,  mas  do  Gaioso,  professor  de  musica.  A 
Antónia  morava  na  rua  Nova  do  Carmo,  defronte  da 
actual  loja  do  Margotteau,  e  teve  dois  renitentes  apai- 
xonados: um  Pinto,  janota  muito  rico,  que  tinha  cavai- 
los  seus,  e  o  José  Ramonda,  segundo  buxo  de  S.  Car- 
los. Morreu  desgraçada,  a  pedir  esmo! la  por  debaixo 
das  arcadas  das  secretarias  no  Terreiro  do  Paço.  A  An- 
na Emitia  Gaioso  morava  na  rua  Nova  do  Almada,  por 
cima  da  loja  do  conteiro  Batalha  Era  uma  linda  es- 
tampa de  mulher,  mais  formosa  ainda  que  a  irmã.  Te- 
ve por  amant  de  coeur  a  José  Carlos  Guimarães,  filho 
de  um  rico  negociante  de  trigos. 

Na  mesma  época,  brilharam  a  Chicória  e  a  Joaquina 
dos  Cordões— duas  proxenetas  de  meretrícia  memoria. 

1  O  Grátis  de  16  de  Outubro  de  1847. 

2  EtiMtbto  Macário,  pag.  51. 


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Historia  do  Fado  .  71 

A  Chicória  foi  citada  nos  jornaes.  Assim,  o  Chqveco  Li- 
beral de  íC  de  Seiembro  de  1829  dizia,  referindo  se 
ao  Padre  José  Agostinho  de  Macedo:-  «Embirrou  que 
quer  pôr  no  béque  (da  nau  Duque  de  Cadaval)  a  carranca 
da  Chicória,  em  honra  do  Senhor  Infante,  e  vá  lá  tirar- 
Ihe  isso  dõs  cascos».  A  Chicória  tinha  por  amante  ó 
Sarmento,  sargento  de  lanceiros  que  viera  com  D.  Pe- 
dro IV.  A  Joa  juina  dos  Cordões  era  uma  mulher  baixa 
e  gorda-  uma  pantufa. 

Não  nos  faremos  cargo  de  esmiuçar  agora  a  historia 
picara  das  filies  de  marbre.  das  aranhas  do  amor  mais 
conhecidas  n'aquelle  tempo  e  das  suas  immediatas  su- 
bstituías na  fama  prostibular,  porque  leríamos  de  des- 
cer até  IMJO,  islo  é,  até  ao  tem|  o  da  Torre  de  Mala- 
koff  e  do  Palais  Royal  (na  calçada  de  S.  Francisco),  da 
Maria  da  Conceição,  vulgo  Conceição  Capeílisla  (na  rua 
do  Crucifixo),  da  Amália  Bexigosa  (no  Arco  do  Bandei- 
ra), da  Belga,  da  Maria  da  Penha- uma  alcaiota  de  tom 
— ,  da  Maria  José  do  Galvão  —  uma  fadislila  que  se  vestia 
de  homem  e  ia  ás  esperas  de  toiros  ,  e  da  Traviata — 
uma  castelhana  bonita  e  frágil  como  todos  os  phantas- 
mas  das  íllusões  romanescas,  uma  jóia  cinzelada  pelas 
mãos  das  Graças,  uma  crealura  luminosamente  bella 
que  se  abarregou  com  obrazileiro  Cavalcanti  e  morreu 
cocolle  em  Paris. 

A  suecedanea  da  Severa,  como  locatária  do  coração 
do  conde  de  Vimioso,  é  que  foi  uma  cigana  lídima,  a 
Joanna,  irmã  do  cavalleiro  tauromachico  Diogo  Henri- 
que Bettencourt  *.  moradora  no  primeiro  andar  da  casa 
da  rua  de  S.  Lazaro,  onde  htje  está  a  taberna  do  Ana- 


1  Na  trovpc  de  companheiro3  de  Diogo  Henrique  Betten- 
court, coiitavam-8*»  o  Sousa  do  Casacâo  o  sapateiro  Ramos, 
amante  da  Conceição  CapeUMa,  o  valentão  Silveira  da  pêra,  o 
Marreco  do  café  Freitas  e  o  Frederico  de  Cavallaria. 


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72  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

dia.  A  immediata  inquilina  da  mesma  víscera  aristocrá- 
tica foi  a  Maria  José  Trigueirinlia  (que  morava  á  es- 
quina da  T: avessa  das  Salgadeiras,  perto  do  largo  do 
Mastro),  uma  crente  nos  sortilégios  da  bruxa  Gertru- 
des Guedelha,  a  pylhoniza  que  adivinhava  os  mais 
complexos  enigmas  da  vida.  Por  seu  turno,  o  compa- 
nheiro de  mocidade  do  Vimioso,  o  Sonsa  do  Casacão, 
amistou  se  com  a  D.  Maria  do  Sousa,  proxeneta  co- 
nhecida. A  irmã  do  cavalleiro  Bettencourt  locava  gui- 
tarra soffrivelmente,  o  que  aprendera  com  sua  mãe, 
guitarrista  correctíssima.  Ainda  hoje  vive  em  Évora. 

O  conde  de  Vimioso,  não  obstante  conviver,  por  na- 
tural inclinação,  com  gente  de  baixa  estofa,  com  ciga- 
nos e  alquiles,  manteve  sempre  a  impeccavel  linha  do 
gentil-homem,  o  inquebrantável  aprumo  do  fidalgote 
lha  rocha.  As  chalaça>,  as  puras  larachas  portuguezas, 
irrompiam-lhe  continuamente  dos  labins,  até  mesmo 
quando  estava  na  sua  cavallariça  do  Arco  do  Bandeira 
conversando  com  chalantes:  o  José  Christo,  o  António 
Christo,  o  Russo  Capinha,  o  Figueiredo  das  botas,  o 
António  H  'Spanhol,  o  José  da  Levaillant 4.  E  a  e.»ta  fei- 
ção capitalissima  do  sen  espirito  devia  elle  o  ser  feste- 
jado pelas  damas  nas  salas  com  a  mesma  sympalhia 
com  que  as  trincheiras  o  applaiidiam,  ao  vêl-o  caraco- 
lar impávido  na  arena  cheia  de  poeira  e  de  sol— essas 
duas  coisas  de  que  é  feita  a  gloria.  Porque  elle  immor- 
tatisou  se  como  um  cavalleiro  emérito,  toíreando  nas 


1 0  Conde  de  Vimioso  teve  uma  cocheira  oa  cavallariça  no  ter* 
ceiro  quarreirâo  do  Arco  do  Bandeira,  lado  do  Norte  Entre  as 
ca  allariças  destinadas  ao  alnguer  de  ca  vai  los,  contavam  se  es- 
tas: do  José  Gallego„no  Bairro- Alto,  do  José  Amador,  do  Luiz 
Velhinho,  na  Praça,  do  José  Bairto-Alto,  do  José  Snpateiro,  ao 
Poço  do  Borratem,  do  António  Santareno,  do  António  Hespa* 
nhol,  ao  Atco  do  Bandeira,  do  Manuel  Hespanhoi  e  do  Mouris  • 
ca,  pae. 


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Historia  do  Fado  7à 

loiradas  de  fidalgos  na  praça  do  Campo  de  SanfAnna, 
ao  lado  do  grande  picador  Joaquim  António  Victo  Mo- 
reira, de  D.  João  de  Menezes  e  do  Cazuza  *,  loiradas 
em  que  serviram  de  netos  o  Roberto  Camello  e  D.  Jo- 
sé Maria  de  Mendonça,  filho  natural  do  primeiro  mar- 
quez  de  Loulé,  antigo  camarista  de  D.  João  VI2  e  of 
íkia!  de  lanceiros,  um  doidivanas  que  casou  com  uma 
morgadiía  de  Bragança  e  morreu  alcoólico. 

Vem  a  pêlo  narrar  um  caso  suecedido  n'uma  loira- 
rada,  em  que  tomou  parte  o  conde  de  Vimioso,  e  me- 
diante o  qual  se  prova  que  a  infanla  D.  Anna  de  Je- 
sus Maria  nem  á  mão  de  Deus  Padre  aturava  os  Se- 
tembristas. Em  4  de  Julho  de  1853,  deu  se  uma  cor- 
rida de  toiros  n'um  paleo  da  Porcalhota,  a  fim  de 
commemorar  o  anniversario  do  regresso  de  D.  João 
VI  a  Portugal.  Toirearam  os  condes  de  Vimioso  e  da 
Atalaya,  o  Cazuza  e  os  filhos  do  conde-barão  de  Alvi- 
to. Os  promotores  da  corrida  convidaram  a  infanta  D. 
Anna   para  presidir,  convite  que  acceitou,  com  a  cón- 


1  D.  José  de  Almeida  Mello  e  Castro,  o  Cazuza,  era  filho  na- 
tural do  conde  das  Galveias  e  nascera  no  Brasil,  de  onde  lhe 
veio  a  alcunha.  Foi  cavai  lei ro  tau roma<* nico  e  o  mais  hábil  ban- 
darilheiro- amador  do  seu  tempo.  Fizeram -n'o  alferes  em  1851, 
pela  Regeneração,  e  morreu  em  Fevereiro  de  1855,  victima  do 
alcoolismo.  Posteriormente,  houve  um  cavalleiro  notabillis  • 
aimo,  mas  q»  e  nunca  toireou,  o  Tormenta.  Subia  a  cavai  lo,  até 
a  sua  morada.  n'um  quarto  andar  do  Arco  do  Bandeira,  e  va- 
rias vezes  galgou,  da  mesma  forma,  as  escadas  do  chafariz 
da  Alegria.  Uma  mite,  á  sahida  do  tbeatro  da  Trindade,  mon- 
tou a  cavallo,  pondo  o  pé  direito  no  estribo,  passando  a  perna 
esquerda  por  orna  da  cm  beça  do  bucephaío  e  ficando  com  a 
frente  voltada  para  a  eaud  ,  e  assim  trotou  para  casa. 

2  D.  Nuno  Jobé  Severo  de  Mendonça  (conde  de  Vai  de  Reis) 
e  D.  Joté  Maria  de  Mendonça,  foram  nomeados  camaristas  da 
Real  Pessoa  por  D  João  VI,  logo  depois  do  assassínio  do  mar- 
ques de  Loulé,  cm  Salvaterra,  na  noite  de  28  para  29  de  Feve- 
reiro de  1824,  e  como  demonstração  do  profundo  desgosto  que 
ao  soberano  causara  tão  bárbaro  crime. 


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74  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

dição  inquebrantável  de  não  darem  bilhete  de  entrada 
a  SanfAnua  e  Vasconcellos,  patulea  ferrenho.  Mas 
João  Berquó  (Cantagallo),  encarregado  da  distribuição 
dos  bilhetes,  esqueceu  se  da  clausula  imposta  e  entre- 
gou um  ao  Saut'Anna.  Na  tarde  da  corrida,  a  infanta, 
mal  \íu  este  nós  palanques,  reincidiu  na  pequice  e  de- 
clarou categoricamente  que  se  retirava,  se  elle  não  fos- 
se obrigado  a  sahir.  D  António  de  Menezes  dirigiu-se 
então  a  SanfAnna  e  Vasconcellos  e  pediu  lhe  amiga- 
velmente para  que  se  retirasse,  ao  que  este  anuiria 
por  honra  da  firma.  No  dia  immedialo,  porém.  Sant' 
Anua  e  Vasconcellos  mandou  desafiar  o  filho  primo- 
génito da  iufanta,  D.  Pedro  Lou(é,  actual  duque  de- 
Loulé.  Eram  testemunhas  do  primeiro  D.  Carlos  Mas- 
carenhas e  Augusto  Archer,  e  <lo  segundo  D.  João  de 
Menezes  $  Pedro  Jacome  Correia.  Depois  de  vários  in- 
cidentes, que  nos  é  vedado  referir,  o  duello  abortou. 

Nem  só  como  toireador  se  distinguiu  o  conde  de 
Vimioso.  Outra  feição  typica  do  seu  caracter  eminen- 
temente sportista  fui  o  amor  pela  cynegetica.  Era  uma 
espingarda  da  mais  fina  mira  de  pontaria.  O  conde  de 
Vimioso  ia  muilo  ás  caçadas  com  o  Sampaio,  filho  do 
visconde  do  Cartaxo,  nas  propriedades  que  este  pos- 
suía na  localidade  de  onde  lhe  proveiu  o  titulo.  Con- 
ta se  que  n'uina  caçada  aos  porcos  bravos,  que  o  con- 
de de  Vimioso  organizou  em  Otta,  e  na  qual  tomou 
parte  o  conde  de  Farrobo,  succedera  o  caso  de  estar 
o  conde  de  Vimioso  a  unia  porta  com  a  sua  espingar- 
da de  dois  canos  e  bayuneta  apontada,  quando  um 
porco  avançou  com  tal  ímpeto,  que  ficou  espetado  na 
arma.  mas,  ct»m  a  violência  do  choque,  atirou  com  o 
caçador  para  uma  mouta  de  espinhos,  d<5  onde  fui  ti- 
rado em  estado  lastimoso,  sendo  necessário  passar  um 
bom  bocado  de  tempo  a  arrancar-lhe  espinhos  do 
corpo  com  um  alfinete   A's  vezes,  o  Vimioso  abalava 


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Historia  do  Fado  75 

repentinamente  de  Lisboa  para  as  caçadas  no  Alem  te* 
tejo.  Pois  a  maledicência,  qiie  é  o  prologo  da  calum- 
nia,  chegava  a  propalar  que  tinha  uma  quadrilha  de 
ladrões,  que  elle  capitaneava  em  pesfcoa!... 

Endossam  se  mil  partidas  á  invehtiva  do  conde  de 
Vimioso  —  como  alborcador  de  gado— ,as  qnaes  fa- 
riam desopiler  la  rate  ao  mais  hypocondriaço,  mas 
de  que  apenas  referiremos  esta,  cuja  veracidade  não 
podemos  de  maneira  alguma  afliançar.  Conta  se  que, 
possuindo  oPatriarcha  quatro  mulas  já  cançadas,  de  que 
se  queria  desfazer,  mandara  chamar  o  conde  de  Vi- 
mioso para  que  este  lVas  comprasse  ou  lh'as  trocasse. 
O  conde  viu  as  mulas  e  prometteu  arranjar  outras  em 
escambo,  para  ã  que  solicitava  o  prazo  de  um  mez. 
Tratou  logo  de  peitar  o  cocheiro  a  fim  de  não  desço 
brir  a  malhoada,  e,  um  bello  dia,  apresentou  se  com 
as  mulinhas  ao  Patriarclia,  que,  das  janellas  do  Paço 
Patriarchal,  as  viu  trotar  atrelladas  ao  coche,  todas 
losquiadinhas  e  catitas.  Satisfeito  com  a  apparenria 
das  mulas,  combinou  preço  e  fechou  o  negocio.  Mas 
o  moço  da  cavallariça,  um  gallego  finório,  desconfiou 
que  eram  as  mesmas  e  di<se:  Baia,  que  ellas  xon  as 
mesmas !  Ao  que  o  cocheiro  atalhou  immediatamrnte 
que  não  eram  tal,  como  se  lhes  conhecia  pelos  dentes. 
Passados  dias,  o  Patriarcha  sahiu  no  coche,  mas,  qual 
não  foi  o  seu  espanto,  quando  reparou  que  as  mulas 
só  a  muito  custo  puchavam  o  chorrião,  como  aconte- 
cia com  as  suas  predecessoras.  Mandou  recolher  im- 
mediatamente  a  carripâna  e  foi  então  que  se  descobriu 
que  o  conde  de  Vimioso  fizera  a  toilette  das  mulas 
para  a  apresentação  a  Sua  Eminência,  mandando  as 
tosquiar  e  fazendo-Ihes  serrar  os  dentes,  o  que  lhes 
dera  aapparencia  de  serem  outras.  Cuwpre-nos,  toda- 
via, declarar,  que  não  damos  credito  a  esta  anecdota  e 
a  outras  do  mesmo  jaez  attribuidas  ao  conde  de  Vi* 


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76  Empreza  da  Historia  de  Portuga  l 

mioso,  e  a  que  a  loquacidade  phantasista  dos  invencio- 
neiros  desabusados  deu  curso. 

O  conde  de  Vimioso  não  se  limitou  a  ser  um  pan- 
dego, porque  foi  também  um  combatente  intrépido  e 
audaz»  militando  no  exercito  liberal,  em  1833,  na  qua- 
lidade de  aspirante  de  lanceiros.  Dispunha  de  tanta 
força  muscular,  que,  certa  vez.  durante  a  lucta  com' os 
miguelistas  nas  linhas  de  Lisboa  e  na  presença  de  D. 
Pedro  IV,  metteu  hombros  e  arrombou  um  portão 
de  ferro,  que  impedia  o  passo  ás  tropas  liberaes,  pres- 
tes a  occupar  uma  posição  estratégica.  Conta  se  mais 
outra  façanha  sua.  Quando,  n'uma  tarde,  o  phaeton  de 
D.  Pedro  de  Sousa  Coutinho  (Linhares),  puxado  por 
duas  vigorosas  hacanéas  hanoverianas,  transpunha  o 
portão  do  palácio  Galveias,  ao  Campo-Pequeno,  o  con- 
de de  Vimioso  botou  a  mio  direita  ao  eixo  trazeiro  do 
carrinho  e  a  esquerda  aos  varões  de  ferro  do  portão, 
e,  embora  o  auiomedonte  fustigasse,  a  bom  fustigar,  a 
parelha,  o  carrinho  não  adeautou  um  ápice  além  do 
feitio  em  que  o  Vimioso  o  detivera  com  o  seu  braço 
hercúleo  l. 

Aquella  propensão  mórbida,  que  o  conde  de  Vimioso 
amplamente  manifestou  pelo  mulherio  da  plebe,  não 
constitue  um  caso  esporádico  na  etiologia  amorosa  dos 
aristocratas  nacionaes.  No  século  xvm,  também  ap- 
pareceram  dois  fidalgotes  polhástros,  que  deram  lustre 
á  chronica  da  panria  e  do  amor  livre  com  as  rien  du 
tout :  o  conde  do  Prado  e  um  sobrinho  do  conde  de 
Lippe.  A  este  ultimo,  dedicaram  as  quatro  decimas  se- 
guintes, salyrisando  um  baile  de  mocas  enxovalhadas, 
que  ambos  haviam  honrado  com  a  sua  presença; 


1  O  Popular  de  7  de  Abril  de  1901. 


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Historia  do  Fado  77 


Este  do  Lippe  parente 
Causa-me  riso,  senhores, 
Não  sabe  entender  de  cores, 
Fez  eleição  tolamente. 
Aquelle  lixo  da  gente, 
Já  sabem,  as  palmilhadeiras, 
D'ehe  são  hoje  as  primeiras, 
£  não  é  só  o  empenhado, 
Também  o  conde  do  Prado 
.   Festeja  enxovalhadèiras. 

NSo  deixa  de  ser  cegueira 
Tão  errada  opinião, 
Faltam  moças  de  feição 
Para  a  sua  maganeira. 
Pois  o  conde  Vidigueira, 
Que  tirtou  de  apaixonado, 
Ficou  tão  enxovalhado, 
Que.  cá  na  minha  intenção, 
Perdeu  a  estimação 
£  só  merece  açoitado. 

Também  os  mais  convidados, 
Que  ao  baile  não  faltaram, 
£  depois  se  desculparam 
Dizendo  foram  enganados, 
Ficam,  porém,  enxovalhados 
Claramente,  e  não  fio 
Do  Marquez  de  Lavradio, 
Que  é  maganão  disfarçado, 
Mas  do  ser  enxovalhado 
Não  lhe  gabo  o  desfastio. 

Ora  para  tudo  ha  gente, 
A  funcção  foi  celebrada, 
Sobre  meza  Pêra  Parda, 
Mestre-sala  o  S.  Vicente  ; 
D.  Joaquim  muito  contente, 
D.  Diogo  e  D.  João, 
Nada  gabo  a  feição 
Que  tiveram  os  assistentes, 
Bem  hajam  os  mais  prudentes, 
Que  não  foram  a  tal  funcção.  1 

1  Bibliotheca  Nacional  de  Lu  boa.  Afanuscriptoê  da  secção 
XIII,  Ns  8:216. 


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78  Emprsza  da  Historia  de  Portugal 

A  cem  anãos  de  distancia  nm  do  outro,  o  conde  de 
Vimioso  e  o  conde  do  Prado  manifestam  idêntico  pen- 
dor atávico.  E,  no  nosso  tempo  ainda  encontrámos  um 
typo  que  tem  mais  de  um  ponto  de  contacto  com  aquel- 
les  fidalgos  —  o  marquez  de  Angeja,  um  aristocrata 
puro  sangue  azul,  que  não  desdenhava  apresentar- se, 
em  plena  rua,  de  barrete,  jaleca  de  pelle,  calças  debom- 
basina  e  alforge  ás  costas. 


N'este  manuscripto  ha  uma  decima  anonyma  dirigida  a  di 
versas  personalidades  da  epocha. 

Voluntária  ao  Voluntário 
A  Ratinha  se  apegou, 
Dircea  aos  esses  tornou 
Do  seu  antigo  fadário. 
A  Sal  ma  ao  Secretario 
Deixa  pelo  Picador, 
D.  Jzabel,  seu  amor, 
Muda  do  Papinha  ao  Papa, 
D.  Ritta  os  olhos  tapa, 
Villano? a  faz  furor. 


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■-K&' 


As  phases  do  fado.  —  Terminologia  do  fado  —  A  guitarra.  —A 
voz  para  cantar  o  fado. — Os  verãos  do  fado.  —  Os  fados  an- 
tigos. —  Motes  antigos  para  o  fado. 


O  fado  apresenta  duas  phases  completamente  dis- 
tinctas:  a  primeira,  a  phase  popular  e  espontânea,  em 
que  o  fado  é  executado  nas  baiucas  onde  os  fadistas 
derramam  o  vinagre  das  suas  vozes,  nas  viellas  onde 
fluctua  o  perfume  lethargico  da  tragedia,  e  nas  casas 
de  hospitalidade  fácil  onde  os  viageiros  e  os  fervoro- 
sos das  Vénus  fraldiqueiras  acham,  aquelles,  um  abri- 
go, e,  estes,  um  altar;  a  segunda,  a  phase  aristocrá- 
tica e  lilteraria,  em  que  o  fado  é  executado  nas  salas 
e  nas  praias  da  moda.  Podengos  fixar  o  fim  da  primei- 
ra e  o  começo  da  segunda  entre  186^  e  1869.  E  n'esta 
ultima  phase,  emquanto  a  guitarra  sobe  das  espelun- 
cas aos  salões,  vemos  o  piano  descer  dos  salões  aos 
botequins  safardanas.  No  emtanto,  que  differença  en- 
tre um  e  outro  instrumento!. . .  Na  família  dos  instru- 
mentos, o  piano  é  a  cortezã  amimada,  que  se  estadeia 
tolamente  nos  logares  de  prazer;  a  guitarra  é  a  sua 
irmã  volitante,  sentimental,  Jraquinas,  com  candongui- 


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80  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

ces  inflammatorias  de  carioca,  ama  estouvada  perdi* 
da  pelo  seu  amor  ás  serenatas,  ás  romanzas  e  mofado* 
Ó  ironia  e  iuclemencia  do  destino!. . . 

Os  cantadores  de  fado  lêem  uma  terminologia  pri- 
vativa da  sua  arte  Chamam  canto  a  atirar  ao  canto 
ao  desafio  ou  á  desgarrada;  chamam  canto  sagrado, 
canto  ao  Divino,  ou  canto  á  Escriptura*  quando  o  can- 
to se  refere  a  assumptos  religiosos  ou  a  assumptos  da 
Escriptura;  e  chamam  ao  cauto  do  fado  em  geral  —  a 
cantadoria.  Ter  obra  significa  ter  produrções  originaes, 
ser  author  de  versos  do  fado,  e  também  significa  ter 
cantigas  para  cantar;  e  ter  muita  livraria  é  dispor  de 
uma  grande  reserva  de  cantigas,  suas  ou  de  outrem. 

Os  methodos  de  guitarra  preceituam  no  que  respei- 
ta á  attitude  do  corpo  e  á  posição  que  o  instrumento 
deve  tomar,  quando  se  toca.  O  corpo  deve  estar  firme 
e  airoso;  depois,  o  tocador  pega  na  guitarra,  c o! loca- a 
com  o  brçço  para  o  lado  esquerdo,  appoiaa  sobre  a 
perna  direita,  e  inclina  a  de  forma  que  o  caravelhal  fi- 
que á  altura  do  sangradouro  do  braço  esquerdo  e  a 
caixa  de  resonancia  um  pouco  inclinada  para  o  peito. 
E'  isto  o  que  estabelecem  os  methodos  de  amestra- 
mento.  Mas,  para  o  fadista,  estas  normas  preceptivas 
são  vacillantes  como  uma  luz  n'uma  corrente  de  ar. 
Vemol-o  antes  sentado,  cruzando  uma  perna  sobre  a 
outra  e  inclinando  desleixadamente  o  tronco  sobre  o 
braço  da  guitarra,  que  descança  na  coxa,  ou  então  le- 
vantado, com  o  tronco*  cahido  negligentemente  para 
cima  do  quadril,  a  perna  encurvada  com  o  pé  para  fo- 
ra, á  facaia,  o  pescoço  retézo  como  o  de  um  gallo  a 
cucuritar,  os  olhos  afogados  numa  agonia  suave, 
emquanto  vae  beliscando  os  arames  da  banza  e  des- 
fiando os  episódios  de  algum  fado%  virgulados  de  ais 
dolorosos  e  de  zfras  arrastados  -—  todowo  zing  corrobo- 
rativo  de  manhas  fadistinhas. 


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MARQrJEZ  DE  CASTELLO  MELHOR 
(lllustrc  amador  de /a do) 


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Historia  do  Fado-  83 

A  guitarra,  dizem  os  methodos  de  ensino,  admitte 
cinco  afinações:  a  afinação  natural,  a  afinação  natural 
com  quarta  (muito  empregada  para  acompanhamentos), 
a  afinação  do  fado,  a  afinação  transportada  (afinação 
mais  baixa  meio  tom)  e  a  afinação  do  violão.  Mas  as 
afinações  que  propriamente  lhe  competem  são  a  natu- 
ral e  a  do  fado,  sendo  prt-ferivel  a  ultima.  Os  tocado- 
res antigos,  os  tocadores  do  lídimo /arfo,  execulavamn'o 
em  ré  menor.  E,  circumslancia  a  notar,  antigamente 
o  cantador  não  se  acompanhava  ?  si  mesmo,  mas  fa- 
zia se  sempre  acompanhar  de  um  guitarrista.  Os  de- 
dos ágeis  do  tocador  corriam  rapidamente  sobre  as 
cardas  da  guitarra  e  davam  vôo  ao  pensamento  harmo- 
nioso dos  auctores  dos  fados,  emquanto  as  rimas  do 
cantador  batiam  azas.  Hoje,  quasi  sempre  o  cantador 
se  acompanha  a  si  próprio. 

A  voz  para  cantar  o  fado  é  uma  voz  inclassificável, 
$ui  generis,  com  modulações  e  inflexões  não  sujeitas  ao 
jugo  tyrannico  dos  methodos  de  canto,  uma  voz  que 
não  se  subordina  aos  dictamescathedraticos  dos  profes- 
sores do  Conservatório.  E  ahi  está  o  motivo  porque  o  Ta 
magno  ou  a  Patti  poderiam  fazer  fiasco  cantando  o  fa- 
do ao  pé  do  Serrano  ou  da  Albertina.  E  eis  ahi  a  ra- 
zão por  que  um  interprete  de  uma  partitura  deliques- 
cente  de  Puccini  ou  de  uma  partitura  descripliva  de 
Wagner  pregaria  um  estenderete  raso,  se  qnizessc 
cantar  o  fado  da  Severa  ou  o  fado  do  João  Black. 

As  primeiras  trovas  do  fado,  devidas  á  mechanina 
espiritual  do  povo,  eram  em  quadras;  depois  usaram- 
se  em  quadras  glosadas  e  em  decimas ;  e  ultimamen- 
te, com  o  fado  modernista,  empregam  se  de  novo  as 
quadras  e  também  as  quintilhas.  O  fado  principiou  por 
se  cantar  com  versos  ingenuamente  populares,  impro- 
visados à  la  va  cjmme  je  te  pomse,  de  que  damos  as 
amostras  seguintes : 


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84  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

Ulysses  era  brejeiro, 
Era  o  pae  da  brejeirada,, 
Era  um  bom  sapateiro, 
Trabalhava  n'uma  escada. 

Encontrei  Frei  João 
ft'uma  manhã  de  geada, 
Com  um  instrumento  na  mão, 
Vinha  a  ser  uma  guitarra. 

Q  coelho  é  manhoso, 
Dorme  6xo#  olhos  abertos, 
Eu  durmo  c'os.meus  fechados, 
Porque  tenho  amores  certos. 

Na  cabana  do  Zé  do  Sacho 
Ha  uma  cruz  de  madeira, 
E  n'ella  um  Christo  pregado, 
Feito  de  pau  de  gingeira. 

Muitos  me  chamam  António, 
E  eu  António  não  sou, 
O  meu  nome  não  é  este, 
Foi  alguém  que  m'o  trocou. 


No  Cancioneiro  Popular  do  sr.  Theophilo  Braga  vèm 
três  quadras  fadistas  de  época  indeterminada : 


Se  o  Padre  Santo  soubesse 
O  gosto  que  o  fado  tem, 
Viera  de  Roma  aqui 
Bater  o  fado  também. 

Eu  hei  de  morrer  no  fado, 
Soffrer  os  destinos  seus, 
O  chinfrim  será  meu  brado, 
A  banza  será  meu  deus. 

Tudo  quanto  o  fado  inspjra 
E1  o  que  só  me  entretém, 
Pois  quem  do  fado  se  tira 
Não  sabe  o  que  é  viver  bem. 


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Historia  do  Fado  85 

Antes  de  se  principiar  a  cantar  o  fado,  havia  o  canto 
á  desgarrada  e  o  canto  ao  fandango.  Foi  o  canto  do 
fado,  que  desthronou  estes  dois  cantos,  assim  como 
foi  a  dansa  do  fado  (difíerente  do  bater  o  fado)  que 
destbronou  a  dansa  do  fandango.  Ainda  existe  um  ho- 
m»m  que  brilhou  como  cantador  á  desgarrada  e  ao 
fandango,  e  que,  df  pois,  veiu  a  brilhar  cumo  distinctis- 
simo  cantador  de  fado— o  Bernardo  Ferreira  Saldanha, 
da  Porca lhota. 

O  fado  mais  antigo  é  o  fado  do  marinheiro.  Segue- 
se-lhe  o  fado  conidot  que  parece  ter  sido  o  primeiro 
modelado  por  aquelle,  e  que  se  cifra  na  execução  do 
acompanhamento,  sem  variações.  Quando  o  fado  não  é 
tocado  para  acompanhar  o  canto,  os  guitarristas  bor- 
dam sobre  elle  os  arabescos  da  sua  phantasia  musical, 
arrancam  ao  instrumento  variações  que  percorrem  to- 
da a  gamma  chromatira  dos  êxtases  amorosos,  das 
idealidade*  scismadoras,  dos  h {Tectos  jnbilatorios.  A  pri- 
meira mulher  que  tocou  o  fado  corrido  na  guitarra  foi 
a  ifanasinha,  catraia  da  Madragòa  em  i830.  Foi  ella 
que  o  ensinou  ao  cantador  Paixão,  o  prmeiro  também 
que  tocou  o  fado  corrido  na  guitarra.  Ao  fado  corrido 
segue-se  o  fado  da  Cotovia,  cuja  lettra  desconhecemos. 
Depois,  vem  o  primeiro  fado  de  Pedrouços,  original  de 
A  Branco,  composto  em  1849,  e  o  fado  choradinho, 
anterior  a  1850,  que  serviu  de  modelo  a  outros  fados. 
Este  fado  canta-se  com  os  versos  seguintes : 

Quem  tiver  filhas  no  mundo 
Não  fale  das  desgraçadas, 
Porque  as  filhas  da  desgraça 
Também  nasceram  honradas. 

Nâo  sei  que  quer  a  desgraça 
Que  atraz  de  mim  corre  tanto; 
Hei  de  parar  e  mostrar-lhe 
Que  de  vêl-a  não  me  espanto. 


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86  Empreza  da  Historia  de  Portugal 


Fui  encontrar  a  desgraça 
Onde  os  mais  acham  prazer ; 
Amor,  que  dá  vida  a  tantos, 
Só  a  mim  me  faz  morrer. 

Das  (ilhas  da  desventura 
Devemos  ter  compaixão, 
São  mulheres  como  as  mais, 
Filhas  de  Eva  e  de  Adão. 

Eu  quero  bem  á  desgraça, 
-     Tu  Que  sempre  mè  acompanhou, 

Não  pcs«?o  amar  :i  ventura, 
Que  bem  cedo  me  deixou. 

Eu  fui  a  mais  desgraçada 
Das  filhas  da  minha  mãe, 
Todas  tem  a  quem  se  cheguem, 
Só  eu  não  tenho  ninguém. 

Debaixo  do  fric  chão, 
Onde  o  sol  não  tem,  entrada, 
Abi  a  se  uma  sepultura, 
Finde  o  fado  a  desgraçada. 

£  Deus  que  tudo  perdoa, 
E  a  V  irgêm  Nossa  Senhora, 
Hão  de  ouvir  a  alma  que  implora 
Salvação  á  peccadora. 

'  Depois  (Testes  fadjs,  apparere  o  fadada  Severa,  que 
remonta  acs  meíados  do  século  xix,  porque  foi  com- 
posto em  tempo  da  mulher  que  lhe  deu  o  Ululo,  e  que» 
como  vimos,  morreu  anleriormente  a  1850.  Attribuem 
a  paternidade  d'esle  fado  ao  Sousa  do  Casacclo.  Os  col- 
lectores  do  Cancioneiro  de  musicas  populares  conside- 
ram-n'o  como  o  lypo  primordial  dos  fados  populares 
lamentosos  *.  A  versão  coimbrã  do  fado  da  Severa,  re- 


1  César  das  Neves  e  Gualdino  de  Campos.  Cancioneiro  de  mu- 
iicas  populares,  vol.  III>  pag.  129. 


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Historia  do  Fado  87 

colhida  e  publicada  pelo  sr.  Theophilo  Braga  a  paginas 
140  do  seu  Cancioneiro  Popular,  é  como  se  segue: 

Chorae,  fadistas,  chorae, 
Que  ama  fadista  morreu, 
Hoje  mesm»  faz  um  anno 
Que  a  Severa  falleceu. 

Morreu,  já  faz  boje  um  anno, 
Das  fadista*, a  rainha, 
Com  ella  o  fado  perdeu, 
O  gosto  que  o  fado  tinha. 

O  conde  de  Vimioso 
Um  duro  golpe  softreu, 
Quando  lhe  foram  dizer: 
Tua  Severa  morreu! 

Corre  á  sua  sepultura, 
O  seu  corpo  ainda  vê : 
Adeus,  oh !  minha  Severa, 
Bôa  sorte  Deus  te  dê ! 

Lá  n'esse  reino  celeste 
Com  tua  banza  na  mão, 
Farás  dos  anjos  fadistas, 
Porás  tudo  em  confusão. 

Até  o  próprio  S.  Fedro, 
A'  porta  do  céo  sentado, 
Ao'  vêr  entrar  a  Severa 
Bateu  e  cantou  o  fado. 

Ponde  nos  braços  da  banza 
Um  signal  de  negro  fumo 
Que  diga  por  toda  a  parte : 
O  fado  perdeu  seu  rumo. 

Chorae,  fadistas,  chorae, 
Que  a  Severa  se  finou, 
O  gosto  que  tinha  o  fado9 
Tudo  com  ella  acabou. 

Mas  o  Cancioneiro  de  musicas,  popular  es  insere  este 


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8S  >  Em f  reza  da  Historia  da, Portugal 

fsdo,  teadtf  ire»  quadrai  com  as  variantes  seguin- 
tes: *  c,  á  :>\  ■,:;:■:.   ...  ,■    .  .  .  -  ...  '.,/  •...;.  ^      .  _ 

Corre  á  sua  sepultura, 
O  seu  corpo  ainda  vê : 
Severa,  linda  Severa, 
Boa  sorte  o  céo  te  dê! 

Levantou-lhe  um  monumento 
Com  doia  cy  prestes  ao  lado,  r 

£  num  di8ti«  o !  «Aqui  jnz 
Quem  foi  rainha- do  fado».     . 

Chorae,  fadistas,  chorae, ; ^  •- 
Que  a  Severa  falleceu; 
Rapariga  como*  aquel la 
Nunca  o  fado  conheceu. 

Conhecemos  mais  seis  ijuadras  com  variantes/  que 
nos  vieram  pela  tradiçap  oral ; 

No  braço  da  sua  binza 

Um  laço  de  fumo  armou, 

Quando  lhe  vieram  dizer:  '  "• 

A  Severa  já  expirou  t  ■ 

No  braço  da  sua  banza 
Um  laço  bem  preto  apertou, 
Quando  lhe  vi  ram  dizer: 
A  tua  Severa  acabou ! 

Zóra  lá  na  mansão  celeste 
Com  a  viola  na  mâo,  ••*...'.? 
Farás  dos  anjos  fadistas, 
Porás  tudo    m  confusão. 

O  conde  de  Vimioso, 
Ai !  quafi  qu'eíilouque<*eu, 
Quando  lhe  foram  dizer : 
A  Severa  já  morreu ! 

O  conde  de  Vimioso 
£:-..■     .      Um  duro  golpe  sofifiíeu,       .* ./  ..\: 


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Historia  do  Fado  89 

Quando  lhe  for  Am  dizer: 
Maria  Severa  morreu ! 

Chorae,  fadistas,  chorae, 
Que  a  Severa  já  morreu, 
Fadista  como  e lia 
Nunca  o  fado  conheceu ! 

Conhecemos  mais  uma  quadra  com  variantes,  publi- 
cada peloi&r.  Visconde  de  Caslilho  na  Lisboa.  Antiga  h 

Ponde  no  braço  da  banza 
Um  Ihço  de  negro  fumo, 
£  este  signal  diga  a  todos  : 
Que  o  fado  perdeu  o  rumo! 

A  Severa-cuja  memoria  fulge  atravez  dos  annos  com 
o  tremor  luminoso  de  um  astro  —  excitou  a  veia  poé- 
tica popular.  Ha  ainda  mais  as  dez  quadras  seguintes, 
allusivas  á  Severa,  sendo  as  duas  primeiras  puMicadas 
pelo  sr.  visconde  de  Castilho  na  Lisboa  Antiga  e  as  oito 
ultimas  recolhidas  da  tradição  oral : 

Assim  como  as  flores  vivem 
Minha  Severa  viveu, 
Assim  como  as  flores  morrem 
Minha  Severa  morreu. 

Levantae  lhe  um  mausoléu 
Co'um  negro  cypreste  ao  lado, 
£  o  epir aphio  que  dica : 
«Aqui  jaz  quem  soube  o  fado» 

Quando  a  Severa  falleceu, 
i  O  Vimioso  adorado 

i  Disse,  vertendo  lagrimas  : 

Morreu  o  mimo  do  fado ! 

Severa,  linda  Severa, 
Foste  a  princeza  àofado, 

1  Visconde  de  Castilho.  Lisboa  Ânliga,  vol  I^pag,  295. 


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90  Empreza  da  Histoina  de  Portugal 


A  rainha  das  fadistas, 
O  8ol  do  teu  bem -amado! 

A  Severa  sepuitou-se 
Em  um  mausoléu  doirado, 
Com  o  dístico  :  «Aqui  jaz 
A  mais  bel  la  flor  do  fado.* 

Quando  a  Severa  morreu 

Deu  seu  corpo  á  sepultura ; 

Logo  no  mar  se  formou  * 

Um  palácio  de  grande  altura. 

O  fadinho  da  Severa 
Vae  direito  ao  coração  ; 
Cantae  o  fado  da  musa 
Da  rua  do  Capei Ião! 

A  Severa  morreu  joven, 
Triste  foi  o  seu  condão ; 
Chorae,  fadistas,  a  deusa 
Da  rua  do  Cape II ao  ! 

Chorem,  chorem  os  fadistas, 
E  chore  toda  a  nação  ! 
Morreu  a  Severa,  A  flor 
Da  rua  do  Capei  lào  ! 

Quando  a  Severa  falleceu, 
As  guitarras  soluçaram, 
Toda  a  Mouraria  gemeu, 
E  os  fadistas  choraram. 

Ultimamente  (em  1ÍH2)  appareceram  unsjados  (tro- 
vas) novíssimos  da  Severa,  de  que  damos  os  três  mo- 
tes  seguintes : 

A  Severa,  reza  a  historia, 
Tinha  um  bello  coração  ; 
Foi  por  isso  que  o  Vimioso 
A  amou  sempre  e  com  paixão. 

Chorae,  fadistas,  chorae, 
Que  a  Severa  já  morreu  í    •    - 


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Historia  do  Fado  91 


Foi  o  que  Vimioso  ouviu  , 

'ma  manha  quando  8'erguwu 

Eu  vou  cantar  a  Severa 
N'esta  bella  occasi&o ; 
-O  seu  fado  é  d'encantar 
Vae  direito  ao  coração. 

0  fado  da  Severa  tem  outro  que  o  completa,  o  fado 
do  Vimioso*.  Este  pertence,  evidentemente,  a  época 
posterior,  mas  inserim<  l-o  aqui  por  ser  o  complemento 
d  aquelle.  E'  formado  de  dezoito  quadras: 

Quem  lhe  Tê  a  face  morena, 
Quem  vê  seus  olhos  tyrannos, 
Nada  vê  que  mais  captive, 
..,    Ainda  que  viva  mil  annos. 

Quem  lhe  vê  os  negros  cabellos 
Fluctuaudo  sobre  a  testa, 
Outra  nympha  a  vêr  não  torna 
Salerosa  como  esta. 

Quem  lhe  vê  os  lábios  sorrir 
Como  a  luz  da  estrella  d'alva, 
Se  tocal-os  não  alcança 
Tem  de  fé  que  n$o  se  salva. 

Quem  uma  vez  lhe  ouviu 
Sua  voz  enternecida, 
Ainda  depois  da  morte 
Aos  seus  ais  recobra  a  vida. 

Quem  lhe  vê  o  pé  travesso 
£  os  requebros  seductores, 
Fica  logo  mais  rendido 
Que  entre  ferros  oppressores. 

Quem  lhe  vê  o  collo  alteroso, 
Que  tem  tão  viva  attracç&o, 

*  O  fado  do  Vimioso  (trovas)  canta  se  com  o  fado  da  Severa 
(musica) 


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92  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

Só  por  obra  de  milagre 
Resiste  a  uma  tentação. 

Quem  a  vê  dansar  o  fado 
Com  vigor  desconhecido, 
Ao  vêl-a  batendo  forte 
Fica  um  doido  perdido. 

Oh  Severa,  dá-me  om  beijo, 
Dá- me  um  beijo  de  queimar ! 
Ah !  deixM-me  arder  em  chammas 
E  em  teus  braços  expirar ! 

Mas  que  digo !  oh  desgraçado ! 
Que  deli  rio  é  este  meu  ? ! 
Como  vir  ao  chamamento 
A  Severa  que  já  morreu  ? ! 

Oh  sorte  cruel  e  dura, 
Que  me  deixas  no  mundo  só ! 
Rasga  me  o  peito  e  reduz 
Meus  ossos  a  cinza  e  pó ! 

Assim  Moieivo 1  carpia, 
No  auge  da  desventura, 
£  ao  outro  dia,  já  cadáver, 
Foi  levado  á  sepultura. 

Quem  viu  já  tanto  amor, 
Amar  tanto  e  bem  querer, 
*Em  peitos  que  n$o  são  dados 
A  por  amor  padecer? 

E*  que  tu,  oh  cego  amor, 
Em  teus  caprichos  ferinos, 
Ligas  risos  com  tristezas, 
Cinges  grandes  e  pequeninos ! 

E  d*est'arte  o  mundo  viu 
Senhor  séeio  e  muito  alto, 
A'  fria  campa  baixar 
Sem  pompa  e  espalhafato. 

i  Afoitivo,  anagramma  de  Vimioso,  appareee  também  n'ou- 
tros  versos  antigos. 


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Historia  do  Fado  93 


Era  dextro  cavalleiro, 
Era  seu  corcel  á  grande, 
Levava  ninhas  e  brida, 
Tudo,  tudo  de  vencida. 

Chorae,  fadistas,  chorae, 
Ah  !  chorae  a  mais  nâo  ser, 
Que  d 'outro  t&o  fino  amante 
Nâo  torna  o  fado  a  dizer. 

Aqui  ponho  agora  ponto 
Na  lenda  que  finda  está, 
Foram  casos  d 'outra  era, 
Sâo  voltas  que  o  mundo  dá. 

E  com  esta,  oh  meus  amigos, 
Nâo  vale  o  aborrecer ! 
Digo- lhe  adeus,  haja  gáudio, 
Haja  gáudio !  É  até  mais  vêr  ! 

0  Cancioneiro  de  musicas  populares  regista  o  fado 
amphiguri,  que  se  cantava  em  Lisboa  ha  mais  de  cio- 
coeuta  annos  (1849).  Temos  o  2o  fado  dt  Pedrouççs, 
composto  em  1864,  por  occasião  da  guerra  da  Ameri- 
ca, a  qual  motivou  um  coníliçto  diplomático  entre  o 
nosso  paiz  e  os  Estados  Unidos,  em  consequência  da 
Torre  de  Belém  ter  disparado  sobre  a  fragata  Niagara, 
que  pretendia  sabir  do  Tejo  na  caça  do  monitor  Stone- 
walL  0  mote  d'este  fado  de  Pedrouços  é  assim : 

Portugal  está  obrigado 
A  pagar  perdas  e  damnos, 
Que  a  Torre  de  Belém  causou 
Aos  barcos  americanos. 

0  fado  dos  Cegos  e  o  fado  da  Persiganga  sSo  dos 
meiados  do  século  xix.  Apparecem.  depois,  o  fado  do 
José  Maria  dos  Camllinhos  (inédito)  em  1860,  o  fado 
do  Anadia  (original  do  José  Maria  dos  Cavallinhos)  em 
1862,o  fado  do  Paixão  (original  do  Paixão)  em  1862,  o 


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94  Emprezada  Historia  de  Portugal 

fado  da  Custodia  (original  da  Custodia  Maria)  em  1864, 
o  fado  de  Tancos  em  Í866,  o  fado  das  salas  ou  o  fado 
Elegante  (original  de  João  Maria  dos  Anjos)  em  1868, 
o  fad)  Campestre  em  1870,  o  fado  Mayyolli  (original 
de  Magyolli)  em  1870,  o  fado  Lisbonense  em  1870,  o 
fado  Cadete  (original  do  António  dos  Phospkoros),  o 
fado  da  Cesaria  (original  de  Ambrósio  Fernandes  Maia) 
em  1870,  o  fado  Carmona  (dedicado  ao  matador  de 
espada  António  Carmona,  El  Gordito)  em  1872,  o  fado 
sentimento  maior  e  sentimento  menor  (de  Ambrósio 
Fernandes  Maia)  que  se  conserva  inédito,  o  fado  d) 
Lessa}  o  fado  Brilhante,  o  fado  de  Cascaes  e  o  fado  de 
Cintra.  Modernamente,  teem-se  publicado  muitos  fados, 
de  que,  in  fine,  apresentamos  uma  lista. 

Seria  quasi  impossível  determinar  os  auctores  da 
musica  e  da  lettra  de  todos  os  fndos  antigos  por  se  en- 
cobrirem sob  o  véo  do  anonymato.  Alguns  não  tinham 
lettra  própria.  A  um  d'elles,  o  fado  do  Lessa,  applica- 
ram-lhe  lettra  moderna  do  sr.  J.  Nunes  da  Ponte,  que 
é  a  seguinte: 

Amor  è  sonho  que  mata, 
Perfume  que  se  esvaece, 
Madeixa  que  se  decata, 
Sorriso  que  desfallece. 

Aragem,  corre  de  manso, 

Borboleta,  mais  de  leve, 

Rouxinol,  soa  mais  breve, 

Não  turves  o  meu  descanço. 

Miragem  que  nâo  alcanço, 

£  que  minh'alma  retrata, 

Foge  nas  azas  de  prata 

Do  sonho  que  me  enamora,  ',, 

Suspira,  guitarra,  chora, 

Amor  é  sonho  que  mata. 

O  sol  desampara  a  vaga, 
A  vagn  foge  do  mar, 


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Historia  do  Fado  95 

Fogem  as  bramas  Ao  ar, 
-15  a  branca  espuma  da  plaga  ; 
Foge  a  brisa  que  me  affaga, 
A  luz  do  tol  que  me  aquece  ; 
Foge  dos  lábios  a  prece, 
fcó  tu,  imagem,  persistes, 
O  amor  é  sonho  dos  tristes, 
Perfume  que  se  esvaece. 

O  lyrio  ama  a  campina, 
A  campina  a  luz  do  sol, 
Ama  a  noite  o  rouxinol, 
E  a  aurora  a  flor  purpurina. 
Ama  a  briza  matutina 
O  manso  lago  de  prata, 
Eu,  a  miragem  ingrata 
Da  mulher  que  me  adora, 
O  amor  é  flor  que  descora, 
Madeixa  que  se  desata. 

Minh'alma  voga  na  altura, 
Geme,  guitarra,  com  anciã, 
Exhala,  flor,  mais  fragrância, 
Dá  me,  aragem,  mais  fi escura. 
E*  varia  e  doce  a  ventura, 
O  prazer  que  nos  fenece  ; 
Tu,  miragem,  desaparece, 
Meu  penar,  deixa-me,  corre. 
O  amor  é  sonho  que  morre, 
Sorriso  que  desfallece. 

Os  seguintes  fados  antigos  são  inéditos: 

O  A  teve  uma  baralha 
Na  travessa  do  Rosário 
Acudiram  ao  barulho. 
As  lettras  do  abecedario. 

O  B  por  muito  pimpão 
Nâo  se  receia va  de  nada, 
Lo»o  á  primeira  paulada     * 
Cahiu  de  ventas  ao  chão; 
O  C  que  vò  seu  irmão 
Andar  c'os  outros  á  sAlha, 


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&6  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

Mette  a  mfto,  puxa  navalha, 
Cresce  para  cima  do  D? 
E,  para  defender  oG, 
O  A  teve  uma  baralha. 

O  H,  que  viu  o  U, 
Dá  um  sopapo  ámâo  canha, 
Pearam  os  dói*  acastanha    ' 
£  anitos  cahiram  de  c. . .; 
O  P,  que  estava  em  jejum, 
Pediu  ao  N  usurário 
Que  lhe  abonasse  salário 
Para  descontar  na  feria, 
Que  o  J  est»va  á  espera 
Na  travessa  do  Rosário. 

O  R,  coxo  de  um  pé,  : .    . 
Estando  d'alli  desviado, 
M  apanha- o  descuidado^ ' 
Atirou-lhe  á  falsa  f  é ; 
O  O.  que  ouviu  o  banzé, 
Quando  checou  nada  viu, 
Ao  mesmo  tempo  tentiu 
Grandes  suspiros  e  ais. 
Foram  as  lettras  vogxes 
Quem  ao  barulho  acudiu. 

O  F  e  mais  o  Q, 

OX  o  LeoH, 

Todos  i  pancada  ao  K, 

Por  ter  batido  no  Z ; 

OULeoT, 

Qual  delles  o  mais  vario, 

Foram  pedir  ao  contrario 

Para  no  Y  bater, 

Que  o  fcl  queria  prender 

As  lettras  do  abecedario. 


Eu  não  quèrò  amor  toureiro^ 
Só  «e  mudar  dè  sentido. 
Pôde  vir  um  boi  matreiro. 
Ficar  mulher  tem  marido. 


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MARIA  SEVERA 
(Desenho  feito  sobre  indicações  ministradas  por  contemporâneos  da  Severa) 

7 


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:  .< . 


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Hiêtoria  do  Fado  99 


AUegando  ser  d'um  capinha 
Que  na  praça  se  apresenta, 
Qualquer  rapariga  tenta, 
£  elle  nâo  adivinha ; 
O  boi  para  eile  caminha, 
E  maltrata-o  no  terreno, 
Chora  o  amor  verdadeiro 
Que  p'ra  elle  esta  disposto, 
P'ra  me  livrar  do  desgosto 
Eu  nâo  quero  amor  toureiro. 

Se  para  um  artista  olhar 
E*  só  para  o  estar  a  vêr, 
E'  para  eu  me  entreter, 
Para  meu  tempo  passar ; 
Se  amores  me  quizer  tomar, 
Que  não  seja  amor  fingido, 
Farei  com  elie  um  partido 
De  só  a  elle  me  ligar, 
Com  o  protesto  de  casar. . . 
Só  se  mudar  de  sentido. 


Todos  gostam  de  vêr  os  toiros 
Lidados  na  bella  praça, 
Claros  e  de  boa  raça, 
Faz -se  a  funcçâo  sem  agoiros; 
Espectac'lo  sem  desdoiros, 
Só  de  vêr  um  bom  toureiro 
Bem  empregado  dinheiro! 
Palmas  a  todos  os  preparos! 
Mas  entre  tantos  bois  claros. . . 
Pode  vir  um  boi  matreiro. 

Tristeza  é  para  a  casada, 
O  vêr  estar  seu  marido 
AUi  na  praça  estendido, 
Co' um  a  costella  quebrada; 
Toda  em  lagrimas  banhada, 
Seu  coração  opprimido, 
Porque  pôde  o  boi  ter  f* rido 
Co'uma  pancada  tão  forte, 
E  ser  ferimento  de  morte, 
Ficar  mulher  sem  marido. 


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100  Empreza  da  HUtoria  de  Portugal 


Passarinho  que  eantaes 
Nesse  raminho  deflores, 
Cantae  vás,  chorarei  eu, 
Que  assim  faz  quem  (em  amores. 

Doce  habitador  do  vento, 
Vós  sois,  no  volátil  coro, 
Nâo  só  musico  sonoro, 
Mas  também  lindo  instrumento; 
Suspendei  o  doce  accento 
Com  que  a  todos  alegraes, 
Se  attenderdes  a  meus  ais, 
Que  nascem  de  anciãs  cruéis, 
Prometto-vos  que  chorareis, 
Passarinho  que  cantaes. 

Vós  n*esse  enfeite  de  Flora, 
Onde  louvaes  cantando 
O  sol,  que  parece  infante 
Nos  braços  da  bel  la  Aurora; 
Contrários  somos  agora, 
Tu  contente  e  eu  com  dores, 
Aqui,  no  centro  de  horrores, 
Estou,  sem  cessar,  penando, 
Vós  brandamente  cantando 
N'esse  raminho  de  flores. 

Vós  sois  o  mimo  do  Fado, 
Eu  da  Fortuna  o  desprezo, 
Vós  em  liberdade,  eu  prezo, 
Vós  feliz,  eu  desgraçado; 
Oh!  que  dHlerente  estado 
O  Fado  a  cada  um  nos  deu! 
A  mim,  passarinho  meu, 
Com  affecto  differente, 
Eu  em  penas,  vós  contente. .  • 
Cantae  vós,  chorarei  eu. 

Sem  duvida,  d'outra  ave. 
Namorado  estás.  Que  amante! 
A  festejar  cada  instante 
Com  melodia  suave; 
Pobre  de  quem  n*este  grave 
Tormentos  sente,  rigores, 
Cantae  d'amor  os  fervores, 


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Historia  do  Fado  101 

V 

Que  eu  chorarei  meus  azares, 
Que  assim  faz  quem  tem  pezares, 
Que  asbim  faz  quem  tem  amores. 

Se  eu  podesse  em  noite  escura 
Sfírpor  ti  agasalhado, 
Dormia  mesmo  enroscado 
No  açafate  de  costura. 

Filha  do  Guadalquivir, 
Oh,  hermosa  scviUana, 
Descerra  a  tua  ventana 
Vem  minhas  trovas  ouvir; 
E  não  te  deixes  dormir, 
Que  o  manolo  te  procura, 
De  la  madre  buena  e  pura, 
Pepita,  tanto  te  quiero, 
Que  te  roubava  cl  salero 
Se  eu  podesse  em  noite  escura. 

0  Argua,  que  te  vigia, 

Por  Dios!  caramba!  o  condemno, 

Maldito  sea  el  sereno 

Que  ronda  a  ealle  sombria  ; 

E  quando  mal  principia 

A  dizer:  o  sol  e  nado, 

Corro,  fujo  assustado, 

ror  essas  viellas  fora, 

Podendo  n'aquell*  hora 

Ser  por  ti  agasalhado 

Bella  como  tu,  por  Cid ! 

N*Ao  ha  nas  terras  de  Hespanha, 

Das  margens  que  o  Tormes  banha 

Té  á  corte  de  Madrid  ; 

Mi  alma  tu  alma  pidef 

Salerosa,  a  Dios  sagrado, 

Se  eu  me  visse  encostado 

No  teu  collo  todo  alvura, 

Na  tua  mantilha  escura 

Dormia  mesmo  enroscado. 

Desde  Sevilha  a  Granada 
Ninguém  te  vê  que  não  peque, 


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102  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

Fere  ainda  mais  o  tea  leque, 
Que  o  game  da  fina  espada; 
E  se  me  desses -pousada 
No  leito  da  alcova  escura, 
Verias  com  que  candura 
Ahi  dormia  mansinho 
Mais  meigo  que  um  gatinho  - 
No  açafate  de  costura 


Elmano,  sublime  Elmano ! 
Príncipe  da  litteratura, 
Não  sei  que  cantiga  cante 
PVa  não  fazer  má  figura. 

Se  eu  tivesse  o  teu  talento, 
tyal  que  rompesse  a  aurora, 
A  meiga  deusa  Flora 
Cantava  com  aprazimento; 
Comtigo  no  pensamento 
Desferia  ò  luzo  piano, 
E  quando  Apollo  sob?rano 
Envergasse  o  manto  d'oiro, 
(Troava -te  de  verde  loiro 
Elmano,  sublime  Elmano  ! 

Da  Grécia  ao  luso  torrão 
Viria  em  doce  romagem, 
Cará  prestar  homenagem 
A  tua  culta  instrucção  ; 
Pela  minha  própria  mão 
Queimava-te  essência  pura, 
E  quando  os  Zoilos,  por  censura; 
Tacoramettessem  d 'as  sal  to, 
Proclamava  te  bem  alto 
Principe  da  litteratura. 

O  fadinho  nacional 
Na  minha  lyra  tangia, 
E  a  teus  pés  me  curvaria. 
Luzo  poeta  immortal ! 
O  teu  estro  colossal 
E'  p'ra  mim  tão  fascinante, 
Que  á  vista  do  povo  amante, 
Com  a  minha  rude  oratória, 


í? 


Historia  do  Fado  103 


Para  te  cobrir  de  gloria 
Não  sei  que  cantiga  cante. 

N*eete  brilhante  cenáculo 
Poucos  me  d%o  attençao, 
Porque  não  tenho  o  condão 
Do  teu  estylo  vernáculo  ; 
Tu  és  o  divino  oráculo 
Da  harmonia  e  doçura, 
£  como  a  critica  procura 
Deturpar  minha  riroagem, 
Dá-me  forças  e  coragem 
P'ra  não  fazer  má  figura. 


A  melodia  de  Horácio 
Queria  ter  na  poesia , 
P'ra  faztr  a  apofheose 
Dos  mestres  da  cantoria. 

Lindas  grinaldas  de  flores 
Queria  collocar  na  lyra, 
Pára  a  luz  da  luza  pyra 
Eu  saudar  os  trovadores; 
Queria  aos  virgíneos  amores 
Glosar  no  campo  herbáceo, 
Queria  o  brilhante  prefacio 
Ser  de  poemas  diversos, 
Se  tivesse  nos  meus  versos 
A  melodia  de  Horácio. 

Com  os  professores  do  fado 
Não  temia  a  discussão. 
Se  tivesse  a  inspiração 
D'esse  vate  laureado; 
Entre  as  alfombras  do  prado 
Lindas  odes  comporia, 
E,  p'ra  que  a  meiga  Thalia 
Se  curvasse  extasiada, 
Locução  esmerilhada 
Queria  ter  na  poesia. 

Do  Parnaso  a  fina  meta 
Não  receiava  transpor, 
Se  tivesse  ao  meu  dispor 


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104  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

O  estro  d'esse  poeta; 
Da  poesia  incorrecta 
Fazia  a  metamorphose, 
Tomava  a  modesta  pose 
Do  sábio  cultor  da  penna, 
£ . . .  entrava  na  arena 
Para  fazer  a  apotheose. 

Se  os  modernos  prosadores 
Não  me  tolhessem  o  passo, 
Invocava  Torquato  Tasso 
E  seguia  o  canto  ás  flores; 
Rosas  de  diversas  cores 
Sobre  o  solo  espalharia, 
£  com  toda  a  cortesia 
Saudava  o  auditório 
Para  ouvir  o  reportório 
Dos  mestres  da  cantoria. 

lia  o  mole  -  K  não  poude  dizer  tó,  que  foi  mui  lo 
glosado  no  fado  antigo.  Conhecemos  esta  glosa : 

E'  pena  que  o  meu  José, 
Sendo  um  esperto  rapaz, 
Não  saiba  dizer  Thomaz, 
Nem  possa  dizer  Thomé; 
Dizer  nunca  poude  o  T, 
Quando  vem  junto  com  O, 
O  outro  dia  disse  só 
Todo  obaba  por  si, 
Mas  chegou  ao  ta-te-ti, 
£  não  poude  dizer  tó. 

Os  motes  do  fado  seguintes  são  quasi  todos  antigos: 

Em  nome  de  Deus  começo, 
Padre,  Pilho,  Espirito  Santo; 
E'  esta  a  primeira  cantiga, 
Que  n'este  auditório  canto. 

Já  o  ferro  é  suspendido, 
Largo  as  velas  ao  vento, 
Levo  te  em  meu  pensamento, 
Nunca  me  sahes  do  sentido. 


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Historia  do  Fado  10o 


Perdeu  se  o  Feliz  Destino 
Na  barra  do  Desengano, 
Foi  se  o  Pensamento  a  pique, 
Sal  vou- se  o  Amor  nadando. 

Os  pombinhos  innocentes 
Namoram  se  c  dão  beijinhos, 
Faremos,  amor,  faremos 
Como  fazem  os  pombinhos. 

Eu  puz-me  a  chorar  saudades 

Ao  pé  d'uma  sepultura, 

E  uma  voz  ouvi  dizer 

O  mal  d'amores  não  tem  cura. 

Nasci  nas  praias  do  mar, 
Nas  areias  me  criei, 
Dormi  á  bulha  das  ondas, 
Sobre  as  vagas  m 'embalei. 

Irei  viver  entre  os  montes, 
Vendo  o  precioso  trigo, 
Lá  no  céo  ou  cá  na  terra 
Só  quero  viver  comtigo. 

Já  que  me  pedem  qu'eu  eante 
Vou -lhes  fazer  a  vontade, 
Eu  não  sei  que  gosto  tem 
Ouvir  cantar  quem  não  sabe. 

No  forte  dos  cantadores 
Ra  dois  bonitos  estandartes, 
Para  quem  os  quizer  ganhar 
Com  acções  e  com  combates. 

Põe-se  a  lua  e  nasce  o  sol, 
Reverdecem  as  flores, 
Eu  só  vim  a  eete  mundo 
Pfra  dar  honra  aos  cantadores. 

Já  não  tenho  pae  nem  mãe, 
Nem  n'esta  terra  parentes, 
Sou  filho  das  tristes  bervas, 
Neto  das  aguas  correntes. 


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106  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

Fui- me  deitar  entre  as  nuvens, 
Das  estrella8  fiz  encosto, 
Ia  beijando  uma  d'el!as 
Cuidando  que  era  o  teu  rosto. 

Ai  de  mim,  que  já  não  posso 
Cantar  uma  cantiguinha, 
Pui  beber  agua  d 'amores, 
Ficou-me  a  fala  brandinha. 

No  ventre  da  Virgem  bel  ia 
Encarnou  Verbo  por  graça, 
Entrou  e  sahiu  por  cila 
Como  o  sol  pela  vidraça. 

A'lerta,  ó  cantadores ! 
Coiram  a  Almada  e  vâo  vêr, 
Que  as  pegas  lirós  do  fado 
Uma  toirada  vão  fazer! 

Rapazes,  quando  eu  morrer, 
Gravem-me  na  sepultura: 
«Aqui  jaz  mimo  do  fado, 
Que  morreu  sem  ter  ventura!» 

Sempre,  sempre  meditando, 
Até  fatigo  a  memoria, 
Quando  a  musa  não  mMnspira 
P'ra  cantar  a  luza  historia. 

Maria,  minha  Maria, 
Meu  açafate  de  limões, 
Tu  olha  p'ra  mim  direita, 
Respeita  os  meus  matacões. 

Esta  noite  nasceu  o  sol 
Do  ventre  d'uma  donzella, 
Ella  é  mãe  e  filha  d'el!e, 
Elle  é  pae  e  filho  delia. 

As  grades  do  Limoeiro 
São  sete,  qu'eu  as  contei: 
Três  de  ferro,  três  de  bronze, 
Uma  d'oiio,  qu'é  d'el-rei. 


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Historia  do  Fado  107 


Em  o  ventre  de  Maria 
Encarnou  Cbriato-Jesus; 
A  vinte  e  cinco,  em  Dezembro, 
Deu-o  á  meia-noíte  á  hw. 

Fuz  um  pé  na  sepultura, 
Uma  voz  me  respondeu: 
Ergue  o  pé  que  estás  pisando 
Um  amor  que  já  foi  teu. 

Homem,  que  vaes  passando, 
Volta  atraz  e  vem-me  vêr, 
Eu  já  fui  o  que  tu  és, 
O  que  eu  sou  tu  has  de  ser. 

Cantando,  cantei,  cantava, 
Cantava,  cantei,  cantando, 
Chorando,  chorei,  chorava, 
Chorava,  chorei,  chorando. 

Estando  eu  dentro  da  cama^ 
Intentei  ir  viajar, 
Fui  n'uma  sege  a  Cacilhas, 
Foi  n'um  bote  ao  Lumiar. 

A'lerta,  eantor  do  fadof 
Qu'este  rapaz  alerta  está! 
Atira,  deita  por  terra, 
E  não  perguntes:  Quem  vem  lá? 

Acabaste  de  cantar, 
Agora  respondo  eu, 
Começa  o  meu  coração 
A  dar  combates  ao  teu. 

Os  dois  irmãos  Eobertos, 
Dois  toureiros  entre  nós, 
Foram  picar  bois  em  pontas 
A1  praça  de  Badajoz. 

A  penna  com  que  te  escrevo 
Não  é  de  nenhum  pavão, 
A  tinta  sahe-mé  dos  olhos, 
A  penna  do  coração. 


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108  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

Sou  amante  da  orgia, 
A'  tristeza  tenho  horror, 
Dob  salões  do  lupanar 
Faço  meu  ninho  d'amor. 

Pelo  eanto  das  sereias 
Se  perdem  os  navegantes, 
Perdem-seos  homens  na  terra 
Pelo  canto  das  amantes. 

Tem  o  fadinho  o  poder 
Dos  corações  attrabir, 
Tem  magia,  tem  encantos, 
Faz-nos  chorar,  faz-nos  rir. 

Os  meus  beijos  são  gelados 
E  o  meu  coração  é  frio, 
Nos  lábios  tenho  a  mentira, 
O  pudor  de  mim  fugiu. 

No  infame  lupanar 
ludo  é  nojento  lameiro, 
Sorrir  quando  os  olhos  choram, 
Vender  amor  a  dinheiro. 

Quando  tu  choras,  vaidosa, 
As  tuas  lagrimas  quentes 
Cahem  do  céo  para  a  terra 
Em  mil  estreitas  cadentes. 

Anda  cá,  mulher  perdida, 
Eu  te  quero  abraçar, 
Na  flor  da  tua  vida 
A  honra  te  fui  roubar. 

Infeliz  creança  bel  la, 
Perdida  pflo  seductor, 
Porque  assim  a  desgraçaste 
Com  tão  rude  desamor? 

Por  ti,  a  quem  tanto  amei, 
Fui  desprezada,  esquecida, 
Hoje  vivo  lamentando 
A  minha  honra  perdida. 


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Historia  do  Fado  109 


Desde  Alcanfra  até  Alfama 
E  d'Alfàma  á  Mouraria, 
Toda  a  guitarra  suspira 
O  fado  do  Anadia. 

Bella  cerca  de  Jesus, 
Onde  os  mestres  vâo  cantar, 
Nas  noites  deliciosas 
De  beber,  rir  e  folgar. 

Uma  camélia  vaidosa, 
Movida  pelo  ciúme, 
Acercou  se  d  uma  rosa 
P'ra  lhe  roubar  o  perfume. 

O  primeiro  beijo  puro 
Como  cadeia  de  flores, 
E'  laço  que  prende  a  vida, 
E'  grilhão  que  enlaça  amores. 

N'eôte  mundo,  só  d'enganos, 
Desgostoso  vou  vivendo; 
Por  mais  que  discorra  e  pense, 
Eu  tal  mundo  não  entendo. 

Adeus  Lisboa  e  cidade, 
Adeus  oh  pátria  querida, 
Qu'eu  d 'es  ta  vou  degredado, 
Vou  dar  fins  á  minha  vida! 

Tudo  que  é  triste  no  mundo 
Quizera  que  fora  meu, 
íáó  pVa  vêr  se  tudo  junto 
Era  mais  triste  do  que  eu. 

N'e8te  campo  solitário, 
Onde  a  desgraça  me  tem, 
Chamo,  ninguém  me  responde, 
Olho,  não  vejo  ninguém. 

Nas  ondas^foi  que  nasci, 
No  mar  a  infância  passei, 
E'  o  mar  que  me  sustenta, 
Minha  campa  Meterei. 


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110  Empreza  da  Historia  de  Portugal 


Eu  de  nada  me  admiro, 
Ai  la-ri-ló-lé  Guimarãee, 
Eu  já  vi  um  padre  prenho 
Parir  vinte  e  cinco  cães. 

Hei  de  escrever  a  Cupido 
Mandando- ibe  perguntar, 
Se  um  coração  oftendido 
Tem  obrigação  de  amar. 

Cupido,  deus  dos  amantes, 
Aprendeu  a  gravador, 
Engastou  dois  diamantes 
Nos  peitos  do  meu  amor. 

Três  cantadoras  do  fado, 
De  cuia  estupenda  e  alta, 
A  cantarem  no  Casino, 
Eu  vi  á  luz  da  ribalta. 

A  guitarra  sem  a  prima, 
A  prima  sem  o  bordão, 
Parece  filho  sem  pae, 
Corrido  do  seu  irmão. 

O  que  existe  além  da  morte, 
Ninguém  disse  nem  dirá, 
De  todos  que  tem  morrido 
Ainda  nenhum  voltou  cá. 

Ainda  agora  aqui  cheguei, 
Peza  me  não  vir  mais  cedo, 
Cada  qual  vem  quando  pôde, 
E  eu  venho  quando  cá  chego. 

O  meu  coração  e  o  teu 
Certo  não  sei  que  lá  tem, 
Que  tudo  que  o  vosso  sente, 
Meu  peito  sente  também. 

Dizia  o  roeu  padre- cura 
Homem  de  grande  juizo, 
Quem  sabe  cantar  o  fado 
Vae  direito  ao  Paraizo. 


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Histeria  do  Fado  111 


Da  virgem  faz- se  a  perdida, 
Tudo  soffre  transição ; 
Do  amor  puro  vem  gloria, 
Do  impuro  a  perdição. 

Quem  tem  filhos  pequeninos 
Ha  de  por  força  cantar, 
Quantas  veies  a  mãe  canta 
Com  vontade  de  chorar. 

Vender  linhos,  vender  chitas, 
Pannos  pretos  e  de  cor, 
Dá  bom  ganho,  qu 'enriquece 
Hoje  em  dia  o  mercador, 

A  a  ondas  do  teu  cabello 
Atirei-me  eu  a  afíbgar, 
Fará  que  o  mundo  soubesse 
Que  não  ha  só  ondas  no  mar. 

Quem  creou  o  nosso  fado 
Foi  Adão  no  Paraizo; 
Era  um  poeta  d 'escacha, 
Um  fadista  com  juízo. 

Oh  tristes  e  alegres  flores, 
Filhas  da  sabia  natura! 
Emblemas  da  humana  sorte, 
Mesmo  alem  da  sepultura. 

As  aguas  que  vem  do  monte 
Correm  direitas  ao  mar, 
Petiza,  se  te  não  casas, 
Não  sei  onde  irás  parar. 

A  guitarra  é  uma  lyra, 
As  cordas  suas  vibrando, 
Enlevos  ternos  inspira 
A  quem  a  estiver  escutando. 

Eu  fui  o  que  disse  ao  sol 
Que  nãj  tornasse  a  nascer, 
A'  vista  dVsses  teus  olhos, 
Que  vinha  o  sol  cá  fazer. 


Wgiti2 


112  Emprepa  da  Historia  de  Portugal 

O  fado  é  a  alegria, 
O  fado  é  o  prazer, 
Porque  o  fado  nos  dá  vida, 
No  fado  quero  morrer. 

Já  lá  vae  pelo  mar  fora 
Quem  me  tirava  o  ehapéo, 
Deu»  o  leve,  Deus  o  traga, 
Como  as  estrellas  no  eco. 

Lá  mesmo  na  sepultara, 
Onde  eu  sepultado  for, 
Uma  letfcra  a  cada  canto    '. 
A.  M.  O.  B.  —  Amor. 

Meu  coração,  não  te  assustes    * 
Por  ouvir  mais  cantadores, 
Entra  tu,  pede  licença 
A  todos  estes  senhores. 

Ai!  quem  me  dera  cantar 
Como  canta  a  cigarrinha, 
Para  cantar- te  á  janella 
Entre  as  hervas  á  noitinha. 

Mais  firme  que  esta  guitarfa 
Eu  serei,  por  ti,  meu  bem, 
Porque  ella  nâo  tem  raízes 
E  este  amor  raizes  tem! 

Quem  ama  não  considera, 
O  que  lhe  pode  acontecer, 
Cuida  que  tudo  são  rosas 
Que  ao  jardim  se  vão  colher. 

Quem  ama  não  considera, 
Quem  considera  não  ama, 
Eu  amei  e  não  considerei ,[ 
Choro  agora  na  cama. 

Mais  uma  vez,  q'rida  lyra, 
Tuas  cordas  vou  vibrar, 
Todas  cheias  de  amargura, 
Tristes  sons  tu  vaes  tocar. 


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MANOEL   GONÇALVES   TORMENTA 
(Insigne  vavalleiro  e  aasignalado  amador  de  fado) 


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Historia  do  Fado  115 


Minha  mãe  não  quer  que  eu  use 
Calças  de  bocca  de  Bino, 
Eu  ando  só  com  janotas 
De  casaca  e  chapéo  fino. 

Amar  e  saber  amar 
São  dois  pontos  delicados, 
Os  que  amam  são  sem  conto, 
Os  que  sabem  são  contados. 

Nasci  nas  praias  do  mar 
Ao  impulso  d'ondas  mi), 
Tendo  por  berço  uma  lancha,    r 
Por  coberta  um  céo  d'anil. 

Adeus,  rapazes  amigos, 
A  quem  eu  acompanhava, 
Adeus,  oh  Lisboa  q'rida, 
Ai!  terra  que  tanto  amava! 

Guitarra,  minha  guitarra, 
Que  estás  hoje  ao  pé  de  mim, 
Trina  tu  que  eu  cantarei, 
Té  chegar  o  nosso  fim. 

Para  as  torradas  manteiga, 
Por  cima  café  e  vinho, 
Estão  ingleses  em  terra, 
Vão  portuguezes  p'ró  pinho. 

Serão  três  os  mandamentos 
Do  fadista,  disse  a  sorte: 
Navalha,  banza  efado 
Seguil  o -hão  té  á  morte! 

A  viola  sem  a  prima 
E'  como  a  filha  sem  pae, 
Cada  corda  seu  suspiro, 
Cada  suspiro  seu  ai! 

Eu  hei  amar  o  meu  bem, 
Diga  o  mundo  o  que  quizer, 
Quem  ama  não  quer  conselhos, 
Quer  só  tudo  o  que  o  amor  quer. 


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116  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

Trahindo  os  teus  juramentos 
Foste  perjuro,  infiel, 
Trocaste  os  gozos  damor 
Pela  ingratidão  cruel . 

Dou  a  minha  despedida, 
Sem  offender  a  ninguém, 
O  muito  cantar  enfada, 
O  pouco  parece  bem. 

Quem  pintou  o  amor  cego 
Não  o  soube  bem  pintar, 
O  amor  nasce  da  vista, 
Quem  não;  vê  não  pode  amar. 

O  amor  nasce  da  vista, 
E  mora  no  coração, 
Vive  da  correspondência, 
E  morre  da  ingratidão. 

Entre  a  penna  e  a  espada 
Ha  de  haver  grandes  questões, 
Eu  defenderei  a  penna, 
A  arma  que  empunhou  Camões. 

Agora  respondo  eu 
A'  flor  que  aqui  cantou, 
Estava  pra  me  ir  embora, 
Agora  já  me  não  vou. 

Adeus,  oh  pátria  tão  q 'rida, 
Que  eu  d'esta  vou  degredado, 
Vou  dar  fins  á  minha  vida, 
Bem  nascido  e  malfadado. 

Minha  mãe  afflicta  chora 
Pelo  seu  querido  filhinho, 
Elle  choroso  também  vae 
N'este  espinhoso  caminho. 

O'  cantador,  afamado, 
Que  sabes  mais  que  ninguém, 
Diz  p'ra  que  nasceu  Cbristo 
No  presépio  de  Belém? 


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Ilutoria  do  Fado  117 


Cá  na  terra  de  Lisboa 
Quem  é  rico  passa  bem, 
Assim  é  na  minha  terra, 
E  n 'outra  qualquer  também. 

Para  a  noite,  lua  e  estrellas, 
Para  os  campos  malmequeres, 
Agua  fria  para  a  sede, 
Para  os  homens  as  mulheres. 

Ainda  agora  aqui  cheguei, 
Oh  jovjen  constante  e  pura, 
Boa  noite,  meus  senhores, 
Puz  um  pé  na  sepultura  1 

Puz-me  a  chorar  junto  ao  rio 
Lagrimas  de  sentimento, 
E  uma  voz  ouvi  dizer: 
Nada  cura  como  o  tempo. 

Este  mundo  6  um  jardim, 
Cada  flor  é  um  christào, 
Vem  a  morte,  furta  as  flores, 
Que  Deus  poz  por  sua  mão. 

Eu  canto  quando  te  vejo, 
Mesmo  com  a  noite  a  cerrar, 
Não  ha  tordo  que  não  cante, 
Quando  lhe  bate  o  luar. 

Insensata  humanidade, 
Que  á  soberba  daes  entrada! 
Cedo  ou  tarde  ficareis 
Em  terra,  pó,  cinza  e. . .  nada! 

A*  face  do  lindo  céo 
Jurei  e  tenho  jurado, 
Só  a  ti  e  a  mais  ninguém, 
Eu  amei  e  tenho  amado. 

Quem  diz  qu'amor  é  enfado 
E'  certo  que  nunca  amou, 
Eu  amei  e  fui  amado, 
Nunca  o  amor  me  enfadou. 


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118  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

O  beijo  que  tu  me  deste 
Sem  a  tua  mãe  saber, 
Toma-o  lá,  já  o  não  quero, 
Porque  lh\>  foram  dizer. 

O'  lyra,  quem  poderá, 
Do  Fado  fugir  ás  leia? 
Se  ao  Fado  sujeito  está 
O  mundo,  plebeus  e  reis  ! 

Esta  noite  sonhei  eu 
Um  sonho  bem  divertido, 
Que  tinha  na  minha  cama 
A  forma  do  teu  vestido. 

A  mulher  é  qual  a  rosa, 
Cândida  e  pura  em  botão 
Ao  desabrochar,  formosa, 
Depois  desfolha-se  então. 

Cantigas  são  pataratas, 
Palavras  leva  as  o  vento, 
Quem  se  fiar  em  cantigas 
E'  leve  de  pensamento. 

Todo  este  monte  não  tem 
Como  eu  um  outro  pastor, 
Que  te  tenha  tanto  amor, 
Que  te  saiba  amar  tão  bem. 

Guitarra,  lyra  divina 
Onde  canta  a  sorte  varia, 
Em  que  chorou  a  Severa, 
E  lagrimeja  a  Cesaria  ! 

O7  morte  vem  terminar 
Os  meus  dias  de  amargura, 
Que  o  meu  continuo  penar 
Findará  na  sepultura! 

Não  sei  o  que  tem  meu  peito, 
Se  é  aíflicção  ou  se  é  dor, 
Se  não  é  amor  que  sinto. 
Não  sei  o  que  seja  amor. 


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Historia  do  Fado  119 


Alegria  não  a  tenho, 
Tristeza  com  migo  mora, 
Se  consigo  o  que  desejo 
Logo  a  tristeza  vae  fora. 

Escrevi  na  branca  areia 
Doce  nome  do  meu  bem, 
Escrevi  e  risquei  logo 
Com  medo  que  visse  alguém. 

Vae  com  Deus  !  já  foste  minha, 
Que  eu  também  com  Deus  me  vou  ! 
Deus  te  pague  se  me  amaste 
Deus  perdoe  a  quem  te  amou  ! 

Tenho  um  sacco  de  cantigas 
E  ainda  mais  um  guardanapo, 
Se  isto  vae  ao  desafio, 
Vou-me  a  desatar  o  sacco. 

Quando  meus  olhos  te  viram, 
Meu  coração  te  adorou, 
Na  cadeia  de  teus  braços 
Minh'alma  presa  ficou. 

Se  tens  empenho  em  saber 
Qual  é  o  canto  adorado, 
Vae  ao  cote  da  Severa 
Pergunta  pelo  seu  fado. 

De  que  me  serve  desfructar 
Os  bens  que  a  fortuna  dá, 
Sem  ter  nada  vive  um  pobre. 
Mas  sem  ti  quem  viverá  ? 

N 'estes  ditosos  logares, 
Onde  me  fica  o  coração, 
A  meus  ternos  ais  responde, 
Que  merecem  a  compaixão. 

Já  fui  teu,  mas  não  o  nego, 
O  mundo  pôde  saber, 
Que  hoje  em  ser  teu  só  tenho 
A  gloria  de  o  não  ser. 


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120  Empreza  da  Historia  de  Portugal 


Oh  mulher,  que  me  mataste, 
Dá- me  agora  a  sepultura  ! 
Já  que  a  morte  me  causaste, 
O  meu  mal  já  não  tem  cura  ! 

Oh  mulher,  que  me  deixaste, 
Do  que  eu  bem  certo  estou, 
Nem  ao  menos  te  lembraste 
Do  que  entre  nós  se  passou  ! 

Muito  vence  quem  se  calia, 
Mais  vence  quem  não  diz  tudo, 
Porque  em  certas  occasiões 
Yale  mais  o  fazer- se  mudo. 

Meu  amor,  quem  calla  vence, 
Mais  vence  quem  não  diz  nada, 
Porque  em  certas  occasiões 
Yale  mais  a  bocca  callada. 

Tu  te  queixas,  eu  me  queixo, 
Qual  de  nós  terá  razão  ? 
Tu  te  queixas  dos  meus  zelos, 
Eu  da  tua  ingratidão. 

Quando  Christo  resuscitou, 
Estalaram  as  pedras  duras, 
Cobriu  se  o  mundo  de  trevas, 
E  abriram  -se  as  sepulturas. 

Oh  homem,  se  és  cantador, 
Ha s  de  me  explicar, 
Como  Deus  formou  o  mundo, 
Sósinho  e  sem  se  cançar  ? 

Coração  tem  duas  pennas, 
Qual  d'ellas  a  mais  pungente, 
Que  uma  diz  o  que  escreve, 
E  outra  escreve  o  que  sente. 

Quiz  pezar  nossa  amizade, 
Sem  usar  de  manha  ou  arte, 
Ergue  a  mão,  deixa  -a  balança. . 
Pende  mais  p'rá  minha  parte. 


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Historia  do  Fado  121 


Tuas  cantigas  modernas 
Quasi  que  todas  sâo  mochas, 
E  de  nascença  vem  coxas, 
As  minhas  tem  duas  pernas.  ' 

Meu  coração  é  relógio, 
MinValma  dá  badalladas, 
No  dia  em  que  te  não  vejo, 
Trago  as  horas  contadas. 

Indo  um  dia  passeiar, 
De  capote  amantilhado, 
Entrei,  sem  saber  que  entrava. 
N'uma  casa  de  bom  fado. 

Tem  falta  de  patriotismo 
Quem  do  fado  disser  mal, 
Porque  este  canto  é 
Pura  invenção  nacional. 

De  certo  ninguém  resiste 
A  largar  uma  piada, 
Se  apparecer  o  pianinho 
Em  tarde  de  patuscada, 

Para  cantar,  a  Custodia 
Ou  a  Malocas  do  Galvão, 
P'ra  bater  o  fado  não  ha 
Como  a  Amélia  do  Paixão. 

Praguentos,  arreda  lá, 
Bojado  não  digaes  mal, 
Honra  aos  bel  los  cantadores, 
Honra  ao  fado  nacional  ! 

Oh  seu  cantador  lampeiro, 
Veja  lá  no  que  se  estriba, 
Ainda  ha  de  vir  o  primeiro, 
Que  me  ha  de  ficar  de  riba  ! 

Senhores,  que  m -ouvindo  estão 
Em  este  recinto  honrado, 
Não  julguem  de  mim  fadista 
Só  por  eu  cantar  o  fado. 


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122  Empreza  da  Histotia  de  Portugal 


Oh  vida  da  minha  vida. 
Oh  vida  do  meu  viver! 
Para  que  quero  eu  a  vida 
Se  eu  nasci  para  morrer  ! 

Oh  vida  da  minha  vida, 
Da  minha  vida  não  sei ! 
Sei  o  que  tenho  passado, 
O  que  hei  de  passar  não  sei. 

Chora,  chora  desgraçado, 
Que  o  teu  mal  já  tem  raiz  ! 
Não  digas  que  eu  fui  culpado 
Da  tua  sorte  infeliz. 

Dá-me  a  flor  emmurchecida 
Dos  teus  seios  ao  calor, 
Dama  pallida,  sem  vida, 
Dá-m'a  sem  brilho,  sem  cor. 

O  canto  mais  popular, 
Mais  terno  mais  sentidinho, 
E'  decerto,  e  sem  questão, 
O  sympathico  fadinho. 

Eu  canto  ao  som  da  guitarra 
O  fadinho  nacional, 
Quando  ao  som  da  banza  canto 
Dou  alivios  ao  meu  mal. 

Não  sei  qual  pena  é  maior, 
Qual  é  mais  de  lastimar, 
Se  vêr  um  homem  morrer, 
Be  vêr  um  homem  chorar. 

Amar  não  é  crime, 
Não  é  crime  não, 
Quem  despreza  au.or 
Não  tem  coração. 

Se  eu  fosse  de  Portugal 
Rei  ao  menos  por  um  dia, 
De  nobre,  os  foros  daria, 
Ao  fado  nacional. 


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Historia  do  Fado  123 


N'uma  noite  d'aventura 
Tive  um  sonho  bem  feliz  ! 
Sonhei  que  estava  dormindo 
Nos  braços  de  quem  eu  quiz  ! 

Uma  beijo  dado  no  rosto, 
Sendo  bem  repenicado, 
Equivale  a  ouvir  no  fado 
Uma  cantiga  de  gosto. 

Ha  beijos  de  varias  sortes, 
Como  as  boccas  que  os  praticam, 
Ha  beijos  que  mortificam, 
E  ha  beijos  que  causam  mortes. 

Torradinhas  com  manteiga, 
Por  cima  café  limão, 
Toda  a  facada  tem  cura 
Não  chegando  ao  coração. 

Para  as  torradas  manteiga, 
Por  cima  café  limão, 
Canta  lá  o  que  quizcres. 
Que  a  mim  não  m 'enganas  não. 

Quando  Cbristo  Senhor  Nosso 
Descalço  pelo  mundo  andou, 
Aquinta-leira  morreu, 
Ao  sabbado  resuscitou. 

Já  tive,  agora  não  tenho, 
Por  muitos  fui  estimado, 
Acabou- se  o  meu  dinheiro, 
Já  vou  sendo  desprezado. 

Os  cegos  que  nascem  cegos 
Passam  a  vida  a  cantar, 
Mas  eu  que  nasci  e  ceguei, 
Passo  a  vida  a  chorar. 

Aqui,  frui  eu  mil  gozos, 
Aqui,  gozei  a  ventura, 
Aqui,  só  tenho  saudades, 
Aqui,  minha  sepultura. 


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124  Empreza  ãa  Historia  de  Portugal 


Oh  tocador  de  viola, 
Repenica  me  esses  dedos ! 
Se  te  faltarem  as  cordas, 
Aqui  tens  os  meus  cabelioa. 

O  fado  veio  ao  mundo 
N'um  dia  de  primavera, 
Teve  por  berço  a  guitarra 
E  por  madrinha  a  Severa. 

Não  ha  dor  que  tanto  custe 
Como  a  dor  do  coração, 
Todos  os  males  tem  cura, 
Só  este  mal  é  que  não. 

Quem  tem  o  amor  careca 
Tem  a  morte  á  cabeceira, 
Quando  vae  para  se  erguer 
Dá  co 'o s  os  olho:  na  caveira. 

Se  ouvires  dizer  que  eu  morro, 
Não  tenhas  pena,  meu  bem, 
Que  a  sorte  d'um  desgraçado 
Não  causa  pena  a  ninguém. 

Fadistas  são  como  os  cucos , 
Sempre  andam  a  dois  e  dois, 
Ainda  Deus  lhe  ha  de  dar 
Aquillo  que  deu  aos  bois. 

Cupido  apanhou  um  bico 
Lá  na  taberna  de  Baccho, 
Fez  zangar  a  mãe  maluca, 
Partiu  a  Mercúrio  o  caco. 

O  meu  coração,  menina, 
Não  é  caixa  nem  bahú, 
Está  fechado  para  todos, 
Aberto  só  para  um. 

Quem  disser  que  a  vida  acaba, 
Digo  lhe  eu  que  nunca  amou, 
Quem  deixou  ficar  saudades 
Nunca  a  vida  abandonou. 


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Historia  do  Fado  125 


Quem  canta  o  fado  a  atirar 
Está  sujeito  a  mi)  questões  ; 
Quem  tem  amores  tem  zelos, 
Quem  tem  zelos  tem  paixões. 

Tu  cantas  bem  não  cantas  mal, 
Garganta  de  pura  neve, 
E's  o  copo  crystalino, 
Onde  o  sol  divino  bebe ! 

Tu  cantas  bem  não  cantas  mal , 
Oh  garganta  de  marfim, 
Eu  dava  dez  réis  ás  almas. 
Se  cantara  como  a  ti ! 

Eu  hei  de  te  amar  aos  mczes, 
Por  na  o  andar  ás  semanas, 
Havemos  de  dormir  ambos 
Porjnâo  fazer  duas  camas 

Rapazes,  quando  eu  morrer 
Vão-me  entenar  no  Quintão, 
Deitado  sob  um  tonel, 
Sendo  a  fronha  um  cangirão. 

Amar,  morrer,  padecer, 
Não  pode  ser  tudo  junto, 
Quem  morreu  acaba  a  vida, 
Quem  ama  padece  muito. 

Quanto  se  sente  na  morte 
Quanto  na  ausência  se  sente, 
A  morte  é  ausência  eterna, 
A  ausência  é  morte  apparente. 

A  guitarra  para  o  fado, 
A  viola  para  a  canção, 
E  para  carinhos  só  tu, 
Amor  do  meu  coração  ! 

Já  lá  vae,  já  se  acabou, 
O  meu  rir,  o  meu  zombar  ! 
Coração  que  livre  estavas, 
Quem  te  mandou  captivar  ? 


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126  Empreza  da  Historia  de  Portugal 


O  frade  pediu  á  freira  : 
Oiça-me  de  confissão ; 
£  a  freira  lhe  respondeu  : 
Me t ta  me  o  livro  na  mão. 

Guitarra,  minha  guitarra, 
Solta  gemidos  e  ais, 
Que  os  dias  passam  voando, 
E  03  prazeres  não  voltam  mais  ! 

O  shah  da  Pérsia  é  sob'rano, 
Ah  !  tem  tudo  quanto  quer  ! 
Muita  somma  de  brilhantes, 
Muita  somma  de  mulher. 

Ter  amor  é  muito  bom, 
Quando  ha  correspondência, 
Mas  amar  sem  ser  amado, 
Faz  perder  a  paciência. 

Para  as  torradas  manteiga, 
NSo  de  Cintra  que  tem  ranço, 
Mesmo  comendo  torradas, 
Eu  componho,  canto  e  danso* 

Para  as  torradas  manteiga, 
Eu  canto,  mas  você  toque, 
Haja  um  que  nos  governe, 
E  nada  de  rei  nem  roque. 

Todos  são  de  opinião 
Que  a  coisa  não  pega  cá, 
Pois  se  pega  a  todo  o  passo 
O  caminho  Larmanjat. 

Podia  o  céo  dar  batatas, 
Na  terra  estreitas  haver 
Mas  eu  deixar  de  te  amar, 
Isso  não  podia  ser. 

Eu  hei  de  morrer  cantando, 
Já  que  chorando  nasci, 
Já  que  os  gostos  d'esta  vida 
Se  acabaram  para  mim. 


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Historia  do  Fado  J27 


Eu  quizera  um  só  instante 
Apertar- te  ao  peito  meu, 
Abrir  meu  peito  0~dizer-te  : 
E'b  minha,  pois  eu  sou  teu  ! 

Já  te  esqueceste  de  mim, 
Oh  !  morte  devastadora  ! 
Eu  errei  quando  julguei 
Que  eras  minha  protectora 

Folgar  louco  é  illusão 
Torna  o  homen  desgraçado, 
Perde  dos  pães  o  carinho, 
E'  de  amigos  desprezado. 

Eu  hei  de  amar  uma  pedra, 
Deixar  o  teu  coração, 
Uma  pedra  não  me  deixa, 
Tu  deixas- me  sem  razão. 

Oh  morte,  tyranna  morte  ! 
Eu  de  ti  tenho  mil  queixas, 
Quem  has  de  levar  não  levas, 
Quem  has  de  deixar  não  deixas. 

O  loureiro  é  temível, 

Eu  não  me  temo  de  nada, 

Temo  me  da  tua  bocca, 

Que  me  dizem  que  é  damnada. 

Joven  linda  abandonada, 
Só  tu  tiveste  a  dita, 
De  entrar  em  meu  coração, 
Uma  sala  tão  bonita. 

Abre  ta,  pena  constante, 
Serás  minha  sepultura ! 
Se  meus  ais  te  não  abrandam 
Digo- te,  pena,  qu*  és  dura  ! 

Hespanhol  p'rá  malaguenha, 
Portuguez  p 'róÉl  indo  fado, 
Não  ha,  nem  pode  haver 
Canto  a  este  comparado. 


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128  Empreza  da  Historia  de  Portugal 


Para  o  mar  salta  o  banheiro, 
Dá-lhe  a  mão  linda  donzella ; 
As  tranças  boiando  n'açua, 
Fazem- n'a  ainda  mais  baila. 

Se  te  não  amo  falleço, 
£  se  te  amo  ha  quem  me  mate, 
De  toda  a  maneira  morro, 
Quero  morrer  a  adorar- te. 

Não  ha  flor  como  o  suspi  o, 
Cá  na  minha  opinião, 
Todas  as  flores  se  vendem, 
Só  os  suspiros  se  dão. 

Deus  creou  a  borboleta 
Para  nos  campos  voar, 
£  a  ti,  oh  rosa  branca. 
Para  em  meu  peito  viçar ! 

Oh  castelio,  não  te  rendas, 
Iça  a  bandeira  se  queres, 
Na  batalha  dos  amores 
Vencem  sempre  as  mulheres. 

Agora  respondo  eu 
A'  flor  que  aqui  cantou, 
Em  que  vaso  é  que  nasceu, 
Em  que  jardim  se  creou  ? 

Meninas  que  sois  donzellas, 
Vede  bem  por  onde  andaes, 
Que  a  honra  é  como  o  vidro, 
Quebrando  não  solda  mais  I 

Quantas  vezes,  oh  ingrato, 
Falsas  promessas  te  ouvi, 
Os  teus  falsos  juramentos 
Só  agora  os  conheci. 

Tenho  dentro  do  meu  peito 
Duas  penas  a  bulir, 
Uma  diz  que  quer  amores, 
Outra  d'elles  quer  tugir. 


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AMBRÓSIO  FERNANDES  HAIA 
(Decano  dos  guitarristas  Hsbonenses) 


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Historia  do  Fado  131 


Tu  chamaste- me  tua  vida, 
Mas  tua  alma  eu  quero  ser, 
Que  a  vida  morre  com  o  corpo, 
E  a  alma  eterna  ha  de  ser. 

A  caveira  de  meu  pae 
Sem  ter  língua  me  falou  : 
Olha,  filho,  o  triste  estado, 
Em  que  a  morte  me  tornou. 

Branco  phanttsma  se  ergueu 
Por  força  de  amor  ardente, 
Foi  celebrado  o  mysterio 
N'um  sepulchro,  tao  somente. 

Adeus,  caveira  dos  ossos 
Adeus,  dos  ossos  caveira  ! 
Estes  meus  e  esses  vossos 
Todos  da  mesma  maneira. 

Primeiro  homem  foi  Adão, 
E  Eva  a  primeira  mulher ; 
E  ambos  foram  tentados 
Pelo  poder  de  Lúcifer. s 

Altos  céos  que  me  roubaste 
Minha  doce  companhia ! 
Uma  mãe  que  eu  gozava ! 
Que  tanto  bem  me  queria  ! 

O  frade  pediu  á  freira 
Um  beijinho  pela  grade, 
A  freira  lhe  respondeu  : 
Vá 'p'rá  missa  senhor  frade 

Primeiro  homem  foi  Adão, 
E  Eva  da  terra  neta, 
O  Moysés  o  rio  passou, 
Discorre  lá  s'és  poeta  ! 

E'bo  rei  da  estupidez, 
Da  ignorância  imperador, 
As  tuas  horrendas  phrases 
Causam  grandíssimo  pavor. 


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132  Empreza  da  Historia  de  Portugal 


Canta  tu,  cantarei  eu, 
Que  o  cantar  é  alegria, 
Também  os  anjos  cantaram 
Louvores  á  Virgem  Maria. 

Portugal,  não  esmoreças, 
Tem  fé  nas  tuas  bandeiras  ! 
Ainda  te  has  de  ver  feliz 
Entre  as  nações  estrangeiras. 

Pias,  mocho,  a  noite  inteira, 
Lá  na  cruz  do  cemitério. 
P'ra  que  deixas  tu  o  dia 
Pelas  somb:as  do  mysterio  ? 

Oh  morte,  cruel  tyranna,  t 
Oh  parca  dura,  insoffrida!' 
De  negros  crepes  te  adornas, 
Só  te  alimentas  da  vida  ! 

Eu  sou  Mar  e  tu  és  Terra, 
Qual  terá  maior  va'or  ? 
Eu  tenho  a  belleza  das  aguas, 
Tu  tens  o  aroma  da  flor. 

Brilha  a  lua  com  tristeza 
Nas  lages  das  sepulturas, 
Os  cyprestes  rumorejam, 
Eis  o  fim  das  creaturas  ! 

Eu  sou  Terra  e  tu  és  Mar, 
Qual  terá  maior  riqueza  ? 
Se  tu  tens  bellos  coraes, 
Eu  encerro  mais  belleza. 

Anjo  cahido  uma  vez 
E'  banido  entre  os  mortaes 
Porque  as  leis  soci&es 
O  entreolham  de  revéz. 

Que  mais  feliz  não  seria, 
Se  eu  fosse  o  mar  rovoltose, 
Pois  o  teu  olhar  maldoso 
De  mim  jamais  zombaria. 


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Historia  do  Fado  138 

Por  tua  immensa  loucura, 
Tão  devassa  te  tornaste  ! 
Pae  e  mãe  tudo  deixaste 
Com  pranto  e  com  amargura. 

O  malmequer  é  singello, 
Mas  ostenta-se  garrido, 
Em  muito  jardim  florido, 
A  tornar  o  campo  bel  lo. 

Na  praia,  mulher  e  filho 
Não  se  cançam  d 'acenar 
Para  o  navio  que  balança 
Por  sobre  ao  aguas  do  mar. 

P'ra  desenhar  a  mulher 
Que  é  dócil,  meiga  e  gentil, 
Não  ha  no  mundo  pincel, 
Não  ha  na  terra  buril. 

Violeta,  formosa  flor, 
Ninguém  como  eu  te  aprecia, 
Tua  modéstia  me  encanta, 
Teu  aroma  me  inebria. 

Houve  um  homem,  um  traidor, 
Que  de  meu  corpo  abusou, 
Um  puro  amor  me  jurou, 
Mas  era  falso  esse  amor;   . 

O  mar  namora  as  estrellas, 
Vem  as  estrellas  ao  mar, 
Qual  d'ellas  mais  pressurosa 
Para  o  amante  beijar. 

Nada  ha  p'ra  distrahir 
A  travessa  hypocondria, 
Como  da  pesca  o  recreio, 
Quando  abunda  a  pescaria. 

Deu  te  a  rosa  a  sua  cor, 
Deu- te  o  céo  o  azul  turqueza 
Deu- te  a  alvura  o  jasmim, 
£  a  palmeira  a  gentileza. 


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134  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

Eu  fui  aquella  que  disse, 
Encostada  á  solidão: 
Maldita  seja  a  mulher 
Que  por  homens  tem  paixão. 

Em  tudo  sou  infeliz, 
Até  mesmo  no  cantar, 
Partem-se  as  cordas  á  lyra 
Quando  a  quero  acompanhar. 

Fui  ao  Porto,  fui  a  Braga, 
Também  fui  ao  Limoeiro, 
Não  achei  melhor  amigo 
Que  a  bolsa  do  meu  diuheiro. 

Eu  já  quebrei  o  grilhão 
Com  que  o  amor  me  prendia, 
Se  eu  soubesse  eras  ingrata, 
Nada  de  ti  pretendia. 

Não  canto  por  bem  cantar, 
Nem  por  ter  falas  de  amante, 
Eu  canto  para  dar  gosto 
A  quem  me  pede  que  cante. 

Certa  saloia  que  calça 
Sapatinho  de  tacão, 
Accendeu  n'este  meu  peito 
Uma  cratera,  um  vulcão. 

Oh  tocador  da  guitarra, 
Dê  me  a  sua  linda  mão, 
Porque  me  feriu  as  toeiras 
Da  viola  do  coração  ! 

Quero  cantar  e  não  posso, 
Falta  me  a  respiração, 
Falta  me  a  luz  dos  teus  olhos, 
Amor  do  meu  coração  ! 

Os  meus  me  abandonaram, 
Foram -se  todos  os  meus, 
Entre  os  filhos  da  desgraça 
Só  tenho  a  graça  de  Deus. 


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Historia  do  Fado  135 


O  meu  peito  solitário 
£'  um  ninho  de  cantigas, 
Alli  dormem,  alli  vivem, 
Esperando  as  raparigas. 

Vae-te,  carta  venturosa, 
Que  lindos  olhos  vaes  ver, 
Põe- te  carta,  de  joelhos, 
Quando  te  forem  a  ler. 

A*  ler  ta,  cantador,  alerta  ! 
A'  lerta  cantador,  está ! 
Se  encontra,  deita  por  terra. 
Não  perguntes  quem  vem  lá. 

Tudo  é  luto,  tudo  é  pranto, 
Ninguém  deixa  de  estar  triste, 
E'  morta  a  nossa  rainha, 
Estephania  já  nâo  existe ! 

Menina,  se  sabe  ler, 
Também  sabe  soletrar, 
Diga  me  lá  por  cantigas 
Quantos  peixes  tem  o  mar? 

Os  peixes  que  tem  o  mar 
Navegam  e  vão  ao  fundo, 
Diga- me  lá  por  cantigas 
Quantas  almas  ha  no  mundo  ? 

As  almas  que  ha  no  mundo, 
Cubro- as  eu  co'  meu  chapéo, 
Diga-me  lá  por  cantigas 
Quantas  estrellas  ha  no  céo  ? 

As  estrellas  que  temo  céo, 
Nem  tu  as  sabes  nem  eu, 
Diga-me  lá  por  cantigas 
Quantas  ruas  tem  Vizeu? 

As  ruas  que  tem  Vizeu, 
Eu  t'as  vou  explicar : 
São  dezoito  ao  comprido, 
Dezenove  a  atravessar. 


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136  Empreza  da  Historia  de  Portugal 


Não  ha  arte  n'este  mundo 
Como  a  arte  de  roubar, 
Era  de  todas  a  melhor, 
Se  a  deixassem  durar. 

Se  te  aborrece  o  querer- te, 
E'  forçoso  o  desprezar- te, 
Ensina-me  a  aborrecer-te, 
Que  eu  não  sei  senão  amar* te. 

Anda  cá,  meu  bem,  se  queres 
Que  a  minha  alma  seja  tua, 
Se  é  para  castigo,  basta, 
Se  é  de  gosto,  continua. 

Oh  coração  de  trez  azas, 
Dá-me  uma,  quero  voar, 
Quero  ir  ao  céo  em  vida, 
Em  vindo  torno-t'a  a  dar. 

Puz  me  a  jogar  cartas  d'oiro 
N'uma  meza  de  marfim, 
Cuidando  eu  que  ganhava, 
Perdi  c'o  o  meu  Seraphim. 

Eu  hei  de  ir  ao  céo,  hei  de  ir, 
Heide  de  ir  ao  céo,  de  joelhos, 
Buscar  uma  roza  aberta 
Enfre  dois  cravos  vermelhos. 

Lá  no  céo  vae  uma  nuvem, 
Forrada  de  cor  de  rosa, 
Se  a  inveja  fosse  tinha, 
Muita  gente  era  tinhosa. 

A  viola  pela  prima, 
A  prima  pelo  bordão, 
O  amor  pela  palavra, 
A  menina  pela  mão. 

A  guitarra  quer  que  eu  toque, 
As  cordas  que  eu  enrouqueça, 
As  meninas  de  Lisboa 
Querem  que  eu  aqui  padeça. 


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Historia  do  Fado  137 


A  guitarra  pede,  pede, 
Eu  bem  a  oiço  pedir, 
Um  travesseiro  de  rozas 
Para  o  tocador  dormir. 

Foi-sea  graça  e  formosura, 
Dos  festins  do  lupanar, 
Continua  a  porta  aberta, 
Mas  ninguém  lá  quer  entrar. 

Chorae,  rapazes,  chora e, 
Guitarra  toca  com  dor, 
Morreu  a  Borboleta 
Queimada  em  fogo  d'amor  ! 

Nada  ha  de  que  mais  goste, 
Nada  mais  do  meu  agrado, 
Que  ir  no  domingo  ás  hortas, 
No  sabb'do  esperar  o  gado. 

Eu  casei  com  uma  veiha, 
Por  causa  da  filharada, 
Lá  ao  fim  dos  nove  mezes 
Teve  dez  d'uma  ninhada. 

Quatro  e  cinco  são  nove, 
Com  mais  nove  são  dezoito, 
E  mais  seis  são  vinte  e  quatro, 
E  quatro  são  vinte  e  oito. 

Eu  hei  de  casar  co'um  cozo, 
Que  me  liei  de  fartar  de  rir, 
Fazer  lhe  a  cama  bem  alta 
Só  para  o  coxo  não  subir. 

Quando  t'eu  vi,  oh  freirinha, 
Encostadinha  ao  mirante, 
Logo  meu  coração  disse  : 
Tu,  freirinha,  tens  amante. 

Foi  Deus  servido  levar 
Da  nobreza  a  fidalguia, 
Já  morreu  o  pae  dos  pobres, 
O  conde  da  Anadia. 


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138  Empreza  da  Historia  de  Portugal 


Vinde  vêr,  oh  sociedade, 
O  que  é  uma  prisão, 
Escola  dos  desgraçados, 
Caminho  da  perdição! 

O  tocador  da  guitarra 
Na  verdade  toca  bem, 
Mas  toca  muito  apressado, 
Julga  que  lhe  foge  alguém. 

Guitarra,  minha  guitarra, 
Estás  aqui,  estás  no  seguro, 
Vou  te  mandar  pôr  no  prego 
Em  dez  tostões,  fora  o  juro. 

Toca  me  n'essa  guitarra, 

Que  m'a  faças  retinir, 

Tenho  os  meus  amores  bem  longe, 

Que  m'os  faças  aqui  vir. 

A  guitarra  tem  um  8 
Debaixo  do  cavalléte, 
O  tocador  que  a  toca 
É  um  faia  de  barrete. 

Oh  guitarra,  oh  guitarra, 
Quebrada  te  vira  eu, 
Toda  a  semana  na  "borga," 
Levas  melhor  vida  qu'eu ! 

Já  não  canto  á  guitarra, 
Nem  meu  coração  me  ajuda, 
Morreu-me  o  meu  pae  ha  pouco 
Sou  filho  d 'uma  viuva. 

A  guitarra  que  se  toca 
E '  de  pau  de  marmeleiro, 
O  tocador  que  a  toca 
Quer  se  casar  qu'é  solteiro. 

Bravo,  senhor  cantador, 
Honra  a  Vossa  Excellencia, 
Metteu  n'Africa  uma  lança, 
Cantou  com  toda  a  decência ! 


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Historia  do  Fado 


139 


Fiz  ponto  àe  interrogação 
Com  reticencias  e  tal. . . 
Já  fiz  também  os' dois  pontos, 
Agora...  ponto  final. 

Vou  deixar  este  recinto 
De  tão  bella  companhia, 
No  peito  levo  a  saudade, 
Adeus,  até  outro  dia. 

Na  mesma  campa  nasceram 
Duss  roseiras  a  par, 
Conforme  o  vento  as  movia, 
Iam  se  as  rosas  beijar. 

Porei  teu  corpo  onduloso 
Cuja  graça  me  seduz, 
N'um  altar  feito  de  gozo, 
N'um  relicário  de  luz. 

Já  fiz  o  meu  testamento, 
Deixo  o  corpo  a  mais  de  dez, 
Não  quero  que  a  terra  coma. 
Nem  mesmo  as  unhas  dos  pés. 

Rapazes,  quando  eu  morrer, 
Levem-me  devagarinho, 
Façam  cova  d'aguaardente, 
Por  cima  cubram  com  vinho. 

Tenho  somno,  vou  dormir, 
A'  cama  me  vou  deitar, 
Levo*  te  no  pensamento 
Comtigo  hei  de  sonhar. 

Eu  pedi  a  morte  a  Deus 
Agora  já  estou  doente, 
Faça  Deus  o  que  quizer, 
Eu  não  hei  de  viver  sempre. 

Amo  o  amor  sympathico 
£  os  gazes  alcoólicos 
O  amor  machiavelico 
£  os  olhos  diabólicos. 


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140  Empreza  da  Historia  de  Portugal 


Eu  já  vi  um  cego-  a  lêr, 
Um  modo  a  cantar  o  fado, 
Tocar  guitarra  um  maneta, 
Um  cozo  o  sapateado. 

E'  digna  de  compaixão 
A  joven  desventurada, 
Que  perdeu  da  honra  a  flor, 
Sendo  depois  desprezada. 

Por  causa  d'uma  «gajona» 
Para  quem  me  puz  a  «adicar» 
Fui  parar  ao  «estarim», 
Sem  me  poder  «esgueirar». 

Porque  atirei  um  «aundéque> 
A  um  «gajo»  «todo  liró», 
Fui  bailar  ao  «Verde- li  mo*, 
Fui  parar  ao  «chelindró» 

Tenho  catarrho  nas  unhas, 
Dores  de  tripas  no  cachaço, 
Sou  maneta  d 'este  olho, 
Nâo  vejo  nada  d'um  braço. 

O  Collares  foi-se  casar 
Com  a  genebra  d'Hol!anda, 
O  Torres,  que  a  namorava, 
Ficou  de  queixos  á  banda. 

Todo  o  rapaz  que  se  obriga 
Deveras  a  amar  o  fado, 
Deve  ter  no  braço  marcado 
O  nome  da  sua  amiga. 

Quem  and&  no  triste  fado 
Nunca  pôde  ter  bom  fim, 
Quem  bem  vive,  mal  acaba, 
Ponham  os  olhos  em  mim. 

Tudo  se  vende  no  mundo, 
Do  oiro  tudo  depende, 
Tudo,  excepto  o  coração, 
O  coração  nâo  se  vende. 


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Historia  do  Fado  141 


Olha  que  é  sombra  o  passado, 
E  névoa  densa  o  porvir, 
£'  relâmpago  o  presente, 
A  vida  é  fumo  a  subir. 

E'  sonho  o  prazer  fugaz, 
E'  outro  sonho  a  belleza, 
Nada  no  mundo  é  durável, 
E  só  na  morte  ha  certeza. 

A's  vezes  busco  a  Fortuna, 
Bato- lhe  á  porta  também, 
Nunca  a  vejo  nem  encontro, 
Não  me  responde  ninguém. 

Todo  o  homem  com  dinheiro 
Tem  amigos  com  fartura. 
Porém,  se  chega  a  ser  pobre, 
Ninguém  jamais  o  procura. 

São  como  a  sombra  as  mulheres, 
Eguai  condão  as  anima, 
Seguem  quem  d'cllas  saffasta, 
Fogem  de  quem  s'approxima. 

Quando  eu  contemplo  no  céo 
Duas  estreitas  unidas, 
Creio  que  eão  duas  almas, 
Qu'  entrelaçaram  as  vidas. 

Quanto  fazes  também  faço, 
Em  mim  teu  espelho  existe, 
Se  te  vejo  alegre,  alegre, 
Em  tu  estando  triste,  triste. 

Oh  esperança  da  minha  vida, 
Porque  me  vaes  a  fugir? 
Indo  comtigo  as  promessas, 
Que  não  chegaste  a  cumprir. 

Tudo  quanto  é  verde  sécca, 
Chegando  o  pino  do  verão, 
Tudo  se  torna  a  renovar, 
Só  a  mocidade  não. 


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142  Empreza  ãa  HUtoria  de  Portugal 

Tenciono  mandar  fazer, 
Que  não  posso  fazer  tudo, 
Um  barco  de  paciência 
P'ra  poder  viver  no  mando. 

Quatro  flores  em  meu  peito 
Fizeram  sociedade, 
Malmequer,  autor-perfeito, 
Um  martyrio  e  uma  saudade. 

Já  te  quiz,  já  te  não  quero, 
Já  te  perdi  affeição, 
J  á  te  varri  á  vdBsoura 
PVa  fora  do  coração. 

Quando  me  dizem  mal  de  ti 
A'  conversa  mudo  o  tom, 
Não  posso  dizer  que  és  mau, 
Não  posso  affirmar  que  és  bom. 

Todo  o  que  perde  a  ventura, 
Sonho  breve  de  um  momento, 
Arrasta  sempre  com  sigo 
Na  memoria  o  seu  tormento. 

Ausência  tem  uma  filha, 
Que  se  chama  a  saudade, 
Eu  sustento  mãe  e  filha 
Bem  contra  minha  vontade. 

Os  que  em  terra  ficam  vendo 
A  barca  em  que  os  outros  vão, 
Dizem,  ao  vel-a  affa6tar-se : 
Quem  sabe  se  voltarão ! 

Debaixo  dos  verdes  ramos ,  ' 
Dorme  agora  o  meu  amado, 
Não  cantem  mais,  passarinhos } 
Não  o  accordem,  cuidado! 

D'entre  as  cem  dificuldades 
Que  o  amor  resume  em  si, 
Com  trabalho  e  paciência 
NoVenta  e  nove  venci. 


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Historia  do  Fado  143 


Chamei  pela  morte  e  disse : 
E'  tempo,  vem- me  buscar, 
Já  estou  cançado  da  vida, 
£'  preciso  descançar. 

Por  te  amar  perdi  a  vida, 
Mas  não  deixei  de  te  querer, 
Quem  me  dera  ter  mil  vidas, 
Para  todas  mil  eu  perder. 

Tenciono  mandar  fazer 
Um  barco  de  noz  qu'  é  forte, 
Para  embarcar  saudades, 
Que  me  teem  posto  á  morte. 

A  toda  a  magua  do  mundo 
Consolo  as  lagrimas  são, 
Lagrimas  sâo  para  a  dor 
A  mais  súbita  expressão. 

Dei-te  um  beijo,  coraste. 
Dei  te  segundo,  sorriste, 
Todos  os  maiB  que  levaste, 
Foste  tu  que  m'os  pediste. 

Oh  guitarra,  oh  guitarra, 
Guitarra  dos  meus  anhelos, 
Se  te  partirem  as  cordas, 
Aqui  tens  os  meus  cabellos. 

Por  teu  respeito,  mulher, 
Perdi  toda  a  liberdade, 
Acho  me  preso  em  teus  braços 
Por  minha  livre  vontade. 

Apalpei  o  lado  esquerdo, 
Não  achei  o  coração. 
De  repente  me  lembrei, 
Que  estava  na  tua  mão. 

Duas  flores  alem  estão, 
Qual  será  a  mais  formosa  ? 
Se  é  na  fragrância  —  o  lyrio, 
Se  na  formosura  —  a  rosa. 


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144  Empreza  da  Historia  de  Portugal 


Quem  se  viu  como  eu  me  vi 
Quem  te  *  ê  como  eu  me  vejo, 
Já  não  tem  pena  de  nada, 
Só  da  morte  tem  desejo. 

A'  beira  d'alvo  regato 
Um  Jyrio  se  debruçou, 
A  pura  agua  crystaliina 
Com  amor  o  retratou. 

Já  não  ha  gozo  na  vida, 
Que  me  alegre  o  coração, 
Nem  o  bom  canto,  das  aves 
Nas  bellas  manhãs  de  veião. 

Eu  não  posso  passar  sem  ti, 
Nem  tu,  lindo  amor,  sem  mim, 
Anda  cá,  oh  rosa  branca, 
Creada  no  meu  jardim. 

Quem  me  dera  amar  um  dia, 
Ter  amor,  ter  afteição, 
Ser  escravo  e  dar  a  vida 
Por  um  terno  coração. 

No  mundo  tudo  é  engano, 
Em  que  a  vida  se  entretém,    . 
Amisades  são  mentiras, 
Só  ha  o  amor  do  mãe. 

Com  a  morte  acaba  tudo,     • 
Nas  campas  a  paz  «habita. 
Lá  não  ee  encontra  a  saudade, 
Lá  não  se  encontra  a  desdita. 

O  rouxinol  na  balseira 
Desfere  alegres  trinados, 
Tu,  minha  pobre  guitarra, 
Só  tens  sons  apaixonados  / 


Entre  as  campas  solitárias 
Eu  me  fui  refugiar, 
E  d'entre  ellas  ouvi  dizer : 
Deixa  os  mortos  repousar. 


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M\ 


FADISTAS  DO  TEMPO   DA  SEVERA 


10 


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Historia  do  Fado  147 


O  rouxinol  canta  amores, 
Os  amores  fazem  o  coro, 
E  surge  o  sol  radiante 
Entre  mil  scentelhas  d'ouro: 

Se  fosse  melro  bem  negro, 
D'estes  de  bico  amarei  lo, 
Iria  fazer  meu  ninho 
Nas  tranças  do  teu  cabello. 

Escondido  n'um  arbusto, 
Q'um  alvo  rio  banhava, 
O  mavioso  rouxinol 
À  meiga  voz  desatava. 

As  pulgas  que  á  noite  saltam 
Nos  lençoes  em  seus  folguedos, 
Sabein*sim,  mas  nâo  revelam 
D'aquella  cama  os  eegredos. 

Vamos  vibrar  os  arpejos 
D'uma  serenata  louca. 
As  notas  serão  meus  beijos, 
A  guitarra  a  tua  bocca. 

Já  nâo  posso  ser  contente, 
Tenho  a  esperança  perdida, 
Ando  perdido  entre  a  gente, 
Não  morro,  nem  tenho  vida. 

Alveja  ao  clarão  da  lua 
Branca  aldeiatadormecida, 
No  agudo  campanário 
Vella  a  cruz  da  sua  ermida. 

Perguntei  á  sociedade, 
Da  qual  amo  e  preso  a  vida, 
Se  é  cobarde  ou  valente 
O  homem  que  se  suicida. 

Porque  nâo  foges,  nâo  voas. 
Coração,  porque  ha^de  ser  ? 
De  pedra  no  resistir, 
De  cera  no  padecer ! 


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148  Empreza  da  Historia  de  Portugal 


Em  desprezada  caveira 
Que  n'um  canto  asylo  encontrou, 
Uma  rosa  perfumada 
Inconsciente  alli  brotou. 

A  morte  te  deu  a  vida, 
Junto  da  morte  nasceste, 
A  vida  te  deu  a  morte, 
Junto  da  morte  morreste. 

Oh,  pallidas  madrugadas, 
Já  tenho  saudades  tuas  ! 
Do  choro  d$s  guitarradas, 
GemendQ  o  fado  das  'ruas  ! 


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VI 


Oa  cantadores  do  fado.—  De  D.  José  de  Almada  á  Custodia. — 
Da  Custodia  ao  Calcinhas.— Do  Calcinhas  á  Cesaria. — Da 
Cesaria  ao  Hylario. — Os  cantadores  modernos. —  Ás  canta- 
doras modernas. — Uma  cantiga  descriptiva. —  Os  cantado- 
res provincianos. 


Enunciaremos  agora  os  mais  notáveis  cantadores  do 
fado.  D.  José  de  Almada  e  Lencaslre,  escriptor  e  jor- 
nalista, não  tocava  guitarra,  mas  cantava  o  fado  de  uma 
maneira  verdadeiramente  commovedora.  D.  José  de  Al- 
mada era  filho  natural  do  visconde  de  Soulto  de  El-Rd 
(que  morava  ao  Campo  de  SanfAnna)  e  de  uma  cigana. 
Em  pequeno,  como  a  mãe  habitava  no  largo  da  Bem- 
postinha,  andava  por  alli  feito  gaiato,  acarretando  até 
bilhas  de  agua  do  chafariz  do  Campo  de  SanfAnna. 
Pozeramlhe  a  alcunha  de  Pirralho.  Afflrma-se  que  a 
viscondessa  de  Soutlo  de  El-Rei— uma  santa  e  virtuosa 
senhora— sabendo  da  existência  do  fillío  de  seu  marido, 
dava,  a  occultas  d'este,  dinheiro  para  o  petiz  ir  á  es- 
cola e  vestir  se. 

D.  José  de  Almada  aprendeu  as  primeiras  leltras 
com  grande  aproveitamento,  revelando  logo  alta  intel- 


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150  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

ligencia.  Quando  já  rapazote,  foi  para  casa  do  pae,  por- 
que a  viscondessa  dissera  a  seu  marido  que  considerava 
aquelle  rapaz  comoíilho  d'ella,e  que,  portanto,  o  logar 
do  pequerrucho  era  em  sua  casa.  Estudou  com  distinc- 
ção  no  Curso  Superior  de  Lettras  e  escreveu  varias 
peças  tbeatraes  como :  a  Prophecia  ou  a  Queda  de  Je- 
rusalém, que  deu  enchentes  successivas  ao  theatro  de 
D.  Maria  II,  e  as  comedias :  Um  jantar  amargurado, 
Vamos  para  Carriche—que  fez  época  nas  Variedades 
—  ,a  Licçãn,  o  desforço,  Um  author  paleado^  por  lhe 
terem  pateado  A  meia  do  saloio,  etc.  Escreveu  também 
o  Orador  sagrado,  collecção  de  sermões,  e  vendeu  mui- 
tos ao  padre  Aguilar,  que  os  fazia  passar  como  seus. 
Foi  redactor  do  Século  XIX—onáe  escreveu  brilhantes 
artigos,  sendo  o  mais  notável  aquelle  que  intitulou  Ave 
Crux! — ,  da  Nação  e  do  Catholico,  folhetinisou  no  Jor- 
nal do  Porto  sob  o  pseudonymo  de  Victor,  e  concorreu 
a  uma  cadeira  do  Curso  Superior  de  Lettras,  quando 
este  se  creou. 

D.  José  de  Almada,  homem  de  caracter  exemplaris- 
simo,  gostava  muito  de  ouvir  cantar  o  fad»,  e  elle 
mesmo  o  cantava  deliciosamente,  mas  só  na  intimidade 
e  entre  amigos,  porque,  na  guita rn,  sõ  sabia  tirar  os 
arpejos  para  acompanhar  o  canto.  O  seu  mote  dilecto 
era  este: 

O  pobresinho  que  pede 
Arrimado  ao  seu  bordão, 
Tanta  caramunba  faz, 
Que  alguma  coisa  lhe  dào. 

Os  amigos  Íntimos  de  D.  José  de  Almada  eram,  alem 
dos  redactores  d'4  Nação,  Luiz  de  Vasconcellos  de 
Azevedo  .e  Silva,  D.  António  de  Lacerda,  os  velhos 
actores  do  ihealro  de  D.  Maria  II  —  Epiphanio,  Tasso, 
Theodorico,  Assis  e  Rosa,  José  Maria  de  Andrade  Per- 


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Historia  do  Fado  151 

reira,  por  alcunha  0  litteraio  dos  pés  grandes,  Baltha- 
zar  de  Souza  Menezes,  pae  do  gazetilheiro  e  revisteiro 
Argus  e  grande  amador  do  fado,  Luiz  de  Araújo  e  o 
Figueiredo  do  14  (que  parava  muito  na  botica  da  praça 
da  Alegria).  O  Sousa  do  Casacão  também  era  muito 
amigo  de  D.  José  de  Almada,  e  com  elle  realisava  bellos 
duettos  de  canto  de  fado.  Todos  elles  iam,  a  mudo, 
jantar  á  faltada  Padeira  da  Praça  da  Alegria,  onde  se 
cosinhava  o  saboroso  pato  com  arroz.  *  Ahi  havia  sem- 
pre cantoria  até  á  noite,  á  hora  em  que  sabiam  todos 
para  o  theatro. 

D.José  de  Almada  morava  n'uma  hospedaria  esta- 
belecida no  segundo  andar  do  prédio  que  faz  esquina 
para  o  Rocio  e  largo  de  S.  Domingos,  em  cuja  loja 
estava  a  casa  de  pasto  Estreita.  A'quella  casa  subia, 
muitas  vezes,  o  Luiz  de  Vasconcellos,  redactor  da  Lei, 
p3ra  ouvir  D  José  de  Almada  cantar  ofadinho  nacio- 
nal com  musica  religiosa,  conforme  a  expressão  usada 
por  aquelle  illustrissimo  cantador.  E  este  escriptor,  que 
viveu  sob  o  regimen  fatal  do  romantismo  e  que  adorou 
o  fado  como  se  adora  a  musa,  merece  bem  uma  lagri- 
ma e  uma  saudade. .. 

0  Damas  e  o  Bagre  foram  os  dois  mais  notáveis  can- 
tadores antigos.  O  Damas  -  cantador  fino— cantava  ás 
flores,  tinha  bonito  estylo  e  bonita  voz.  Realçava  o  seu 
canto  por  estes  dois  predicados  essenciaes  n'um  bom 
cantador.  O  tocador  que,  ordinariamente,  o  acompa- 
nhava era  o  famoso  António  Casaca.  O  Damas  refor- 
mou o  canto  do  fado,  foi  o  Calcinhas  d'aquelle  tempo. 
Era  de  Alfama,  sapateiro  e  filho  do  Alcochete,  um  que 
fizera  parte  da  quadrilha  do  Diogo  Alves  e  que  exer- 
ceu, depois,  as  funcções  de  agente  da  policia  secreta. 

1  A  Padeira  da  Praça  da  Alegria  já  existia  ena  1846. 


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152  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

O  Damas  morreu  em  1865,  pouco  mais  ou  menos,  là 
para  as  bandas  do  Limoeiro,  onde  morava.  Eis  um 
mote  d'elle : 

Musa,  in8pira-me  teu  estro, 
Já  a  doce  lyra  soa, 
Permitte  que  eu  diga  em  verso 
O  mal  que  me  magoa. 

0  Bagre  tinha  voz  roufenha  e  obra  muito  menos  in- 
teressante. Dois  motes  do  Bagre  eram  estes: 

Tenho*  um  papagaio  amarello, 
Creado  nos  Olivaes, 
Tenho  uma  pulga  parida 
Com  trinta  e  cinco  pardaes. 

Cantar  e  saber  cantar 
Sào  dois  pontos  delicados, 
Os  que  cantam  são  sem  conto, 
Os  que  sabem  são  contados. 

O  Pedro  Banana,  cantador  alfamista  de  linda  voz,  vi- 
nha muito  á  Mouraria  para  cantar  os  versos  dos  poe- 
tas pedestres,  esses  que  não  sonham  em  encerrar  na 
musica  dos  rylhmos  poéticos  a  chamma  dos  pensa- 
mentos generosos  e  o  frémito  das  caricias  de  amor, 
como  se  encerra  um  vinho  precioso  n'ura  frasco  in- 
crustado de  geminas.  Uma  vez,  em  Alfama,  um  fadis- 
ta, a  quem  elle  supplantara  na  cantadoria,  mimoseou- 
o  com  uma  facada. 

O  Ignacio  Torto,  charuteiro,  cantador  de  Alfama, 
cantava  com  o  Damas.  O  Pizão,  carpinteiro,  hoje  asy- 
lado,  habitava  para  os  lados  de  Alcântara,  e  cantava 
na  Mouraria;  e  o  Pizâo  sobrinho,  cordoeiro,  também 
vinha  cantar  á  Mouraria,  que  era,  por  assim  dizer,  o 
sacrum  flumen  onde  se  fazia  o  baptismo  dos  novos 
adeptos  do  fado.  Um  grande  cantador  de  fado,  ha  trinta 


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Historia  do  Fado  153 

annos,  era  o  Pedro,  cocheiro  do  marquez  de  Vianna, 
valente  batedor  que  balia  nas  esperas  de  toiros,  guian- 
do um  carrinho  levíssimo,  a  que  tinham  posto  o  no- 
me  de  giraldinha* 

Outros  cantadores  da  época  de  1860  a  1875  eram: 
o  Neves  da  fabrica  de  phosphoros,  o  José  Maria  En- 
guia (de  Alfama),  o  Aquino  (da  Graça),  o  Cag...  di- 
nheiro (da  Mouraria),  que  cantava  menos  mal  e  agora 
governa  a  vida  vendendo  bilhetes  á  porta  dos  theatros, 
e  o  cocheiro  Marádas,  grande  batedor,  que  morreu  toi- 
reando  a  cavallo  na  Nazareth. 

A  esta  plêiade  pertence  o  Joaquim  Enguia,  um  guitar- 
rista cego  que  cantava  o  fado  pas  hortas.  Pertencem, 
pouco  mais  ou  menos  á  mesma  época,  os  seguintes 
cantadores:  o  Rachado,  de  Sacavém,  o  Machado,  do 
Campo  Grande,  o  Farello,  de  Azeitão,  o  José  Chapim^ 
dos  Terramotos,  o  José  Cecilio,  carpinteiro  da  Azenha, 
o  Adelino,  de  Coimbra,  o  Chico,  o  Chato,  o  José  Maria 
Artilheiro,  o  preto  Martinho,  creado  de  umas  fidalgas 
aos  Anjos,  o  famigerado  Luiz  Palhinhas  e  o  Miguel  Cal- 
ceteiro.  Podemos  accrescentar-lhes  mais  os  seguintes 
cantadores  e  authores:  Sebastião  da  Víctoria,  carpin-' 
teiro,  do  Calhariz  de  Bemflca,  e  Carlos  Peixinho,  tece- 
lão, irmão  do  velho  toureiro  Peixinho;  e  os  seguintes 
cantadores  não  auctores:  Joaquim  Ferreira,  do  Calha- 
riz de  Bemflca,  e  o  cautelleiro  Pontapé  na  cara. 

De  entre  1875  e  1880,  citaremos  estes  cantadores: 
o  Sebastião  polidor,  o  Theotonio  carpinteiro,  o  Alfredo 
Bacalhau,  carpinteiro,  e  a  Emilia  do  Bello,  cigarreira. 

Nos  tempos  do  conde  da  Anadia,  floresceu  uma  can- 
tadora de  primeira  ordem  —  a  Custodia.  Formosa,  al- 
ta, com  os  glóbulos  sanguíneos  carregados  da  força 
eléctrica  da  mocidade,  dotada  de  boa  figura  e  de  bo- 
nita voz,  cantava  esplendidamente  os  /atfo&gsobretn- 


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154  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

do  o  do  Anadia,  era  cuja  execução  era  inexeedivel  Fa 
cil  lhe  foi,  portanto,  conquistar  popularidade,  apezar 
de  pertencer  ao  tiers  élat  da  galanteria  encurralada  na 
travessa  dos  Fieis  de  Deus.  Custodia  Maria  —  assim  se 
chamava  ella  —  cantou  primeiramente  o  fado  da  Per- 
siganga,  contemporâneo  do  fado  do  Anadia,  e  depois 
é  que  cantou  este,  ensinado  pelo  Botas  toureiro.  Muitas 
vezes  se  fez  ouvir,  perante  numeroso  auditório,  na  es- 
talagem que  fica  por  detraz  do  theatro  de  D.  Maria  II. 
O  fado  da  Custodia  era  composição  d%ella  mesma  e  de 
difflcillima  execução.  Foi  o  cantador  Paixão  quem  pri- 
meiro lh'o  apanhou  de  ouvido  e  tocou  na  guitarra. 
A  voz  da  Custodia,  pura  como  crystal,  vibrante  como 
o  vermelho  de  uma  granada ,  e  de  uma  grande  facili- 
dade ascendente,  escalava,  com  rara  elasticidade,  os 
mais  escarpados  cumes  da  gamma  chromatica.  A  Cus- 
todia realisava  o  quadrado  da  hypothenusa  da  arte  fa- 
distense:  boniteza,  bella  voz,  audácia  e  desenvoltura 

Dois  motes  que  ella  glosava  frequentemente  eram  os 
seguintes : 

Ç*te  meu  cantar  é  arte, 
E  condão  que  Deus  me  deu, 
Pois  arreia  o  teu  estandarte, 
Que  começo  a  içar  o  meu. 

Fui  ao  jardim  d'assucenas, 
Onde  a  Primavera  nasce, 
Não  achei  flor  mais  linda 
Que  comtigo  comparasse. 

A  Custodia  amancebou  se  com  o  valente  António 
Feital,  chalante  ou  contractador  de  gado,  irmão  do 
Ignacio  Mastaréu.  marujo,  e  filho  de  uma  mulher  que 
Unha  a  quinta  fronteira  á  casa  do  conde  da  Anadia  a 
Entre- Muros,  para  onde  ella  mudou  residência  e  on^e 


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Historia  do  Fado  155 

morreu.   Com  a   sua  morte,  apagou  se  um  dos  mais 
flammantes  sorrisos  da  Lisboa  fadista . . . 

rara  mqitos  dos  que  vão  beber  na  lonte  sagrada  da 
recordação,  a  Custodia  foi  a  suprema  oantarina  de 
faio  que  tem  existido.  Estes  collocam-n'a  acima  dj  Ce 
sa ria  —  estreita  d j  primeira  grandeza  na  plêiade  dos 
grandes  cantadores.  O  encanto  vencedor  da  arte  espe- 
cialíssima da  Custodia,  segundo  a  especialíssima  estbe 
Uca  musical  do  fado,  não  se  pôde  definir,  porque  a  de- 
finição etherisar-se-hia  e  desappareceria  como  o  espi 
rito  d;  nm  philtro.  Debaixo  d'este  restricto  ponto  de 
vista,  a  Custodia  era  pourrie  de  talents  tfagtément,  co- 
mo diziam  os  Goncourts  na  Retiée  Mmtperin.  Soube 
deixar  uma  dessas  recordações  categorisadas  entre  as 
reminiscências  singulares,  que  fluctuam  como  cortiça 
na  superfície  da  nossa  memoria.  Foi  um  sol  radian  e 
do  fado,  foi  consagrada  nos  altares  da  gloria  fadista. 

No  Bernardino  Ferreira  Saldanha  e  no  cordoeiro  João 
da  Matta,  dois  bons  cantadores,  predominava  o  canto  á 
Escriptura.  O  primeiro  é  de  Queluz  e  tem  casa  de  ven- 
da na  Porcalhola.  Bernardino  Ferreira  Saldanha  foi  fer- 
reiro e  estabeleceu-se  depois  com  casa  de  venda  de  vi- 
nho e  comida  n'aquella  localidade.  Conta  agora  80  an- 
nos,  sendo,  portanto,  o  decano  dos  cantadores.  Foi  no- 
tável caniador  e  auctor,  talvez  o  único  que  cantasse 
versos  exclusivamente  seus  Principiou  por  cantar  á 
de  garrada  e  ao  fandango,  canto  que  é  feito  de  impro- 
viso, por  ter  de  se  cingir  á  deixa  do  adversário,  e, 
na  resposta  a  dar-lhe,  ter  de  fazer  rima  com  a  palavra 
com  que  este  terminou.  Segundo  informações  que 
recebemos  do  próprio  Bernardino  Saldanha,  os  prin- 
cipaes  cantadores  á  desgarrada  e  ao  fandango— ha  ses 
senta  annos  bem  puxados  -  eram:  o  Aldeia,  o  José 
Moleirwho,  de  Aidea-Gallega  e  o  bufarinheiro  Manoel 
Simões. 


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156  Empreza  da  Histoi-ia  de  Portugal 

Quando  se  principiou  a  cantar  o  fado,  foi  posto  de 
parte  o  canto  do  fandango,  e  o  Bernardino  Saldanha 
abandonou  este  para  encetar  aquelle,  que  começou  en- 
tão a  ser  moda  popular.  Bernardino  Saldanha  eviden- 
ciou-se  como  improvisador  hors  ligne  n'esse  terno  fado, 
na  popular  cantiga  que  se  diria  ter  brotado  de  algum 
sonho  oriental,  de  um  d'esses  sonhos  cheios  de  phos- 
phorescencias,  de  brilhos  estellantes,  de  lantejoulamen- 
tos  metallicos,  de  um  desses  sonhos  innarraveis  em  que 
se  vêem  catadupas  de  soes  liquefeitos  cahindo  da  Eter- 
nidade no  Infinito... 

Segue-se  uma  cantiga  de  fado^  original  do  Bernar- 
dino Saldanha: 

O  dinheiro  é  úm  bom  metal, 
Grande  coisa  é  podei  o  ter, 
A  uru  dá  felicidade, 
A  outros  deita- os  a  perder. 

Diabólicas  invenções 
Esta  obra  do  dinheiro, 
E'  dos  valentes  primeiro, 
E'  a  força  das  nações  ; 
Ha  homens  que  teem  milhões, 
Ontros  nào  teem  um  real, 
Quem  muito  tem,  muito  vale, 
E'  o  dictado  h espanhol, 
PVa  tudo  que  cobre  o  sol 
O  dinheiro  é  um  bom  metal. 

Cá  no  meu  fraco  sentido, 
Assim  penso,  amigos  meus, 
O  dinheiro  é  mais  que  Deus, 
Deus  por  elle  foi  vendido ; 
A  quem  falta  oiro  luzido 
Não  tem  força  nem  tem  poder, 
Embora  tenha  o  saber 
Pouca  gente  lhe  dá  valor, 
Seja  de  que  sorte  elle  fôr^ 
Grande  coisa  é  podei  o  ter. 


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Historia  do  Fado  157 

O  dinheiro  tudo  encobre, 
Quem  o  tem,  tem  estimação, 
Seja  assassino  ou  ladrão 
E'  reputado  como  nobre; 
De  que  serve  honrado  e  pobre 
E  só  fallar  a  verdade  ? 
Na  roda  da  sociedade 
Nâo  figura  porque  não  tem, 
Mas  um  homem  portar- se  bem 
A  uns  dá  felicidade. 

Sem  dinheiro  nâo  se  é  nada, 
Não  se  tem  força  nem  valia, 
E*  a  planta  que  se  cria 
Sem  nunca  ser  cultivada ; 
Gente  ao  dinheiro  agarrada 
E*  bem  capaz  de  o  morder, 
Quantos  tem  qu'rido  enriquecer 
Pelo  meio  da  ambição! 
A  uns  vae  a  coisa  a  feição, 
E  a  outros  deita  os  a  perder. 

Seguem-se   alguns  motes  originaes  de  Bernardino 
Saldanha : 

Duhs  coisas  ha  no  mundo 
Que  eu  não  posso  comprehender : 
Que  é  o  ser  padre  e  peccar, 
Ser  cirurgião  e  morrer. 

Oh  senhor  padre,  eu  pequei, 
Eu  fiz  um  grande  peccado, 
Por  ter  dado  á  sexta-feira 
Um  beijo  ao  meu  namorado. 

O  pobre  do  Zé -Povinho 
Por  todos  é  enganado, 
Ainda  corre  a  foguetes, 
E  por  fim  fica  pasmado. 

Quando  Jesus  falleceu 
Quebraram-se  as  pedras  duras, 
Tremeu  o  céo  e  a  terra 
E  abriram-se  as  sepulturas. 


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Iõ8  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

Seguem-se  três  moles  de  João  da  Malta*  que  cantava 
obra  dos  outros: 

Subi  ao  teu  pensamento, 
Nunca  tão  alto  me  vi, 
Descahi  da  tua  graça, 
Outro  subiu  e  eu  desci. 

Escrevi  ao  Deus  Cupido 
Uma  carta  a  perguntar  : 
Se  um  amor  offendido 
Devia  deixar  de  amar. 

Vive  o  artista  no  mundo, 
Noite  e  dia  a  trabalhar, 
Por  fim,  desgraçadamente, 
Seus  dias  vem  a  acabar. 

Na  casa  do  Silvestre  Tanoeiro,  na  rua  do  Arco  do 
Bandeira,  realisaram-se  muitas  sessões  musicaes  de  fa- 
do, em  que  tomou  parte  o  Bernardino  Saldanha. 

0  Falua,  grande  cantador  no  canto  a  atirar  ou  ao 
desafio,  era  do  Seixal  e  andava  principalmente  pelo 
Bairro-AIto.  Havia  outro  cantador  notável  n'este  género, 
o  David.  E  o  Augusto  Tecelão,  cantador  de  Alfama, 
frequentava  muito  a  Mouraria  ha  trinta  e  tantos  annos. 

José  Luiz  Peixoto,  conhecido  por  José  Borrego,  tor- 
neiro na  Calçada  de  SanfAnna,  possuia  certa  graça  fac- 
ceciosa  no  que  cantava  e  dispunha  de  uma  voz  aguda, 
que  se  ouvia  muito  longe.  O  Maia  guitarrista  acompa- 
nhouo  algumas  vezes.  O  José  Borrego  e  outro  canta- 
dor que  cantava  muito  bem,  o  José  da  Burra,  iam 
muito  ás  esperas  de  toiros  no  Campo-Pequeno.  O  José 
da  Barra  trabalhou  como  cocheiro  do  Silvestre  dos 
omnibus  e  morreu  tysico.  José  Borrego  e  José  da  Burra 
foram  dois  cantadores  do  género  puramente  fadista, 
cantando  com  tonalidades  roucas  e  soluçado  langor, 


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Historia  do  Fado  159 

esmaltando  se  de  todos  os  quindins  fadistaríos,  dando  a 
ullima  formula  e  o  ultimo  tic  em  moda  na  arte. 

Seguem-se  quatro  motes  de  José  Borrego  : 

Se  tens  valor  de  matar-me, 
Tyranna,  fere  me  o  peito, 
Que  eu  também  tenho  valor 
De  morrer  por  teu  respeito  ! 

Fui  a  Bellas  p'ra  vêr  Bellas, 
£  ás  bellas  Bellas  lhes  dei, 
Bellas  eomo  ha  em  Bellas, 
Bellas  bellas  nâo  encontrei. 

No  Paço  do  Bemformoso 
Encontrei  a  minha  amante, 
Ella  riu-  se  e  eu . . .  chorei, 
Foi  um  passo  bem  galante. 

Puz-me  a  mijar  de  joelhos 
P'ra  nâo  sujar  o  capote, 
Levantei  me  e  dei . . .  dois  pulos, 
Glosem  me  lá  este  mote. 

O  mote  predito  Uo  do  José  da  Burra  era  este : 

Eu  ando  como  um  cãoainho 
Farejando  após  de  ti, 
Tu  me  foges,  eu  te  sigo, 
Não  tens  compaixão  de  mim. 

Por  occasiao  da  morte  de  José  Borrego,  houve  um 
poeta  especialista,  o  Adrião,  que  dedicou  estes  versos 
do  fado  á  sua  memoria :  (*) 

D'este  mundo  mais  um  ente 
  cruel  morte  roubou  : 
Chorem  do  canto  amadores, 
Joié  Borrego  expirou  I 

(*)  Versos  publicados  n'0  Pianinho. 


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160  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

O  parca,  potente  horrível, 
Com  o  fero  poder  »teu, 
Cobriste  com  negro  véu 
Quem  p'ra  nós  era  aprazível, 
Teu  furor  é  bem  temível, 
Não  poupas  nenhum  vivente ; 
Com  tua  ira  imponente 
Affrontaste  a  sociedade, 
Levando  p'ra  eternidade 
D'este  mundo  mais  um  ente. 

Era  um  artista  decente, 
Laborioso  e  honrado, 
Por  isso,  bem  estimado 
Foi  sempre  de  toda  a  gente ; 
A  prova  é  que  ultimamente, 
Quando  a  doença  o  cercou, 
Muitos  amigos  achou 
P'ra  conforto  do  seu  mal 
Esse  infeliz,  que  afinal 
A  cruel  morte  roubou  ! 

De  pequeno  se  inclinou 
Ao  doce  canto  do  fado, 
E  seu  estylo  engraçado 
A  fama  lhe  conquistou. 
Os  loiros  que  elle  alcançou 
Não  foram  meros  favores, 
Mas  sim  merecidos  louvores 
Ganhos  pelo  e&tylo  seu  ; 
E  agora  que  elle  morreu, 
Chorem  do  canto  amadores  ! 

Na  classe  de  cantador 
Foi  tido  por  cavalheiro  ; 
Em  decência  era  o  primeiro. 
Não  tinha  competidor. 
O  lar  do  nobre  amador 
Muitas  vezes  frequentou, 
Lá  sua  voz  levantou, 
E  adquirir  gloria  soube  ; 
Porém,  já  ninguém  o  ouve, 
José  Borrego  expirou ! . . . 


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ANTÓNIO  KUZKBIO  «O  CALAFATE» 
(Celebre  cantador  de  Setúbal) 


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* 


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Historia  do  Fado  163 

O  Paiusquinho  levava  Ires  c  quatro  noites  a  cantar 
iubre  um  mesmo  assumpto,  e  com  um  só  mote  cantava 
vinte  cantigas  e  mais.  O  Patusqmnho,  que  ainda  é  vivo, 
predominava  no -canto  a  atirar.  Eis  alguns  motes  seus 
neste  género,  em  que  elle  era  insolentíssimo: 

Áh  !  ladrão,  que  m 'atiraste 
Sein  eu  te  atirar  a  ti ! 
Já  me  deste  uma  picada, 
Que  eu,  sem  ver  sangue,  senti ! 

Eu  cá  por  mim  sou  de  cera, 
Em  titâo  mostro  brandura 
Se  canto  é  p'ra  me  livrar 
Dalguma  descompôs t ura. 

E's  d 'uma  raça  d'animaes, 
Que,  quando  estão  c  o  accid^ente, 
Ferram  com  as  mãos  no  chão 
E  dão  coices  para  a  gente. 

Ao  passar  p'Ia  tua  porta, 
Se  tu  me  tornas  a  ladrar, 
Metto-te  um  chifre  na  bocca 
Para  te  obrigar  a  calar. 

0  Charépa,  serralheiro  de  ( fficio  e  morador  em  Al- 
cântara, formava  na  primeira  tila  dos  bons  cantadores. 
Um  dos  seus  mofes  favoritos  era  este : 

Teuho  corrido  mil  terras, 
A  maior  parte  da  Beira, 
Nunca  achei  melhor  amigo 
Que  o  dinheiro  dét  algibeira. 

0  Charêpa  de  S.  Christovam  tinha  muito  menor  co- 
tação. Mas  o  Minuto,  que  possuía  uma  voz  agudíssima 
e  que  se  ouvia  a  grande  distancia,  era  muito  ^aprecia- 
do nos  círculos  da  boa  cantadoria.  Um  seu  irmão  lam- 
bem cantava  o  fado  rasoavelmente. 


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164  Empreza  âa  Hiitoria  de  Portugal 

Na  Fonte  Santa  existiu  um  fadistão  (cujo  nome  igno- 
ramos), que  cantava  muito  bem.  O  seu  mote  querido 
era: 


Só  o  trevo  é  que  se  atreve 
Entre  o  trigo  a  vegetar, 
Eu  sem  ser  trevo  me  atrevo 
A  entrada  no  canto  dar. 


0  Campanudo  predominava  na  improvisação  sobre  a 
Escriptura  Sagrada.  Exercia  o  officio  de  poceiro  e  da- 
va indicações  á  policia  secreta  referentes  aos  gatunos. 
Larapiava  as  cantigas  ao  cantador  Paixão,  segundo 
este  nos  contou.  Morreu  tysico  em  4902.  0  Costa  Mar- 
reco tomava  parte  nas  sessões  nocturnas  decantadoria 
do  fado  nas  esperas  de  toiros  no  Campo- Pequeno.  Vi- 
via lá  para  as  Fontainhas  (a  Santa  Barbara).  O  Nico- 
lausinho  do  Calhariz  de  Bemfica  tinha  muita  óbrat  mas 
não  era  boa  firma,  principalmente  quando  o  vinho  o  fa- 
zia titubear  das  pernas.  Cantava  e  dansava  o  fandango 
lindamente. 

0  Máximo  dos  Terramotos,  pedreiro,  cultivava  o 
canto  a  atirar,  mas,  como  na  notação  musical,  nem 
sempre  mantinha  as  regras  da  proporção  e  harmonia. 
Por  outras  palavras,  desmandava  se  e  no  seu  canto 
abundavam  as  pachuchadas  plebéas  e  os  destampató- 
rios salobros.  0  José  Russo,  papeleiro,  distinguia-se  ha 
improvisação  ao  fado  e  no  canto  ao  fandango.  Cantou 
muito  com  o  José  Um.  O  José  Carlos  d' Assumpção, 
typographo,  era  cantador  moral;  o  José  Maria  Fadista 
(que  já  morreu)  enfileirava  com  os  bons  cantadores,  e 
o  Frederico,  um  que  fora  militar,  cantava  muito  bem, 
especialmente  as  producções  do  João  Vidraceiro,  um 
poeta  *  tecelão  que  escrevia  versos  para  os  cantadores 
de  Alfama.  É  d'este,o  mote  seguinte: 


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Historia  do  Fado  165 


Quem*te  viu,  oh[ Portugal, 
No  teu  throno  d  elegância, 
Brilhavas  entre  as  nações 
Com  coragem  e  com  constância! 

O  Bagre  parodiou  este  mote  assim: 

Quem  te  viu,  oh  bacalhau, 
-     N'aquella  taberna  á  Es'prança 
Brilhavas  entre  as  batatas 
Com  coragem  e  com  constância! 

José  do  Nascimento  ou  o  José  Um,  polidor,  nascido 
na  Mouraria,  cantava  com  uma  graça  desopilante.  Ti- 
nha bella  voz  e  bom  pulmão.  Era  grande  frecheiro  de 
corridas  de  toiros.  Hoje,  velho  gaiteiro,  ainda  canta 
com  chiste  no  género  abrejeirado.  Seguem-se  motes 
originaes  de  José  Um  : 

Eu  já  me  senti  morrer, 
E  achei  o  morrer  tão  doce, 
Que  por  gosto  a  vida  dera, 
Se  outra  vez  a  morrer  fosse. 

Este  fado. veiu  ao  mundo 
Para  allivio  da  pobreza, 
Quem  anda  no  triste  fado 
Não  tem  paixão  nem  tristeza. 

Se  me  vires  ser  ingrato, 
Não  te  admires,  meu  bem, 
Que   uma  ingrata  me  ensinou 
A  ser  ingrato  também. 

Cupido  quando  nasceu, 
Beijinhos  á  mãe  pediu, 
Cupido  é  mais  brejeiro 
Que  a  mãe  que  o  pariu . 

iVi  inha  mãe  me  deu  pancada 
Por  eu  dar  o  que  é  meu, 
Minha  mãe  tudo  governa, 
Mas  n^sto  governo  eu. 


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166  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

Má  vida  a  do  burriqueiro, 
Qual  d'ellas  a  mais  cansada, 
Levantar  para  a  limpeza 
Sobre  a  fresca  madrugada. 

Coitado  de  quem  padece, 
Mais  soffre  quem  tem  o  mal, 
É  melhor  estar  na  cadeia, 
Que  jazer  no  hospital.    . 

Adeus  Praça  da  Figueira, 
Onde  costumo  ir  ás  vezes, 
Tive  lá  uma  chicana, 
Que  me  durou  nove  mezes. 

Segue-se  um  mote  glosado,  original  de  José  Um : 

O  amor  é  uma  albarda 
Que  se  põe  em  quem  quer  bem 
A'u,  p'ra  não  ser  albardado, 
Não  tenho  amor  a  ninguém. 

Consultei  certa  velhinha, 
D'aventuras  superior. 
Só  p*ra  vôr  se  ella  adivinha 
Que  coisa  no  mundo  é  amor. 
Eu  lhe  digo,  oh  meu  senhor, 
Diz-me  a  velha  toda  inchada, 
Quem  de  elle  se  não  guarda 
Vae  perjurar  a  sua  fé, 
Eu  lhe  explico  o  que  é: 
O  amor  é  uma  albarda. 

E  o  albardão  mais  pesado, 
Que  no  mundo  a  gente  atura, 
A  uns  tem  arruinado, 
Qutros  leva  á  sepultura; 
É  um  mal  que  nào  tem  cura, 
E  que  nenhum  remédio  tem, 
Que  náo  perdoa  a  ninguém, 
Que  náo  saiba  conhecel-o, 
Porque  é  grande  pesadello 
Que  se  põe  em  quem  quer  bem. 


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Historia  do  Fado  167 


Sobre  d 'amor  os  poderes 
Desde  que  isto  ouvi  contar, 
Tomei  ódio  As  taes  senhoras, 
Que  nem  para  ellas  posso  olhar; 
S'alguma  vez  vou  pass*iar, 
£  me  faço  encontrado, 
8'alguma  vez,  descuidado, 
Alguma  chega  á  janella. 
Nem  sequer  olho  p'ra  ella, 
Eu,  p'ra  nâo  ser  albardado. 

Dessas  doidas  tentadoras 
Ando  sempre  fugitivo, 
Tomei  ódio  ás  taes  senhoras, 
Que  sem  ellas  pasto  e  vivo; 
Eu  nâo  quero  dar  motivos 
Para  que  nValbardem  também, 
Porque  se  no  mundo  ha  alguém 
Que  me  deseje  o  meu  laço, 
Faça  o  mesmo  que  eu  faço, 
Nâo  tenho  amor  a  ninguém. 

0  Paixão,  cocheiro  batedor  de  fama,  cantava  admi- 
ravelmente e  primava  no  caAto  amoroso.  Possuía  uma 
voz  maviosissima  e  obra  original  em  barda.  Elle  mes- 
mo se  acompanhava  com  a  guitarra,  que  te  cava  bem. 
Em  186á,  compoz  o  fado  do  Paixão^  que  teve  immensa 
voga,  mas  que  ainda  está  inédito.  Depois  de  ler  aban- 
donado a  profissão  de  cocheiro,  o  Paixão  estabeleceu 
uma  casa  de  pasto  em  Corroios,  na  Outra-Banda,  e, 
finalmente,  uma  loja  de  ferrador  em  Almada,  alternan- 
do a  sua  nova  profissão  com  a  arte  cynegetica,  de  que 
é  amador.  A  sua  antiga  amante,  a  Amélia  do  Paixão, 
foi  uma  chibante  batedora  àefado,  pondo  aphrodisiacas 
ondulações  de  bayadeira  nos  seus  meneios.  Em  segui- 
da publicamos  um  mole  glosado,  original  do  Paixão : 

Se  tu,  gallo,  bem  soubesses, 
Quanto  custa  o  bem- querer , 
Nunca  tu,  gallo,  cantavas 
Quando  está  para  amanhecer. 


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861  Empreza  da  Historia  de  Portugal 


D'um  amante  dilatado 
È  de  noite  a  alegria. 
Para  que,  gallo  malvado, 
Cantas  em  signal  do  dia? 
Menos  fora  a  tyrannia, 
Se  tu  amor  me  tiveras, 
E  entre  lençoes  estiveras 
Gozando  de  um  doce  bem, 
Olha  o  gosto  que  isto  tem, 
Gallo,  se  tu  bem  souberas  ! 

Mas  tu,  como  no  poleiro, 
Não  se  te  dá  de  quem  pena, 
Por  isso  na  alva  scena 
Sois  penoso  pregoeiro ; 
Oh  gallo,  se  um  dia  inteiro 
Estivesses  sem  um  bem  vêr, 
Quando  vem  a  amanhecer 
Tu  farias  mais  demoras, 
Se  o  não  fazes  é  que  ignoras 
Quanto  custa  o  hem- querer. 

Mas,  quando  a  horas  amenas, 
Por  discreto  as  atrazas, 
Quando  lá  bates  as  azas, 
Tu  multiplicas  as  penas  ; 
Rompes  em  vozes  serenas 
E  no  damno  não  reparas, 
Gallo,  se  tu  bem  pensaras 
O  que  n'esta  occasião 
Solfre  um  triste  coração, 
Nunca  tu,  gallo,  cantaras. 

E  no  damno  não  reparas 
Com  que  o  dia  certificas, 
Para  mim  me  publicas 
O  defeito  de  eu  penar; 
Cuida,  gallo,  em  te  cal  lar, 
Não  te  dês  a  aborrecer, 
Que  cu  não  sei  se  pode  haver 
Uma  estupHez  tão  atroz, 
Como  a  d 'ou  vir  a  tua  voz 
Quando  está  para  amanhecer. 


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■  Historia  do  Fado    '  169 

O  Hermenegildo  Raiado  era  guitarrista  e  cantador 
dotado  de  muito  espirito.  Tinha  o  oflicio  de  charuteiro, 
mas  pouco  trabalhava,  porque  andava  sempre  na  ber- 
ra, conforme  a  expressão  usual  contemporânea.  Amis- 
tou-se  com  uma  rapariga  chamada  Marianna,  conhecida 
na  rua  dos  Vinagres,  mas,  antes  d'isso,  tivera  um  quar- 
to em  casa  do  marquez  de  Castello-Melhor,  que  lhe 
dispensava  a  sua  protecção,  e  a  quem  elle  acompa,- 
nhava  nas  esperas  de  toiros,  para  tomar  parte  nos  des- 
cantes obrigatórios  do  Campo  Pequeno.  O  Hermene^ 
gildo  Ratado  estava  sempre  no  café  que  existiu  defronte 
da  egreja  do  Soccorro.  Cantou  muito  ao  desafio  com  o 
Damas  e  o  Bagre. 

Segue-se  um  mote  do  Hermenegildo  Ratado : 

Quantos  andam  para  ver 
O  fim  á  íiossa  amizade, 
Cada  vez  ha  de  ser  mais, 
Cada  vez  com  mais  vontade 

Caetano  Calcinhas  foi  o  reformador  do  canto  áofado, 
o  creador  de  uma  nova  escola.  Enfin  Malherbe  vim. . . 
Caetano  Calcinhas  iniciou  o  canto  do  género  fino.  Pro- 
curou assumptos  menos  triviaes,  abandonou  as  estra- 
das batidas  pelos  outros  cantadores— para  cujo  fim  lia 
e  estudava  muito— e  cantou  os  homens  do  mar,  as  flores, 
ele.  O  Calcinhas  tinha  o  oflicio  de  sapateiro  de  calçado 
de  senhora,  oflicio  que  quasi  completamente  abandonou 
para  enveredar  pelo  trilho  da  mandriice.  Tocava  guitar- 
ra, mas  era,  acima  de  tudo,  um  eminente  cantador, 
mas  um  cantador  que  parecia  ter  sido  educado  na  es- 
cola das  cigarras  parnasianas.  A  sua  voz  meliflua  dava 
todas  as  doçuras,  todas  as  meias-lintas  musicaes,  com- 
movia  profundamente,  achava  com  facilidade  o  caminho 
do  coração,  cujas  fibras  vibravam,  de  repente,  no 
triumpho  das  harmonias  estimulantes.  Tinha  essas  fe- 


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170  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

licidades  de  expressão,  a  que  Rivarol  chamava  na  es- 
cripla— renconlres  ti  une  plume  en  bonne  forlune. 

Nas  corridas  de  loiros  por  amadores,  era  da  praxe 
convidar  se  o  Calcinhas,  que  também  assistia  ao  jan- 
tar que  se  seguia  á  lide,  onde  elle  tinha  occasião  de 
improvisar  a  respeito  da  toirada,  a  qual  sempre  des- 
crevia minuciosamente  em  verso,  á  guitarra.  Muitas  das 
suas  versejaturas  venderam-se  em  folhetos  anonymos. 
Improvisava  com  extrema  facilidade.  Aquiilo  era  fogo 
viste,  linguiça!  Estando,  certa  occasião,  no  Cazimiro 
do  Poço  dos  Mouros,  deram-lhe  este  mote,  que  elle  glo- 
sou n'um  prompto : 

Cazou  um  bonzo  na  China 
CVuma  mulher  feiticeira, 
Nasceram  três  filhos  gémeos  : 
Um  burro,  um  frade  e  uma  freira.  1 

E  fez  e  glosou  o  seguinte  mote  ás  peças  então  mais 
applaudidas  nos  theairos  de  Lisboa : 

Fiz  «Uma  viagem  á  China» 
Pelo  «Lago  de  Killarney,» 
£  «Um  rapaz  pobre»  encontrei 
Flanando  co'a  «Morgadinha». 

0  Calcinhas  andou  muito  na  ganga  da  moina,  na  vi- 
da parodica  da  Mouraria,  e,  graças  aos  seus  méritos  de 
cantador  superflno,  colheu  sympathias  entre  as  gajas 
locaes,  entre  o  femeaço  bairrista. 

Suspeitando  se  de  que  fora  auetor  da  morte  de  uma 
mulher  fácil  da  rua  do  Arco  do  Marquez  de  Alegrete, 
chegou  a  estar  preso  por  este  motivo,  mas  soltaram-n\) 
depois  de  se  reconhecer  a  sua  innocencia.  N*este  pre- 

1  Quadra  de  Bocage. 


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Historia  do  Fado  171 

tenso  crime,  achavam  se  implicados  o  Calcinhas  e  dois 
outros  indivíduos.  Quem  os  defendeu  no  tribunal  foram 
os  drs.  João  da  Silva  Mattos  e  Yalle. 

O  Calcinhas  cantava  todos  os  fados,  mas  principal- 
mente o  fado  corrido.  Morreu  tysico  em  1894.  A  sua  arte 
quebrara  os  moldes  Ao  fado  antigo  e  preparara  o  adven- 
to do  fado  moderníssimo,  o  fado  latest-slyle,  o  fado 
que  se  sujeita  á  pauta  dos  portadores  de  lyra  e  ao  com- 
passo dos  que  conhecem  a  harmonia,  a  fuga,  o  contra- 
ponto e  todos  os  meios  de  fazer  bulha  com  metaes, 
cordas  e  pelles  de  burro.  Caetano  Calcinhas  foi,  por- 
tanto, uma  individualidade  marcante  no  mundo  da  arte 
fadista! . 

Os  moles  seguintes  são  originaes  do  Calcinhas : 

Eu  rendo  culto  á  penna 
Não  rendo  culto  a  espada, 
Quem  mata  p'ra  ter  gloria, 
Cá  p'ra  mim  não  vale  nada. 

O  ser  bonita  no  mundo 
Causou  a  minha  ruina, 
£  hoje  morro  de  fome, 
Encostada  a  uma  esquina. 

Defronte  d'esta  prisão 
Vejo  as  arvores  balouçando, 
Alegres  os  passarinhos, 
De  ramo  era  ramo  saltando.  l 

Vou  contar  minha  chronica 
Com  palavras  bombásticas 
E  p'ra  o  canto  rachitico 
Peço  paciências  elásticas. 


1  Este  mote  foi  feito  quando  o  Calcinhas  esteve  preso. 


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172  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

Não  existe  a  Divindade 
Nas  regiões  sideraes, 
N'ellas  só  vê  a  sciencia 
Matéria  e  nada  mais. 

O  meu  coração,  coitado, 
Nada  n'este  mundo  espera, 
Nem  as  delicias  do  fado 
Que  canta  a  nossa  Severa. 

O  «Calcinhas*  immortal 

Vem  junto  a  vós,  traz  as  calças, 

Que  o  fado  nacional 

Já  entrou  no  rol  das  valsas. 

Açceita  a  chave  do  portão, 
Considera- a  como  tua, 
Porta-te  bem,  porque  senão 
Vaes  outra  vez  p'ró  meio  da  rua.  i 

O  Calcinhas  cantava  não  só  obra  sua,  mas  lambem 
a  de  outros  polidores  de  rimas,  sendo  os  principies  : 
F.  A.  Correia,  typographo  e  collaborador  d'0  Piani- 
wAo,  e  Anlino  Vigas  (António  Vianna)  collaborador  d' O 
Pimpão.  E,  a  este  propósito,  publicamos  um  fado  po- 
litico de  Animo  Viyas,  inserto  n'0  Pimpão  n.°  149  de 
1879: 

A  QUALQUER  DOS  MINISTROS 

íCfntigas  do  fadinho) 

Com  cantigas  se  governa 
Muita  gente  nossa  amiga, 
E  por  isso  a  mal  não  leves, 

Pois  não  deves, 
Que  eu  te  largue  esta  cantiga.  2 

Do  estado  o  «catraio»  amarra, 
Que  de  «nau»  vaidoso  alcunhas, 

f    l  N'este  mote  e  respectiva  glosa,  contava  o  Calcinhas  como  tra- 
vara amores  com  uma  velha  rica,  que,  por  fim,  o  expuleahade  casa. 
2  Este  quebrado   substitue  o   trólaró.  E'  uma  innovaçâo  no 
fado  corrido.  (Nota  do  O  Pimpão.) 


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Historia  do  Fado  173 

Salta  em  terra  e  se  tens  unhas, 
Vem  p'ra  aqui  tocar  guitarra. 
O  jadinho  nao  mascarra 
Os  teus  brazòes ;  traça  a  perna, 
£  esta  cantiga  moderna 
Escuta  c'o  o  teu  descanço, 
Já  que  ha  muito  o  paiz  manso 

Molle  e  .tanço 
Com  cantigas  se  governa. 

Escuta,  pois:  —  p'ra  que  montes 
Do  govemo  a  burra  manca, 
Ralei  me  a  dar  co'uma  tranca 
Nas  duras  cestas  do  Fontes. 
E'  justo,  pois,  que  tu  contes 
CVa  minha  inane  barriga ; 
Não  consintas  que  eíla  diga 
Que  —  ingrato  —  não  largas  nada, 
Conforme  já  por  hi  brada 

Escamada 
Muita  gente  nossa  amiga. 

Por  ti  levei  um  tabefe 
Que  inda  parece  que  estoira, 
Eu  rejeitei  uma  «loira», 
Que  me  dava  um  cabo -chefe. 
O  voto  de  um  magarefe 
Comprei  na  loja  do  Neve?, 
E  paguei  aos  almocreves 
Muito  vinho  que  foi  gasto. 
Tenho,  pois,  direito  ao  pasto, 

Não  me  affasto, 
E  por  isso  a  malnão  leves. 

Com  as  provas  que  eu  exhibo, 
Mereço,  por  ser  uir.  «alho», 
Um  logar  cujo  trabalho 
Seja  passar  o  recibo. 
Eu  conheço  enorme  tiibu 
Que  assim  vive  sem  fadiga ; 
E  já  que  por  balda  antiga] 
Isto  é  roupa  de  francezes, 
NSo  esperes  muitos  mezes, 

Que  mais  vezes, 
Eu  te  largue  esta  cantiga. 


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174  Empreza  da  Riêtoria  de  Portugal 

Segue-se  o  fado  (trovas)  com  que  António  Vianna 
satyrisou  o  primeiro  concerto  de  guitarras  no  Casino 
Lisbonense : 

Três  cantadoras  do  fado, 
De  cuia  estupenda  e  alta, 
A  cantarem  no  Casino, 
Eu  vi,  á  luz  da  ribalta. ' 

Eram  quatro  tocadores 
De  banza,  nada  macanjos, 
E,  entre  elles,  brilhava  o  Anjos, 
Dedilhando  os  seus  primores ; 
Findaram  estes  senhores 
Seu  concerto  sublimado, 
E  entram  dabi  a  bocado, 
Com  a  força  de  uma  bomba, 
Três  mocetonas  d'arromba, 
Três  cantadoras  do  fado. 

Salva  ruidosa  e  estridente 
De  palmas  e  d'assobios, 
Saudou  os  primeiros  pios 
D'aquclla  trindade  ingente; 
Depois  d'um  coro  excellente, 
Em  que  não  houve  uma  falta, 
Veio  então  a  mais  peralta 
Ch  mparnos  uma  cantiga, 
Trajava  de  cor  d 'ortiga, 
De  cuia  estupenda  e  alta. 

Veio  outra  logo  em  seguida 

Largar  a  sua  piada, 

Era  gorducha  e  corada, 

De  côr  de  rosa  vestida ; 

Deixava  entrever,  garrida, 

Bello  seio  alabastrino, 

O  seu  porte  era  tão  fino, 

Que  alguém  que  alli  'atava,  crera 

'Starem  damas  d'alta  esphera 

A  cantarem  no  Casino. 

De  vestido  côr  de  canna 
A  terceira  veio  á  frente, 


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Historia  do  Fado  175 

E  cantou  optimamente 

Com  requebio  e  voz  magana; 

Acabou,  e  toda  ufana 

Não  quiz  dar  bis,  fez  se  á  malta, 

O  povo  p'rá  frente  salta, 

E  os  rapazes  mais  trocistas, 

Querendo  papar  as  artistas, 

Eu  vi,  á  luz  da  ribalta.  l 

Chegamos  agora  a  uma  cantadora  famosíssima,  a 
uma  digna  continuadora  das  magnas  tradições  da  Se- 
vera e  da  Custodia  — a  Cesaria  ou  a  mulher  de  Alcân- 
tara. Esta  rapariga  trabalhava  n'uraa  fabrica  em  Al- 
cântara e  amancebara-se  com  um  fadislão.  Tinha  voz 
agradabilíssima  e  muita  livraria,  isto  ê,  na  sua  me- 
moria conservavam-se  armazenadas,  como  n'um  pho- 
nographo,  centenas  de  versos,  que  depois  lhe  brotavam 
dos  lábios  coralinos  em  expectorações  ininterruptas. 
Uma  vez,  estando  a  cantar  n'uma  casa  de  pasto  em 
Alcântara,  entrou  ahi  um  grupo  de  amigos,  amadores 
do  fado,  grupo  que  era  composto  do  Cesariç>  Salle.s 
canteiro  2,  do  Moraes  Náutico,  professor  de  pilotagem, 
e  de  João  Muzanli,  que  tinha  cocheira  na  travessa  da 
Palha  e  que,  depois,  teve  omnibus  para  Belém. 

Ouviram,  extasiados,  o  canto  da  tiple  de  taberna,  a 
voz  bem  timbrada  da  deidade  de  tasca,  e  logo  convi- 
daram, a  ella  eao  amante,  para  uma  comezaina  opípara. 
Passados  dias,  levaram-n'a  de  trem  para  uma  patus- 
cada, e,  mais  quinze  dias  andados,  a  rapariga  passava 

1  Este  fado  foi  publicado  a  pag.  8  do  O  Pianinho,  2.°  anno. 

2  José  Cesário  Salles,  canteiro,  era  irmão  de  João  Cesário 
Salles,  ourives  e  grande  valentão,  mas  a  quem  também  chama- 
vam o  Salles  canteiro  por  seu  pae,  Francisco  Salles, e  seu  irmão 
terem  officina  de  cauteiro  na  rua  dos  Algibebes.  Foi  José  Ce- 
sário Salles,  então  distincto  alumno  da  Academia  Real  de  Bel- 
las- Artes,  quem  dirigiu  toda  a  obra  de  cantaria  para  a  reedifi- 
cação  da  egreja  de  S.  Julião,  que  ardera  em  1817  e  que  reabriu 
restaurada  em  1849. 


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176  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

o  pé  ao  amante  para  ir  viver  com  o  Cesário  Salles, 
viudo-lhe  (Testa  concubinagem  o  nome  por  que  foi  ge- 
ralmente conhecida  —  a  Gesaria.  O  fadistão,  que  todo 
se  babava  por  ella,  sentia  se  vagamente  comuto  e  ju- 
rava aos  seus  deuses  que  bavia  de  dar  cabo  do  canas- 
tro ao  rival;  mas  os  amigos  d'este  convenceram  n'o  a 
que  se  deixasse  de  fanfurrias,  porque  aquillo  não  pas- 
sava de  um  capricho  epbemero  do  Cesário,  e  persua- 
diram-n'0  a  que  acceitasse  umas  dez  ou  doze  libras  em 
troca  da  fêmea.  Allons  doncl  O  fadistão,  á  vista  de  tão 
convincentes  argumentos,  botou  o  lúzio. . .  e  os  gada- 
nhos á  chelpa,  acalmou  as  convulsões  dos  seus  desejos 
cupidos,  atarrachou  um  boccal  na  incandescência  da 
sua  paixão,  esqueceu  a  Cesaria  —  que  não  era  uma 
belleza  por  ahi  alem  e  que  ceceiava  na  pronuncia  — ef 
sem  chispa  de  saudade,  foi  amar  outra  pécora  accom- 
mod  alicia. 

Uma  cantadora  contemporânea  da  frisaria,  Luzia,  a 
Cigana,  'teve  muitos  desafios  ao  fado  com  ella  na  casa 
do  José  Patrício,  um  homem  que  tinha  uma  salcbicharia 
e  tenda  em  Alcântara,  e,  defronte  (Testas,  um  quintal, 
onde  se  faziam  amiudadas  sessões  de  fado.  Houve  um 
descante,  em  que  a  Cesaria  e  a  Luzia  brilharam  á  com- 
pita, e  que  durou  dois  dias  e  uma  noite.  Um  desafio 
entre  os  principaes  cantadores  do  tempo,  que  se  rea- 
lisou  na  fabrica  de  chitas  em  Sacavém,  chamou  lá  mais 
de  trinta  carruagens  cheias  de  gente.  E  as  duas  can- 
tadoras citadas,  o  Cesário  Salles,  o  guitarrista  Carreira, 
o  Muzanti  e  o  Moraes  Náutico,  andavam  em  tapiocas 
de  fado  de  durarem  três  e  quatro  dias,  e  em  que  se 
traduzia  á  leltra  o  Nunc  est  bibendum  de  Horácio.  A's 
vezes,  o  Moraes  Náutico  ferrava  comsigo  na  quinta  da 
Pimenteira,  e  ahi  se  deixava  ficar  oito  dias,  em  janta  - 
res  dignos  de  Lucullo  e  em  descantes  de  fado,  nos 
quaes    tomavam  parle  o   Calcinhas  e£o[Patttsquinho, 


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O  RIBEIRIHHO 
(Famoso  cantador  de  fado) 


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Historia  do  Fado  179 

que  ganhavam  quatro  coroas  diárias  cada  um,  além 
do  jantar. 

No  café  da  Quitéria,  em  Arroyos,  travaram  se  desa- 
fios ao  fad),  em  que  entrava  a  Cesaria,  e  que  duravam 
dois  e  três  dias.  *  O  guitarrista  que  acompanhava  a 
Cesaria  era  o  Carreira,  um  pandego  jque  fora  retrozeiro 
e  a  quem  o  Cesário  dava  iez  tostões  diários  para  a 
acompanhar  e  ensaiar. 

N'um  duello  que  a  Cesaria  empenhou  com  a  Luzia, 
aquella  atirou  a  esta  o  seguinte  mote,  como  que  tiran- 
do a  a  campo  de  zombaria : 

Gri  gri  £ri,  queres  mais  toucinho  ? 
Dizia  a  Cigana  ao  Judeu  * 
J5  o  Judeu  por  gratidão, 
Todo  o  toucinho  lhe  comeu. 

Mas  a  Luzia  aziumou  se,  poz  um  crepe  no  seu  sor- 
riso e  fanfou  lhe  com  este  mole  atrevido  como  um 
golpe  de  espada : 

O  Cesário  comprou  ha  annos 
Uma  burra  bem  segura,  3 
Porém  já  estava  arrombada 
No  segredo  da  fechadura. 

O  primeiro  mote'e  a  glosa  respectiva  eram  de  Er- 
nesto Marecos.  Mas  isto  necessita  de  uma  explicação. 
O  João  Muzanti  estomagara-se  com  a  Cesaria  por  causa 
de  uma  offensa  d'esta.  O  Muzanti  quiz  pregar-lhe  uma 

1  Dois  locaes  onde,  n'esse  tempo,  se  fadejava  muito  eram 
a  locanda  dos  José  dos  Passarinhos,  defronte  da  Horta  Na  via, 
em  Alcântara,  e  o  retiro  do  Rouxinol,  nos  Terramotos. 

1  Alludia  ao  Josué  dos  Santos,  distincto  guitarrista. 

3  Referia-se  ao  contracto  bilateral,  que  fez  transitar  a  Ce- 
garia para  a  posse  de  Cesário  Salies. 


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ISO  Emprsza  da  Historia  de  Portugal 

peça,  e,  como  sabia  todos  os  motes  da  Cesaria,  pediu 
a  António  Vianna  (Antino  Vigas)  que  lhe  compozesse 
cantigas  em  resposta,  e  foi  entregai  as  á  Luzia.  Sempre 
que  esta  se  defrontava  com  aquella  em  desafios  de  fado, 
pespegava-lhe  com  respostas  que  vinham  mesmo  ao 
pintar  e  eram  cortadas  numa  ironia  em  ângulos  agu- 
dos, o  que  fazia  com  que  a  Cesaria  e  respectivo  Ce- 
sário dessem  a  cardada  ao  demo.  Esta  guerra  a  pica- 
das de  alfinete  tornou  se  memorável  nos  annaes  do 
fado. 

Outra  cantadora  contemporânea  da  Cesaria,  a  Izabel 
do  Moraes,  pussuia  boa  voz  e  cantava  muito  com  aquel- 
la. Quem  lhe  escrevia  as  cantigas  era  o  Moraes  Náu- 
tico, seu  amante,  e  por  signal  que  eram  todas  muito 
espirituosas.  Os  que  escreviam  versos  para  a  Cesaria 
e  para  diversos  cantadores  da  época  eram:  Ernesto 
Mareco?,  António  Vianna  (o  Anlino  Vigas  do  O  Pim- 
pão), barbeiro  no  largo  do  Corpo  Santo,  F.  A.  Cor- 
reia, lypographo  e  author  de  scenas  cómicas  (jà  falle- 
ciio),  José  Adrião,  Boaventura  Henriques  de  Carvalho, 
Carmo  e  Sousa,  Luiz  de  Araújo,  J.  Ignacio  de  Araújo, 
etc.  Os  versos  cantados  pela  Cesaria  eram  mandados 
fazer  lout  expies  pelo  seu  amante  Cesário,  que  os  che- 
gou a  pagar  a  dez  libras  aos  authores. 

Publicamos  cinco  motes  mui  queridos  da  Cesaria: 

Alerta,  refertadores! 
O  clarim  toca  a  rebate! 
Os  echos  repetem — guerra  ! 
E  a  guerra  diz— combate! 

Portugal  sente -se  ufano, 
Tem  bom  dinheiro  cunhado, 
Mas  quem  o  tem  chama-lhe  seu 
Ou  herdou  ou  tem  roubado. 


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Historia  do  Fado  181 


No  tempo  de  barb'ras  nações 
Pregavam  os  ladrões  nas  cruzes, 
Hoje,  do  sedo  das  luzes, 
Pregam  as  cruzes  nos  ladiões. 

Que  grande  carnificina 

Que  na  França  e  na  Prússia  vae, 

Tanta  mulher  sem  marido 

£  tanto  filhinho  sem  par.  í 

Defender  os  pátrios  lares, 
Dar  a  vida  pelo  rei, 
E'  dos  luzos  valorosos, 
Caracter,  costume  e  lei. 

Como  todo  o  cantador  que  se  preza,  a  Cesaria  teve 
o  seu  fado,  o  fado  da  Cesaria  ou  o  fado  de  Alcântara, 
que  foi  composto  pelo  guitarrista  Ambrósio  Fernandes 
Maia  em  1870. 

A  Cesaria  não  aprendeu  musica,  é  certo.  Mas  tam- 
bém o  rouxinol  perla  as  gammas  da  sua  ternura  sem 
se  ter  previamente  snbmettido  á  ferula  professoral; 
mas  também  a  cigarra  de  La  Fontaine  se  apaixonou 
pelo  canto  sem  que  ninguém  lhe  incutisse  a  paixão  da 
arte.  A  Cesaria  tivera  por  madrinha  uma  filha  postbu- 
ma  de  Júpiter  e  desconhecida  no  mylhologismo  —  a 
Musa  do  fado.  No  mundo  da  arte  fadistal,  a  Cesaria 
tornou  se  uma  actualidade  —  essa  flor  caprichosa  e 
que  um  nada  desbota,  como  diz  Augusto  Villemot. 
Conquistou  o  applauso  incondicional  de  todos  os  sy- 
nhedrios  musicaes  especialistas  e  os  supremos  suffra- 
gios  de  todos  os  exegetas  do  fado.  Foi  a  Eva  musical 
coroada  n'um  Éden  de  harmonias...  de  guitarras. 
Como  a  Pa  (ti  encarnou  a  Rosina  sonhada  pelo  Beau- 
marchais  e  pelo  Rossini,  ella  corporalisou  a  cantadora 

1  Alludia  á  guerra  franco-prussiana,  em  1870. 


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182  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

sonhada  pelos  grandes  amadores  da  luzitauissima  can- 
ção popular. ,  A  musica  esquisita  da  sua  voz  de  sereia 
vibrou,  por  largo  tempo,  na  memoria  de  todos  os  que 
amavam  e  comprebendiam  a  alma  elegíaca  d'aquella 
canção,  que  faz  palpitar  as  fibras  mais  secretas  da  sen- 
sibilidade amorosa,  d'aquella  melodia  embaladora  como 
as  redes  balouçadas  pelas  mãos  blandiciosas  das  mu- 
cambas  moquencas  nas  chácaras  brasileiras.  E  a  Gesa- 
ria  apparece  a  nossos  olhos  como  a  figura  melancho- 
lica  e  phantastica  de  uma  espécie  de  Mimi  Pinson,  com 
os  ares  tocantes  de  uma  vaporosa  Ophelia  aupelitpied, 
fluctuando,  de  flores  na  mão,  pelo  veio  crystallino  do 
rio  das  recordações ... 

Umas  trovas  do  fado,  muito  cantadas  no  tempo  da 
Cesaria,  foram  as  seguintes,  originaes  de  Boaventura 
Henriques  de  Carvalho,  então  collaborador  do  Ox  Pia- 
ninho : 

Não  vás  do  ermo  á  capella, 
Ninguém  de  noite  lá  vá, 
Dois  phan*  asmas  sahem  d'ellay 
Dois  amantes  mortos  já. 

Eram  de  branco  vestidos 
Os  vultos  que  descobri, 
Quando  de  mais  perto  os  vi, 
Quasi  perdi  os  sentidos; 
Soltando  agudos  gemidos 
Como  o  vento  na"  procella, 
Ouvi  dizer:  «Virgem  bella, 
Não  me  deixes,  vem  com  migo, 
Repousa  no  meu  jazigo, 
Não  vás  do  ermo  á  capella  » 

«A  sorte  não  permittiu 
Que  em  vivos  fôssemos  juntos 
Hoje,  que  somos  defuntos, 
O  destino  nos  uniu; 
O  nosso  amor  resurgiu, 


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Historia  do  Fado  183 


Vem,  pois,  ninguém  dos  verá, 
Porque  eu  creio  que  não  ha 
Quem  descubra  este  mysterio, 
E  também  que  ao  cemitério 
Ninguém  de  noite  lá  vá.» 

Detiveram -se  osdoisamantes 
Unidos  por  estreito  abraço, 
E  depois  de  longo  espaço, 
Juraram  em  ser  constantes; 
Passados  breves  instantes, 
Oqvi  dizer:  «Minha  estrella, 
Deixa  a  ermida  singella, 
Onde  alguém  nos  pode  ver, 
Receio.que  vão  dizer: 
-    '      Dois  phantasmas  sabem  d'ella.» 

«Receio  que  novamente 
Seja  o  nosso  amor  vedado, 
Por  isso  vem,  que  a  meu  lado 
Tu  serás  eternamente. 
Oh!  meu  doce  bem  consente 
Que  eu  te  conduza  'té  lá, 
Que  por  nós  esperando  está 
Esse  funéreo  logar, 
Onde  devem  repousar 
— Dois  amantes  mortos  já!» 

Do  tempo  da  Cesaria  é,  egualmente,  o  poeta  José  Ro- 
drigues Adrião,  que  principiou  a  poetar  em  1852  e  que 
ainda  hoje  verseja  para  o  fado.  São  sius  os  seguintes 
motes  inéditos  : 

Desejava  me  dissessem 
Esses  sábios  da  sciencia, 
Se  estaria  em  seu  juízo 
Quem  se  tira  a  existência. 

A'lerta,  oh  liberaes, 
Não  temo  ar. os  a  reacção, 
Batalhemos  até  morrer 
Contra  a  falsa  religião  ! 


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184  Empreza  da  História  de  Portugal 


Com  a  penna  e  com  a  espada 
\  Em  muitas  occasiões, 
Mostrou  qual  o  seu  valor 
Luiz  Vaz  de  Camões. 

Tu  és  cravo  e  eu  sou  rosa, 
Qual  de  nós  tem  mais  valia  ? 
Tu  és  cravo  não  sei  de  quê, 
Eu  sou  rosa  d'Alezandria. 

Eu  sou  cravo  e  tu  és  rosa, 
Qual  tem  mais  acceitaçâo  ? 
Tu  és  rosa  d'Alexandria, 
Eu  sou  cravo  do  Maranhão. 

Já  lá  vae  já  se  acabou 

O  tempo  em  que  eu  cantei  bem, 

Hoje  bó  me  podem  ouvir, 

O  que  nenhuma  graça  tem. 

Houve  um  Saldanha  cantor 
Em  outro  tempo  passado, 
Ainda  vive,  não  morreu. 
Mas  velho  e  acabrunhado. 

Descobriram  finalmente, 
Da  sciencia  os  professores, 
Dar  fim  á  tuberculose 
Por  meio  de  escarradores. 

Visto  que  nada  escapa 
A'  vil  falsificação 
Deve  ser  analysado 
O  fabrico  da  geração. 

Segue-se  uma  cantiga  inédita  de  José  Rodrigues 
Adrião : 

Quanto  é  delicioso 
Pela  fresca  madrugada, 
O  ouvir  os  passarinhos 
A  fazerem  chilreada. 


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Historia  do  Fado  .  185 


Foi  o  author  da  natureza, 
A  quem  nada  è  impossível 
Com  o  seu  poder  invisível 
Quem  formou  tanta  grandeza  ; 
Tudo  no  mundo  é  belleza, 
Tudo  é  maravilhoso, 
P'ra  tudo  ser  grandioso 
Ãté  creou  avesinhas, 
E  ouvil-as,  coitadinhas, 
Quanto  é  delicioso ! 

Que  lindo,  ao  romper  do  sol 
Na  manhã  bonita  e  bella, 
Estar  sentado  á  janella 
Á  escutar  o  rouxinol ; 
Vêr  lá  ao  longe  o  pharol, 
Vêr  a  montanha  serrada, 
Vêr  a  campina  elevada, 
Descobrir  o  esplendido  mar, 
E  avesinha8  a  voar, 
Pela  fresca  madrugada. 

E'  rudemente  magistral 

O  débil  cântico  frouxo 

Do  suave  pintarroxo, 

E  da  toutinegra  real ; 

Não  ha  nada  mais  ideal 

Do  que  ver  sobre  os  tronquinhos 

Ás  avesinhas  nos  ninhos, 

Para  os  filhinhos  gerarem, 

E,  depois  de  os  crearem, 

O  ouvir  os  passarinhos. 

No  magnificente  jardim 
Ouve  se  o  som  delirante, 
Do  melro  a  voz  vibrante, 
Escondido  no  alecrim ; 
E  vê- se  a  rama  do  jasmim 
De  pássaros  apinhada, 
E  logo,  em  debandada, 
Voando  p'rós  regueirinhos, 
A  molharem  os  biquinhos, 
A  fazerem  chilreada. 


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186  Emprezq  da  Historia  de  Portugal 

Na  decima  seguinte,  explica  José  Rodrigues  Adrião 
como  principiou  a  fazer  versos  para  o  fado : 

Quinze  annos  contava  então, 
E  nada  de  si  suppunha, 
Já  o  seu  verso  compunha 
José  Rodrigues  Adrião; 
Por  lhe  verem  a  propensão 
Foi  p'las  musas  captivado, 
O  seu  estro  já  falado 
Os  amadores  procuravam, 
Seus  versos  utilisavam 
Diversos  cantores  do  fado. 

Oulra  cantarina  da  época  da  Cesaria,  embora  de 
menos  fino  quilate  que  o  d'esta,  era  a  Coxa.  Maria  das 
Neves,  a  Coxa,  casou  com  o  cantador  Augusto  Peitu- 
do (discípulo  de  José  Borrego),  que  foi  cocheiro  de  ti- 
póias de  praça  até  que  baixou  a  moço  de  segurar  ca- 
vallos  no  largo  de  Santa  Justa,  e,  por  fim,  á  sepultura 
em  1002.  A  Coxa  empenhou  sabbatinas  de  fado  com 
a  Cesaria.  Um  mole  do  Augusto  Pelludo  era  este: 

Com  a  minha  mão  direita 
Fiz  uma  cova  no  chão, 
Para  enterrar  os  meus  olhos 
Que  tão  desgraçados  são. 

Seguem-se  dois  fadm  cantados  pelo  Augusto  Pel- 
ludo : 

Canta  o  soldado  na  guerra. 
Canta  o  nauta  sobre  o  mar, 
Cantando  se  passa  a  vida, 
Esquecem  se  as  dores  a  cantar. 

Canta  o  indio  indolente 
A'  sombra  da  bananeira, 
Canta  o  vento  na  palmeira, 
Quando  passa  docemente ; 
Canta  o  proscripto  ausente 


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Historia  do  Faio  187 


Saudades  da  sua  terra, 
Canta  o  pastor  na  serra 
O  seu  amor  terno  e  querido, 
E  até  da  baila  ao  zumbido 
Canta  o  soldado  na  guerra 

Canta  o  rio  murmurando 
Nos  freixos  da  verde  margeir, 
E  ao  sopro  da  branda  aragem 
Ouvem-se  os  freixos  eantando ; 
A  mãe  o  filho  embalando 
Junto  ao  berço  vae  cantar, 
Canta  o  artista  a  lidar, 
Canta  o  camponez  n 'aldeia, 
E  em  noites  de  lua  cheia 
Canta  o  nauta  sobre  o  mar. 

Cantam  os  padres  no  altar 
Hossanas  ao  Deus  creador, 
E  os  archanjos  do  Senhor 
Na  gloria  estão  a  cantar  ; 
Canta  a  velhinha  no  lar 
A  lenda  tão  conhecida, 
A  cantar  o  mal  solvida, 
A  cantar  esquecem  tormentos, 
A  cantar  esquecem  lamentos, 
Cantando  se  passa  a  vida. 

Ao  romper  a  aurora  bella, 
Canta  alegre  o  rouxinol, 
Como  triste  ao  pôr  do  sol 
Canta  a  triste  philomela  ; 
Canta  a  timida  donzella 
O  amor  que  vae  captivar, 
E  até  mesmo  no  lupanar 
Cantam  tristes  peccadoras, 
A  cantar  passam  as  horas, 
Esquecem  -se  as  dores  a  cantar. 


Morre  um  affecto  outro  nasce, 
Vae- st  um  desejo  outro  vem, 
Depois  de  um  sonho  outro  sonho, 
De  tantos  que  a  vida  tem. 


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188  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

Como  a  flor  boje  nascida, 
Mimosa,  linda  e  louçã, 
Que  o  vento  sul  d'ámanhã 
Deixa  na  haste  pendida, 
Assim  é  a  nossa  vida 
Que  entre  mil  prazeres  renasce, 
Com  leve  sopro  desfaz  se 
'    A'  beira  da  campa  fria, 
Como  nasce  e  morre  o  dia 
Morre  um  affecto  outro  nasce. 

A  vida  é  um  turbilhão 
Cheio  de  crime  e  virtude, 
A  vida  é  sonho  que  illude, 
Mas  tem  curta  duração ; 
Ancioso  o  coração 
Não  se  contenta  com  o  bem, 
A  ambição  nos  mostra  alem 
Um  rival  feliz  e  contente, 
E  n'este  anceio  ardente, 
Vae-se  um  desejo  outro  vem. 

Hoje  a  esp'rança  de  ventura, 
A 'manhã  o  lucto  e  a  dor, 
Hoje  uma  jura  cTamor, 
Amanhã  esquecida  a  jura ; 
Infeliz  de  quem  procura 
No  mundo  porvir  risonho, 
Cheio  de  m aguas,  tristonho, 
O  porvir  lhe  surgirá 
Que  esta  vida  bó  nos  dá 
Depois  d'um  sonho  outro  sonho. 

Só  uma  eterna  verdade 
No  mundo  existe,  é  a  morte, 
Mas  dos  prazeres  no  transporte 
Não  lembra  á  humanidade ; 
Ella  zomba  da  saudade, 
Do  amor  de  pae  e  de  mãe, 
Zomba  do  mal  e  do  bem, 
Tudo  quanto  vive  é  mortal, 
E'  o  desengano  final 
De  tantos  que  a  vida  tem. 


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Historia  do  Fado  189 

José  Maior  (o  sr.  José  Joaquim  Emygdio  Maior)  foi, 
e  ainda  é,  um  cantador  notabílissimo,  de  voz  de  bom 
timbre,  embebendo-se  de  emoção  a  cada  passo,  dando 
os  mais  subtis  cambiantes  do  fado  com  um  colorido 
iodo  de  velaturas.  Artista  ensamblador  de  raro  mérito, 
discípulo  da  escola  de  Leandro  Braga,  entregou-se, 
nas  horas  de  ócio,  ao  estudo  da  guitarra  e  do  canto 
do  fado,  logrando  attingir  a  perfeição  ideal  do  amador, 
qne  consegue  dar  quinau  aos  profissionaes.  Muitas  ve- 
zes tomou  parle  em  grandes  descantes  de  fado  no  Re- 
tiro dos  Pacatos  e  se  defrontou  com  o  Calcinhas,  sem 
que  este  jamais  lhe  levasse  a  melhor.  Tem  muitas  pro- 
ducções  suas,  algumas  das  quaes  insertas  no  O  Piani- 
nho. 

Os  motes  que  se  seguem  são  originaes  seus : 

Pegando  no  livro  da  vida 
Vae-se  lendo  e  meditando  ; 
Vem  a  morte  e  diz  nos  «Fim, 
Que  adeante  ias  passando». 

Pobre  foi  meu  nascimento, 
Pobre  fui,  pobre  hei  de  ser, 
Pobre  será  minha  dita, 
Pobre  serei  no  morrer. 

Sentado  ás  portas  da  morte, 
Triste  a  morte  me  encontrou  ; 
— Venha  cá,  morte,  não  siga, 
P'ra  morrer  é  que  aqui  'stou  ! 

Orphâo  no  mundo  perdido, 
Quanto  é  triste  meu  viver  ! 
Onde  o  ser  pobre  é  desprezo, 
Quem  me  dera  já  morrer  ! 

Que  me  importam  outras  flores 
De  perfume  rescendente, 
Se  as  flores  da  minha  vida 
Murcharam  rapidamente. 


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190  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

António  de  Albuquerque,  o  António  Maluco,  cortador, 
cantador  de  merecimento, ainda  hoje  sabe  atirara  sua 
fiada,  acompanhando  se  á  guitarra.  Teve  duellos  de 
cantadoria  com  a  Custodia.  A  esta  eminente  canta- 
deira fez  elle  o  seguinte  mote : 

Canta,  Custodia  Maria, 
Rainha  dos  cantadores, 
Eu  hei  de  mandar- te  croar 
Com  uma  c'roa  de  flores. 

A.  J.  Ribeiro,  o  Ribeirinho,  um  rapaz  que  viveu  entre 
a  média  bohemia  de  ha  vinte  para  vinte  e  cinco  annos, 
tinha  uma  voz  agradabilíssima  de  cantador  mellisono 
como  um  tenorino,  e  fazia  ouvir  frequentemente  as  le- 
gendas rosses  e  apimentadas  dos  fadinhos  nas  esperas 
de  toiros,  nas  rapiocas  das  hortas  e  n'outros  sitios.  O 
Ribeirinho  dispunha  de  uma  voz  adequada  ao  canto  do 
fado.  Ora  se  molhava  de  ljgrimas,  ora  filtrava  os  ge- 
midos recônditos  da  saudade,  ora  soava  triste  como  um 
dobre  de  íinados,ora  se  repassava  de  morbidezas  gaiatas. 
As  vezes, parecia  que  um  espirito  maligno  lhe  estava 
fazendo  cócegas  na  glolte. .  Muitas  vezes  fez  chorar  o 
circulo  dos  seus  auditores,  emquanto  o  guitarrista  ti- 
rava accordes  do  instrumento,  feria  sustenidos  pela 
oitava,  subia  diatonicamente,  arrancava  sons  geme- 
bundos ás  toeiras  e  ás  primas,  ás  segundas  e  aos  bor- 
dões. .. 

O  Ribeirinho  compoz  um  fado,  que  elle  cantava,  mas 
que  ficou  inédito.  As  suas  prendas  de  cantador  sedu- 
ziram Francisco  Palha,  que  o  escripturou  como  actor 
do  thealro  da  Trindade,  onde  representou  operettas  e 
o  Ditoso  Fado  com  a  actriz  Josepha  de  Oliveira. 

Falleceu  victima  da  tuberculose.  Eis  alguns  motes 
que  elle  cantava  : 


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Historia  do  Fado  191 


Oh  bella  pombinha  branca, 
Não  te  deixes  apanhar, 
Depois  de  tu  estares  presa 
Ninguém  te  pôde  soltar  !    • 

Oh  cipreste  verde  e  triste, 
Cópia  da  minha  figura, 
Verde  qual  minha  esp'rança, 
Triste  qual  minha  ventura  ! 

Kâo  sabes,  oh  prostituta, 
O  fim  que  foste  buscar, 
Teu  corpo  feito  em  bocados 
Na  valia  irá  acabar  ! 

Para  matar  a  fome,  um  dia, 
Fui  a  minha  honra  vender, 
Hoje  peço  á  sociedade 
A  honra  que  me  fes  perder. 

Oh  meu  pae,  meu  querido  pae, 
Não  fui  eu  só  a  culpada, 
Era  nova  e  não  pendei, 
Cahi  em  falsa  cilada. 

Eras  qual  maga  visão, 
Que  os  sentidos  me  prendia, 
Eras,  mulher,  um  encanto 
De  volúpia  e  de  magia  ! 

Os  meus  beijos  não  se  vendem, 
Nem  meu  corpo  é  p'ra  leilão, 
Desprezo  oiro  e  brilhantes, 
Que  pela  honra  me  dão. 

Oh  meu  bem,  quando  eu  morrer, 
Vae  na  sepultura  pôr, 
Uma  lettra  em  cada  canto  : 
A.  M.  0.  R. — Amor. 

Eu  convido  os  meus  amigos 
P'ra  uma  ceia  que  vou  dar, 
P'ra  sobremeza  ha  pinhões 
E  o  mais  que  queiram  levar. 


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192  Empreza  da  Historia  de  Portugal 


Três  dias  depois  de  morto 
Perguntou  me  o  frio  chão  : 
— Se  eu  era  rapioqueiro  ? 
Eu  4he  respondi  que  não. 

Um  cantador  que  desfructou  certa  notoriedade  foi 
António  Maria  Monteiro,  o  Digutdão,  irmão  do  cavai- 
leiro  tauromachico  José  Cazemiro  Monteiro. 

0  Marréquinho  da  Mouraria,  um  jâ  ninguém,  um 
pilrête  giboso,  tinha  o  ar  lúgubre  de  seguir  o  seu  pró- 
prio enterro.  Cantava  bera.  Chegavam  a  pegar  n'elle 
ao  collo  para  o  levar  ás  tabernas,  onde  queriam  ou- 
vir a  sua  voz  pardacenta  como  cinza  que  cahe. 

Segue-se  um  mote  do  Marréquinho  da  Mouraria  : 

Agradeço  aos  senhores 
Todo  o  bem  que  estão  fazendo, 
Já  que  não  posso  pagar-lh'o, 
Paciência,  fico  devendo. 

0  Josêsinh)  de  Alfama,  outro  bom  cantador,  tinha  o 
officio  de  pedreiro  e  foi  degredado  por  ler  morto  um 
gallego  na  rua  da  Prata.  Quando  esteve  preso  no  Li- 
moeiro, entretinha  se  a  cantar  ás  grades  da  prisão, 
emquanto  o  Minuto  lhe  respondia  cá  em  baixo,  da  rua 
da  Adiça. 

Antes  de  botar  da  barra  em  fora  para  o  degredo, 
cornpoz  a  seguinte  cantiga  de  despedida  á  cidade  de 
Lisboa : 

Adeus,  oh  pátria  querida, 
Aonde  eu  fui  baptisado! 
Adeus,  parentes,  amigos, 
Que  eu  cá  vou  degredado  ! 

Com  penas  do  coração 
Me  despeço  d'aqui  primeiro, 
Adeus,  grades  do  Limoeiro, 
Adeus,  rua  do  Barão ; 
Adeus,  Aljube,  prisão 


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r; 


A  CESARIA.  OU  A  MULHER  DE  ALCÂNTARA! 
(Dwtnho  ftito  por  informações  dadas  por  contemporâneos  da_Ce«arla) 


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Historia  do  Fado  195 


Onde  estão  moças  da  vida, 
Quero  dar  a  despedida 
N*eeta  occasião  tão  boa, 
Adeus,  oh  Sé  de  Lisboa, 
Adeus,  oh  pátria  querida. 

Adeus,  Santo  António  da  Sé, 
Adeus,  rua  da  Padaria, 
Peço  á  Virgem  Maria 
Que  me  dé  boa  maré ; 
Tenho  esperança  e  fé 
Que  por  ella  sou  guiado, 
Meu  peito  vae  encerrado, 
Meu  coração  se  inflamma, 
Adeus,  Sa»!o  Estevão  d'A)fama, 
Aonde  eu  fui  baptisado. 

Adeus,  rua  dos  Sapateiros, 
Manda-me  embarcar  quem  governa, 
Adeus,  rua  Magdalena, 
Adeus,  rua  dos  Retroseiros ; 
Adeus,  rua  dos  Fanqueiros, 
Adeus,  Terreiro  dos  Trigos, 
Que  eu  cá  vou  mettido  em  p'rigos, 
Que  é  o  que  mais  mo  mata, 
Adeus,  oh  rua  da  Prata, 
Adeus,  parentes  e  amigos. 

Se  eu  em  Angola  morrer, 
£'  isso  o  que  mais  me  custa, 
Adeus,  oh  rua  Augusta, 
Adeus,  oh  rua  do  Ouro ; 
Adeus,  Publico  Thesouro, 
Adeus,  Pelourinho  gabado, 
Adeus,  Arsenal  do  estado, 
Adeus,  oh  Nova  Conceição, 
Adeus,  egreja  de  S.  Julião 
Que  eu  cá  vou  degredado. 

0  Josésinho  de  Alfama  amancebou-se  em  Africa  com 
a  famigerada  Maria  Petiza,  uma  tarântula  da  Mouraria, 
uma  chinfrineira  que  tioha  o  corpo  pintalgado  de  ta- 
tuagens. Esta  celebrada  megera  perpetrara  dois  assas- 
sínios por  meio  de  navalha  na  noite  de  1  i  de  Dezem- 


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196  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

bro  de  1859,  na  lôbrega  alfurja  do  Capellão.  Poucos 
dias  antes,  partira  a  cabeça  com  um  tamanco  ao  Cal- 
cinhas do  Cães  do  Sodré  na  taberna  do  Bento  Chico, 
defronte  da  rua  dos  Canos,  junto  ao  pateo  da  sachris- 
tia  de  S.  Domingos.  Às  duas  pessoas  assassinadas  fo- 
ram o  Eusébio  da  flaula  e  o  António  da  Praça^  moço 
da  botica  que  estava  á  esquina  da  rua  do  Capellão, 
vendedor  da  praça  da  Figueira  e  amante  da  Maria  Pe- 
tiza.  Julgada  no  tribunal  da  Boa -Hora,  onde  a  defen- 
deu o  Dr.  Silva  Bruschy,  e  onde  cahiu  a  Mouraria  em 
pezo  para  assistir  ao  julgamento,  foi  condemnada  em 
quinze  annos  de  degredo  para  a  Africa,  attendendo  a 
ser  menor  de  21  annos. 

Maria  Petiza,  alta  e  desempenada  mocetona  —  ao 
contrario  do  que  a  sua  alcunha  inculcava — enamorou- 
se  do  Josésinho  de  Alfama  durante  a  sua  forçada  vil- 
legiatura  em  Africa.  Mas  estes  amores  Analisaram  em 
tragedia.  Ella,  certa  noite,  armou  uma  ariosca  para  as- 
sassinar o  Josésinho,  mas  este,  dando-lhena  trilha,  appli- 
cou-lhe  uma  tareia  mestra  e  pôl-a  fora  da  porta,  onde 
o  relento  da  noite  lhe  provocou  uma  febre,  que  lhe 
serviu  de  passaporte  para  a  outra  vida.  O  Josésinho  de 
Alfama  regressou  a  Lisboa,  já  casado  e  com  certos 
meios  de  fortuna.  Seguem -se  motes  cantados  pelo  Jo- 
sésinho de  Alfama : 

Puz  um  pé  na  sepultura, 
Onde  estava  o  corpo  humano, 
E  uma  voz  ouvi  dizer  ; 
Não  me  pizes,  oh  tyranno  ! 

Escurecem  no  céo  as  estrellas, 
Murcham  no  jardim  as  flores ; 
Triste  sorte  a  do  Zèzinho, 
Beijinho  dos  cantadores. 


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Historia  do  Fado  197 


Sou  rapaz,  gosto  de  vêr 
As  pernas  ás  raparigas, 
Se  s&o  grossas  ou  delgadas, 
Se  sâo  curtas  ou  compridas. 

O  tanque  das  lavadeiras 
E'  a  escola  da  maldade, 
Ouve  lá  muitas  asneiras 
Quem  espreita  por  certa  grade. 

Senhores,  morreu  o  gallego 
Que  tinha  posto  uma  quitanda, 
Foi  p*ró  Alto  de  S.  João 
Levado  por  uma  gambia. 

No  dia  vinte  d'Agosto 
Foi-me  um  amigo  visitar, 
E  eu  lhe  dei  oito  vinténs 
Para  umas  solas  me  comprar.  x 

0  cantador  popular  José  Augusto  foi  uma  celebrida- 
de das  ruas.  Como  cantador  de  fado,  chegou  a  ganhar 
um  premio  n'um  concerto  realisado  no  theatro  do  Prín- 
cipe Real.  Mas  a  sua  voz  rouquenha  predispunham 
mais  para  Demosthenes  de  carnaval  e  pregador  do  en- 
terro do  bacalhau  ou  da  serração  da  velha,  o  ultimo 
avatar  da  tipóia  de  Thespis.  Em  seguida  publicamos  o 
mote  da  cantiga,  que  cantou  n'aquelle  theatro: 

Eu  sou  medico  exótico, 
Pratico  e  scientifíeo, 
Curo  ataques  epilépticos 
Com  o  meu  saboroso  especifico. 

As  duas  cantigas  seguintes  —  a  que  conservamos  a 
metrificação  e  o  sentido  — são  do  José  Augusto  da 
primeira  maneira,  o  José  Augusto  revolucionário  e  re- 
publicano, o  mesmo  que  depois  havia  de  evolucionar 
para  monarchico  e  ordeiro: 

1  Esta  quadra  era  dirigida  ao  Minuto,  que  o  fora  visitar  á 
cadeia  do  Limoeiro. 


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198  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

Deus,  diabo,  inferno  t  eéo, 
Baptismos  e  confissões, 
Sermões  t  mitsas  cantadas, 
Tudo  isso  são  palões. 

O  que  é  o  catholicismo? 
E'  o  titulo  mais  infame, 
D'uma  caterva  ou  enxame 
De  sectários  do  egoísmo; 
Quem  domina  o  fanatismo 
E'  a  victima  dó  athèu, 
E  nega  firme  como  eu, 
Nào  ser  santo  seu  ministério, 
Conhece,  por  vitupério, 
Deus,  diabo,  inferno  e  céo. 

Não  me  fio  nos  conselhos 
Dos  padres,  chusmas  malditas, 
Que  se  dizem  parasitas, 
N'este  mundo,  meus  espelhos; 
Os  encontro  de  joelhos 
Nos  templos  fazendo  orações, 
Com  as  péssimas  intenções 
De  n*ellas  me  fazerem  crer, 
Quando  só  vivem  de  fazer 
Baptismos  e  confissões. 

Os  ministros  da  religião 
Essa  indecente  canal  ba, 
Dizem  ao  povo:  trabalha! 
Mas  elies  mexerem- se,  não; 
A  sua  árdua  missão 
E'  sim  das  msis  engraçadas, 
Dizem  latim  ás  carradas, 
Papam  hóstias,  bebem  vinho, 
Impingem  ao  Zé- Povinho 
Sermões  e  missas  cantadas. 

Tem  cada  um  uma  ama 
Nova  e  que  seja  peixão, 
Que  lhe  trate  da  refeição 
E  durma  com  elle  na  cama; 
A'  vida  do  padre  se  chama 


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Historia  do  Fado  199 


Vida  de  mortificações, 
iDEoneiros  e  mandriões, 
I)'onde  só  o  mal  germina, 
O  seu  Deus,  sua  doutrina, 
Tudo  isso  são  palõee. 


Destruir  a  mcnarchia 
Haver  no  mundo  egualdade. 
São  dois  pontos  sublimes 
Por  que  pugna  a  sociedade. 

De  que  serve  á  pátria  o  rei, 
Toda  a  imbecil  nobreza, 
Que  p'ia  força  da  riqueza 
E  p*la  posição  são  a  lei  ? 
O  poder  que  ao  vil  darei 
A'  desordem  e  á  anarchia, 
A  villeza  e  a  tyrannia, 
Tudo  isso  deve  acabar. 
Cumpre  ao  povo  Bem  esperar, 
Destruir  a  monarchia. 

Destruída,  tereis  então 
De  cumprir  sérios  preceitos, 
Gozareis  de  os  direitos 
De  um  povo  livre  em  acção; 
Quem  ama  a  sua  nação 
Odeia  a~cruel*mage8tade, 
Realeza  —  nullidade, 
A  dizer  ha  quem  se  atreve, 
P'ra  nossa  ventura  deve 
Haver  no  mundo  egualdade. 

Beis,  príncipes  e  rainhas, 
Duques," marquezes,  barões, 
Medalhas,  commendas,  brazões 
Doestado  regias  gracinhas; 
Oh  Povo,  aue  isto  tinhas, 
Eras  um  réo  de  vis  crimes, 
Domaste  te  como  os  vimes, 
A  tal  caterva  singular, 
Porque  o  roubar  e  o  matar 
São  dois  pontos  sublimes. 


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200  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

O  rei  vive  ocioso, 
Croado  de  louro  e  carvalho, 
A1  sombra  só  do  Trabalho, 
Do  pobre  laborioso; 
Descei  do  throno  ditoso, 
Oh  gérmen  da  ociosidade! 
O  povo  é  rei,  e  ha  de 
Não  cessar  com  a  supplica, 
Dando  vivas  &  republica 
Por  que  pugna  a  sociedade.  * 

0  João  França,  pedreiro,  irmão  do  popular  José  Au- 
gusto, canta  e  compõe  cantigas  para  os  outros  canta- 
dores. E'  repentista.  E'  certo  encontral-o,  aos  sabbados 
á  noite  e  aos  domingos,  no  retiro  dos  Pacatos  ou  no  re- 
tiro da  Montanha,  tomando  parte  nos  descantes  de  fado. 

Segue-se  o  mote  da  cantiga,  que  elle  fez  á  morte  do 
bandarilheiro  José  Peixinho : 

A  morte  cruel,  infame, 
Mais  uma  vida  roubou, 
J,osé  Peixinho,  toureiro, 
A  fria  campa  baixou. 

Existia,  e  ainda  existe,  o  Augusto  Palhetas,  canta- 
dor e  tocador  que  anda  principalmente  pelos  arredores 
de  Lisboa,  nas  festas  saloias.  Toca  guitarra,  fazondo-se 
acompanhar  de  uns  guizos  que  enfia  nos  dedos.  Tem 
apenas  meia  dúzia  de  cantigas,  sendo  a  >ua  favorita 
aquella  que  começa :  Adeus,  oh  Serra  de  Cintra  t  O  Au- 
gusto Palhetas  é  um  melro  de  bico  amarello,  um  pa- 
tusco de  lettra  muito  miúda,  um  marau  com  tretas. 
Ignora  o  uso  do  sabão,  e  só  muda  de  camisa  quando 
a  lua  muda  de  physionomu.  Outro  cantador  da  mesma 
laia  e  com  idênticas  baldas  é  o  Saloio  da  Portella,  um 
vaganau  com  ronha.  Eis  um  mote  seu : 

1  No  Correio  de  Cintra  de  10  de  Dezembro  de  1893,  existe 
uma  cantiga  do  popular  José  Augusto  intitulada  Improviso. 


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Historia  do  Fado  201 


A*  manhã  é  qu'anda  a  roda, 
Quem  me  compra  uma  cautella! 
Dizia  um  cautelleiro 
Ao  Saloio  da  Portella. 

Na  seguinte  cantiga  a  atirar^  recolhida  em  Lisboa 
em  1874,  citam-se  os  principaes  cantadores  da  época 
que  decorre  de  1865  a  1875,  a  edade  áurea  do  fado: 

Os  cantadores  deram  a  mão 
E  juraram  de  me  vencer; 
Que  venha  um  por  cada  vee. 
Minha  memoria  combater. 

De  Angola  o  «José'sinho», 
De  Sacavém  o  «Rachado», 
Do  Campo -Grande  o  «Machado, 
E  da  Baixa  o  «Patusquinho»; 
O  «Calafate»  setuVlão, 
£  o  seu  amigo  «Leitão*, 
Venha  o  «Farei  lo*  d 'Azeitão, 
E  o  titulo  de  «Plateia», 
P'ra  me  darem  volta  á  idéa 
Os  cantadores  deram  a  mão. 

Venha  a'Al cantara  o  «Pizão», 
E  o  seu  amigo  «David», 
Dos  Terramotos  o  «Chapim», 
«Campanudo»  cTAppellação; 
Venha  também  o  «Paixão», 
Porque  tem  um  grande  saber, 
Eu  estou  prompto  a  responder 
A*  bella  obra  do  «Calcinhas», 
Venha  de  fóia  o  «Palhinhas», 
Que  juraram  de  me  vencer. 

Da  Porcalhota  o  «Zésinho» 
E  o  bom  «João  Saldanha», 
«José  Cecilio»  da  Azenha, 
Venha  da  Graça  o  «Aquino»* 
De  Coimbra  o  «Adelino» 


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202  Empreza  da  Historia  de  Portugal 


Ouvir  cá  um  bom  portuguez, 

Venha  servir  d 'entremez 

Da  Mouraria  o  «Marreco»,  I 

O  «Chico»  mais  o  «Charépo», 

Que  venha  um  por  cada  vez. 

Venha  o  «Zé  Maria  Enguia», 
E  também  o  «Zé  Augusto», 
Qu'a  mim  náo  me  mettem  susto, 
Tragam  «Chato»  em  companhia; 
« Artilheiro»  co'  a  artilheria, 
O  «Máximo»  fogo  a  fazer, 
Que  venham  todos  para  vêr 
Se  me  vem  metter  no  fundo, 
Venha  o  «Damas»  d 'outro  mundo 
Minha  memoria  combater. 

Na  ala  dos  cantadores  modernos  enfileiram-se  o  ban- 
darilheiro  José  Petiz  (já  fallecido),  o  Taborda  cortador 
(um  typo  baixinho),  D.  Fernando  Pombeiro—  uma  voz 
muito  sentimental  —  e  Rodrigo  José  Roldão,  cantador, 
tocador  e  author  do  fado  dó  Roldão.  Seguem-se  alguns 
motes  do  Roldão : 

Nas  frias  e  negras  campas, 
Onde  tudo  é  cinza  e  pó, 
Ouviam  se  os  esqueletos 
Cantando  o  fado  liró. 

Tenho  sido  nos  amores 
Tantas  vezes  enganado, 
Qu*em  vendo  ao  longe  uma  saia, 
Deito  a  fugir  assustado. 

Pouco  perco  em  te  perder, 
Tu  perdes  mais  em  deixar, 
Eu  perco  quem  me  não  ama, 
Tu  perdes  quem  sabe  amar. 

Debaixo  das  tuas  azas, 
Meu  anjo,  presta-me  abrigo  ! . . 
Quando  ao  céo  te  remontares, 
Quero  também  ir  comtigo. 


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Historia  do  Fado  203 

Podemos  accrescentar  aos  cantadores  acima  indica- 
dos os  seguintes :  lzidoro  Paiaquinho,  de  S.  Christo- 
vâo  (mas  residente  em  Alfama),  que  era  bom  cantador 
e  inventor  de  cantigas  para  os  cantadores  à  court  tfima- 
gination;  o  caufelleiro  Trôlarô  (já  fallecido) ;  o  Russo, 
bom  cantador  alfamista  da  rua  da  Galé,  fallecido  em 
1900;  Manoel  Moita,  azulejador,  que  canta  muito  bem 
e  foi  discípulo  do  lzidoro  Pataquinho;  o  Rosa,  sapa- 
teiro dos  sítios  da  Graça;  o  cautelleiro  Pae  António; 
o  Jorge  Cadeireiro,  o  Júlio  Janota,  de  Campo  de  Ouri- 
que, o  Espanta,  de  Santo  Amaro,  o  João  Caeiro,  de  S. 
Sebastião  da  Pedreira,  o  Carcanhólas,  fabricante  de  al- 
godões, o  Sapateirinho  da  Adiça  e  o  Batata  (dois  ri- 
vaes),  o  Chico  torneiro  (já  fallecido),  o  João  Peixinho,  o 
Alberto  Machadipho,  aprendiz  do  França  pedreiro  (ir- 
mão do  José  Augusto),  o  China  de  Campo  de  Ourique, 
o  Barata,  cigarreira,  o  Carocha-,  serralheiro,  o  José  AU 
bardeiro,  Manoel  Jorge,  grande  fabricador  de  cantigas, 
e  Fernando  de  Azevedo,  corista  da  Trindade.  Podemos 
juntar  a  estes :  o  Santos  Mello,  um  bohemio  coimbrão, 
Raphael  Ferreira  Roquelte  (Salvaterra),  actor  da  Trin- 
dade, Carlos  Harrington,  cantador  e  poeta,  e  Eduardo 
Fernandes,  o  espirituoso  Esculápio  das  gazetilhas. 
Accrescentaremos  mais  estes  cantadores  modernos: 
António  Matheus,  pedreiro,  da  Ajuda  (cantador  e  au- 
thor),  Eduardo  Calcinhas,  canteiro,  Joaquim  Sapateiro, 
por  alcunha  o  Joaquim  Real  (cantador  e  autbor),  Joa- 
quim Sapateirinho,  da  Portella  de  Carnaxide,  o  Surríba 
e  o  Milhinho,  cantador  no  género  socialista. 

A  seguir  publicamos  a  Ultima  Bailada  de  Santos 
Mello,  «que  o  grande  bohemio  cantava  á  guitarra  de- 
liciosamente, olhos  cerrados  e  cabeça  á  banda,  aquella 
cabeça  doida  de  cabellos  revoltos,  que  a  Morte  vergou 
tão  cedot:  * 

1  Trindade  Coelho.  In  Mo  tempore,  pag.  318. 


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204  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

Canta  ao  largo  a  viola  branda  e  grata, 
Choram  maguas  ob  doidos  bandolins . .  • 
— Vibra  em  coro  a  divina  serenata 
Que  a  nossa  alma  atravessa  e  arrebata, 
Como  chuva  de  lírios  e  jasmins. . . 

A  natureza  inteira  treme  anciosa 
Ao  ouvir  a  suavíssima  guitarra. . . 
E  morre  no  horizonte  d'oiro  e  rosa, 
Como  queixume  d'oração  radiosa, 
A  extrema  voz  d'uma  canção  bizarra. 

Segue  se  um  fado  cantado  pelo  Raphael  Roquetta 
(Salvaterra) : 

As  tuas  (ranças  escuras 
São  o  relicário  dos  beijos, 
Que  te  dou  a  sós  comtigo 
P'ra  matar  os  meus  desejos. 

Quando  me  enrosco  e  enlaço 
Nos  teus  braços  apertados, 
Esqueço  os  meus  negros  fados 
No  perfume  d'esse  abraço  ; 
Então,  fatigado  e  lasso, 
Vertigens  sinto  e  tonturas, 
Emquanto,  querida,  procuras 
Enxugar  os  pratos  meus, 
Prantos  d'um  prazer  dos  céus, 
As  tuas  tranças. escuras. 

Em  curvas  mansas,  airosas, 
Da  cabeça  aos  tornozellos, 
Vão  descendo  os  teus  cabellos, 
A's  ondas  largas,  graciosas ; 
Tem  o  perfume  das  rosas, 
•Da  madresilva,  e  poejos, 
Despedem  negros  lampejos 
Como  os  mais  negros  brilhantes, 
São  a  gruta  dos  amantes 
E  o  relicário  dos  beijos. 


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Historia  do  Fado  206 

Fio  a  fio  a  vou  beijando, 

Quando  tu,  oh !  minha  amada, 

Nos  meus  braços  reclinada, 

Vaes  dormindo,  em  mim  sonhando . . . 

Cada  beijo  vae  matando 

As  eaudades  que  te  ligo, 

Minha  esp'rança,  doce  abrigo. 

Teu  cabello  é  confidente 

D'esse  beijo  enorme  ardente, 

Que  te  dou  a  sós  comtigo. 

Branca  visão,  minha  amada, 

Es  no  mundo  a  minha  estrella, 

Cunstellação  a  mais  bel  la 

Da  vida  na  minha  estrada; 

£  as  tuas  tranças  de  fada, 

Em  que  deponho  os  meus  beijos 

Cheios  de  candura  e  de  pejos,  ' 

E'  o  prazer  mais  profundo, 

Que  acho  abi  por  esse  mundo, 

PVa  matar  os  meus  desejos. 

Segue-se  um  fado  original  do  actor  Álvaro  Cabral  e 
cantado  pelo  Raphael  Roquette  (Salvaterra): 

Malditas  casas  de  prego, 
São  a  minha  perdição, 
Vou  deitar  jóra  as  cautellas, 
Que  já  foi  tudo  a  leilão. 

Minhas  venturas  são  poucas, 
Em  tudo  sou  infeliz, 
A  Providencia  assim  quiz, 
Adeus,  baixellas  e  roupas ! 
Que  horas  de  idéas  loucas 
A  que  ás  vezes  me  entrego, 
Antes  queria  ser  labrego 
Ou  então  não  ter  nascido, 
Sou  já  um  homem  perdido, 
Malditas  casas  de  prego! 

Perdi  todo  o  meu  thesouro, 
Já  tive  agora  nSo  tenho, 
Mas,  todavia,  convenho, 


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206  Empreza  da  Historia  de  Portugal 


&3r  pobre  não  é  desdouro; 
Garraram  as  jóias  d'ouro 
Com  toda  a  tripulação, 
Fugiram  da  amarração 
Do  porto  dos  malfeitores, 
Estas  casas  de  penhores 
São  a  minha  pei  dição. 

Já  não  posso  pandegar 
Porque  não  tenho  elementos, 
Da  vida  azedos  momentos 
Me  fazem  desalentar; 
Levo  a  vida  a  recordar 
O  feito  das  berzundettas, 
Bemdizendo  as  horas  bellas 
Em  que  tanto  pandeguei, 
Agora,  amigos  da  lei, 
Vou  deitar  fora  as  cautellas. 

Adeus,  cadeia  e  brilhantes, 
Inscriptos  nesses  papeis ! 
Adeus,  relógio  e  anntis 
De  pedrinhas  ílammejantes ! 
Adeus,  folias  constantes, 
Echos  da  minha  paixão, 
Adeus,  que  eu  vou  ferrar  cão 
Desde  o  pão  até  ao  vinho, 
Não  tenho  nada  no  pinho, 
Que  já  foi  tudo  a  leilão. 

Seguem-se  os  motes  feitos  de  improviso  pelo  canta* 
dor  Carlos  Harrington,  que  se  distingue  como  impro- 
visador : 

Oh  busto  feito  de  pedra, 
Devias  ser  animado, 
Tornando-se  em  fios  d'oiro 
O  teu  cabelllo  ondeado ! 

A  amizade  verdadeira 
Nasce  sempre  da  gratidão, 
A  ridente  flor  imita 
N'este  mundo  de  illusão. 


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Historia  do  Fado  207 

Como  em  brllo  prado,  a  flor 
No  meu  infeliz  coração, 
Vi  brotar  alegremente 
A  amizade  e  a  gratidão. 

0  Hylario  (Augusto  Hylario  da  Costa  Alves)  merece 
uma  referencia  á  parte,  porque  o  seu  renome  trans- 
cendeu as  balizas  locaes,  galgou  os  muros  de  Coimbra 
e  espalhou-se  por  todo  o  paiz.  O  Hylario  era  um  estu- 
dante coimbrão,  matriculado  no  terceiro  anno  de  me- 
dicina da  Universidade.  Oriundo  de  Vizeu,  onde  viera 
á  luz  em  7  de  janeiro  de  1864,  cursou  mais  a  bohe- 
mia  á  Miirger  do  que  a  faculdade  universitária,  e  con- 
quistou as  glorias  evanescentes  dè  inegualavel  canta- 
dor do  fado,  graças  á  sua  bella  voz  de  barytono,  ao 
seu  talento  de  improvisador  sujeito  à  augusta  tyrannia 
do  rythmo,  á  sua  pbrase  pueril  e  cantante,  á  sua  arte 
do  guitarrista,  ao  seu  fado  original  e  ao  seu  culto  pel  > 
idealismo  à  oatrance  n'esta  época  de  um  materialismo 
afflictivo.  Tinha  a  emoção  communicativa,  que  eleclri- 
sava  um  auditório  e  o  fazia  palpitar  sob  o  encanto  da 
sua  voz  de  modulações  caridosas,  de  uma  ternura  ena- 
morada. Os  seus  versos  molhavam-se  de  lagrimas  como 
as  flores  se  molham  de  orvalho.  A  sua  guitarra  pare- 
cia sangrar  sob  os  seus  dedos  eloquentes.  K  as  lagri- 
mas, que  tile  fazia  manar,  eram  bálsamo  para  muitas 
dores,  lycopodio  para  muitas  feridas...  O  Hylario 
destaca  se  «com  os  seus  fados-serenatas,  de  uma  con- 
textura nova,  verdadeiramente  peninsular».  40  Hylario 
morreu  em  3  de  abril  de  1896,  ás  dez  horas  da  noite, 
na  sua  terra  natal,  onde  estava  em  férias.  A  musa  po- 
pular chorou  compungitivamente  sobre  a  campa  do 
Hylario: 


(*)  Preambulo  de  César  ~d    ^Nevesjoo  U  volume  do  Cancio- 
neiro de  musicas  populares. 


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208  Empreza  da  Historia  de  Portugal 


O  Hylario  ja  morreu, 
Um  rapaz  tão  resoluto ! 
Já  não  ha  quem  cante  o  fado, 
As  guitarras  estão  de  luto. 


Eis  alguns  motes  do  Hylario: 


As  minhas  canções  vermelhas 
Rimai- as  hei  com  martyrios, 
Ao  rythmo  das  abelhas* 
Nas  folhas  roxas  dos  lyrios. 

Ura  canto  ao  vento  fluetua, 
Começa  a  aurora  a  cantar ; 
Oh  noite,  vae-te  deitar,  - 
Rasga  o  pandeiro  da  lua ! 

A  minha  flácida  lyra 
Tem  duas  cordas  variadas : 
Uma  que  chora  e  suspira, 
Outra  que  dá  gargalhadas. 

O  Mondego  vae  fugindo 
Com  quem  me  dera  agarrar  ! 
O  amor  é  como  o  rio, 
Foge  e  não  torna  a  voltar. 

Se  os  anjos  são  tão  lindos, 
E  castos  como  a  cecém, 
Com  certeza  a  minha  amada 
E'  um  anjinho  também. 

E's  a  alma  do  meu  canto, 
Gemendo  na  viração ! 
Estrophes  de  enlevo  tanto 
Só  as  tem  o  coração  ! 

Cordas  da  minha  guitarra, 
Luzidias,  prateadas, 
Foram  cabellos  roubados 
A's  minhas  doces  amadas. 


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JOÃO  MARIA  DOS.ANJOS 
(DUtinctltaimo  gaitarruta) 


11 


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Historia  do  Fado  211 


Sou  o  fado  do  Hylario, 
Sou  o  fado  dos  desejos, 
Tenho  um  rozario  na  bocca, 
Que  có  se  reza  com  beijos. 

Na  fina  areia  da  praia 
Tracei :  «Paixão  infinita». 
Corre  a  vaga  sobre  a  areia 
E  apagou  a  minha  eecripta. 

Foge,  lua,  envergonhada, 
Retira-te  lá  do  céu, 
Que  o  olhar  da  minha  amada 
Tem  mais  brilho  do  que  o  teu. 

Os  teus  olhos  são  escuros 
Como  a  noite  mais  cerrada ; 
Apesar  de  tanto  escuros 
Sem  elles  não  vejo  nada. 

Calem- se  os  sons  da  guitarra, 
Porque  o  Hyiario  morreu, 
£  foi  cantar  serenatas 
A's  virgens  brancas  do  céu. 


Mas  os  moderníssimos  cantadores  de  primo  cartel lo, 
os  que  constituem  a  mais  Tui  gente  constellação  no 
systema  planetaiio  da  arte  do  fado  actual,  são  os  se- 
guintes :  Manoel  Alves  Serrano  (o  mais  antigo),  que 
canta  só  o  fadfo  corrido,  mas  que  o  canta  admiravel- 
mente ;  Júlio  Sepúlveda  ( empregado  na  alfandega  )  ; 
Reynaldo  Varella  (guitarrista  brilhante);  David  (em 
pregado  na  empreza  cerâmica,  á  Estrella);  Loforte, 
que  canta  magnificamente  o  fado  Lamparina ;  Romeu 
Amann  (filho  da  celebre  emprezaria  do  Passeio  Publico 
em  1879,  Madame  Josephine  Amann );  Marinho  (  em- 
pregado na  Bolsa  de  Lisboa ),  que  canta  no  estylo  da 
Mouraria;  e  Octávio  Vecchi,  estudante* 

Seguem-se  dois  motes  do  cantador  Serrano ; 


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212  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

Até  o  próprio  dinheiro 
Me  fugiu  da  algibeira  ; 
Não  me  faz  falta  nenhuma, 
Vivo  da  mesma  maneira. 

Que  se  divirta  por  lá, 
Deixal-o  girar,  coitado, 
Que  eu  cá  por  mimt  d'elle  já 
Estou  desacostumado. 

Seguem-se  dois  motes  cantados  pelo  cantador  Se- 
púlveda : 

Eu  çméèa  ser  a  briza 
Que  te  oscula  a  tez  mimosa, 
Quizera  ser  a  camisa 
Do  teu  corpo  cor  de  rosa. 

A  boccã  da  minha  amante 
E'  uma  flor  delicada, 
Após  os  meus  beijos  quentes 
Fica  pendida  e  murchada. 

Saguem  se  dois  motes  cantados  pelo  cantador  Rey- 
naldo  Varella  : 

Dizem  que  o  amor  que  mata, 
Ai,  quem  me  dera  morrer  ! 
Mais  vale  morrer  d'amores 
Do  que  sem  elles  viver  ! 

O  rosto  ás  vezes  cora, 
A  flor  se  murcha  ao  tufão, 
Cahe  a  folha,  foge  a  aurora, 
Só  não  muda  o  coração. 

Seguem  se  dois  fados  originaes  do  cantador  Romeu 
Amann  : 

Quando  o  sol  lhe  dá  um  beijo 
Vae  surgindo  a  madrugada, 
Ouvem  se  os  gallos  n'a Ideia 
Dar  o  toque  d'alvórada. 


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Historia  do  Fado  213 

Às  aves  a  chilrear, 

Saltitando  nos  cerrados, 

Com  seus  alegres  trinados 

Vem  os  noivos  despertar ;  . 

Elle  tem  qne  ir  trabalhar, 

Beija- a  no  ultimo  ensejo, 

Faz  ainda  com  que  o  pejo 

De  rósea  cor  a  cubra, 

Té  a  aurora  fica  rubra 

Quando  o  sol  lhe  dá  um  beijo. 

Um  beijo  teu,  donzellinha, 
Na  terra  me  dá  o  céu, 
Dá-me  um  beijo,  nada  custa, 
Dou- te  em  troca  um  beijo  meu. 

Beija  o  sol  a  flor  mimosa, 
Beijam -se  os  peixes  no  mar, 
As  avesinhas  no  ar, 
Beija  a  planta  a  mariposa; 
N'es*a  boquinha  formosa 
Delicias  meu  peito  adivinha, 
t  Dá-me,  jjois,  innocentinba, 
Teus  lábios  para  beijar, 
Que  feliz  me  ha  de  tornar 
Um  beijo  teu,  donzellinha. 

Motes  cantados  pelo  mesmo  cantador: 

Tu  não  vês,  meu  amorsinho, 
A  lua  além  a  chamar  ? 
Du-lhe  adeus  c'ó  teu  lencinho, 
Que  é  mais  branco  que  o  luar. 

Uma  mantilha  bizarra 
Envolva  meu  coração ; 
Das  taboas  d'esta  guitaria 
Quero  feito  o  meu  caixão. 

Oh  rio  que  vaes  correndo, 
Passas  por  quem  eu  adoro, 
Se  te  faltarem  as  aguas, 
Leva  lagrimas  que  eu  choro  ! 


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214  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

Alem  das  chanieuses  que  temos  citado  até  aqui,  o  bello 
sexo  forneceu  mais  algumas  que  cantavam  com  aquelles 
tons  plangitivos  de  uma  sentimentalidade  vadia,  com 
aquella  indolência  mórbida  pesada  de  volúpias  exhaus- 
tivas  com  aquella  poesia  ligeira  dos  sonhos  libertinos, 
com  aquella  deliciosa  lassidão  peculiar  ao  fado.  A  Coxa, 
uma  cantoneira  da  travessa  dos  Fieis  de  Deus  (de  en- 
tre 1840  e  1845),  cantava  optimamente  o  fado  do  seu 
tempo,  pondo  no  seu  canlo  pungido  todos  os  reque- 
bros fadistas.  A  Amélia  do  D.  Quixote,  mulher  do 
Joaquim  D.  Quixote,  com  casa  de  venda  em  Bemfica, 
possuía,  e  continua  a  possuir,  apezar  de  velha,  uma 
voz  penetrante  como  um  perfume  da  briza;  e  Emilia 
Mendes,  a  Emilia  Middes,  que  ainda  cantarola,  tinha  o 
quid  obscurum  da  arte  musical  fadista. 

A  Anna  do  Porto 4  e  a  Borboleta  aecumularam  o 
exercício  de  cantadoras  do  fado  com  o  de  sacerdotizas 
de  Vénus  —  a  sensual  e  etherea  deusa.  A  Borboleta 
(Bebiana  Vieira  de  Castro)  foi  uma  rigdeuse  encanta- 
dora e  capitosa  como  um  bouquet  de  voluptnosidades. 
Diziam  ser  irmã  do  grande  tribuno  Vieira  de  Castro  e 
recebera  fina  educação,  mas  os  baldões  da  sorte  de- 
ram com  ella  em  fadistona.  Vestia  se  de  homem —como 
a  Mademoiselle  de  Maupin  e  a  George  Sand  — ,  anda- 
va em  suciatas  nocturnas  por  cafés  e  tabernas,  bebia 
como  um  marujo  inglez,  batia  e  aparava  o  fado  com 
gracioso  despejo,  guiava  pimponamente  as  tipóias,  ba- 
tendo n'um  arranque  de  ròpia  em  que  ia  tudo  razo, 
arriscava-se  em  petulâncias  doidas,  pendenciava  à  fa* 
caia,  derrancava-se  em  pandegas  quê  se  prolongavam 
até  ao  minuto  róseo  em  que  a  luz  do  gaz  desmaia  aos 
beijos  da  aurora,  e,  muito  azevieira,  com  clarões  ma- 

1  Uma  sua  homonyma;  que  surripiava  carteiras  e  bolsas' 
morava  n'um  becco  ao  Colleginho,  e  deu  sete  fac.idas  n'uin  fa" 
distão,  que  lhe  forçara  a  porta  de  casa. 


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Historia  do  Fado  2Jõ 

liciosos  do  olhar,  largava  a  sua  piada  ao  som  da  ban- 
za. Na  sua  presença,  até  os  fadistoes  se  mettiam  nas 
encospas.  Elles  sabiam  perfeitamente  que,  para  lá,  iam 
de  carrinho. . .  Ãmancebara-se  com  um  fidalgo  de  an- 
tiga linhagem,  o  M.  L.,  e  morava  na  calçada  de  Sanl' 
Anna.  Um  dia,  em  que  o  amante  a  fÔra  visitar  acom- 
panhado de  alguns  amigos,  a  Borboleta  pediu-lhes  que 
esperassem  um  bocadinho,  porque  ia  tomar  banho. 
Momentos  depois,  abriu  a  porta  do  quarto  e  mandem- 
os entrar.  E  toparam-n'a  na  frigida  situação  de  uma  mu- 
lher a  quem  cahiu  o  vestido  e 

La  chtmuefit 
La  même  chose  que  luu 

A  Borboleta  cursou  a  carreira  meretrícia,  essa  car- 
reira de  tão  pesados  encargos  e  de  tão  terríveis  coef- 
icientes; dispersou  a  sua  mocidade  aos  quatro  ventos 
dos  amores  sem  dia  seguinte,  em  caprichos  mais  ephe- 
meros  que  as  rosas  de  Malherbe,  até  que  se  foi  esmir- 
rando  pela  tysica  e  falleceu  no  Porto,  em  1884  ou 
1885.  Se  já  se  tem  dito  que  Lamartine  foi  uma  sorte 
de  D.  Juan  sentimental,  em  que  a  poesia  se  fez  mu- 
lher e  a  mulher  poesia,  também  poderemos  pai  odiar 
a  phrase  litteraria  dizendo  que  a  Borboleta  foi  uma 
sorte  de  Manon  Lescaut  estúrdia,  em  que  o  fado  se 
fez  mulher  e  a  mulher  faio. 

Um  cantador  de  fado  dedicou  esta  cantiga  á  Borbo- 
leta: 

A  Borboleta,  coitada, 
Tanto  á  luz  se  approximou, 
Que  morreu  asphyxiada 
Pelo  brilho  que  a  fascinou. 

.    Quando  o  mau  fado  persegue 
Dos  homens  a  geração, 
Quer  nobre  ou  cidadão, 
Ninguém  fugir- lhe  consegue; 


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216  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

Por  mais  doutrinas  que  progue 
Uma  pessoa  il lustrada, 
Em  nascendo  malfadada 
Torna  se  a  mais  criminosa. 
Como  foi  a  viciosa, 
A  Borboleta,  coitada. 

S'em  seu  collo  de  alabastro 
Nutrisse  uma  conducta  sà*, 
Desmentiria  ser  irmã 
Do  fraco  Vieira  de  Castro ; 
Estava  escripto  no  cadastro 
Á  sorte  que  os  malfadou, 
Matou  o  irmão  quem  matou, 
Foi  irmã  a  prostituta, 
Que  d 'essa  senda  corrupta 
Tanto  á  luz  se  approxinu  u. 

Por  cego  amor  seduzida, 
Kecebendo  a  negra  setta, 
Deixando  a  senda  correcta 
Pela  mais  desenvolvida; 
De  tanta  mulher  perdida, 
Pelo  gozo  deslumbrada, 
Só  ella  foi  alcunhada 
Do  mais  inconstante  insecto, 
E  tanto  amou  o  dilecto 
Que  morreu  asphyxiada. 

Quiz  fazer  qual  mariposa 
Toda  embevecida  na  luz, 
Seu  corpo  a  cinzas  reduz 
N'eaea  esphera  luminosa ; 
Pousando  d  d  rosa  em  rosa 
Tantos  perfumes  desfrutou, 
Que  por  fim  se  envenenou 
Com  o  perfume  do  rosal, 
Trocando  a  vida  real 
Pelo  brilho  que  a  fascinou. 

A  Maria  José  do  Galvão  -uma  que  observava  os  ri- 
tos  galantes  de  Cylhera— temperava  a  cantadoria  do  fa- 
do com  uma  salsa  picanlissima.  Era  uma  cachopa  toda 
séria,  de  olhos  negros  que  pareciam  conter  toda  a  fe- 


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Historia  do  Fado  217 

bre  dos  lupanares,  de  cabellos  d'un  noir  d'enfer} 
como  diria  Musset,  de  bocca  carnuda  esfumada  por  uma 
suspeita  de  buço  promettedor,  e  de  dentes  de  uma  bran- 
cura syjnetrica  luzindo  n  um  sorriso  de  esmalte  doira- 
do de  mocidade.  Fazia  accordar  o  gosto  da  graça,  que 
dorme  no  fundo  das  nossas  almas  latinas.  A  sua  vida 
exhauriíi-se  em  amores  que  duravam  o  lapso  de  uma 
longa  insomnia.  Quando  lhe  dava  na  tinêta,  trajava  ao 
bizarro,  vestindo-se  de  homem  e  pimponando  nas  es- 
peras de  toiros.  Grudaram- lhe  ao  nome  aquella  alcu- 
nha, porque  estivera  amancebada  com  o  ourives  Galvão, 
depois  proprietário  de  casas  de  jogo. 

O  trajo  de  campino  ficava  á  Maria  José  do  Galvão 
como  uma  luva.  N'uma  noite  de  espera  de  toiros,  de- 
pois do  Galvão  e  um  seu  amigo  regressarem  de  um 
passeio  a  Oeiras,  resolveram  todos  ir  esperar  o  gado. 
Tentaram  arranjar  uma  tipóia,  mas  debalde,  porque 
estavam  todas  alugadas.  Não  se  amofinaram,  porém, 
por  tão  pouco.  Alugaram  uma  sege  de  enterro,  a  Maria 
José  enfarpellou-se  de  campino,  empunhou  o  pampilho 
—  que  ella  manejava  como  um  dandy  maneja  um  frágil 
sticky—  montou  a  cavallo,  e  lá  partiram  todos,  de  gangão, 
para  a  espera  dos  toiros,  emquanto  o  disco  da  lua  bri- 
lhava como  uma  salva  de  prata  polida,  o  luar  derramava 
uma  claridade  doce  como  um  fumo  de  leite,  e  as  estrel- 
las,  esburacando  o  velludó  sombrio  do  firmamento,  pa- 
reciam piscar,  trocistamente,  os  seus  olhinhos  de  dia- 
mante sem  jaca ... 

A  Maria  José  do  Galvão  —  que  nunca  altingiu  as  es- 
pheras  da  alta  galanteria  — sabia  estar  n'uma  sala  e  tinha 
uma  elegância  de  pizar  de  rainha,  assim  como  era  um 
instrumento  de  prazer  que  sabia  exprimir  as  mais  finas 
notas  perversas  e  as  mais  bellas  sensações  passionaes. 

Pobre  sentimental  para  quem  o  amor  era  um  bromu- 
reto  pacificante,  débil  joguete  nas  mãos  do  Desejo  e  da 
Fatalidade,  sentiu  os  primeiros  rebates  do  rheumatis- 


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218  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

mo  na  cabeça,  deducção lógica  da  sua  vida  exhaurida 
n'am  train  denfer.  A  graça  que  elia  exhalavacomouin 
perfume  evaporou  se,  o  brilho  dos  seus  olhos  húmidos 
amorteceu,  a  linha  suggestiva  dos  seus  seios  quebrou- 
se,  a  sua  linda  bocca  de  coral,  a  sua  linda  bocca  de 
purpura  de  Tyro,  a  sua  bocca  cinzelada  para  o  beijo 
desmaiou... 

E  a  responsabilidade  de  tudo  isto  podia-se  endossar 
ao  bambino  alado,  que  usa  o  pseudònymo  fabuloso  de 
Cupido.  Ahl  Ella  esquecera-se  de  que  o  amor  se  pôde 
transportar  em  muitos  tons,  mas  que,  no  funuo,  é  sem- 
pre a  mesma  ária,  a  mesma  canção,  o  mesmo  liedmotiv 
melódico,  velho  como  o  mundo,  triste  e  fastidioso  como 
elle... 

O  indomável  coraçãosito  da  Maria  José  dó  Galvão, 
esse  relógio  desarranjado,  immobilisou-se  em  1881. 

Entre  os  cantadores  femininos  de  ha  trinta  annos, 
florescia  uma  bonita  rapariga— un  morceau  de  prínce— 
que  cantava  o  fado  com  essa  voz  bysterica  dos  momen- 
tos de  delírio  amoroso,  e  que  apparecia  muito  nos  re- 
ga- bofes  do  Dafundo  e  nas  esperas  de  toiros,  acompa- 
nhada pelo  fallecido  conde  de  Oeiras— um  fadistophilo 
patau  e  um  guitarrista  abaixo  da  craveira  commum, 
o  que  não  impediu  que  tivesse  o  seu  circulo  de  amigos 
e,  talvez,  de  admiradores,  tão  verdadeiro  é  o  dito  iró- 
nico de  Henri  Heine:  «Ha  mais  tolos  que  homens.» 
Aquella  rapariga  trocou  depois  as  glorias  mundanas  de 
diva  do  fado  pelos  triumphos  mais  sólidos  de  divette 
de  opéretta,  e  obteve  tantos  applausos  na  scena  como 
obtivera  na  vida  alegre. 

Uma  filha  da  Bazalisa,  locandeira  na  estrada  de  Sa- 
cavém, garganteava  primorosamente  as  plangencias  do 
fado,  intervalladas  de  ais!  soluçantes.  Na  locanda  da 
Bazalisa,  deramse  memoráveis  sessões  de  /Wo,  que  va- 
liam por  banhos  eléctricos. 


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Historia  do  Fado  219 

A  Rosa  dos  Camarões,  a  Maria  Pia,  a  Beatriz  e  a 
Maria  José  Loira  —  Phryneas  muito  admiradas  pelos 
areópagos  de  entre  1870  e  1875— também  sabiam  trinar 
na  garganta  os  fados  em  circulação.  Uma  brilhante 
cantadora  no  género  fino  foi  a  Emília  Adelaide  ou  Emí- 
lia dos  Caniços.  Puzeram-Ihe  esta  alcunha  por  ter  tido 
uma  locanda  na  quinta  dos  Caniços,  ao  Arieiro. 

Chegou  a  representar  no  tbealro  da  Trindade.  Mor- 
reu na  quinta  do  Rato,  onde  estabelecera  casa  de  pasto. 
Segue-se  um  mote  original  da  Emitia  dos  Caniços: 

Coitadinho  de  quem  morre, 
Que  ao  Paraíso  nâo  vae, 
Quem  cá  fica  come  e  bebe, 
E  a  paixão  logo  Be  esvae. 

A  preta  Cartuxa  cantava  bem.  Esta  cantatriz  tresan- 
dante  ao  fartum  da  catinga  chamava-se  Maria  do  Carmo, 
nascera  e  creara  se  ao  laré  na  rua  do  Capellão,  e  era  , 
filha  da  negra  Tia  Joaquina  e  de  um  preto  trabalhador 
no'Gaz.  Fui  mulher  endiabrada,  excessivamente  bu- 
.  Ihenta,  uzeira  e  vezeira  em  chegar  a  roupa  ao  corpo 
aos  que  se  faziam  finos  com  ella  ou  que  imaginavam 
que  lodo  o  matto  é  ouregão.  Chibava  com  tanto  des- 
plante impudico  entre  a  biltraria  do  bairro  como  bri- 
lhava de  intervaUeira  nas  toiradas  do  Campo  de  Sant' 
Arma.  Pui  a  successora  de  outras  interválleiras  cele- 
bres: a  Maria  Chirita,  a  Mugiganta,  a  valente  Maria 
Rosa  de  Castello-Branco  e  a  Maria  Formiga.  Alguns 
pretos  se  notabilisaram  egnalmente  n'este  trabalho:  o 
Benedicto,  o  Firme,  o  Bumba  no  Caneco,  o  Campos,  o 
José  Maria,  ministro  hespanhol  da  rainha  do  Congo,  o 
Simão,  o  Pae  Paulino  velho,  o  Pae  Paulino  novo  e  o 
Domingos,  cego  de  um  olho.  A  par  dos  nçgros,  havia 
os  intervalloiros  brancos:  o  José  da  Avó,  o  Macanjo, 
o  engraçado  França,  o  Galamba  e  o  Torra-ossos.  A  ir- 
requieta Cartuxa  n.oiigerou  se,  abandonou  advida  re- 


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220  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

galooa  dos  alcouces  pelintras  e  expirou  socegadamente 
Da  rua  do  Joio  do  Outeiro,  onde  habitava  com  um  tal 
Joaquim  Bolacheiro. 

-  Das  cantadoras  de  agora  citaremos  as  primaciaes : 
a  Albertina— anctora  do  fado  da  Albertina  ou  de  Al- 
cântara ou  do  Manoel  Cazemvo—e  a  Leopoldina,  uma 
cantadeira  de  sangue  na  guelra,  que  já  morreu.  Can- 
tavam o  fado  á  compita  e  tiveram  dnellos  que  podiam 
metter  na  sombra  o  famoso  duelloda  marqueza  de  Po- 
lignac  com  a  marqueza  de  Nesle,  duellos  que  se  empe- 
nhavam, não  á  espada  e  em  honra  de  qualquer  marquez 
de  Arlincourt,  mas  em  canto  ao  desafio  e  em  honra  do 
querido  fado.  Certa  occasião,  n'uma  casa  de  venda  em 
Alcântara,  chegaram  a  a  rrem  et  ter,  de  garfos  e  facas  em 
punho,  uma  contra  a  outra  como  duas  harpias  prestes 
a  despedaçar- se.  Mas,  a  falar  verdade,  reconhecemos 
que  já  não  ha  uma  cantadora  como  a  Custodia  ou  a 
Cesaria,  uma  cantadora  que  leve  o  sursum  corda  ao 
sentimento,  uma  d'essas  cantadoras  que  os  idolatras 
do  fado  seguiam  quasi  religiosamente  como  os  preux 
seguiam  o  pennacho  de  Henrique  IV. 

Ha,  todavia,  no  canto  do  fado  da  ultima  maneira,  no 
fado  século  XX,  uma  cantadora  justamente  celebrada 
como  a  legitima  cantatriz  modernista,  a  superfioa  can- 
tante nouveau  siécle,  a  pura  cantadeira  demier  soupir, 
a  ultima  depositaria  de  todos  os  segredos  do  fado.  E' 
a  Cacilda  Romero.  A  aristocracia  do  seu  canto,  ajudado 
pela  guitarra  locada  pela  própria  Cacilda,  é  de  tal  for- 
ma, que  os  ouvintes  sentem-se  subjugados  por  uma 
força  magnética  envolvente,  como  n'aquelles  indescri- 
ptiveis  momentos  de  espasmo  pbysico  em  que  nos  sen- 
timos rolar  para  um  mysterioso  e  delicioso  abysmo. . . 

A  Cacilda  tem  um  fado  original  seu,  e  improvisa 
com  tanta  facilidade  que,  quasi  todos  os  dias,  tem  coisas 


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Historia  do  Fado  22  í 

novas  para  cantar. Reproduzimos,  em  segaida,  algumas 
quadras  originaes  da  Cacilda : 

Dae-me  a  guitarra  e  o  fado, 
E  bemdirei  minha  sorte, 
Quero  ouvi  lo  até  na  morte, 
Ser  com  elle  amortalhado. 

Se  tu  fosses  como  eu  sou, 
£  os  génios  fossem  eguaes, 
Darias,  como  eu  te  dou, 
A  vida  e  tudo  o  mais. 

Da  Cacilda  o  canto  bello 
Nem  todos  teem  escutado, 
Quem  a  Cacilda  nunca  ouviu, 
Nunca  ouviu  cantar  o  fado. 

Os  lábios  de  falar  calam, 
Quando  as  palavras  se  prendem, 
Também  as  flores  não  falam, 
£  pelo  aroma  se  entendem. 

A  luz  da  pallida  lua, 
Em  noite  serena  e  quente, 
Eu  jurar- te  que  sou  tua, 
Seres  meu  eternamente. 

E  então,  já  feita  a  jura, 

Que  descrevo  em  breves  traços, 

Ter  a  suprema  ventura 

D 'assim  morrer  em  teus  braços. 

£  a  lua  tão  bondosa, 
Amiga  dos  namorados, 
Sorria  maliciosa 
D'assim  nos  vêr  abraçados. 

Eis  aqui  a  phantasia 
D'este  sonho  que  eu  sonhei ; 
Que  triste  melancholia. . . 
Tudo  illusâo. . .  e  accordei. . . 

Meu  Deus,  para  aue  accordar, 
Para  que  volver  a  vida  I 
Eu,  quizera  não  despertar 
P'ra  licar  adormecida. 


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222  Empreza  da  Historia  dè  Portugal 

Cacilda  Homero,  que  está  na  edade  tão  apreciada  por 
Balzac,  tem  uma  individualidade  própria  —  coisa  diffi- 
cil  de  se  ter,  seja  no  que  fôr — ,o  que  a  torna  uma  das 
pirimeiras  tributarias,  senão  a  primeira  tributaria,  da 
chronica  do  fado  moderníssimo.  Aloja  a  paixão  do  fa- 
do n'um  lóbulo  do  seu  cérebro,  como  outros  alojam  a 
paixão  do  mando,  da  celebridade,  da  riqueza,  da  glo- 
ria. A  Cacilda  dispõe  de  um  bom  talento  de  imitadora, 
a  ponto  de  reproduzir,  com  a  máxima  exacção,  as  vo- 
zes do  Serrano,  do  Sepúlveda,  do  Varella,  do  Vecchi, 
do  Marinho,  de  toda  a  flor  da  elite  dos  cantadores.  A  sua 
voz  emocional,  vivaz,  dominadora,  cheia  de  elegâncias 
sentimentaes,  seduz  como  um  sorriso  de  pérolas  en- 
gastado n'uma  bocca  de  rubis,  attrahe  como  esses  ne- 
gros olhos  flumiuenses,  em  que  treme  a  luz  da  alma 
brasílica.  E'  uma  voz  talvez  um  pouco  volumosa,  o  que 
não  obsta  a  que  seja  meiga  como  as  blandifluas  cari- 
cias das  harpas  eólias. 

Nos  lábios  da  Cacilda,  voam  as  notas  musicaes,  co- 
loridas e  brilhantes,  para  depois  estalarem  em  feixes 
eléctricos,  para  depois  luzirem  como  scentelhas  de  fogo 
na  obscuridade  da  noite,  para  depois  cahirem  n'um 
chuveiro  omnicolor  e  phospboreante  de  esmeraldas,  sa- 
phiras,  topázios,  amethistas,  chrysolitas  auri-verdes, 
bèrylos  cor  de  sinopla  e  granadas  côr  de  sangue  arte- 
rial; na  sua  garganta  argentina,  ritornella  admiravel- 
mente o  fado,  a  portuguezissima  cantiga  que  conhece 
todas  as  portas  secretas  do  coração  humano,  a  nacio- 
nalissima  cantiga  que  é  o  grito  da  alma,  o  gemido  do 
amor  e  a  lagrima  do  sentimento,  a  supernal  canção  em 
que  o  espirito  luzitano  parece  reencontrar  as  suas  azas 
para  se  librar  no  ether  diamantino,  a  magniloquente 
canção  em  que  parecem  latejar  todos  os  sonhos  penin- 
sulares, essa  canção  divina  que  nasceu  entre  o  duplo 
infinito  e  o  duplo  azul  do  ceo  e  do  mar,  entre  o  es- 


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Historia  do  Fado  223 

malta  diaphano  da  vaga  e  a  porcelana  translúcida  do 
firmamento,  entre  a  graça  opaca  da  onda  e  a  graça 
fluida  do  cariz  celeste,  enire  as  convulsões  azuladas 
do  salso-argento  e  as  vibrações  cinzentas  da  atmosphera 
marítima.. . 

Remataremos  o  capitulo  sobre  os  cantadores,  refe- 
rindo nos  aos  mais  famosos  cantadores  provincianos.  O 
primeiro,  na  ordem  hierarchica  e  na  ordem  chronolo- 
gica,  é  António  Maria  Euzebio,  o  Euzebio  Calafate  ou  o 
Cantador  de  Setúbal.  O  provecto  cantador,  que  jí  conta 
oitenta  e  dois  annos  de  edade,  tornou- se  famoso  pela 
sua  admirável  facilidade  no  trovar,  e  pela  originalida- 
de das  idéas  satyricàs,  que,  nos  descantes,  maravilhava 
os  ouvintes  pela  justeza  e  pelo  incisivo  do  traço,  quer 
nos  versos  que  vinham  dè  memoria,  quer  nos  impro- 
visados alli,  conforme  explica  o  sr.  Henrique  das  Ne- 
ves nas  linhas  biographicas  que  acompanham  o  livro 
do  Cantador  de  Setubal,  livro  em  que  aquelle  illustre 
escriptor  colligiu  algumas  producções  poéticas  do  tro- 
vador octogenário  4.  Como  amostra  dos  seus  versos, 
onde,  muitas  vezes,  põe  de  manifesto  a  nota  satyricà, 
mas  onde  também,  muitas  outras,  se  espelha  a  bonda- 
de do  seu  coração,  damos  a  seguinte  decima: 

O    AUCTOR 
Nunca  fui  mal  procedido, 
Nunca  fiz  mal  a  ninguém, 
Se  acaso  fiz  algum  bem 
Nâo  estou  d'isso  arrependido. 
Se  mau  pago  tenho  tido 
São  defeitos  pessoaes; 
Todos  seremos  eguaes 
No  reino  dá  eternidade, 
Na  balança  da  egualdade 
Deus  sabe  quem  pesa  mais. 

1  Versos  do  Cantador  de  Setubal  acompanhados  de  um  prefa- 
cio de  Guerra  Junqueiro  e  de  «Algumas  palavras  acerca  da  vida 
do  auctor»  pelo  Colleccionador,  que  é  o  sr.  Henrique  das  Neves. 


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224  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

O  cantador  Manuel  Alves,  o  Cavador,  trovista  da 
Bairrada,  um  aoalptvbelo  a  quem  alguém  colligiu  as 
poesias  n'ura  livro  intitulado  Versos  do  Cavador^  mor- 
reu em  1901.  À  sua  feição  poelíca  é  aptitbetica  da  do 
Euzebio  Calafate,  porque  se  este  vibra  a  nota  satyrica, 
moidaz,  aquelle  vibra  a  nota  amorosa,  profundamente 
elegíaca.  O  Alfayale  de  Mafra  canta,  toca  guitarra  e 
improvisa  superiormente.  O  Marcolino  do  Porto,  um 
pobre  musico  ambulante,  improvisava  fados  (musica), 
mas  nunca  foi  cantador.  Ainda  é  vivo.  0  Pedro  Marié, 
do  Porto,  esse  sim,  esse  é  que  foi  cantador  famoso. 
Teve  a  sua  época.  Improvisava  cantigas  do  fado,  mas, 
tão  obscenas,  que  fariam  corar  uma  papoula.  O  seu  es- 
tro era  como  que  um  abcesso  maduro,  que  se  abria 
ejaculando  pus.  listas  mesmas  cantigas  ainda  hoje  são 
cantadas  pelo  Carlos  Pistôtira,  empregado  no  lhealro 
S.  João. 

Em  Coimbra  existe  um  cego,  que  se  oceupa  em  lo- 
car guitarra  e  cantar  o  fado.  Chama-se  José  Monteiro 
e  faz-se  ouvir,  habitualmente,  num  botequim  parrana 
da  rua  Sophia.  Tem  voz  de  barytono.  Este  homem  era 
oleiro  e  cegou  aos  vinte  annos.  Possue  algumas  canti- 
gas originaes  suas.  Eis  dois  motes  que  elle  glosa  ao 
som  do  fado  do  Hylario : 

O  cego  vive  em  tristeza, 
O  louco  vive  contente, 
O  cego  sente  e  não  vê, 
O  louco  vê  e  não  sente. 

E'  bem  triste  a  triste  vida 
Em  que  vive  um  desgraçado, 
Fico  ás  vezes  sem  esmola 
Por  ser  pobre  envergonhado. 


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JOSÉ  JOAQUIM  EMYGDIO  MAIOR 
(Br.lhante  cantador  de  fado) 


15 


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Vil 


Os  guitarristas  trovadores  de  Lisboa  dos  princípios  do  século 
nx.  —  Cantigas  populares  das  ruas  lisboetas  na  mesma 
época.  —  Cantigas  politicas  no  tempo  de  D.  Miguel.  —  Os 
guitarristas  profissionaes  e  os  guitarristas  amadores.  —  Di- 
lettanti  do  fado.  —  O  conde  da  Anadia  e  o  marquez  de  Cas 
tello-Melhor. —  Continua  ee  a  ennumeração  dos  guitarristas 
antigos.  —  Os  guitarristas  modernos.  —  O  bater  o  fado.  —  A 
dansa  do  fado  e  a  dansa  do  fandango.  —  Bailadores  de  fan- 
dango e  batedores  de  fado.  —  O  fado  aristocratisa  se.  —  João 
Maria  dos  Anjos  faz  época.  —  SSatyra  aos  cantadores  e  gui- 
tarristas. —  Trovas  do  fado  moderno.  —  Evolução  do  fado. 
—  Persistência  do  fado  devida  ás  suas  fortes  raízes  tradi- 
cionaes. 


Depois  dos  cantadores  cabe  a  vez  aos  guitarristas, 
cujos  instrumentos  pa  recém  espalhar  o  ideal  no  ambiente. 
Os  guitarristas  trovadores,  vagueando  d  la  buena  de 
Dios  pelas  ruas  de  Lisboa,  sâo  antigos. 4  A'  semelhança 
dos  aedos  e  dos  rhapsodos  gregos,  que  cantavam  os 
primitivos  cantos  populares  — esses  trocos  miúdos  do 
plectro  homérico  —  acompanhando-se  da  cylhara  e  do 
phornrinx,  lambem  aqueiles  menestréis  se  acompanha- 

1  O  ultimo  d'esses  cantadores  afamados  das  ruas  lisboetas 
foi  o  Gaspar  da  viola,  um  virtuoue  da  mendicidade. 


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228  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

vam  da  guitarra;  e  á  semelhança  dos  jograes  da  Edade- 
Media,  que  cantavam  de  terra  em  terra,  também  cal- 
cnniavam  por  esse  reino  fora,  entoando  as  canções 
d'este  paiz  da  laranja,  onde,  da  mesma  maneira  que 
na  comedia  de  Beaumarchais,  tout  finit  par  des  chan- 
sons. 

Nos  começos  do  século  xix,  os  cegos-papelistas  acom- 
panhavam se  de  um  moço  ou  de  um  cão,  apregoavam 
as  leis  novas,  os  decretos  do  Príncipe  Regente  e  os  re- 
gulamentos de  policia,  vendiam  livros  de  orações,  alma- 
nachs,  canções  populares  e  contos  faceciosos  para  di- 
vertir o  vulgacho.  á  maneira  do  cego  Jacquemin,  que, 
então,  vendia  as  canções  nas  ruas  de  Paris.  No  tempo 
da  guerra  peninsular,  annunciavam  as  proclamações  do 
governo,  as  cartas  officiaes  dos  generaes,  os  triumphos 
dos  alliados  e  as  derrotas  do  inimigo.  E  as  suas  vozes 
sonoras  casavam-se,  a  miúdo,  com  os  accordes  da  gui- 
tarra, que  dedilhavam  proficientemente.  No  Rocio  e  em 
outras  praças,  estacionavam  cantadores  e  locadores  de 
guitarra  indigentes,  cegos  e  com  vista,  ladeados  pelas 
respectivas  mulheres,  em  torno  dos  quaes  se  reunia  a 
multidão  ávida  de  escutar  as  tocatas  populares  e  as  en- 
deixas  acompanhadas  pela  guitarra  carpidora. 

Annos  depois— em  1824—, a  licenciosidade  das  can- 
tigas dos  guitarristas  chegou  a  ponto  tal  e  tamanho, 
que  os  agentes  policiaes  notavam  o  facto  como  digno 
de  correctivo.  Assim,  a  parte  de  policia  de  31  de  Agos* 
lo  d'aquelle  anno  dizia:  —  «Murmura-se  que  em  uma 
capital  policiada  como  Lisboa,  se  consintam  bandos  de 
cegos  e  vadios  com  guitarras  pelas  ruas,  entoando  can- 
tigas indecentíssimas  e  obscenas,  como  as  que  agora 
andam  em  moda  -  do  Negro  melro—  ,a  cujo  acompa- 
nhamento de  guitarra  se  seguem  tregeitos  escandalo- 
sos, e  não  pouco  oííensivos  á  decência  e  moral  publica! 
Com   taes  lições  não  admira^que  os[[[progre8SOS  dos 


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Hútoria  do  Fado  229 

maus  hábitos  se  espalhem  entre  as  famílias  honestas 
e  de  boa  educação,  vendo-se  até  o  honrado. chefe  de 
família,  que  presa  os  bons  costumes,  na  precisão  de  não 
consentir  que  seus  filhos  cheguem  ás  janellas  para  não 
beberem  em  fonte  impura  tão  pestífero  veneno.  4» 

A  cantiga  do  Negro  melro ^  eulão  corriqueira  nas  ru- 
as lisbonenses,  era  do  theor  seguinte: 

O  ladrão  do  negro  melro 
Toda  a  noite  assobiou, 
Lá  por  essa  madrugada 
Bateu  as  azas,  voou. 

O  ladrão  do  negro  melro 
Toda  la  noite  cantou, 
Pela  fresca  madrugada 
Deu  ás  azas  e  voon. 

E  como  ás  azas  deu, 
Depois  que  tanto  cantou, 
O  ladrão  do  negro  melro 
De  todo  desaforou. 

O  ladrão  do  negro  melro 
Aonde  elie  vae  cantar  ! 
Vae,  nem  que  fosse  solteiro, 
Sem  mulher  que  aturar. 

O  ladrão  do  negro  melro 
Onde  foi  fazer  o  ninho  ! 
Lá  p'rós  lados  de  Leiria, 
No  mais  alto  pinheirinho  ! 

O  ladrão  do  negro  melro 
Toda  a  noite  requiquiu. 
Ao  chegar  a  madrugada, 
Bateu  as  azas,  fugiu. 

O  ladrão  do  negro  melro 
Foi-me  á  quinta  ás  ameixas, 
Torna  cá,  oh  negro  melro. 
Anda  buscar  as  que  deixas  ! 

*  Policia  secreta  dos  últimos  tempos  do  reinado  do  Sr.  D. 
João  VI,  pag.  242. 


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230  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

Outra  cantiga"  trivialissima  era  a  da  Maria  Cachucha, 
que  jà  se  dansava  cora  os  fandangos  e  os  boleros,  no 
tempo  em  que  Manuela  Buiz  bailava  o  fandango  no  Sa- 
litre e  Maria  Guidetti  o  bolero  em  S.  Carlos  (1802) : 

Maria  Cachucha 
Quem  te  cachuchou  ? 
—  Foi  um  frade  Loyo, 
Que  aqui  passou. 

Maria  Cachucha 
Nào  vás  ao  Rocio, 
Toma  lá  dinheiro, 
Sustenta  o  teu  brio. 

Maria  Cachucha 
Nao  vás  ao  quintal T 
Em  sainha  branca 
Que  paiece  mal. 

Maria  Cachucha 
Que  vida  é  a  tua  ? 
Comer  e  beber, 
Passciar  na  rua. 

Maria  Cachucha 
Com  quem  dormes  tu  ? 

—  Eu  durmo  sósinha, 
Sem  medo  nenhum. 

Maria  Cachucha 
Com  quem  dormes  tu? 

—  Durmo  com  um  gato, 
Que  me  arranha  o  c. . . 

Maria  Cachucha, 
Se  fores  passeiar, 
Vae  pelas  beirinhas, 
Podes -te  molhar. 

Outra  cantiga  correntia  nas  ruas  de  Lisboa,  desde 
os  princípios  do  século  xix,  era  o  Pésinho: 


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Historia  do  Fado  231 

Ponha  aqui, 
Ponha  aqui, 
O  seu  pésinho, 
Ponha  aqui, 
Ponía  aqui, 
Ao  pé  do  meu. 
Se  elle  é  torto, 
Se  elle  é  torto, 
Ou  aleijado, 
Foi  geito, 
Foi  geito, 
Que  Deus  lhe  deu. 

Estou  contente  do  meu  par, 
Foi  condão  de  Deus  m:0  dar. 

Ponha  aqui, 
Ponha  aqui, 
O  seu  pésinho, 
Ponha  aqui, 
Ponha  aqui, 
Ao  pé  do  meu. 
Ao  tirar, 
Ao  tirar, 
O  seu  pésinho, 
Ai,  Jesus  ! 
Ai,  Jesus  ! 
Que  lá  vou  eu  ! 

Estou  contente  do  meu  par, 
Foi  condão  de  Deus  m'o  dar. 

Outro  vulgarismo  musical  das  ruas  lisboetas  era  a 
cantiga  da  saloia: 

Quero  cantar  a  saloia, 
Já  que  outra  moda  não  sei, 
Minha  mãe  era  saloia, 
Eu  com  ella  me  criei. 

Sou  saloia,  trago  botas, 
Também  trago  o  meu  mantéu, 
Também  tiro  a  carapuça 
A  quem  me  tira  o  chapéu. 


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232  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

Já  fui  amada  d'um  grande, 
Lindos  olhos  me  piscou, 
Também  quiz  dar- me  um  abraço, 
£  estas  falas  me  soltou : 

Oh  saloia,  dá-me  um  beijo, 
Que  eu  te  darei  um  vintém, 
Os  beijos  d' um  a  saloia 
São  caros,  mas  sabem  bem. 

Oh  saloia,  dá-me  um  beijo, 
Que  eu  te  darei  um  pataco, 
Um  vintém  é  pelo  beijo, 
0  outro  é  p'ró  tabaco. 

Finalmente,  outra  cantiga  popular,  acompanhada  pelo 
zangarrear  da  viola  ou  da  guitarra,  era  esta: 

Ai !  Ai !  Ja  não  ha  .quem  queira, 
Ai !  Ai  1  Já  não  ba  quem  queira, 

Ganhar  um  vintém, 

Levar  a  chiquita, 

A's  bandas  d'álem ! 

Ai!  Ai !  Já  não  ha  quem  queira, 
Ai !  Ai !  Já  não  ha  quem  queira, 

Ganhar  um  vintém, 

Levar  a  chiquita, 

Das  Naus  á  Ribeira ! 

Ai !  Ai !  Já  não  ha  quem  queira, 
Ai !  Ai !  Já  não  ha  quem  queira, 

Ganhar  um  vintém, 

Levar  a  chiquita 

Da  Ribeira  a  Belém. 

Entro  os  versos  políticos  sediciosos  que  se  cantavam 
anteriormente  á  vinda  de  D.  Miguel,  appareceram  uns 
que  haviam  sido  cantados  no  theatro  da  Rua  dos  Con- 
des, e  que  novamente  o  foram  em  1826  no  theatro  de 
Villa-Franca  da  Restauração  (Villa  Franca  de  Xira) : 


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Hidovia  do  Fado  233 


Aquelles  que  tiram  peccadoa 
£  cortam  o  ar  cu 'a  mão, 
São  bichinhos  que  não  querem 
Liberal  Constituição. 

Se  conhecesse  os  Marrecos, 
Com  unrchicote  na  mão, 
Eu  faria  cantar  todos : 
Libera]  Constituição. 

Ti  em  eu  toda  a  fra daria, 
Deu  no  papa  uma  sazão, 
Quando  soube  que  tínhamos 
Liberal  Constituição.  * 

Em  1829,  os  miguelistas  cantavam  á  guitarra  alguns 
versos  de  caracter  politico : 

Oh,  ilha  da  Madeira, 
Deita  p'ra  cá  os  malhados, 
Para  virem  a  Lisboa 
Morrer  todos  enforcados.   2. 

Ao  que  os  constitucionaes  respondiam  —trauteando 
em  voz  baixa  e  á  socapa— com  estas  quadras  de  um  sa- 
bor não  menos  afelleado : 

O  D.  Miguel  não  é  rei, 
Nem  filho  de  D.  João, 
E'  filho  d'  um  guarda  cabras 
Da  quinta  do  Ramalhão. 

D.  Miguel  não  governa, 
Nem  é  filho  de  João, 
Apenas  é  um  bastardo 
Do  feitor  do  Ramalhão. 


D.  Miguel  para  ser  rei 
Duas  coisas  foi  primeiro, 
A  primeira  foi  campino, 
A  segunda  foi  cocheiro. 


1  Archivo  do  Ministério  da  Justiça.  Maço  90. 

2  Archivo  da  Torre  do  Tombo.  Intendência  Geral  de  Policia. 
Correspondências  dos  ministros  dos  bairros^  Santa  Izabel.  Maço  11. 


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234  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

E'  certo  e  mais  que  certo, 
Fique  em  memoria  eterna, 
Que  indo  feito  cocheiro, 
D.  Miguel  quebrou  a  perna.  * 

Anda  cá,  oh  D.  Miguel, 
Anda  cá,  meu  toleirao, 
Has  de  ir  para  Santa  Helena 
Mandado  por  teu  irmão. 

Os  malhados  já  estão  certos 
Na  sua  sorte  segura, 
Já  se  offereceram  levar 
D.  Miguel  á  sepultura.  2 

Passaremos  agora  a  enunciar  os  principaes  guitar- 
ristas, quer  proflssionaes  quer  simples  amadores. 


1  Allude-se  aqui  ao  facto  de  D.  Miguel  ter  fracturado  uma 
perna,  por  se  ter  voltado  o  carrinho,  em  que,  junto  com  as  in- 
fantas D.  lzabel  Maria  e  D.  Maria  cT  Assumpção,  passeiava  na 
estrada  de  Caxias  no  dia  i)  de  Novembro  de  1828.  O  ter  que- 
brado só  uma  perna,  quando  podia  ter  quebrado  as  duas,  foi  at- 
tribuido  a  um  milagre  da  Senhora  da  Rocha.  Os  liberaes  epi- 
grammatisaram  muito  o  caso,  e  um  dos  epigrammas  foi  este : 

A  D.  Miguel  um  milagre 
Fez  a  Senhora  da  Rocha, 
Quebrando  se -lhe  o  carrinho, 
Quebrou -se- lhe  só  uma  coxa. 
Bem  podias,  Virgem  pura, 
Para  ostentar  teu  poder, 
Na  que  lhe  ficou  inteira 
Outro  milagre  fazer. 

Por  seu  turno,  os  miguelistas  celebraram  o  caso  cantando : 

D.  Miguel  é  bonito, 
E'  bonito  e  bem  feito,  > 
Quebrou  uma  perna, 
Ficou  sem  defeito. 

2  Correspondências  dos  ministros  dos  bairros,  Santa  Catharina, 
Maço  64. 


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Historia  do  Fado  235 

O  primeiro  guitarrista,  depois  da  appariçSo  do  fado 
nas  ruas  de  Lisboa,  é  João  Pedro  Quaresma,  que  mor- 
reu com  oitenta  annos  de  edade  e  foi  mestre  do  gui; 
tarrista  Maia,  hoje  o  decano  dos  guitarristas  lisbonen- 
ses.  João  Maria  de  Mello,  oCego,  é  de  entre  18i0el850;  e 
o  José  Maria  Vidai  também  é  guitarrista  antigo.  O  Jo- 
sé Vinagre  era  um  bom  tocador  de  guitarra,  que  fa- 
dejava nos  botequins  da  Ribeira-Nova  antes  da  Maria 
da  Fonte.  A'  volta  de  1845,  vivia  um  cego,  que  esta- 
cionava habitualmente  na  rua  do  Arsenal  e  que  toca- 
va guitarra  de  uma  maneira  surprehendenle.  Punha  o 
chapéD  aos  pés,  e  os  transeuntes  iam-lh'o  enchendo 
de  moedas  de  cobre.  * 

Nos  botequins  da  Ribeira-Nova,  tocava-se  então 
muito  o  psalterio,  instrumento  que  tinha  voga.  Ainda 
ha  trinta  e  cinco  annos  existia  um  tocador  de  psalte- 
rio, um  homem  baixo  e  de  cara  rapada  como  César, 
que  andava  tocando  pelos  cafés,  principalmente  no  ca- 
fé Grego,  no  Gaes  do  Sodré,  e  no  café  da  Arcada,  no 
Terreiro  do  Paço. 

João  de  Deus,  o  eminente  lyrico,  dedilhou  banza  em 
Coimbra,  em  1854  (quando  frequentava  o  curso  de 
Direito),  como  é  tradicional  entre  os  escolares  coim- 
brões, porque,  já  na  noite  de  31  de  Dezembro  de 
1799  para  I  de  Janeiro  de  1800  os  estudantes  da 
Universidade,  munidos  de  borrachas  de  vinho  e  de 
guitarras,  vieram,  antes  de  soar  a  meia-noite,  para 
as  margens  do  Mondego,  a  fim  de  celebrar  a  entrada 
do  século  XIX.  * 

1  Por  esse  tempo,  e  ainda  depois,  viveu  no  Porto  um  mendi- 
go legendário,  o  José  das  Desgraças,  tocador  de  guitarra  To- 
dos o  conheciam,  assim  como  ao  seu  cão  inseparável  e  ao  seu 
enorme  chapéo  de  seda  azulada.  O  Ferreirinha  da  Régua  va- 
rias vezes  lhe  deu  dinheiro  para  comprar  cães. 

2  João  de  Deus,  quando  estudante  de  Coimbra,  toeava  gui- 


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23S  Empreza  da  Hièioria  de  Portugal 

José  Maria  Anchieta,  o  intrépido  explorador  africa- 
cano,  tornou-se  uma  celebridade  na  guitarra,  quando 
cursou  a  Universidade  de  Coimbra.  Em  Lisboa,  mos- 
trou que  não  era  para  graças.  O  sr.  Bulhão  Pato  con- 
ta que,  uma  vez,  nos  antigos  casebres  do  Loreto,  uma 
matilha  de  quatro  fadistas  arremetteu  contra  Anchieta. 
Mas  este  fez-lhes  frente,  cresceu  para  elles,  poz  três 
tora  de  combate,  sendo,  porém,  esfaqueado  pelo  quar- 
to. E,  ao  passar  de  maca  pelo  Marrare  do  Chiado, 
saudou  jubilosamente  os  amigos  que  estavam  á  porta, 
como  se  fosse  para  uma  diversão.  4 

Um  tocador  excellentissimo,  mas  este  de  viola  da 
Beira,  foi  o  José  Dória,  de  Coimbra  (Dr.  José  António 
dos  Santos  Neves  Dória,  bacharel  em  medicina.)  Toca- 
va o  fado  de  Coimbra  de  uma  maneira  quasi  phanlas- 
tica.  *  Em  Lisboa,  tocou  em  vários  concertos,  o  ultimo 
dós  quaes  se  realisou  no  palácio  do  marquez  de  Cas- 
tello-Melhor,  em  que  o  auditório  — onde  se  viam  os 
maestros  Sá  de  Noronha  e  Cossoul  e  a  cantora  Rey-Bal- 
la  —  se  sentiu  maravilhado  pela  arte  espantosa  com 
que  o  virtuose  communicava  a  vida  e  a  paixão  aos  sons 
prisioneiros  da  matéria,  de  que  o  instrumento  era  con- 
stituído. E  a  Rey  Baila,  cuja  sensibilidade  amoravel  e 
mórbida  a  fazia  chorar  ouvindo  cantar  o  fado,  offere- 
ceulhe  o  seu  retrato  com  uma  dedicatória  amabilissi- 
ma. 

tarra,  cantava  c  compunha  musica.  «Tocava  deliciosamente  a 
banza  dos  estudantes,  compondo  musica  para  cila.»  (Eu  e  as 
notabilidade s  litter árias.  Artigo  de  Cunha  Belém  na  Revista 
Brasil- Portugal  n  91).  Noite  fechada,  João  de  Deus  ia  com 
outros  estudantes,  muito  embuçados,  cantar  versos  e  musica — 
tudo  original  seu— á  porta  de  certo  lente  com  quem  embirrava. 
(Trindade  Coelho,  In  Mo  tempore,  pag  227J. 

1  Bulhão  Pato    Memorias^  vol.  I,  pag.  78. 

2  Joaquim  de  Vasconcellos.  Os  músicos  portugueses,  vol.  I, 
pag  82. 


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Historia  do  Fado  237 

O  guitarrista  profissional  Ambrósio  Fernandes  Maia, 
hoje  septuagenário,  antigo  barbeiro  em  Campo  de  Ou- 
ri  jue  e  natural  de  Queluz,  é  o  decano  dos  guitarristas 
lisboetas.  Escreveu  um  methodo  para  aprender  a  tocar 
guitarra.  Compoz  o  primeiro  fado  das  salas  em  1869, 
e  mais  os  fados  seguintes:  Artilheiro,  da  Ribeira- Nova, 
da  Cesana,  do  Porto,  efe  Vizeu,  de  Cascaes,  de  Coim- 
bra, Marialva,  Trinado,  Bigode,  da  Meia-Noite,  Arte 
Nova  e  do  liôlho.  O  fado  Artilheiro  faz  parte  dos  nú- 
meros de  musica  da  comedia  dramática  Lobos  na  ma- 
lhada, original  do  Dr.  Guuha  e  Costa, que  subiu  á  scena 
n'um  theatro  do  Rio  de  Janeiro  em  Novembro  de  1902. 
O  Maia  foi  mestre  do  notável  guitarrista  o  Visinho.  En- 
trou nos  concertos  de  fado  em  casa  do  marquez  de 
Castello-Melhor,  junto  com  João  Maria  dos  Anjos  e 
outros  distinctos  concerlistas  de  guitarra,  concertos 
que  se  recommendavam  pela  execução  nítida,  segura, 
cantante,  como  a  poesia  que  envolve  a  genuinissima 
canç5o  popular.  0  Maia  é  quem  empunha  hoje  o  legal- 
standart  dos  que  tocam  o  fado  na  maneira  antiga. 

José  Maria  dos  Cavallinhos  notabilisou-se  como  um 
guitarrista  de  haute-marque.  Tinha  a  alcunha  dos  Cavai- 
linhos,  porque  fizera  parle  de  uma  companhia  de  ca- 
vallinhos ambulante.  Tocava  por  musica  e  mandou 
fabricar  uma  guitarra  de  dezoito  cordas,  em  que  reali- 
sava  o  tóur  de  fot  ce  de  executar  todos  os  fados  de 
difliculdades.  Compoz  o  fado  do  Anadia  l  e  um  outro 
fado  que  tomou  o  nome  do  auiiior.  O  fado  do  Anadia, 
que  fez  época,  estava  em  todos  os  lábios,  escapava-se 
dolorosamente  de  to<las  as  guitarras. 

0  conde  da  Anadia  teve  celebridade  como  um  pan- 
dego de  truz.  Não  tocava  guitarra,  nem  cantava,  mas 

1  Ha  quem  attribua  o  fado  do  Anadia  ao  guitarrista  Cons- 
tantino, o  que  é  inexacto. 


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238  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

apreciava  deveras  o  cauto  do  fado,  e  gostava  muito  de 
ir  ás  feiras  e  a  jantares  no  campo.  O  grupo  dos  seus 
companheiros  era  formado  de  Luiz  Aranha,  Simão 
Aranha,  José  Esteves  Costa,  o  cavalleiro  Diogo  Hen- 
riques Bettencourt,  o  Padre  Matheus,  empregado  na 
alfandega, o  Manoel  Gonçalves  Tormenta,  o  José  Carlos, 
de  Évora,  Domingos  Martins  Peres,  Àvillez,  Dr.  José 
Avellar,  Luiz  de  Araújo,  Campos  Valdez,  Francisco  de 
Almeida  Carvalho  ou  o  Carvalho  ratado,  e  Manoel 
Botas,  o  actual  intelligente  das  toiradas,  que  levava  a 
guitarra  para  fadejar  no  momento  psychologico. 

O  Botas  aguardava-os  na  tendinha  do  Rocio,  e  d'ahi 
seguiam  para  o  Col/ete  encarnado,  no  lado  oriental  do 
Campo-Grande,  onde  se  banqueteavam  com  o  bello 
peixe  frito  e  a  salada  concomitante.  Não  iam  esperar 
os  toiros  a  Friellas,  nas  tardes  de  espera.  Nunca  passa 
vam  além  do  Campo-Grande,  abancando  n'aquella  casa 
de  pasto,  que  já  tinha  a  meza  posta  para  elles,  e  alli 
esperavam  a  passagem  do  gado  para  o  descanço  no 
Campo-Pequeno.  O  conde  da  Anadia  era  o  typo  do 
gentil-homem  campagnard,  o  modelo  da  delicadeza  e 
fidalguia,  e  embora  se  desse  com  certa  roda  inferior  á 
sua  gerarchia,  sempre  se  soube  manter  no  seu  logar 
e  respeitar-se,  tal  qual  o  conde  de  Vimioso. 

Quando  foi  da  empreza  de  Campos  Valdez*  em  S. 
Carlos,  alguns  amigos  de  Domingos  Martins  Peres  — 
um  grande  amador  do  fado—,  apenas  terminava  a  re- 
cita do  theatro  lyrico,  partiam  immediatamente  para 
casa  tíelle,  na  Ameixoeira,  onde  a  meza  estava  posta 
e  se  servia  logo  a  ceia.  Durante  esta,  chegavam  a 
cantar,  ás  vezes,  um  acto  inteiro  da  opera  que  acaba- 
vam de  ouvir  em  S.  Carlos.  Encontravamse  lá  muito 
o  conde  da  Anadia,  Luiz  Aianha,  o  marquez  de  Cas- 
tello-Melhor,  Luiz  de  Araújo  e  outros.  Em  certo  jantar 
que  alli  se  deu,  o  marquez  de  CastelloMelhorj>ediu  a 


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Historia  do  Fado  239 

Luiz  de  Araújo  que  mandasse  servir  o  jantar  de  traz 
para  deante,  e  assim  se  fez,  começando-se  pela  sobre- 
meza  e  acabando-se  na  sopa  ! 

Além  do  conde  da  Anadia,  outro  titular  popularissi- 
mo  amou  a  guitarra  e  gostou  Ao  fado— o  marquez  de 
Castello  Melhor.  Não  se  limitava  a  um  amor  platónico/ 
como  aconteceu  ao  conde  da  Anadia,  porque,  embora 
não  cantasse  o  faão%  sabia  tocai  o  sofrivelmente  na 
guitarra.  Aprendera-a  em  Coimbra,  quando  frequentava 
o  segundo  anno  de  Direito,  e  teve  por  mestre  um  ce- 
go que  zangarreava  aquelle  instrumento  nas  ruas  da 
LuzaAthenas.  Foi  seu  companheiro  n'essa  aprendiza- 
gem o  sr.  dr.  João  da  Silva  Maltos,  que,  a  breve  tre- 
cho, abandonou  guitarras  e  guitarradas.  O  marquez, 
porém,  sempre  tocou  guitarra,  sendo,  a  miúdo,  acom- 
panhado á  viola  pelo  sr.  D.  Luiz  Breton  y  Vedra  ou 
por  D.  Juan  Salces,  antigo  tenor  de  uma  companhia 
de  zarzuela,  que  veio  para  Lisboa  em  1863  e  que  por 
cá  se  deixou  licar  O  Marques  de  CastelloMelhor  nun- 
ca fez  prodígios  de  execução  na  guitarra.  Tocava-a  re- 
gularmente e  nada  mais.  Comtudo,  logrou  impressionar 
a  princeza  Rattazzi,  que  o  ouviu  n'uma  soirie  intima 
em  casa  do  próprio  marquez  em  Paris,  «tocando  na 
guitarra  os  fados  nacionaes  de  uma  originalidade  vi- 
vamente accentuada»  '.  Mas  a  princeza  Rattazzi  perce- 
bia menos  de  fadinhos  e  fadunchos  do  que  percebia  de 
tinturas  capillares,  de  pastas,  loções  e  cremes  para  dis- 
simular as  rugas  da  derme  coriacea,  e  da  chimica  ca- 
pciosa dos  mil  artifícios  de  toilette,  adrede  praparada 
para  restaurar  a  belleza  n'uma  edade  em  que  ella  se 
torna  o  mais  insustentável  dos  paradoxos. 

Alguns  minutos  antes  de  morrer,  ainda  o  marquez 
de  Castello-Melhor  estivera  executando  vários  trechos 

1  Madame  Rattazzi.  LélPortugal  à  vol  cfoiseau,  pag.  47 


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210  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

musicaes  na  guitarra,  acompanhado  com  a  viola  lies- 
panhola  pelo  seu  amigo  sr.  D.  Luiz  Uretou  y  Vedra,  que 
o  fora  visitar  ao  seu  palácio  na  rua  occidental  do  Pas- 
seio Publico  (hoje  propriedade  do  marquez  da  Foz).  O 
marquez  tencionava  partir  para  Madrid,  onde  se  iam 
realisar  grandes  festas  para  celebrar  o  casamento  do 
rei  Affonso  XII  com  D.  Maria  das  Mercedes,  no  nume- 
ro das  quaes  festas  se  comprehendia  uma  toirada  por 
amadores,  em  que  o  marquez  contava  toirear.  O  sr. 
Yedra  dissuadiu  o  do  intento,  e  aconselhou-o  a  que  le- 
vasse a  sua  farda  de  official-mór  da  Casa  Real  para  se 
poder  apresentar  nos  bailes  e  nas  funcções  no  Paço.  O 
marquez  concordou  e  disse:  «Valeu.  Levo  a  farda!» 
Foram  as  suas  derradeiras  palavras.  Em  seguida,  deu 
um  grito  e.  cahiu  no  chão,  acudindo  lhe  logo  o  sr. 
Vedra.  M  is  debalde,  porque  o  marquez  estava  morto. 

O  marquez  de  Castello  Melhor  nunca  foi  um  arbitro 
das  elegâncias,  um  d'esses  pharoes  moveis  do  janotismo 
e  da  distincção.  A  dislincçao,  no  sentido  de  elegância, 
tornou-se  um  neo  logismo  dos  paizes  democráticos,  e  a 
gloria  de  um  grãosenhor  consiste  em  não  ser  conheci- 
do e  approximado  senão  dos  seus  pares.  Ora  o  marquez 
de  Castello-Melhor  convivia,  um  pouco  familiarmente, 
com  todas  as  classes.  Encarnou,  porém,  de  maneira 
superior,  o  chie  à  cheval,  foi  um  ginetario  de  primeira 
ordem,  um  dos  mais  authenticos  sustentáculos  das  no- 
bres tradições  da  gineta,  da  antiga  escola  portugueza 
de  cavallaria,  conforme  a  professava  o  marquez  de 
Marialva. 

O  marquez  de  Castello-Melhor  tinha  boas  partidas. 
El-rei  D.  Luiz  dispensava-lhe  uma  profunda  amizade. 
Uma  vez,  no  Paço  da  Ajuda,  quando  este  monarcha 
principiava  a  atacar  certo  trecho  de  Rossini  no  piano 
— e  D.  Luiz  era  um  medíocre  pianista—,  o  marquez 


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A  ALBERTINA 
(Moderna  cant idora  de  fado) 


16 


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Historia  do  Fado  243 

exclamou  com  a  sua  habitual  franqueza: -«Vossa  Ma- 
gestade  vae  locar  Rossini!. ..  Ora  é  melhor  que  vamos 
conversar».  4 

Outra  vez,  durante  um  intervallo  em  S.  Carlos,  foi* 
ao  camarote  real  cumprimentar  Suas  Magestades.  Quan- 
do se  avisinhou  o  moxento  de  subir  o  panno,  as  visi- 
tas e  as  personagens  de  serviço  começaram  a  sahirda 
saleta.  A  cada  uma  que  se  retirava,  el  rei  fazia-lhe  um 
epigramma.  O  marquez  dirigiu-se  para  a  porta,  mas, 
ao  chegar  li,  parou,  como  quem  aguarda  alguma  coisa. 
«Porque  espera?*  perguutou  o  soberano. 

—  «Gomo  lenho  visto  Vossa  Mageslade,  respondeu 
elle,  fazer  epigrammas  a  todos  que  sahem,  espero  lam- 
bem pelo  meu. . . » 

D.  Luiz  riu  com  a  graça  e  poupou  o  marquez. 

0  marquez  de  Castello-Melhor  conservava  religiosa- 
mente n'uma  caixinha  um  lenço  de  pescoço,  que  lhe 
offertara  uma  senhora  por  quem  estivera  loucamente 
apaixouado.  Só  o  punha  nos  dias  solemnes. 

Por  occasião  do  fallecimento  do  marquez  de  Castel- 
lo  Melhor,  Júlio  César  Machado  traçou-lhe  o  perfil  em 
poucas  linhas :  -  «O  marquez,  apesar  de  toda  a  sua 
semeerimonia,  era  um  dos  poucos  fidalgos  a  valer  que 
deveras  se  distanciassem  e  impozessem ;  e  tinha  o  con- 
dão, aquelle  moço  que  loireava,  tocava  guitarra,  gos- 
tava de  cavallos,  de  folias  e  de  rapaziadas,  de  ter  uns 

1  Rossini  era  amicíssimo  de  el-rei  D.  Luiz.  Quando  este  foi 
a  Paris  em  1865,  o  author  do  Barbeiro  de  Sevilha  offereceu-lhe 
um  concerto  em  sua  casa,  onde  o  soberano  cantou  a  romanza 
de  barytono  do  Trovador,  o  EH  tu  do  Baile  de  mascaras  e  a 
cavatina  do  Trovador,  acompanhando,  como  coristas,  Rossini, 
Verdi,  Caetano  Braga,  Perruzzi,  Lucantoni  e  o  visconde  de  Pai- 
va, esse  grande  elegante  que  acabou  no  suicídio  como  o  Mon- 
pavon  do  Nabab. 


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244  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

ares  de  gentilhoraem  que  atiravam  para  longe  a  pie- 
guice de  fidalgotes  e  fidalgueiros,  ao  ponto  de  ninguém 
os  vêr  em  elle  apparecendo,  em  tanta  maneira,  na  fi- 
gura, no  porte,  no  garbo,  respirava  a  elegância  nobre 
e  viril  d'esse  esbelto  homem. t  4 

Este  perfil  tem  a  nitidez  pholographica  dos  retratos 
de  Nadar  ou  de  Reutlinger.  Sim !  O  marquez  de  Cas- 
tello-Melhor  amou  o  toureio,  a  guitarra  e  o  fado,  a 
canção  tão  caracteristicamente  nacional,  a  canção  que 
parece  composta  com  as  pulsações  oceânicas,  as  bri- 
zas  salinas,  as  pyrilampisações  da  ardentia,  feita  de 
pingentes  de  prata  boiantes,  os  rumores  côncavos  de 
bordo,  as  espumas  referventes  que  coroam  as  volutas 
glaucas  das  ondas,  as  musselinas  tenuíssimas  da  bru- 
ma, a  alegria  loira  da  bonança  e  as  vozes  fluidas  das 
nereidas  que  habitam  nas  grutas  de  crystal  sob  o  so- 
mno  apparente  das  vagas. . . 

O  fado  seguinte  foi  improvisado  pelo  amador  De 
Vecchi  n'uma  corrida  de  toiros  em  Salvaterra,  na  qual 
tomou  parte  o  marquez  de  Castello-Melhor. 

Ergue  a  campa,  oh  Vimioso, 
Ainda  ha  toiradas  reaes ! 
Corre,  vôa  a  Salvaterra, 
Pois  lá  brilham  os  teus  rivaes ! 

Estalam  foguetes  no  ar, 
Rompe  a  musica  estrondosa, 
Vae  Salvaterra,  a  formosa, 
Uma  toirada  gozar; 
Anda  lá  tudo  no  ar, 
Cada  qual  anda  ancioso, 
Corre  o  povo  pressuroso, 
A'  festa  ninguém  se  salva, 
Baixa  á  terra,  oh  Marialva! 
Ergue  a  campa,  oh  Vimioso! 

1  O  Marquez  de  Castello  Melhor,  folhetim  do  Diário  de  A'o 
ticiaê  de  25  de  Janeiro  de  1878. 


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Historia  do  Fado  246 


Bravo,  ao  marquez  cavalleiro, 
Que  toirea  com  deppique! 
Croft  e  António  Manique 
Teein  brilho  verdadeiro; 
Raphael,  gentil  toireiro. 
Tem  denodo  até  não  mais, 
Sào  dos  artistas  rivaes 
Esses  moços  tão  valentes, 
Todos  gritam  de  contentes: 
Ainda  ha  toiradas  reaes! 

Grupo  ou ea do  e  destemido, 
Que  aos  bois,  de  cara  faz  frente, 
E'  cabo  o  Ponte  valente, 
Segue  o  Caldeira  atrevido; 
De  cara,  Rebello  querido 
Pega  um  boi  como  uma  serra, 
Tinoco  nnda  o  aterra, 
D'Antas,  Castello  e  Ribeiro, 
Para  os  vêr,  o  mundo  inteiro 
Corre,  vôa  a  Salvaterra. 

Bravo,  oh  valente  abegao, 
Que  a  cavai  lo  ou  de  cernelha, 
Parece,  da  guarda  velha, 
Ser  o  valente  campeão! 
Roquette,  o  amphylriao, 
Dá  corpulentos  animaes, 
Nao  ha  quem  possa  exigir  maip, 
Até  na  campa  os  finados 
Gritam  em  bem  altos  brados: 
Pois  lá  brilham  os  teus  rivaes! 


0  António  dos  rhosphoros,  um  guitarrista  de  pri- 
meiríssima, locava  guitarra  eximiamente,  e  tocava-a 
com  todos  os  dedos  da  mâo  direita.  Na?cera  na  Mou- 
raria, e  er*  bexigoso,  feio  como  um  satyro  dos  tem- 
pos mythologiços.  Andava  mal  vestido,  um  pouco  á 
faia,  de  barrete,  e  sempre  cqdi  a  guitarra,  instrumento 
de  que  poderia  dizer  como  o  poeta:  sócio  meu  emeu 
tyranno.  0  Anlonio  dos  Phosphoros  estivera  preso  na 
grilheta  e  pertencera  ao  numero  dos  que  calçaram  o 


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246  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

Rocio,  que  foi  empedrado  em  1848.  Cpmpoz  o  fado 
Cadete. 

Os  dois  Casacas  ganharam  reputação  solida.  0  An- 
tónio Casaca  possuia  toda  a  lechnica  da  arte  e  guitar- 
reava  de  uma  forma  maravilhosa  n'um  botequim  do 
Campo  das  Cebollas;  o  José  Casaca  tocava  n'um  bo- 
tequim á  Ribeira-Nova.  O  Constantino  e  o  José  Pai- 
mella,  dois  tocadores  de  mãocheia,  arpejavam  banza 
nos  cafés  da  Ribeira- Velha. 

O  Magiolly  conquistou  alta  celebridade  de  guitarris- 
ta. Era  piloto  de  navios  mercantes.  Durante  o  tempo 
que  esteve  de  cama  por  ter  quebrado  uma  perna  na 
calçada  do  Salitre,  escreveu  o  fado  do  Magiolly,  que 
é  muito  bonito,  e  que  eile  dedicou  ao  marquez  de 
Castelto  Melhor,  o  qual  lh'o  retribuiu  com  dez  libras 
esterlinas.  Sustentou  muitos  desafios  á  guitarra  com  o 
Constantino  marceneiro  —um  bom  guitarrista  -,  des- 
afios que  se  travavam  n'uma  taberna  ao  Campo  de 
SanfAnna,  e  de  que  o  Magiolly  sahiu  sempre  victorio- 
so.  O  Magiolly  amancebou-se  com  uma  cantadora  famo- 
sa, a  Anna  do  Porto.  Entre  os  seus  percalços,  cita- se 
o  de  ter  grammado  uma  facada  do  D.  Miguel  Soutto 
de  El  Rei,  mas  aquelle,  depois,  partiu  a  cabeça  a  es- 
te com  um  cacete  á  porta  do  Marrare  do  Arco  do  Ban- 
deira. O  Magiolly  embarcou,  mais  tarde,  para  o  Chili, 
em  cujo  exercito  assentou  praça,  e  onde  attingiu  o 
posto  de  capitão,  sendo  morto  n'uma  d'aquellas  revo- 
luções que  coustiluem  o  flato  dei  dia  das  republkjuè- 
tas  que  bordam  o  golpho  do  México,  o  mar  das  Anti- 
lhas e  o  Grande  Oceano  Pacifico. 

Em  seguida  aos  guitarristas  que  indicámos  vinham: 
o  José  Gualdino  (discípulo  do  António  dos  Phosphoros 
e   morador  a  S.  Sebastião  da  Pedreira),  o  irmão  do 


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Historia  do  Fado  247 

Pau  Real  —  rasoavel  tocador,  e  o  Freitas  da  Piedade, 
óptimo  executante,  que  morava  na  Cova  da  Piedade, 
onde  estabelecera  loja  de  bebidas.  A  estes  seguiam-se 
o  João  Alturas  (óptimo  tocador  e  cantador),  o  João  da 
Preta  (assim  chama  lo  por  ter  sido  creado  por  uma 
prela  da  Mouraria),  o  José  das  três  rocas,  o  bandari- 
Iheiro  José  Petiz,  o  carpinteiro  Luiz  Patrone,  o  Pataco 
(regular  tocador),  o  Peixoto  (tocador  notabilissimo),  o 
Coxo  da  Trafaria  (antigo  marujo),  o  Thomaz  dos  San- 
tos Bairro-Allo,  o  Wenceslau,  marujo,  o  Maxarico, 
marujo,  João  Maria  dos  Anjos,  o  Braz  e  o  Pedro  Nico- 
lau de  Oliveira,  todos  já  fallecidos. 

Embora  se  não  possa  integrar  na  phalange  dos  gui- 
tarristas da  grande  tradição,  apontaremos  o  Luiz  Ve- 
lhinho, guitarrista  inferior,  que  se  tornou  mais  conhe- 
cido pela  sua  casa  de  burros  de  aluguel  no  Poço  do 
Borratem  e  pela  sua  habilidade  insuêta  em  applicar  ô 
methodo  sedativo  das  sangrias  de  navalha  aos  adver- 
sários renitentes  em  se  chegar  ao  rego,  do  que  se  po- 
pularisou  pela  arte  de  arranhar  na  banza. 

Dos  citados  acima,  especialisaremos  três.  Pedro  Ni- 
colau de  Oliveira  ou  Pedro  Calcinhas  era  compositor 
da  Imprensa  Nacional,  polia  boas  rimas  para  o  fado  e 
tocava  guitarra  na  perfeição.  O  Peixoto,  filho  de  um 
adello  da  calçada  do  Caldas,  já  em  pequeno  tocava 
magnificamente  psalterio  na  loja  do  pae.  Se  vivesse, 
seria  um  guitarrista -que  havia  de  dar  agua  pela  barba 
aos  mais  acepilhados  profissionaes,  havia  de  arear  o 
juizo  aos  melhores  tocadores  de  guitarra. 

João  Maria  dos  Anjos,  guitarrista  de  repicaponlo, 
fora  sapateiro  em  Alfama  e  era  filho  de  outro  sapatei- 
ro e  óptimo  guitarrista.  O  Anjos  principiou  por  tocar 
n'um  café  da  Ribeira  Velha,  emquanto  o  António  dos 


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248  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

Phosphoros  tocava  n'outro  café,  perto  d'aquelle.  Foi 
João  Maria  dos  Anjos  quem  descobriu  todos  os  segre- 
dos da  guitarra,  e,  rompendo  difficuldades,  provou  que 
se  podiam  executar  n'ella  não  só  os  fados  e  as  can- 
ções populares,  mas  as  partituras  de  opera,  que  elle 
transportava  do  piano  para  aquelle  instrumento.  E  as- 
sim fez  taboa-raza  sobre  os  velhos  processos  de  locar 
guitarra, 

O  Anjos  tivera  esmerada  educação  musical,  tocava 
musica  á  primeira  vista  e  em  todos  os  instrumentos. 
Numa  comedia  de  Aristides  Abranches,  escripta  de 
propósito  para  o  Anjos,  elle  ia  pedindo,  suecessiva- 
mente,  os  instrumentos  aos  instrumentistas  da  orches- 
tra  e  executando  diversos  trechos  musicaes.  O  Anjos 
deu  os  primeiros  concertos  de  guitarra  no  Casino  Lis 
bonense  (durante  a  empreza  Gruder)  e  organisou  depois 
um  quintelto,  e,  ainda  depois,  um  sextetto.  Esteve  para 
ir  com  o  quintelto  ao  Brazil,  contractado  por  Ernesto 
Desforges,  mas  arreceiou  se  da  febre-amarella  e  o  quin- 
telto dissolveu-se.  O  sextetto  era  constituído  por  qua- 
tro guitarras  e  duas  violas:  O  Anjos,  o  Pelrolino,  o 
João  da  Prttà,  o  Augusto  Pinto  de  Araújo,  o  violi:ta 
Zaraquitana  e  o  violista  e  bcllo  guitarrista  António 
Eloy  Cardozo,  agora  empregado  no  caminho  de  ferro 
de  Salamanca-  Com  este  sextetto  percorreu  o  Anjos  as 
províncias.  Também  deu  concertos  em  Madrid  com  o 
guitarrista  Visinho  e  o  Zaraquitana. 

João  Maria  dos  Anjos  foi  professor  de  guitarra  de 
el-rei  D.  Carlos  (então  príncipe  real),  que  o  soccorreu 
liberrimamenle  na  doença  de  que  soffreu  durante  qua- 
tro mezes,  e  que,  afinal,  o  viclimou  —  a  tysica  pulmo- 
nar. O  sr.  D.  Carlos  pagou  todos  os  medicamentos, 
mandou  o  Dr.  Ravara  paia  o  tratar  e  satisfez  as  des. 
pezas  do  enterro.  João  Maria  dos  Anjos  falleceu  na  r 


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Historia  do  Fado  249 

direita  de  Arroyos,,n.°  106,  em  25  de  Julho  de  IS89, 
dois  dias  depois  de  morrer  o  graode  actor  António 
Pedro.  Deixou  vários  fados,  entre  elles  o  que  tomou  o 
seu  nome,  o  fado  das  salas,  o  fado  Casino  Lisbonense 
(em  1873)  e  o  Meu  segredo  ou  Canção  de  Cascaes. 

Com  João  Maria  dos  Anjos  desappareceu  o  primeiro 
guitarrista  portuguez  de  todos  os  tempos.  Elle  vivera 
em  perpetuo  sonho  —  o  sonho,  que  é  uma  segunda  vi- 
da, como  escreveu  Gérard  de  Nerval —  na  nossa  épo- 
ca de  Trio  positivismo,  em  que  tudo  reclama  uma 
equação  ou  uma  densidade. . . 

Outros  guitarristas  que  ainda  vivem,  sendo  alguns  d'el- 
les  contemporâneos  dos  que  vimos  de  indicar,  são:  Antó- 
nio Cândido  de  Miranda,  o  Visinho,  auetor  de  um  fado 
das  salas y  guitarrista  que  tocava  com  gosto,  sentimen- 
to e  agilidade,  e  que  executava  o  fado  corrido  de  uma 
maneira  sensibilisadora ;  o  José  í/m,  tocador  e  canta- 
dor gracioso;  o  Josué  dos  Santos,  antigo  barraqueiro 
das  feiras  e  actual  camaroteiro  do  theatro  da  Rua  dos 
Condes;  João  da  Silva  ou  o  João  de  Vai  de  Pereiro,  mar- 
ceneiro; o  Ignacio  Palhinhas,  discípulo  do  Maia;  Jo.^é 
Fernandes  Viegas,  tocador  e  cantador,  discípulo  do 
Maia;  o  José  da  Rosalina  (da  Outra  Banda),  grande 
executante  de  guitarra;  Augusto  Pinto  de  Araújo,  o 
Camões,  chapelleiro;  o  Nine,  antigo  sargento,  hoje  em 
Elvas;  José  Maria  Urceira,  o  Zaraquitana,  correcto  vio- 
lista  que  tocava  no  café  Bom  da  rua  da  Bitesga;  e 
Luiz  Carlos  da  Silva  Petrolino,  discípulo  de  João  Ma- 
ria dos  Anjos  e  auetor  do  fado  Luiz  Petrolino ,  um  dos 
poucos  que  ainda  toca  no  género  antigo. 

Entre  os  guitarristas  e  violistas  em  pleno  exercício 
figuram :  Thomaz  Ribeiro,  con:ertista  que  recebeu  edu- 
ção  musical  no  Conservatório  e  conhece  a  fundo  a 
guitarra;  J.  R.  Robles,  anligo  sargento  que  tomou 


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250  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

parte  na  revolta  de  31  de  Janeiro  do  Porto;  André  Car- 
mo Dias,  notabillissimo  executante  de  guitarra,  Alberto 
Carlos  Lima,  Alexandre  de  Oliveira,  Alfredo  Mantua 
(regente  da  tuna  da  Escola  Polytechnica),  Augusto  Ma- 
chado, Alfredo  Raposo,  António  da  Silva,  Joio  Alves 
Castello  (bandolinista  e  regente  do  quintetto  Gíllet), 
Diamantino  Mourão  (director  do  sextetto  Bertini),  Car- 
los Augusto  Sampaio,  Eduardo  Silva  (auctor  de  diver- 
sos fados),  Júlio  Silva  (auctor  do  Triste  Fado),  o  Lan- 
deiro,  Francisco  Soares  Nogueira,  Jo3o  Nunes  da  Silva, 
Ivo  dos  Santos  Josué,  Jorge  Silva,  José  Augusto  da 
Silva,  Júlio  Camará,  Eduardo  Duque,  etc. 

Na  elite  dos  guitarristas  modernos  brilha  Reynaldo 
Varella,  auctor  do  fado  das  3  horas,  do  fado  Bohemio, 
do  fado  do  Estoril,  do  fado  Novo  ele.  O  fado  das  3  ho- 
ras foi  escripto  em  18b7  e  é  acompanhado  de  versos 
do  dr.  Brauíio  Caldas,  natural  das  Caldas  de  Vizella, 
que  os  improvisou  dentro  de  um  barco  vogando  no  rio 
Vizella  n'uma  noite  de  serenata. 

O  fado  Bohemio  ou  Ultimo  fado  (2.°  fado  de  Varella) 
foi  composto  em  1896  e  é  acompanhado  de  quatro  qua- 
dras de  um  poeta  de  Villa  do  Conde,  as  quaes  o  author 
da  musica  adaptou  ao  seu  fado.  O  fado  Estoril  (3.° 
fado  de  Varella)  foi  composto  em  Setembro  de  1901. 
A'lem  d'estes  fados,  tem  innumeras  variações  sobre  o 
fado.  Os  versos  do  fado  das  3  horas  são  estes: 

Murmura,  rio,  murmura, 
E1  doce  o  teu  murmurar ; 
Que  tristeza,  que  ternura, 
Tu  tens  no  teu  soluçar  ! 

Pela  calada  da  noite, 
Emquanto  não  surge  a  aurora, 
Qu'esta  minha  alma  se  affoite, 
Suspira,  guitarra,  ohora  ! 


CH?K 


Historia  do  Fado  251 


Voga,  barco,  mansamente, 
Pelas  aguas  prateadas,  , 

Leva  este  canto  dolente 
Aos  peitos  das  namoradas. 

Cada  nota  tão  sentida 
Que  a  minha  guitarra  envia, 
E'  uma  canção  dolorida 
D  a  mor  e  melancholia. 

£  estas  canções  eu  trago- as 
Prezas  nas  azas  da  briza, 
Para  espalhar  sobre  as  aguas, 
Emquanto  o  barco  desliza  ! . . . 

Os  versos  do  fado  Bohemio  são  estes : 

Guitarra,  minha  guitaria, 
Vamos  correr  esse  mundo, 
Será  vendo-te  a  meu  lado 
Meu  pezar  menos  profundo. 

Quando  eu  gemer,  tu  suspiras, 
Sorrirás  quando  eu  sorrir, 
Havemos  assim,  guitarra, 
Prazer  e  dor  compartir. 

Quando  a  saudade  de  amante 
Vier  meus  olhos  turbar, 
Tu  cantarás  e  cantando 
Minha*  dor  has  de  acalmar. 

Entre  as  folhas  orvalhadas 
Dormem  as  rosas  e  os  lyrios, 
Nilo  dorme  quem  tem  amores, 
Porque  amores  eão  martyrios. 

Temos  agora  o  grupo  dos  guitarristas  amadores.  Ahi 
por  1887  ou  1888,  havia  um  grande  tocador  de  viola, 
o  Gypriano  da  Administração,  qne  é  já  fallecido.  José 
Horta,  tocador  e  cantador,  o  Domingos  Martins, da  Amei- 
xoeira, António  Galache,  tocador  e  cantador,  o  Sorome- 
nho,  o  Leonardo,  empregado  publico,  guitarrista,  e  o  João 


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252  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

Caetano,  empregado  na  Camará  Municipal,  podiam  for- 
mar hombro  a  hombro  dos  profissionaes.  O  explorador 
africano  Roberto  Ivens  foi  — quando  aspirante  de  mari- 
nha-discípulo  do  guitarrista  Maia  e  notável  guitarrista 
amador.  O  major  João  José  de  Figueiredo,  ha  pouco 
failecido,  tocava  e  cantava  proficientemente;  e  o  Al- 
meida das  Petas  tocou  guitarra  e  viola  no  género  fino. 
O  José  de  Queiroz,  pintor  amador,  brilhou  egualmente 
como  dilettante  de  guitarra,  o  dr.  Jayme  de  Abreu, 
quando  cursava  a  Universidade,  celebrisou  se  como  um 
guitarrista  superfino,  talvez  o  primeiro  que  tem  havi- 
do entre  os  estudantes  de  Coimbra. 


O  fado  tem  duas  espécies  de  dansa:  bater  o  fado  e 
a  dansa  do  fado  propriamente  dita.  Bater  o  fado  é  uma 
dansa  ou  meneio  particular,  em  que  entram  duas  pes- 
soas ou  Ires:  uma  que  apara  (ou  duas,  ás  vezes)  e  que 
deve  estar  quieta  e  o  mais  firme  possivel,  e  outra  que 
bate,  dando  regularmente  as  pancadas  com  a  parle  in- 
ferior das  coxas  nas  coxas  das  pernas  do  que  apara,  e 
meneando  se  com  requebros  obscenos.  O  conde  de  Vi- 
mioso batia  o  fado  como  um  catita  e  José  Chrysosto- 
rno  Velloso  Horta,  amador  lauromachico  de  primeira 
plana,  tocava  .  guitarra,  cantava  e  batia  o  fada  divina- 
mente. Em  época  posterior,  quem  bateu  o  record  dos 
batedores  de  fado  foi  o  Mercadét.  Depois  d*elle,  vinham 
o  pidre  Moiheus,  empregado  na  alfandega,  o  guitar- 
rista Josué  dos  Santos,  o  Augusto  da  Emília  dos  Cani- 
ços, e  o  José  da  Bolacheira,  que  tocava  alguma  coisa 
guitarra  e  representou  como  actor  no  theatro  de  D.  Ma- 
ria II. 

O  grande  batedor  de  fado  Mercadét  esteve  empre- 
gado no  Arsenal  de  Marinha  e  pertenceu  á  bohemia  à 
outrance,  á  bohemia  alegre  como  um  bando  de  masoa- 


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Historia  do  Fado  253 

ras  tunantes  no  carnaval.  Tinha  pilhas  de  graça,  assim 
como  o  Guedes  do  Thesouro,  seu  amigo  e  companheiro 
do  seu  noctambulismo  impenitente.  Estabeleceram  um 
cote  nos  antigos  casebres  do  Loreto,  cuja  porta,  viuva 
de  fecho,  se  conservava  sempre  encostada.  A  mobilia 
compunha  se  de  duas  enxergas,  e  de  cadeiras  e  cana- 
pés... piutados  na  parede  pelo  Guedes,  homem  de 
grande  habilidade  artística.  Com  o  dobar  dos  annos, 
o  Mercadét  imraobilisou-se  no  quietismo  da  vida  paci- 
fica, converteu  se  n'um  sedentário  e  morreu  feito  mes- 
tre de  meninos  com  collegio  á  Cruz  do  Taboado. 

Houve  batedoras  de  fado  excitantes  como  as  figuri- 
tas  das  caixas  de  phosphoros,  que,  pela  petulância  de 
suas  altitudes,  symbolisam  maravilhosamente  o  produ- 
cto  iuflammavel  de  que  sâo  o  ornamento.  As  que  apa- 
ravam com  mais  gajé  nos  tezos  fados  batidos  eram:  a 
Borboleta,  a  Anna  do  Porto,  a  Anna  de  Setúbal,  a  Emí- 
lia Midões,  a  Amélia  do  Paixão,  e  a  Lucinda  do 
Bairro-Alto9  convivas  alegres  d'esse  eterno  banquete 
do  amor  venal,  onde  as  blandícias  das  gulodices  fun- 
dentes alternam  com  as  especiarias  vigorosamente  api- 
mentadas e  os  acepipes  impertinentemente  cantharida- 
dos. 

A'  volta  de  18ò0,  existiam  bailarins  de  fado  e  de 
fandango  notabilissimos.  Estava  n'esse  caso  o  Salvador 
Mexerio,  antigo  artilheiro  do  regimento  do  Cães  dos 
Soldados,  que  bailava  com  uma  rapidez  telegraphica  e 
uma  desenvoltura  estapafúrdia,  la  aos  botequins  da  Ri- 
beira Nova— principalmente  ao  botequim  dos  Macacos, 
e  ao  botequim  do  Caraças—,1  onde  vinha  gente  de 
longe  para  o  vêr  dansar  o  fado  e  o  fandango  entre  do- 


1  Botequim  á  esquina  da  Ribeira-Nova  e  da  travessa  de  S. 
Paulo.  Pertencia  a  um  irmão  do  fundador  do  botequim  dos  Ma- 
cacos. 


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234  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

ze  ovos  postos  no  chão,  por  meio  dos  quaes  passava  sem 
quebrar  um  só.  No  mesmo  caso  se  achava  o  Theodo- 
sío,  os  dois  irmãos  Castanholas,  o  fadista  Manoel  Ra- 
tão, grande  jogador  de  pau  do  Campo  de  SanfAnna,  e 
o  MexelhãOy  canteiro,  que  fora  soldado  de  sapadores. 
Todos  elles,  mas  principalmente  o  Salvador  Mexerico, 
davam  sota  e  az  ao  maior  bailâo  Dansavam  o  fado  se- 
guindo nota  a  nota,  nas  suas  evoluções  trepidantes, 
a  BHMica  o&dttLosa  como  a  vida  ondulosa  das  vagas; 
bailavam  o  fandango  com  o  wteôsi&mo  sudorífico  de 
um  marujo  britannico  sapateando  o  solo  rrrgta»  Além 
do  fado  e  do  fandango,  havia  também  o  banzé,  uma 
dansa  de  pretos,  que  elles  executavam  sempre  nos  bai- 
les da  rainha  do  Congo  na  Floresta  Egypcia.  Do  nome 
d'esta  dansa  proveio  o  termo  banzé,  empregado  no  ca- 
lão lisboeta  depois  de  1840. 


Dissemos  anteriormente  que  o  fado  apresentava  duas 
phases  completamente  dislinctas:  a  popular  e  espontâ- 
nea e  a  aristocrática  e  litteraria.  Quando  aquella  termi- 
nou, em  4868  ou  1869,  já  o  canto  do  fado  experimen- 
tara modificações  com  o  Damas  Foi  elle  que  princi- 
piou a  imprimir  uma  feição  mais  delicada  e  um  tudo 
nada  mais  artística  ao  fado.  Nos  começos  da  segunda 
phase  apparece  João  Maria  dos  Anjos,  que,  por  assim 
dizer,  aristocratisa  a  guitarra.  Então,  vêmol  a  entrar 
triumphante  nas  salas  onde  se  cortejam  todas  as  vai- 
dades da  vaidade,  ouvimol-a  sobre  a  areia  das  praias, 
na  serenidade  embaladora  das  noites  estivas,  emquanto 
os  corações  batem  no  vôo  das  preces  e  as  estrellas  pis- 
cam coquettemente  os  olhos  celestiaes  Secundando  in- 
conscientemente a  tarefa  reformadora  de  João  Maria 
dos  Anjos,  apparece  o  Calcinhas,  o  verdadeir  o  inicia- 
dor do  moderno  canto  fino  do  fado. 


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Historia  do  Fado  265 

O  fado  aristocratisa  se,  afldalga-se,  conquista  direi- 
tos de  cidade  na  arte  musical,  recebe  as  suas  cartas 
de  credito  na  musica  sallonnière.  Vive  se  em  plena  fa- 
docracia.  Lavra  uma  febre  de  amor  ao  fado,  que  faz 
lembrar  a  febre  do  enthusiasmo  pelas  obras  de  Alexan- 
dre Dumas,  que  lavrou  em  Londres  e  a  que  os  inglezes 
chamaram  a  febre  Dumas  -  the  Dumas  fever.  As  senho- 
ras do  tom  não  desdenham  aprender  a  guitarra,  <jue 
readquire  o  posto  que  tivera  nos  antigos  tempos.  E  a 
guitarra  do  povo,  o  alaúde  popular,  o  dulcisono  ins- 
trumento que  o  comprehende  nas  suas  dores,  lhe  es- 
cuta as  suas  maguas,  lhe  traduz  os  seus  queixumes  e 
lhe  sua  visa  o  fatum—o  inetactavel  destino—,  conver- 
te se  na  guitarra  senhoril,  no  instrumento  que  vae  re- 
pousar sobre  os  tamboretes  dos  toucadores  elegantes, 
sobre  as  ollomanas  dos  salões  alcatifados  e  sobre  os 
veladores  das  alcovas  catitas,  que  passa  a  ser  belisca- 
do por  dedos  avezados  a  dobrarcm-se  apenas  ás  tortu- 
ras do  piano,  a  darem  voo  aos  pensamentos  harmonio- 
sos de  Thalberg  e  a  iuterpretarem  a  graça  etherea  das 
paginas  de  Ghopin.  E  os  arames  prateados  das  banzas 
soam  aos  ouvidos  das  damas  como  se  fossem  as  cor- 
das de  oiro  do  heptacordio  de  Eros. . .  O  fado  parece 
vir  dar  uma  voz  ás  tristezas,  aos  sonhos  e  aos  amores 
d'aquelle  tempo,  como  Verdi  prestou  uma  voz  ás  tris- 
tezas, aos  sonhos  e  aos  amores  de  uma  geração,  nas 
dores  do  Rigoletto,  nas  lamentações  do  Tiovador  e  nos 
soluços  da  Traviata.  Os  critiqueiros  populares  margi- 
nai logo  a  nova  moda  com  duas  annotações  rimadas: 

Se  ifcto  assim  continua, 
Onde  irá  parar  não  sei; 
Veremos  andar  pl*a  rua 
De  guitarra  o  próprio  rei. 

Oh  fado,  que  foste  fado} 
Oh  ffldo%  que  já  não  és, 


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256  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

O  fadinha  invade  tudo 
Da  cabeça  até  aos  pés. 

Par  a  par,  a  musa  falante  engendra  eslas  duas  qua- 
dras denigrativas  de  cantadores  e  guitarristas  popula- 
res: 

Nem  a  campa  do  Campanudo, 
Nem  a  palha  do  Palhinhas, 
Nem  as  calças  do  Calcinhas, 
Nem  a  musa  do  Pelludo. 

Vi  as  campas  ao  Campanudo, 
Vi  as  calça9  ao  Calcinhas, 
Na  mangedoura  d 'um  burro 
Vi  as  palhas  ao  Palhinhas. 

Então,  o  lheatro  da  Trindade  dá-nos  (em  1869)  o 
Ditoso  Fado,  onde  Rosa  Damasceno  nos  vem  dizer: 

Quando  pego  na  guitarra, 
Sinto  logo  o  quer  que  é, 
Que  me  fala  ao  coração 
E  me  faz  pular  o  pé. 

Ao  que  o  Taborda  lhe  replica: 

Eu  p'[ofado  sou  lamecha, 
Não  está  mais  na  minha  mão, 
Quizera  ouvil-o  cantar 
A  toda  a  luza  nação.  i 

Então,  o  marquez  de  Castello-Melhor  celebra  sessões 
de  fado  no  seu  palácio  da  rua  occidental  do  Passeio 
Publico,  em  que  tomam  parte  João  Maria  dos  Anjos  e 
outros  guitarristas  de  nomeada;  algumas  damas  de  alta 
extracção  enthusiasmam  se  pelo  fadinho,  entre  ellas  a 

1  O  Ditoso  Fado  representou -se  novamente  na  Trindade  pelo 
Ribeirinho  e  Josepha  de  Oliveira,  e  n'uma  excursão  artística  ás 
províncias,  em  1873,  por  Beatriz  e  Taborda. 


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Historia  do  Fado  257 

fallecida  condessa  de  Ficalho,  que  gostava  muitíssimo 
de  o  ouvir  tocar;  e  encetam-se  os  concertos  públicos  de 
guitarras,  o  primeiro  dos  quaes  se  realisou  no  Casino 
Lisbonense  na  noite  de  3  de  Maio  de  1873.  N'este  con- 
certo entraram  o  Visinho,  o  Josué  dos  Santos,  o  Casa- 
ca, João  Maria  dos  Anjos,  José  Gualdino,  o  Thomaz 
Bairro- Alto,  o  Wenceslau,  João  da  Silva,  etc.  O  Anjos, 
o  Maia  e  o  Visinho  tiveram  uma  ovação  estrepitosa.  Prin- 
cipalmente o  ultimo,  no  fado  irinadó' com  trechos  das 
operas  Trovador,  Martha  e  Norma.  Passados  oito  dias, 
realisaram  novo  concerto  no  theatro  do  Gymnasio.  De- 
pois, o  Anjos,  o  Visinho  e  o  Josué,  deram  concertos  de 
guitarra  no  palácio  de  crystal  do  Porto  1  sob  a  empreza 
Gomes  Cardim,  e  no  café  Chinez,  na  Povoa  de  Var- 
zim. 

A  propósito  d'aquelle  primeiro  concerlo  de  guitarras 
discorria  então  um  folhetinista:-  «Pois  se  ha  coisa  que 
nos  dê  no  gotto  é  a  guitarra  aventureira,  espécie  de 
Bonaparte  musico,  elevado  até  aos  salões  principescos 
e  que  pôde  dizer  aos  pianos  de  Erard  e  de  Pleyel : 
«Quando  eu  estava  na  Porcalhota. ..»  da  mesma  for- 
ma que  o  homem  de  Campo-Formio  dizia  aos  portado- 
res de  diademas:  «Quando  eu  era  de  arlilheria . . . » 
Napoleão  esmagava  o  direito  divino  dos  reis,  a  guitarra 
destróe  a  hierarchia  dos  instrumentos.  E'  o  eterno  ceei 
tuera  cela,  principiando  no  livro  que  mata  o  edifício  e 
acabando  na  corda  de  aço  que  faz  estalar  de  inveja  o 
opulento  bordão  de  seda. . .  Na  guitarra  é  que  se  de- 
via tocar  o  hymno  de  1640.  Aí!  Quem  a  não  tinha  ou- 
vido a  ella,  por  uma  d'essas  noites  em  que  as  estreitas 
chovem  claridades  tremulas,  quem  a  não  tinha  ouvido 
gemer  e  soluçar  como  uma  meiga  creatura  a  quem 
magoas  opprimem?  Vinha  dos  recessos  das  escuridões 
dolorosas,  e  acordava  os  echos  com  as  suas  querelas 
enternecidas.   Tocava   uns  compassos   dolentes,    uma 


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2Õ8  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

triste  solfa  em  que  se  piesentiam  lagrimas.  E  quando 
no  meio  cTaquelles  requebros  se  erguia  uma  voz  desen- 
toada e  rouca,  a  gente  sabia  bem  que  havia  alli  um 
condão,  fatwn,  a  entoar  a  saturnal  da  impudência  acom- 
panhada por  um  rumor  de  amarguras  <» 

À  trajectória  evolutiva  do  fado  não  parou.  O  fado 
tornou- se  mais  litterario,  mais  artístico,  e,  conseguin- 
temente,  perdeu  o  seu  caracter  popular.  Os  versos  que 
até  aqui  haviam  estado  entregues  á  mecha  nica  espiri- 
tual dos  vates  populares,  começaram  a  ser  fundidos 
pelo  estro  dos  poetas  mais  Íntimos  das  Musas.  A  mu- 
sica, que  até  aqui  brotava  da  inspiração  dos  guitarris- 
tas e  dos  cantadores,  passa  a  ser  composta  por  mães- 
tros  diplomados  pelo  Conservatório.  E,  facto  curioso,  a 
transformação  do  fado  é  parallelamente  acompanhada 
da  decadência  gradual  do  fadistismo. 

0  fadista  de  agora  mantém- se  mollecularmente 
idêntico  ao  antigo,  mas  o  seu  campo  de  acção  é  que 
se  tem  restringido  pouco  a  pouco,  e  as  suas  proezas 
de  navalha— que  eram  como  que  um  brevet  de  chie— 
representam  apenas  um  echo  débil  das  do  passado,  um 
postscriptum  de  contrafacção.  Decididamente  as  tradi- 
ções vjío-se ! 

Como  amostra  das  trovas  dos  fados  dernier-style 
apresentamos  três  cantigas:  a  primeira  é  inédita  de 
José  Ignacio  de  Araújo  e  glosada  sobre  um  mote  do 
eminente  poeta  Bulhão  Pato: 

Queres  tu  que  mau  ainda 
Meu  coração  possa  amarf 
Deus  próprio  responderia: 
Não  tenho  mais  para  dar. 

1  Folhetim  de  E.  A.  Vidal  no  O  Diário  Popular  de  11  de 
Maio  de  1873. 


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Historia  do  Fado  269 

Eu  amo-te  com  excesso, 
Meu  amor  toca  os  limites, 
Que  cTelle  te  capacites, 
E*  tudo  quanto  te  peço; 
Sei  que  o  teu  amor  mereço, 
Encantadora  Lucinda, 
Mas,  oh  minha  pienda  linda, 
De  minha  alma  doce  encanto, 
Dedicando-te  amor  tanto, 
Queres  tu  que  mais  ainda.    . 

Falo  franco,  franco  sou, 
Mais  amor  não  posso  d  ar -te, 
Dou  da  vida  a  melhor  parte 
N'este  affecto  que  te  dou ; 
Dentro  d 'ai  ma  se  arraigou, 
Não  ha  de  o  tempo  apagar 
E  não,  não  podes  julgar, 
Oh  Lelleza  peregrina! 
Que  com  mais  força  divina 
Meu  coração  possa  amar. 

Se  velo,  em  meu  coração 
Sempre  encontras  terno  abrigo, 
Se  durmo,  sonho  comtigo 
E  não  tenho  outra  visão; 
Mais  amor?  Onde  é  que  então 
Tal  amor  se  encontraria? 
Em  vão  tua  voz  rogaria 
N'uina  prece  ao  Creador; 
Não  ha  no  mundo  mais  amor, 
Deus  próprio  responderia. 

Acceita,  pois,  este  amor, 
Sem  que  outra  idéa  te  occorra, 
Pede  a  Deus  que  eu  não  morra. 
Mas  não  o  peças  maior. 
Dei-te  d 'esta  alma  o  vigor, 
Dei-te  todo  o  meu  pensar, 
Dei-te  o  singelo  trovar 
D 'uma  guitarra  singela, 
Dei-te  a  vida  e  os  gozos  d'ella, 
Não  tenho  mais  para  dar. 


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2  60  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

A  segunda  é  origiual  do  sr.  Boaventura  Henriques 
do  Carvalho  e  glosada  sobre  um  mote  de  José  Ignacio 
ilo  Araújo: 

A's  vezes  diurna  suspeita, 
Pod».  surgir  um  martyrio; 
Quando  Í  nódoa  que  se  deita 
Sobre  a  brancura  d' um  lirio. 

Consagro -te  immenso  amor, 
Mulher  de  raro  talento,. 
N'este  puro  sentimento, 
Ha  também  acerba  dor: 
Porque  o  vulgo,  com  rigor 
A  maldade  não  engeita! 
Estando  a  ella  sujeita 
A  cbamma  d'amor  infindo, 
E'  estrada  que  vae  seguindo, 
A's  vezee,  d'uma  suspeita. 

Só  então  occultamente, 
Serás  por  mim  muito  amada, 
P'ra  não  seres  calumniada, 
Sendo  eu  p*ra  ti  indifrente, 
Este  amor,  puro,  innocente, 
Meu  coração  admire  o, 
Mas  nimca  lhe  faca  chio, 
Não  lhe  dê  publicidade, 
Porque  também  da  verdade 
Pôde  surgir  um  martyrio. 

Hei  de  guardar  em  meu  peito, 
Tanto  amor  que  o  fascinou, 
Na  certeza  que  elle  entrou, 
Em  um  sacrário,  perfeito. 
Despreza  amor  preconceito, 
Que  o  contrafaz  e  despeita, 
E  o  vulgo  mau,  se  deleita 
Empregando  phrase  forte, 
Quando  é  mais  feia  que  a  morte. 
Quando  é  nódoa  que  se  deita. 

Para  evitar  que  a  maldade 
Erga  o  seu  altar  um  dia, 
Supponho  ser  phantasia, 
O  que  em  mim  é  realidade, 


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Historia  do  Fado  261 


Que  possa  tanta  bondade, 
Que  te  desce  lá  do  empyreo, 
Fazer  que  nunca  em  delírio 
Eu  diga  quanto  te  amava — .    . 
— Era  mancha  que  ficava 
^Sobre  a  brancura  d'um  lirio. — 

A  terceira  é  o  fado  que  fazia  parte  das  canções  do 
Orpheon  Académico  de  Coimbra  em  4900,  e  foi  com- 
posto pelo  joven  poeta  Affonso  Lopes  Vieira : 

Olhos  que  a  mim  me  perdeis, 

Que  me  encheis 
Todo  de  luz  e  de  graça  ; 
Tende  piedade  de  mim, 

Sendo  assim 
Engraçados  daes  desgraça. 

Olhos  verdes,  verdes  olhos, 

*Vejo-os,  olho-os, 
De  os  olhar  ando  já  cego; 
Verdes  como  as  minhas  maguas, 

Como  as  aguas, 
Que  leva  o  rio  Mondego. 

Cantae  as  minhas  cantigas, 

Raparigas, 
Que  a  cantar  mais  lindas  sois; 
Dizei-as  aos  namorados, 

E-  casados. . . 
As  vossas  filhas,  depois. 

Segue-se  um  fado  de  novíssimo  género,. o  fado  so- 
cialista 4; 

Um  de  maio,  alerta!  alerta! 
Soldados  da  liberdade! 
Eia  avante,  é  destruir 
Fronteiras  e  propriedade. 

1  Actualmente,  existe  uma  enorme  quantidade  de  fados  so- 
cialistas. 


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262  Empreza  da  Historia  de  Portugal 


Sentineilas  avançadas 
Kedobrae  vossa  attenção, 
E,  ao  grito  da  rev'lução, 
Estejam  a  postos  c'l locadas; 
Haja  união,  camaradas, 
E  a  victoria  será  certa, 
Eis  o  alvo  que  nos  desperta 
P'ra  missa  •  civiliaada, 
ET  dia,  resurge  a  aurora, 
Um  de  Maio,  alerta!  alerta! 

Luctemos  pelo  ideal 
D'onde  o  nosso  bem  dimana, 
Sigamos  José  Fontana 
E  Anthero  do  Quental; 
Abaixo  o  vil  capital 
Jnimigo  da  egualdade, 
Haja  solidariedade, 
Sigamos  um  trilho  novo, 
A' vante,  filhos  do  povo, 
Soldados  da  liberdade! 

Mostrae  aos  vis  argentario3 
Que  é  falso  o  seu  predomínio, 
Que  á  força  do  latrocínio 
Se  fizeram  proprietários; 
Erguei  vos»  oh  proletários! 
Que  a  gloria  ha  de  surgir, 
E  para  termos  no  porvir, 
Paz,  amor,  civilisaçào, 
Os  muros  da  oppressão 
Eia,  avante,  é  destruir! 

Abaixo  o  militarismo, 
Que  também  é  retrocesso, 
Trabalhadores  do  progresso, 
Defensores  do  socialismo! 
Um  bello  positivismo 
Mostrae  á  vil  sociedade, 
Que  a  terra  é  da  humanidade. 
Que  é  de  todos  quan  o  encerra, 
Que  nao  pode  haver  na  terra 
Fronteiras  e  propriedade! 


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Historia  do  Fado  263 

Modernamente,  as  nossas  canções  populares  cham*? 
rama  attenção  de  alguns  músicos  distinctos,  Victor 
Hussla,  professor  em  Lisboa,  compoz  rapsódias  de  mu* 
sicas  populares  portuguezas,  em  que  intercallou/àdo»* 
Outros  o  imitaram.  Mas  o  primeiro  glosador  das  nos- 
sas canções  populares,  incluindo  o  fado,  foi  o  violinista 
portuense  Marques  Pinto,  que  compoz  uma  grande^ 
phantasia  popular.  Alguns  músicos  de  Categoria  não 
se  teem  dedignado  de  compor  fados  Haja  vista  o  que 
succede  com  Rey  Collaço.  Já  Theophilo  Gautier — esse 
Brummel  litterario— -dizia  que,  em  lilteratura,  não  ha 
géneros  inferiores,  mas  sim  escriptores  inhabeis.  Ou* 
iro  tanto  podemos  dizer  da  arte  musical  e  dos  que  a 
cultivam.  A  essência  do  mundo,  o  fundo  do  ser  e  do 
pensamento,  a  alma  my&teriosa  do  Universo,  o  que  ha 
de  mais  intimo  e  de  mais  profundo  em  nós,  e  nas  mi- 
ragens d'este  espheroide  rotante,  esse  não  sei  quê  que 
se  chama— a  inspiração,  tanto  pôde  illuminar  os  gran- 
des quadros  como  as  pequeninas  telas  musicaes,  tanto 
pôde  luzir  n'uma  partitura  intrincada  como  no  fado 
comesinho.  E  se,  nas  obras  primas  dos  grandes  maes- 
tros, a  alma  mysteriosa  do  Universo  nos  fala  a  sua  lin- 
guagem mystica,  a  essência  do  mundo  se  manifesta  a 
nossos  olhos,  e  as  regiões  longiquas  das  causas  pri- 
meiras e  das  idéas  eternas  apparecem  accessiveis  e 
próximas,  no  fado— a  mais  suggestiva  canção  luzitjna 
—  revela-se  a  alma  nacional  palpitante  de  emoção. 

Porque  a  musica  do  fado  se  tem  adulterado  ou  des- 
popularísado  até  se  transformar  em  serenata,  em  bai- 
lada ou  n^jma  espécie  de  passa  çalle  lento,  porque  as 
trovas  do  fado  se  poliram  como  jóias  em  que  se  espe- 
lham todos  os  reflexos  das  almas  poéticas,  porque  os: 
versos  do  fado  se  facetaram  como  diamantes  em  que 
brilha  a  gamma  inquieta  dos  tons  do  arco  iris  treme* 
luzindo  nas  aguas  puras  dos  crystaes,  pretendem  al- 


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264  Empreza  da  Historia  de  Portugal 

guns  que  o  fado  tende  a  desapparecer  de  entre  as  nos- 
sas canções  nacionaes.  Não  o  acreditamos.  O  fado— 
que,  á  maneira  do  oiro,  se  vae  ennobrecendo  sob  a  pa- 
tina dos  aonos— não  pôde,  como  tantas  outras  coisas, 
desapparecer  na  promiscuidade  das  novas  usanças  cos- 
mopolitas e  aa  banalisação  caprichosa  das  modas.  Pa- 
rece que  ellepossue  como  que  uma  sorte  de  resisten 
cia  psychica,  que  obsta  ao  seu  desperecimento.  Ape- 
zar  de  tudo,  o  fado  conserva  um  caracter  estreme  de 
individualidade  local,  è  o  povo  vae  recolhendo,  heredi- 
tariamente,  a  memoria  e  o  gosto  o  rythmo  e  o  sentido 
dessa  canção  amada,  e  conserva- a,  religiosamente, co- 
mo um  piedoso  legado  dos  seus  ancestraes. 

De  qualquer  maneira,  o  fado  subsistirá»  porque  elle 
corresponde  maravilhosamente  á  nossa  índole  contem- 
plativa, elegíaca  e  sonhadora,  porque  elle  reflecte  a  nossa 
alma  ondeante  e  diversa  como  o  homem  de  Montaigne, 
porque  elle  nasceu  no  mar,  no  mar  onde  fomos  grandes, 
no  mar  onde  conquistámos  as  glorias  que  fizeram  da 
pátria  portugueza  um  elemento  funccional  no  mundo 
moderno,  e  a  fizeram  subir  triumphantemente  os  de- 
graus da  Historia.  A  cançonetista  parisiense  Thereza 
dizia  que  a  canção  era,  por  vezes,  a  pátria.  Tam 
bem  podemos  dizer  que  o  fado  é,  por  vezes,  este  rin  • 
cão  da  bola  sublunar.  E'  a  immensa  e  profunda  tris- 
teza do  nosso  littoral,  é  a  frescura  verde  dos  nossos 
campos  em  que  se  fundem  aromas,  é  o  borbotão  fér- 
vido do  nosso  Tejo,  que  desce,  de  terras  de  Hespanha, 
sem  uma  ta^a,  é  o  reflexo  do  nosso  cèo  em  todos  os 
seus  aspectos :  de  um  anil  immaculado  no  estio,  plúm- 
beo no  outono,  gridefé  no  inverno,  azulsaphira  na 
primavera,  quando  Maio  pulverisa  de  oiro  a  natureza, 
põe  topes  de  prata  no  arvoredo  e  diz,  alegremente, 
que  todos  os  lustres  estão  accesos. 


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Hiêtoria  do  Fado  266 

Para  nós,  é  ponto  de  fé,  que  os  nossos  succedaneos 
poderão  repetir  o  que,  no  alvorecer  do  século  xx,  es- 
creveu um  juvenil  poeta  de  Coimbra: l 

Guitarra,  chorando  o  fado, 
Lembraes-me,  vós,  muita  vez, 
Advida,  o  sonho  passado, 
Deste  povo  portuguez  ! 

Porque  a  alma  portugueza 
Suspira  a  dentro  de  vós, 
Guitarras,  onde  se  resa, 
O  fado  dos  meus  avós! 


1  Celestino  David.  O  livro  de  um  portuguez.  1901. 


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Elenco  dos  Fados 


Fado  Açoreano. 
»     Africano. 
•>     Ai  Joaquina. 
»     Albertina,  de  Alcântara 

ou  do  Manoel  Cazemiro, 

original  da  Albertina. 
»    Alegre. 
»     Alfredo  Mantua  (de)  (1.° 

e  2  *  Fado>. 
»     Algarve  (do). 
»     Alijó  (de). 
»     A1H  á  Fretando). 
»     Amora  (da)  (1903). 
»     Amphigury  (1849). 
»     Anadia  (do),  original  de 

José  Maria   dos  Cavai- 

linhos  (1862). 
»     Antonino. 
»     Fado  Ao  Hylario. 
»     Arte  Nova  (inédito). 
»     Artilheiro. 
»     A's  Estrellas. 
»     Até  Chora  ! 
»     Atriador. 
»     Augusto    Machado    (de) 

(1.°  e2.°  Fado). 
»     Aurora  (da). 
»     Bailada,  original  de  Mi- 

litão. 


FadoBallada,originaldeEduar- 
do  Silva. 

»  Bailada,  original  de  M. 
Faria  Salgado. 

»     Beira  (da). 

»     Bigode. 

»  Bobemio  ou  Ultimo  Fa- 
do, original  de  Reynaldo 
Varella. 

»     Branco  e  Negro  (do). 

»     Braziieiro. 

»     Brígida  (da)  (1903). 

»     Brilhante. 

»  Brilhante,  original  de  M. 
Faria  Salgado  (1903). 

»    .  Briza. 

»  Briza  (da),  original  de  M. 
Faria  Salarado  (1903). 

»     Brizas  do  Mondego. 

»     Cabo  da  C  carola  (do). 

d     Cacilda  (da)  (inédito). 

»  Cadete,  original  de  Antó- 
nio dos  Phosphoros. 

»     Campestre  (1870). 

»     Canção  das  Morenas. 

»     CançSU)  do  marítimo. 

»     Cantadores  (dos). 

»  Canto  do  Povo  (dedicado 
a  Santo  António). 


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268 


Empreza  da  Historia  de  Portugal 


Fado  Cascaes  ^de),  original  de 
Ambrósio  Fernan.  Maia 

»     Cascos  de  Rolha  (de). 

»  Casino  Lisbonense,  origi- 
nal de  João  Maria  dos 
Anjos  (1873). 

»  Carlos  Harrington  (de) 
(inédito). 

»  Carmona,  dedicado  ao  in  - 
signe  matador  de  espa- 
da António  Carmona,  el 
Gordito  (1872). 

»     Carriche  (de). 

•  Cega  (da). 

»  Cegos  (dos)  .ou  Canto  do 
Suicida. 

»    Celta  (do). 

»  Cesaria  (da),  ou  de  Al- 
cântara, original  de  Am- 
brósio F.  Maia  (1870). 

»     Chanson  d'Amour. 

»    Choradinho. 

»  Chor.  dinho,  original  de 
Key  Coliaço  (1903). 

»     Choramigas. 

»    Cigarreiras  (das). 

»    Cinira  Polónio. 

»     Cintra  (de). 

»    Coimbra  (de). 

»     Corrido. 

»  Corrido  primitivo,  origi- 
nal de  Militâo. 

»  Corrido  com  vinte  varia- 
ções em  maior  e  menor, 
original  de  Reynaldo 
Varella. 

•  Cotovia  (da). 

»  Custodia  (da),  original  de 
Custodia  Maria  (1864). 

»  Das  três  horas,  original 
de  Reynaldo  Varella. 

»     Dias  de  Sousa. 

»    Domingos  de  Campos. 

»  DramaB  do  Limoeiro  (dos) 
(1903). 


Fado  Eduardo  Silva  (de)  (1.°, 

2.<  e  3.°  Fados). 
»    Elegante. 
»     Elite  (da). 
»    Esmeralda. 
»    Estudanta. 
»    Estudante  (do). 
»    Estudantes  (dos). 
»    Estudantes  (dos)  (1103). 
»    Estudantes   açoreanos 

(dos)  (1871). 
»    Estoril. 
»    Fa  maior  (em),  original 

de    M.    Faria   Salgado 

(1903). 

•  Figueira  da  Foz  (da). 
»     Forget  me  not  (1903). 

»    Francisco  de  Mendonça 

(de)  (inédito). 
»     Furnas  (das). 
»     Garoto. 

»    Gato  (do)  ou  do  Taborda. 
»     General  Boum  (do). 
»    Graça,  dedicado  ao  Snr. 

Silva  Graça,  director  do 

O  Século. 
»     Guilhermino. 
»    Hijas  dei  Gudalquivir. 
»     Hylaria  (da). 
»    Hylario  (do). 
»     Hylario  (posthumo  do). 
»    Hylario(ao)  (ultimo  fado). 
»     Ignez  Garcia. 
»     João  Black. 
»    João  de  Deus. 
»    João  (de)  e  Helena. 
»    João   Maria   dos    Anjos 

(1868). 
»    José  Maria  dos  Cavalli- 

nhos  (inédito,  1860). 
»    Jorge  da  Silva. 
»     Lamparina. 

•  Laura  Gentil  (de)  (1903) . 
»    Lazarista  (do)  (1858). 

»     Leandro. 


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Historia  do  Fado 


269 


Fado  Leixões  (de). 
»    Lessa  (do)  (1872). 
»     Limoeiro  (do). 
»     Linda- a  Velha  (de). 
Fadinho  Liró. 
Fado  Lisbonense  (1870). 
»    Luiz  Petrolino  (inédito). 
»    Machado  Correia. 
»     Mhdrugada  (da). 
»     Madrugada  (da),  original 

de  Almeida  Cruz. 
9    Madrugada  (da),  original 

de   M!   Faria   Salgado, 

(1903). 
»    Magiolly  (1870), 
»     Maria  Cachucha  (da). 
»     Marialva. 
»    Marinheiro  (do). 
»    Marinho  (do)  (inédito). 
»     Marítimo. 
»    Meia  Noite  (da),  original 

de  Almeida  Cruz. 
-    Mertola  (de)  (li 03). 
»    Monchique  (de). 
»    Mondego  (1905). 
»    Morenas  (das). 
»     Mouraria  (da). 
»     Mousão. 
»     Mulher  ingrata. 
»     Muller  Fils. 
»     Nacional,  original  de  A. 

Costa. 
•     Não  chores  que  também 

vaes. 
»     Nazareth  (da). 
»     Nocturno  (1903). 
»     Notas  Falsas  (das). 
»     Novo,  original  de  Rey- 

naldo  Varella  (1903). 
»     O  Engeitado 
»     Oliveira  (do)  (inédito). 
'     »     ( >  Marinheiro. 
»    O  meu  enlevo. 
»     O  que  é  amor. 
»     Ora  toma  Mariquinhas. 


Fado  Paixão  (do)  (ined.,  1862) 
»     Palmyra  Bastos  ( 190* ). 
»    Parodia  (da). 
»     Pedro  Rolla. 
»     Pedrouços  (de),  original. 

de  A.  Branco  (1849). 
»     Pedrouços  (de),  2.°  Fado 

(1864). 
»     Persiganga  (da)  (  nedito. 

.860). 
»     Pina  (do). 
»    Piolho  (do)  inédito). 
»     Pitada  (do). 
»    PizOes  (dos). 
»     Plagiário. 
9    Pobres  (dos). 
»     Porto  (do). 
»     Popular. 
»     Popular  (2.°  Fado). 
»    Praia  (da)  (1903). 

•  Primavera  ou  A  briza  e 
a  rosa. 

•  Rabicha  (da). 
»    Rey  Collaço  (de)  (8  Fa- 
dos). 

»  Reynaldo  Varella  (inédi- 
tos de)  (3  Fados). 

»  Ribeira -Nova  (da).  (A 
nau  Affonso). 

»  Ribeira -Nova  (da),  origi- 
nal de  Ambrósio  Fer- 
nandes Maia. 

»     Ribeirinho  (do)  (inédito). 

9    Robles. 

»  Roldão  (do)  ou  fado  José 
João. 

»  Romeu  Amann  (de)  (3 
fados  inéditos). 

»  Rosas  (das),  original  de 
Roldão  (1Ó03). 

»  Rosas  (das),  original  de 
M.  Faria  Salgado  (1903). 

»  Poquette,  original  de  Ra- 
pbael  Ferreira  Roquet- 
te  (inédito. 


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270 


Empreza  da  Historia  de  Portugal 


<Fado  Ruas  (das). 

»  Salas  (das),  original  de 
Ambrósio  Fernandes 
Maia  (1869) 

»    Salas  (das),  original  de 

João  Maria  dos  Anjos. 
~»     Salas  (das),  original  de 
António  Cândido  de  Mi- 
randa, o  Vuinko. 

»  Salas,  original  de  Vargas 
Júnior. 

»     Santa  Helena. 

»  Saudade,  original  de  Rol- 
dão. 

»    Saudades  (das). 

»  Sebenta  (da)  (do  Auto  da 
Sebenta). 

»  Sebenta  (da),  original  de 
Viterbo. 

»  Sebenta  (da),  original  de 
D.  Laura  Éserich. 

»     Sem  nome. 

»     Sentimental. 

»  Sentimental,  original  de 
Almeida  Cruz. 

»  Sentimento  maior  e  sen- 
timento menor,  original 
de  Ambrósio  Fern  mdes 
Maia  (inédito). 

•»    Sepúlveda. 


Fado  Sepúlveda  (inédito,  (2.° 
Fado). 

»     Serena  t  a ,  original  de  Fer- 

»      reira  Tavares. 

»     Serenata ,  original  de  Rol 
dão  (1903). 

»     Serenata  á  morena. 

»     Serenata  Hylario  Alves, 

»     Serenata  Sinhá  (1903). 

»    Serenata  Olinda. 

»     Severa  (da)  (1850). 
Fadinbo  Sinhá s  (das). 
Fado  Sofrimento  (do). 

»     Syndicateiros  (dos). 

»    Tancos  (de)  (1866). 

»    Theodohnda. 

»  Torrinha  (da)  ou  Fado  de 
Pedrouços.  (3.°  Fado  de 
Pedrouços). 

»    Triste  Fado. 

»     Trovadores  (dos). 

»  Um  Fado,  original  de  M. 
Faria  Salgado  (1903). 

»     Vilia  Franca  (1903). 

»     Vimioso  (do). 

»    Vinte  e  oito  (do)  (do  2b). 

»    Visconti  ou  Faoe-Cbe* 
.  gou-Gnegou. 

»    Vizeu  (de). 

»     Zé-Povinho. 


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OCT  2  0  2001 


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